Nós Somos Nossos
3 Cullens
Notas iniciais
A menina baixou o olhar, mas alcançou o meu desenho e colocou no bolso do sobretudo. Se aproximou da mãe, ainda cabisbaixa, e a mulher a olhou com uma cara que me ferveu o sangue. Como ela podia ser assim com uma menina tão pequena.
— Desculpe mamãe! — A pequena disse numa voz chorosa e baixa.
— Levante essa cabeça Charlotte! Você é uma Brandon e uma Cullen! — A mulher respondeu e ergueu a cabeça da menina pelo queixo com certe rigidez – Jamais abaixe a cabeça! Os outros que devem abaixar a cabeça para você. — Ela se virou para mim, o que me pegou de surpresa, pois eu estava hipnotizada na interação dela com a filha.
— Quanto é o desenho que ela pegou? — Ela perguntou num tom de desprezo enorme e me avaliou de cima abaixo.
— Foi um presente. — Respondi achando uma voz mais firme possível pois eu estava meio chocada.
— Eu insisto! — Ela disse abrindo a bolsa e sacando a carteira. Ela deu um olhar para a menina e fiquei com medo que ela descontasse na pequena.
— Quinze dólares, senhora! — Respondi por fim, sem tirar os olhos da loirinha de olhos azuis e ela me estendeu uma nota de vinte.
— Fique com o troco. Vamos Charlotte, seu pai deve sair a qualquer minuto e vai reclamar a demora. — Ela se virou para a menina, a pegou pela mão e saiu batendo o salto rumo ao Empire.
Coitado do homem que casou com ela, eu penso. Mas então vi que não havia aliança em sua mão esquerda. Bom, parece que nem ele aguentou muito, não é?!
Arrumo minhas coisas ao perceber o dia escurecer ao me redor e pego o meu último sanduiche na mochila. Comendo, eu rumo para o metrô para ir ao TriBeCa. Neste horário, é uma verdadeira maratona entrar no metrô, mas devido minha falta de corpo, eu consigo me encolher com mais facilidade. Chego ao Volturi’s Events em 20 minutos. Sorrio ao encontrar Seth já ali junto com os outros.
— E aí Bells, vendeu muito hoje? — ele pergunta enquanto eu sento ao seu lado.
— Foi bem legal hoje, Seth. Vendi 7 desenhos. Fiz um de um casal francês tão lindo, olha só... — Eu falo mostrando a foto do desenho.
— Affs Bells, você é incrível sabia?! É tão injusto você não está na Julliard! — Seth exclama chateado. Ele é uma das poucas pessoas que sabem dessa história da Julliard.
— Esquece isso Seth, quanto menos se pensa, menos se sofre – Eu respondo e pisco para ele que revira os olhos e ri.
— Boa noite amores! — Aro entra no salão rebolando sua bunda apertadíssima numa calça skinny preta. — Convoquei vocês aqui porque temos um evento muito top amanhã. É um leilão de peças coloniais de altíssima qualidade. Será das 18 as 02h, estão dentro?
— Sim! — Todos dizem.
— Ótimo, vou trazer os uniformes que vocês usarão. Venham já vestidos e maquiados. — Ele põe a mão no peito e eu sei que vem um drama aí — Pelo amor de meu jeová, estejam impecáveis. Este evento vai alavancar a Volturi's! Vamos sair daqui as 17h30 e o evento será num salão em East Village. Não ousen se atrasar! — Aro diz com a mão na cintura. — Eu vou buscar as roupas, fiquem aqui.
Nós esperamos até que ele e a sobrinha, Heidi, venham com várias mudas de roupas dobradas e embaladas.
— Aqui estão, tem o nome de cada um nas embalagens segundo o tamanho dado no cadastro — Heidi diz enquanto vai entregando. – As meninas, por favor, trança única embutida e maquiagem leve. Nenhum adereço, nem sequer um brinco! Meninos, cabelos cortados e nenhum pelo na cara. — Ela fala olhando para Até amanhã!
