Nós - Brittana
21 Desordem
A culpa era de Brittany. Ela era a culpada... Pelo beijo entre ela e Santana, mesmo que a iniciativa do abraço antecessor não tivesse partido dela. Mesmo que morresse de medo das consequências, da reação. A verdade é que aquele beijo tão cedo, tão já, não fazia parte dos seus planos, sequer pensava nele até acontecer. Apenas deixou que as coisas seguissem seu percurso naturalmente, como Kitty havia aconselhado na semana anterior e, quando menos percebeu, seus lábios estavam unidos aos da Lopez. Era engraçado... Não sabia quanto, mas parecia que sempre esperou por isso. Tal e como jamais imaginou. Não importava quem esteve com Santana antes dela, só queria mostrá-la todo o seu carinho. Todo o seu amor.
Quando a morena quebrou o silêncio em que estavam – desde que Brittany estacionou frente a fachada do apartamento dela; ela se virou para o lado da motorista e inclinou-se um pouco para frente a fim de abraçá-la, assistindo a loira corresponder o gesto na hora. Seu corpo nem mesmo hesitou no caminho, muito disso resultado das aulas de yoga que andavam frequentando juntas... Uma vez quebrada a barreira do desconhecido a intimidade era inevitável, tomava conta. Era difícil voltar atrás, quase impossível levando em conta as sensações que Brittany despertava nela e vice-versa.
Santana envolveu os braços por sobre os ombros da Pierce, que logo levou suas mãos às costas da grávida, apertando-a na medida certa. Seus pescoços se encaixaram devagar, e o que era para ser um simples abraço de despedida tornou-se o lugar em que mais queriam estar, onde mais se sentiam seguras, acolhidas e... E o que mais? Não conseguiam raciocinar muito bem, o toque gritava mais alto e a escuridão dos seus olhos fechados era mais esclarecedor do que qualquer outra coisa. Estavam tão perto e ainda assim, tão distantes... Precisavam de mais. O corpo de Brittany queria mais.
Com a proximidade, puderam sentir o calor eletrizante de seus corpos. Com o silêncio, perceberam as respirações bem como as batidas no peito adquiriram o mesmo ritmo. Por um lado, a respiração quieta quase vacilante de ambas... Por outro, dois corações acelerados saltitando em urgência.
Urgência de prolongar aquilo. Urgência de ter mais que aquilo. Urgência de, simplesmente, jogar tudo para o alto. Santana começou o abraço, mas não seria a pessoa que o terminaria. Ainda mais quando Brittany passou a afagar suas costas e dar vários sinais de que não pretendia acabar tão cedo com o gesto também, tinha colado o rosto em direção ao seu pescoço... As pontas dos dedos dela passeando sutilmente em sua cintura, era tão bom que não parecia errado. Era como se a namorada da loira nem existisse... Mal sabia a morena que não existia mesmo. Mas, no momento não pensava em nada, assim como a Pierce. Nem tinha como pensar, seu físico carecia disso. Zelo.
Fazia seis meses que Santana não se envolvia com ninguém, e dentro desses seis meses seus hormônios estavam malucos, principalmente com o surgimento de Brittany em sua vida. Nunca esteve tanto tempo sem alguém antes e a gravidez era sim um obstáculo para tal, pois sua vida passou a girar em torno dela. Não era só sobre estética... Era muito mais que isso. Era sobre responsabilidade, parceria e também compreensão. Se envolver com uma pessoa nesse ponto da sua vida significava botar em jogo todas as suas vulnerabilidades, e talvez a Lopez não tivesse pronta para isso. No final do dia, era só o bebê que a importava.
O risco de se machucar era tão, tão grande que a razão sempre acabava ganhando a discussão e todos os seus sentimentos eram trancafiados até que atacassem de novo e tudo se repetisse, e nada acontecesse... Até agora. Brittany conseguira ultrapassar a primeira barreira, ainda que por um breve momento, quando afagou suas costas, passou a pontinha do nariz na pele do seu pescoço e sem pressa trouxe a bochecha à sua, gradualmente levando os lábios finos à sua boca. Foi tão natural. Tão... Suave. Arrepiante. A loira não queria se afastar e, de certa forma, Santana sabia e sentia, pois era mútuo. Dentro daquele início de beijo, experimentou uma leveza sem igual. Brittany também, mesmo que não estivesse pensando em suas ações e só se deixando levar pelo desejo.
