Nós buscamos Pã
6 Rato Na Parede De Escalada / Clarisse
Notas iniciais
– Não vou repetir, Underwood. Tchau. – falei tentando ser pelo menos um pouco legal já que ele me ajudou. E sai correndo na escuridão de volta para o chalé.
Cambaleei um pouco pelo caminho, mas não parei de correr, queria chegar no chalé o mais rápido possível e não queria ser vista por ninguém, porque, sabe como é, tem de tudo aqui no acampamento.
Cheguei no chalé de Ares e abri a porta bem devagar para não acordar ninguém, torcendo para que todos estivessem dormindo. Entrei no quarto pé por pé e deitei na cama com a roupa de campista mesmo. Quando estava subindo no beliche, Sherman acordou.
– Clarisse? – perguntou ainda sonolento.
– Sim, sou eu, Sherman. Volte a dormir. – falei deitando rápido.
– Porque você não está dormindo? – falou embolando as palavras por causa do sono.
– Eu estou dormindo. – falei. – Porque você também não está?
Ele devia estar com tanto sono que chegaria a pensar que foi tudo um sonho.
– Eu também estou... – sua voz foi diminuindo até que ele voltou a dormir.
“Essa foi por pouco”, pensei.
Demorei um pouco a pegar no sono pensando nos últimos acontecimentos, em Chris, em Afrodite e até em Grover. Pensei no que Chris dissera, que era só isso eu sabia fazer: xingar, brigar e intimidar as pessoas. Eu não sei porque fazia isso, mas era assim que eu via desde pequena meus irmãos fazerem, e pensei que era desse jeito que um filho de Ares era: forte acima de qualquer coisa.
Pensei em Afrodite, toda delicada, bonita. Querida, porém perigosa. Perigosa de um jeito que eu nunca conseguiria ser. Ela não intimida os outros através da força como eu faço, ela os intimida através do amor, da sedução. Talvez até os faça perder a razão, o que seria muito cruel. Mas não sei o que é pior, não me sinto uma pessoa melhor comparando-me a Afrodite.
Comecei a pensar em Silena, mas meus olhos começaram a se fechar, até que me entreguei totalmente ao sono.
Fui a última do chalé de Ares a acordar. Quando levantei estavam todos fazendo uma algazarra no chão. Ao me verem, começaram a gritar, me chamando para a diversão.
– Vem jogar, Clarisse! – chamou Luciana.
– Por que toda essa agitação? – perguntei.
– Dave achou um rato e estamos jogando um para o outro, e temos que pegar o rato sem gritar. – explicou e eu ri. – Vem tentar!
– Eu ganho de todos vocês! – gritei e eles gritaram um monte de ameaças de volta.
Sentei na roda com alguns irmãos que não se atreveram a jogar ou que perderam quando o rato foi jogado a eles. Passaram-se duas vezes até que Dave jogou o rato com toda a força na minha cara, mas eu consegui levar os braços no rosto para me proteger do rato. E sem gritar. Ficamos jogando isso até o trombeta soar anunciando o café da manhã.
Quando estávamos nos organizando fora do chalé para ir ao refeitório, Chris me encarou lá da fila dos filhos de Hermes. Desviei os olhos, e voltei a prestar atenção ao caminho para o refeitório.
Durante todo o café da manhã ele me encarava da mesa de Hermes. Queria ir lá e tirar satisfação com ele, isso estava me deixando muito irritada.
– Chris Rodriguez não para de olhar para você. – comentou Marcos no meu ouvido.
– Cala a boca. – mandei enquanto socava batatas frita e um pedaço de bife na boca. Fiz questão de deixar aquela cena bem nojenta, afinal, 1) eu era Clarisse La Rue, e 2) para deixar bem claro qualquer resquício de dúvida para Chris de que eu nunca seria como uma filha de Afrodite.
Bem na hora olhei para a mesa de Hermes, mas não notei nenhuma alteração no rosto daquele idiota. Continuava me encarando naturalmente. Por fim, tomei mais um gole da minha limonada, soltei um arroto bem alto enquanto me levantava e fui a primeira a sair do refeitório.
Fui para a parede de escalada e escolhi nível máximo mesmo sabendo que tinha acabado de comer. Na dificuldade máxima, a parede tremia, soltava lava do topo e algumas pedras de apoio eram uma cilada.
Percebi que aos poucos os campistas iam saindo do refeitório e sentando nas arquibancadas, para assistir-me. Aquilo me incomodava um pouco, mas os comentários em geral eram bem agradáveis de ouvir. Coisas do tipo: “Uau, a Clarisse é demais!” ou “Nossa, como ela consegue?” e até “Cara, às vezes ela me dá medo.”.
– Aeee Clary!
– Você consegue, irmã!
– Vai Clarisse!
Reconheci serem os gritos dos meus irmãos e não pude conter um sorriso.
Continuei subindo quando alguém jogou alguma coisa na parede caindo bem na minha cara.
– Irccc. – guinchou o rato continuando a cair.
“Dave.” pensei enquanto observava o rato cair no chão de pedra e virar geleia. Quando voltei a atenção para a parede de escalada novamente, ela tremeu cuspindo uma bola de lava que vinha exatamente na minha direção. Esquivei-me para o lado, agarrando-me numa pedra e colocando o pé em outra que na verdade era falsa. Fiquei pendurada, segurando-me apenas com as mãos enquanto a bola de lava passava a toda velocidade aonde eu estava alguns segundos antes.
– Grr. – exclamei puxando o peso do meu corpo para tentar agarrar a pedra acima. – Maldito seja Dave. – murmurei. – Eu não vou cair! – gritei dando impulso e continuando a escalar a parede enquanto ela tremia e cuspia outra bola de lava, só que para minha sorte, desta vez era para o outro lado.
Notei que os gritos e murmúrios dos campistas que assistiam a minha escalada tinham cessado, mas não me atrevi a olhar para trás. Provavelmente esperavam que eu fosse cair. Continuei escalando, usando as memórias ruins da noite passada como combustível. Eu subia cada vez mais rápido, cega pela raiva que não percebi e me apoiei em uma pedra falsa bem na hora que a parede tremeu cuspindo mais lava e dessa vez na minha direção. Acabei sendo jogada pela parede por causa do tremor e comecei a cair.
– CLARISSE!! – ouvi Silena gritar enquanto os outros campistas seguravam a respiração em uníssono.
Consegui me segurar em uma pedra mais comprida e concreta, ficando pendente a uns sete metros do chão. Eu sei que um semideus aguenta coisas que os humanos não aguentam, mas qualquer um, semideus ou mortal normal, quebraria as pernas se caísse dessa altura.
Quando me voltei para cima a fim de continuar a escalada, a bola de lava acertou em cheio minha cara, fazendo-me soltar da parede e iniciar a queda de sete metros de altura em direção ao chão de pedra.
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