— Não se atrasem! — Aro exclama novamente e vai entrando no seu escritório com Heidi em seu encalço. E todos nós vamos saindo. São 18h e eu já preciso voltar para o Brooklin para o terceiro round. Tenho que correr e provavelmente ir direto para o próximo trabalho.
— Ei Bells, eu tô de moto, relaxe que você vai chegar a tempo, ruivinha – Seth diz observando meu semblante. Ele tem esse poder de saber no que eu penso.
— Você é um anjo! Então o Hulk já está bom de novo? — Eu perguntei enquanto andamos para fora.
— Sim, foi só um problema no motor, menina, coisa básica. Vamos? — Seth diz, sentando-se na moto vermelha parada na calçada e me entregando um capacete. Eu o coloco e sento atrás dele. No instante seguinte, ele arranca a moto e voamos para o Brooklin para me salvar de um atraso. Ainda mais depois da folga.
Seth vem cortando as pistas entre TriBeCa e Clinton Hill, no Brooklin. Ele para na rua do outro lado da Brooklin Academy of Music, no ‘The Music of Life’, um pub estilo inglês com karaokê que funciona de terça a domingo. Clinton Hill é um bairro classe média do Brooklin e abriga muitos universitários por conta da Academia de música logo à frente do pub e a Long Island University Brooklin algumas ruas ali perto. Eu agradeço ao Seth e corro para dentro pela porta de serviço, não estou tão atrasada, mas estou em cima da hora.
Meu terceiro trabalho é como bargirl. Eu tenho direito a uma folga na semana, fora a segunda que o pub fecha. O salário é bom e o local é bem frequentado, fora que é muito engraçado ver a galera desafinando legal no karaokê. Ah, as gorjetas também são muito boas. Ao entrar, vou guardar minhas coisas no meu armário e vestir meu uniforme. Uma blusa branca com um colete vermelho e uma plaquinha prateada com o meu nome no peito esquerdo. Coloco meu avental preto e pego meu bloquinho e uma caneta. Rumo para a cozinha.
Há cerca de 8 pessoas trabalhando no salão e 2 na cozinha. Sexta feira é o dia que ninguém folga porque é dia de happy hour e mojito dobrado. É o imã perfeito para um distrito cheio de descendentes latino-americanos. Cumprimento Sônia e Margareth na cozinha e vou para o balcão. O pub ainda não está aberto, mas já há trabalho.
Ajudo Lauren e Sarah a limpar as mesas, Giovanna e Lindsey limpam o balcão enquanto Joe, Thomas e Félix viram as cadeiras e os bancos do balcão. Essa noite eu ficarei no balcão com Joe e Sarah e os outros pelo salão. As 19h30 o The Music of Life abre e a correria começa.
As 00h e tiro o avental e suspiro. Mais um dia se foi nessa rotina louca que eu chamo de vida. Eu estou suada, faminta e cansada e só quero tomar banho, comer e dormir, exatamente nessa ordem. Me arrumoi e saio junto com Sônia e Sarah que também vão para Bed-Stuy. Pegamos um micro e chegamos em 10 minutos lá, eu desço primeiro, me despedindo das duas. O ponto é bem na entrada da minha rua, só preciso andar cerca de 100 metros e logo estou em casa.
Largo a mochila e o tubo no sofá, alcanço minha toalha e vou pro meu banho. Tiro todo suor do corpo e sento o cansaço duplicar. Quando saio, visto meu conjunto moletom cinza, o único que eu tenho, e calço um par de meias. Resisto a tentação de deitar imediatamente e vou comer primeiro. Coloco um pouco do macarrão que fiz na noite anterior no microondas e ligo para Emmett já que não deu para falar com ele hoje e ele tinha me mandado mensagem. Quase uma da manhã, mas ligo asssim mesmo porque sei que ele é um leão da madruga.
— Hei Emm, tudo certo? — Pergunto sentando no balcão da cozinha com meu prato.
— Oi pequena, tudo bem sim, e você? — Ele responde.
— Tranquilo como toda sexta feira – Respondo após engoli um pouco de macarrão e revirando os olhos — Você queria falar comigo?