O jeito que seus corpos se comportavam quando unidos... Não tinha explicação. Ao se dar conta de que o beijo fora correspondido pela Lopez, Brittany tomou coragem para aprofundá-lo devagar. Enquanto virava o rosto um pouco mais para esquerda, procurando contatar a língua da outra, Santana tirou os braços dos seus ombros e levou as mãos a sua nuca, guiando a ação. Brittany se entregou de tal jeito que a dos olhos castanhos jamais experienciou antes, jamais. Ela era a primeira mulher que beijava na vida e se alguma vez duvidou que pudesse ser bi antes disso, essa dúvida havia acabado de vez. Que beijo era aquele? Nem muito rápido, nem tão devagar... Era o ritmo certo, que variava conforme a necessidade. Como se seus lábios e línguas dançassem a mesma música, o arranjo perfeito. Inclusive de toques que o compunham, onde cada uma levava a mão... Até parecia conversado.
Certa vez, Santana ouvira de alguém que beijo tinha encaixe, na ocasião riu e respondeu “não, tem gente que sabe beijar e gente que não sabe. É diferente.”, hoje descobrira que estava errada. Beijo tinha encaixe. E, aquele que tanto procurou, achando ser uma idealização inalcançável de sua parte, agora estava bem ali em suas mãos se provando melhor do que em pensamento. Brittany não estava facilitando para seu lado. A desenhista estava totalmente imersa no ato, tanto que também trouxe os dedos até a cabeça dela. Não para tomar controle do beijo, mas pelo simples prazer de encostar em seu rosto e estava tão feliz com isso, tão feliz que entre um beijo e outro não conseguia evitar sorrisos.
No escuro, sentiam-se tão livres que a realidade sequer importava. Mas, a carência de ar era mais forte que qualquer coisa e com alguma dificuldade, tiveram que parar. Santana abriu os olhos primeiro. Ainda estavam com as mãos no mesmo lugar, os corpos juntinhos. As testas também. Ofegantes, Brittany continuou afagando a nuca de Santana e aí a ficha dela caiu. O que estavam fazendo? A morena se desesperou e afastou-se, evitando contato visual. Fixou os olhos no vidro dianteiro do carro.
— Dios... A gente não devia ter feito isso, Pierce. — Ela correu a dizer, abrindo a porta para sair o mais rápido possível dali. — Eu preciso ir.
— Santana, espera...
— Não posso. Depois falamos sobre isso, tá? Agora não dá.
— Mas...
— Por favor, agora não.
— Ok... Desculpa.
Brittany observou Santana deixar o veículo sozinha, na velocidade da luz e afundou o rosto nas mãos. Aparentemente, havia estragado tudo. Leu os sinais erroneamente, só podia. Só podia.
(...)
— Eu beijei a Santana, Kitty. — Brittany contou a amiga, desesperada. Chorava de nervoso. — A-acho que estraguei tudo.
— Ela correspondeu? — Katherine quis saber.
— Sim... Correspondeu. E não recuou em nenhum momento, por isso é tão confuso.
— Entendi. Você não estragou nada então, calma.
— Como não? — A Pierce andou de um lado para o outro, não conseguindo parar quieta naquela sala de estar. — Ela saiu correndo do meu carro depois, não quis nem conversar! Não é bem a reação que as pessoas costumam ter quando gostam de algo, né... Deve ter se arrependido. Ou entrado em conflito com a sexualidade, ou tem alguém. Nem sei o que é pior, sinceramente.
— Eu não vejo tão preto no branco assim, Britt. Não nesse caso. Pra ela não deve ser fácil se envolver com uma nova pessoa estando grávida, não é só sobre um suposto conflito com a sexualidade, um arrependimento ou um alguém especial penso eu. Tem a ver com... Comprometimento, talvez.
— Comprometimento? — Brittany parou, sentando-se no sofá para ouvi-la melhor. — Como assim?
— Bom... Nesse momento, a vida dela gira em torno da gravidez, e qualquer pessoa que for se envolver com ela vai se envolver com essa parte inevitavelmente, não dá pra separar uma coisa da outra. E aí é que mora o “problema”. Quão disposta a pessoa tá pra se comprometer não só com ela, mas com essa criança que tá vindo? Ao mesmo tempo, ela não pode esperar que ninguém se comprometa, entende? Não é justo com o outro, muito menos com ela. A gravidez é passageira, mas a maternidade é pra sempre. — Explicou. — É mais complicado que antes porque agora envolve uma terceira pessoa, e essa terceira pessoa vai ser prioridade pra ela pro resto da vida, você não, e mesmo que abrace o bebê como prioridade também nada te prende a ele ou a ela. Toda essa mudança abre porta pra diversas inseguranças, mais doloridas do que nunca. Se antes os relacionamentos já não tinham garantia de duração, quem dirá agora? Ninguém quer assumir tamanha responsabilidade.
Com o desenrolar do raciocínio da Wilde, Brittany tomou certa postura cabisbaixa.
— Eu nunca tinha parado pra pensar nisso...
— Imagino. Mas, é normal Britt.
— Não, não é! Eu tô totalmente envolvida com essa parte da vida dela e, mesmo assim, continuo pensando só em mim mesma... Sou muito egoísta.