— Sim, tenho uma grana para você aqui. Foram quatro desenhos essa semana. — Ele diz animado e ouço uma voz feminina ao fundo
— Ah, que maravilha, Emm. Você é um anjo sabia!? — eu exclamo – Manda um beijo para Rose.
— Ela mandou outro e pediu para você vir amanhã aqui que ela tem umas roupas para você. Aí tu já pega sua grana, que tal? — ele fala e eu sorrio.
— Ta certo, diz a ela que vou passar por aí assim que sair lá de Sue. Beijo Emm! — Eu respondo e ele também se despede antes de desligarmos.
Termino meu jantar e vou dormir após escovar os meus dentes. Nos meus sonhos, porém recebo a visita de uma garotinha de olhos azuis e olhar triste.
Nova Iorque, 3 de fevereiro de 2018, sábado.
Quando o sábado amanhece, eu já estou atrás do balcão de Sue servindo café e bolinhos. O inverno é assim, amanhece tarde e anoitece cedo. Depois de fecharmos o Café Latino, eu e Sue fazemos o balanço da semana, limpamos tudo e ela me paga minha semana. Sorrio para ela ao receber meu pagamento e me ofereço para acompanhá-la até o mercado para fazer as compras para a próxima semana, mas ela recusa. Então vou andando para o estúdio de Emm.
Emmett McCarthy é um tatuador talentoso e grande amigo meu. Nos conhecemos através de Leah, que trabalha no estúdio dele como bodymodifications. Ele viu um de meus desenhos e ficou fascinado quando passei por lá com Seth. Então fiz cerca de 30 desenhos para seu acervo e toda semana ele faz pelo menos uma tatuagem de um desenho meu. Com isso, ele me dá 25% do valor da tatuagem como comissão. É um dinheiro que me ajuda bastante. Fora que eu fico toda besta de ver um desenho meu na pele de alguém.
Nós desenvolvemos uma amizade muito sincera e profunda, como irmãos mesmo. Rosalie, sua namorada, também veio no pacote. Ela é encantadora e simples, apesar de acharem que atrás daqueles cabelos acajus sedosos e corpo escultural só existir uma patricinha. Rose é muito mais do que isso. Batalhadora e forte, ela tem conquistado muito ao lado de Emmett que praticamente teve que começar do zero.
Emmett vem de uma família abastada. Ele não era rico, mas tava longe de ser pobre, chegando até a estudar em colégios particulares quando criança. Seu pai foi um advogado de prestígio, mas depois que a esposa morreu de infarto ele sucumbiu. Perdeu tudo o que tinha no jogo. Emmett se formou em direito, tentando alegrar o pai, mas não conseguiu. Quando o pai morreu a 3 anos, deixou um monte de dívidas e poucos recursos para Emmett. Ele vendeu a casa, pagou as dívidas e virou tatuador profissional, algo que ele sempre quis ser. Com o pouco que tinha abriu o Dragon’s e segue hoje com um grande prestígio neste meio.
Ao chegar na frente do estúdio, aceno para ele que está na entrada. Entro e cumprimento algumas pessoas na sala de espera. Ele me diz para subir que Rose estava me esperando e pegar a grana com ela. Eu assento e saio do estúdio. A casa de Emmett era exatamente em cima do estúdio, um loft aconchegante onde ele e Rose moram juntos.
— Oi Bella, que bom que veio! — Rose diz ao abrir a porta para mim
— Oi Rose, o que eu não faço por você né? — Eu respondo brincando lhe dando um abraço. Ela me faz entrar e sentar. Tinha umas peças de roupa no sofá.
— Venha, separei umas coisas para você que não uso mais. — Ela fala apontando para o sofá
Ali tem uma calça preta, um short jeans e dois vestidos, um preto com estampas geométricas rosa pink e um salmão com cinto preto. Há também um salto alto preto.
— Rose, são lindos! Tem certeza que você quer dar tudo isso? — Eu falo dobrando as peças
— Tenho sim. Eles estão apertados em mim e sei que vão ficar lindos e você, principalmente os vestidos. — Ela diz sorrindo
Depois disso, ficamos conversando sobre as nossas rotinas. Rose trabalha numa empresa de arquitetura intimista e corporativa chamada Cullen’s Arch, cujo dono é amigo de Emmett desde a escola primária. Ele inclusive ajudou Emmett no passado com alguns recursos. Ela é secretária direta dele. A empresa fica num prédio ao lado do Empire State em Midtown Manhattan. Rose contou que o CEO, Edward Cullen é separado, tem uma filha de 5 anos e sempre vive às turras com a ex-esposa, uma socialyte mimada que tem uma grife de roupas na 5th Avenue.
Eu conto para ela que esta noite eu estaria trabalhando num evento em East Village e ela me encara surpresa.
— Esse leilão deve ser o que está sendo oferecido pela mãe do meu chefe, Esme Cullen. Ela faz muito eventos assim para arrecadar fundos para obras sociais. E se promover, é claro!
— Bom, isso eu não sei porque Aro não disse o nome dos contratantes. Mas deve ser isso mesmo. — dei de ombros.
Acabo almoçando com Rose e Emmett e depois venho para casa para me arrumar. Eu vou para a Volturi’s Events de moto com Seth, mas não quero dar sorte ao azar de me atrasar. As 16h eu vou tomar meu banho e lavar os cabelos. Sequei o máximo possível e os penteei. Depois fiz uma trança embutida bem firme. Lápis de olho, corretivo, blush, batom e sombra. Vesto o uniforme que consiste num vestido de mangas compridas com saia em evasê, sem decotes, todo preto, com uma meia calça preta e sapatilhas pretas também. No pescoço, a única peça de cor, uma echarpe vermelha com um laço lateral.
Seth chega às 16h50 e vamos pra TriBeCa imediatamente. Sei que Aro é muito bom, mas odeia atrasos. Ele é irmão do meu patrão no pub e sempre consegue uma liberação com Caius para que eu possa ir nesses eventos. Por isso hoje, apesar de ser meu dia de trabalho no The Music of Life, eu estava dispensada, sendo assim estava trocando a folga da próxima semana por este dia.
Ou seja, semana que vem não terei folga, mas terei um bônus que recompensa.
Chegamos no horário e Aro já está lá todo agoniado. Quando os últimos chegam, Embry, Sam e Emily, nós entramos na van rumo a East Village. Somos 6 garçons: eu, Seth, Emily, Sam, Embry e Heidi. Aro fica nos supervisionando e ajuda quando o trabalho fica muito pesado. Fomos conversando amenidades na expectativa daquele evento. A grana é boa, o que significa um nível de exigência grande.
Quando chegamos, eu fico encantada. O local é simplesmente lindo e exuberante. Ao fundo, é possível vislumbrar o East River e eu me pego pensando na beleza daquele jardim durante o amanhecer. É uma verdadeira mansão num estilo renascentista maravilhoso. Levei uns segundo para me lembrar de que ainda estava em NY City e não em alguma cidade história.
— É lindo né? — Aro fala indo na frente. — Dizem que não existe um valor estimado para este lugar. Imaginem só o quanto isso vale?! — ele ia falando e eu ia apreciando toda aquela visão. — Os donos são os Cullens, família histórica oriunda da Irlanda. Bom, vamos por esta trilha para a área de serviço da festa. — Ele fala e aponta uma trilha no lado esquerdo do jardim e nós o seguimos em silêncio.
Adentramos numa cozinha supermoderna e equipada, o que me fez piscar os olhos. Parecia que eu tinha saído de um filme antigo para um de futurismo. Tudo ali é o mais moderno possível e ainda assim conserva traços de antiguidades. É uma combinação fantástica. Como artista, minha mão coçou para desenhar tudo o que meus olhos captavam.
Ficamos enfileirados enquanto recebemos direcionamentos da governanta da casa-mansão, Sra Elizabeth Both. O leilão começará as 19h30 e deve ir até as 21h. Depois será servida a ceia e uma festa intimista. Nós deveríamos circular pelo salão e jardim para servir os convidados com bebidas e fingers-foods. Nada muito além do que já fazemos em outros eventos, porém sentimos o quanto este é importante para a imagem da Volturi’s. Eu torço para tudo dar certo, mas sei que nossa equipe é boa o suficiente para dar conta.