— Você não é egoísta, só tá apaixonada. E do jeito que fala dela e dos momentos que andam tendo, pra mim não parece ser um grande problema pra você fazer parte dessa gravidez ou do que virá depois dela. Te conheço muito bem pra saber.
— Não sei, Kitty... Não é um problema agora, mas é uma responsabilidade muito grande mesmo. Assusta. Não tem como saber o que vai acontecer.
— É, não dá pra negar. Seria até estranho se não tivesse dúvidas. Mas, eu acredito que vai conseguir conciliar tudo logo, logo.
— Eu só não quero magoar ela...
— Você não vai. — Kitty chegou perto, abraçando a outra loira. — Seu coração de manteiguinha não permite, e vocês vão conversar amanhã e tudo vai ficar bem.
— Tomara.
(...)
Desde a hora em entrara em seu apartamento, Santana não quis papo com ninguém. Só o que conseguia pensar era no beijo. Nas sensações dele. No quanto não se sentia culpada... E o quanto Brittany não transparecia culpa também. Algo não batia nessa conta. Se tinha namorada, por que agia como se não tivesse? Por quê? Será que estava sendo enganada pela carinha de boa moça? Queria falar com alguém sobre o assunto, mas, se falasse, ouviria coisas que não queria ouvir. Brincadeiras inofensivas que a pegavam de jeito às vezes, tanto com Quinn, como com Rachel, Kurt ou Mercedes.
Preferiu não sair mais do quarto naquele dia, e foi dormir mais cedo que o normal. Quando acordou, pegou o celular e viu que tinha novas mensagens de Sebastian e Brittany para ler. Seu ex-namorado com o bom dia de sempre, já a dos olhos azuis... Com o certo receio que esperava, visto a forma que deixou-a para trás na noite anterior.
Tinham tido um dia tão legal, as conversas, a aula de yoga, a cantoria no carro. Num segundo, o beijo só melhorou tudo. Em outro, era como se tudo fosse por água abaixo a partir dali. Toda a amizade que estavam construindo nesses últimos dois meses, tomava posição frágil como vidro. Algumas dúvidas foram sanadas, havia atração de ambas as partes por exemplo... Em compensação, tirava aquele interesse da zona platônica e se tornava totalmente palpável. Com essa parte, não estava preparada. Nunca imaginou que seria tão intenso como estava se mostrando ser.
Brittany
Oi, Sant...
Sei que ontem
não queria conversar
Mas, se hoje estiver melhor
por favor, vamos fazer isso
Preciso entender o que aconteceu
(6:45 a.m.)
Santana
É... Eu também preciso
Depois do meu turno, pode ser?
(7:59 a.m.)
Brittany
Claro, estarei lá
(8:00 a.m.)
A latina suspirou e deixou o celular de lado para poder se arrumar para o trabalho.
(...)
Após seu expediente no Breadstix se encerrar aquele dia, Santana encontrou Brittany no exterior do restaurante. Não sabiam muito bem como agir, então mantiveram uma distância segura ao se cumprimentarem. Os olhares estavam difíceis de se sustentar um no outro também, a timidez tinha todo o controle. Apesar disso, estavam encarando a situação com mais tranquilidade do que haviam imaginado.
— Melhor a gente conversar em outro lugar? — Brittany indagou, apreensiva.
— Acho que sim...
— No carro?
— Não! — Ela respondeu em disparada, ficando meio sem jeito em seguida. — Quer dizer, acho melhor só andarmos.
— Tudo bem. — A Pierce assentiu, seguindo os passos da outra. — Olha, se eu te ofendi com o beijo peço desculpas...
— Sério isso, Brittany? — Santana perdeu a paciência, virando-se para ela de súbito. — Eu tô até agora sem entender qual é a sua!
— Como assim? Eu me atraio por você, Santana... Achei que de alguma forma fosse recíproco, mas parece que me enganei e tudo bem. Não é só isso que fez eu me aproximar de você, quero ser sua amiga independentemente de qualquer coisa.
— A questão não é essa!
— Qual é então?
— E a sua namorada?
— Namorada? — Brittany arqueou uma sobrancelha. — Que namorada?
— Você disse que tinha namorada...
— Eu disse?
— Disse! — A dos olhos castanhos afirmou, possessa. — No dia que veio se desculpar pela sua amiguinha fresca, você mencionou uma namorada! Agora vai se fazer de desentendida, é?
— Eu não... Ah, tá. Já entendi o que aconteceu aqui. — Brittany riu, deixando Santana extremamente confusa. — Na época eu tava namorando mesmo, mas a gente terminou uns três dias depois. O relacionamento tava muito saturado.
— Então, você é solteira?
— Sim, já faz dois meses praticamente.
— Ah... — Santana sentiu o coração disparar, enlouquecido.
— E você? Namora?
— Não.
E agora? O que elas faziam? Não estavam preparadas para aquele cenário.
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