Fomos conhecer os espaços e na volta encontramos a sra Cullen verificando se tudo já está pronto para começar. É uma mulher alta e elegante, de silhueta esguia e delicada. Aparenta ter cerca de 45 anos, olhos verdes e cabelos louros escuros. Ela varre o olhar por cada um de nós e seus olhos se demoraram em mim com certo choque. Vislumbrei um vago olhar de reconhecimento nela, como se me conhecesse, mas eu tinha certeza que nunca a tinha visto. Então porque ela me olhava daquele jeito?
Me analiso mentalmente tentando reparar algo que justificasse o olhar da mulher sobre mim. Eu sou uma garota saindo da adolescência. Aos 20 anos, eu trago duas características que me destacam meus olhos e meus cabelos. Eu tenho os olhos num tom incomum de azul, eles são quase transparentes, como água clorada. Meus cabelos possuem um tom de vermelho que lembrava sangue concentrado. É bem intenso e por ter herdado a textura do cabelo de Renée, que era bem grosso, eles garantiam ainda mais intensidade a coloração. Muitas pessoas já haviam se admirado com essas características minhas. Afinal, são bem incomuns mesmo.
Fora isso, eu sou uma garota comum. Magra, sempre invejei o corpo avantajado de minha mãe e me perguntava porque eu não tinha herdado aquelas curvas acentuadas. Eu tem curva bonitas, mas nada muito sensual ou de parar o trânsito. Eram proporcionais ao tamanho do meu corpo, ou seja, tudo pequeno. Com 1,61m, eu passo despercebida perto da maioria das pessoas quando ando na rua. Minha boca é pequena, meus lábios são finos e rosados. Meus olhos são redondinhos e pequenos, próprios da minha descendência francesa, de onde, segundo a minha mãe, saiu o meu nome.
Alguns de meus colegas percebem o seu olhar demorado em mim e então a Sra Both pigarrea quebrando o silêncio incômodo. Eu estou levemente corada e desvio o olhar para Seth a meu lado que está tão confuso quanto eu. A sra Cullen se recompõe, dá mais algumas ordens e sai, mas antes o seu olhar recai em mim mais uma vez e ela cochicha algo com a governanta.
— O que foi aquilo, mana? — Seth dispara para mim, sussurrando.
— Não sei. Nunca vi aquela mulher na minha vida e você sabe que sou boa de rostos. Será que ela não foi com a minha cara? Será que mandou a mulher me dispensar? — Pergunto quando vejo a sra Both cochichando com Aro.
— Será?! — Ele devolve a pergunta espantado.
Aro então nos organiza em duplas de trabalho, me deixando com Seth. Disse que nós ficaríamos responsáveis pelo salão principal, do lado dos anfitriões. O mais importante lugar. O pior e o melhor. Troquei um olhar assustado com Seth que sorriu afetado. Tinha sido isso que a sra Cullen pediu? Por quê?
Vamos então buscar as bandejas e nos habituarmos ao espaço, pois já são 19h. Enquanto eu arrumo a mesa dos Cullens, sou surpreendida por uma adolescente que se senta à mesa emburrada. Eu fico em choque quando reparo em seu rosto. Ela me encara e também fica espantada. Temos o mesmo tom de ruivo nos cabelos, um vermelho escuro intenso. Porém a textura do cabelo dela é mais fina e isso influencia um pouco na forma do cabelo. Além disso, nossos rostos possuem formatos bem parecidos. Mas seus olhos são verdes e sua boca mais carnuda que a minha.
— Uau! Que bruxaria é essa? — a garota exclama – Como você conseguiu atingir esse tom?! Lauren estragou o cabelo todo tentando ficar igual a mim.
— É natural, nunca pintei. — Respondo tímida — Você é da família Cullen? Porque essa mesa é reservada. — Eu perguntei receosa.
— Uau, nunca conheci ninguém com esse tom que não fosse da familia. Achava que era só nosso! — ela disse e depois caiu na gargalhada – Seus olhos são iguais aos do meu pai! Que bizarro! Você parece mais com ele do que eu! — Ela suspira – Sim, sou uma Cullen, a muito contragosto posso dizer. Reneesme Cullen, mas não ouse me chamar assim, prefiro Nessie! — Ela disse e piscou para mim.
— Certo Nessie! — Eu digo já simpatizando com aquela garota. — Sou Isabella, Bella para você. Se precisar de algo, eu estarei servindo esta mesa durante o evento...
— Tem como você me tirar deste inferno tedioso? — Ela sussurra
— Hm, receio que não. — Eu respondo e sinto pena dela. Ela não parecia nada feliz em estar ali, na certa tinha sido obrigada por ser da família anfitriã. Não sei porque, mas sentia uma sensação forte de amizade por aquela menina desconhecida. — Ok, já já eu volto. — Eu digo indo verificar as primeiras bebidas.
Acabo demorando um pouco mais do que previa pois tive que ajudar a arrumar umas coisas na cozinha. Quando retorno já encontro outras pessoas à mesa com Nessie. Seth passa por mim e me pede para ficar atenta porque a sra Cullen está bem nervosa. Equilibro melhor a minha bandeja com os aperitivos e ruoi para a mesa. Agora, além de Nessie, há um senhor ruivo, aparentando uns 50 anos e ao seu lado a sra Cullen. Do outro lado dela, há dois lugares ainda vazios.
— Boa noite, posso servi-los? — Eu digo empregando a minha voz mais profissional possível. O homem vira-se para mim e parece tomar um choque ainda pior que o da sra Cullen quando me viu a primeira vez. Entendo logo o porquê de todos naquela família se assustarem comigo. As duas características mais peculiares em mim estão ali, exatamente iguais naquele homem.
— Nossa! Você tinha razão mesmo! — O homem fala ríspido para a esposa ainda me encarando de forma bizarra – Pode deixar na mesa, mocinha – completa ao ver a minha bandeja. Eu assinto e esboço um sorriso. Deposito a porção ali e vou servir as mesas ao lado. Retorno para saber das bebidas.
— Um martini para minha esposa e um whisky duplo para mim. Reneesme, refrigerante? — Ele pergunta
— Sim papai! — A garota responde levantando o olhar para mim – Bem gelado Bella! — eu sorrio e assento.
Durante o leilão o trabalho segue muito habitual. As pessoas estão focadas em saber quem dará os lances mais altos e eu sempre ouvia um pouco os comentários. São peças lindas e históricas, algumas tão lindas que me inspiravam para desenhar. Tento memorizar algumas para desenhar depois.
Quase no meio do leilão, os dois integrantes faltantes da mesa dos Cullens chegam. É um homem e uma garotinha, mas eles estão de costas para a direção que eu venho, então só conseguirei vê-los quando chegasse à mesa. Preparo a bandeja com a nova remessa de bebida e sigo para lá.
— Boa noite, senhor, gostaria de uma bebida? — Pergunto quando me aproximo dele, que está distraído ajeitando a menina na cadeira a seu lado. Ele me olha lentamente e eu congelo.
É o homem mais lindo do mundo.
Ele tem os cabelos da mesma cor e textura que os da Nessie, o que me fez acreditar que são irmãos. Porém seus olhos são como os meus, como os do Senhor Cullen. Azuis brilhantes, cristalinos! Seu rosto parece uma escultura feita a mão. Seus traços, claramente irlandeses, são harmoniosos. Nada é exagerado ali, tudo na medida certa. Ele tem um sorriso torto lindo nos lábios que vai se desfazendo lentamente em um pequeno ‘o’ de espanto ao me olhar. Ele está sentado, mas posso perceber que ele tenho a altura e o porte de seu pai. Porém ele parece ser um pouco mais musculoso e viril. Ele, com certeza, não tem mais que 25 anos.
Ele me fita intensamente e ficamos conectados alguns segundos até que uma voz doce e infantil chama a nossa atenção. Me viro para a pequena criança e sorrio automaticamente. É a loirinha de olhos azuis da praça.
— A moça do desenho bonito! É ela papai, a moça do desenho! — Ela diz sorrindo e posso perceber o sorriso torto voltar aos lábios encantadores de seu pai.
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