Nós - Brittana
22 Devagar e sempre
E quando as coisas enfim foram esclarecidas entre Santana e Brittany, outro obstáculo surgiu. Na verdade, um que sempre esteve ali só à espera de tomar o lugar dos anteriores. No caso: aquela falta de jeito tremenda que tinham na presença uma da outra. Tamanha falta de jeito ensurdecedora onde apenas olhares tinham voz, como se apenas atração não fosse o bastante e a escuridão dos sentidos gritasse em falta. Elas sabiam o que queriam, mas temiam pelo passo seguinte. Elas sabiam que tinham forças para tal, mas o simples cruzar de olhos castanhos com azuis era motivo suficiente para tirá-las do eixo.
E a pior parte? Era muito cedo. Muito cedo para sentir tantas coisas em tão pouco tempo, muito cedo para se desesperar tanto... Muito cedo para tornar-se vulnerável nesse nível. A vida era maior que isso, mas era sempre a mesma história... Quando a paixão batia tinha efeito dominó e tudo pela frente era derrubado um por um, até a última peça. Criar expectativas era perigoso, gostar tanto de alguém a ponto de não conseguir pensar em mais nada também. Estavam prontas para aquele passo? Estavam recuperadas o bastante dos relacionamentos anteriores? E se estivessem, esse era o momento certo? Não tinham como saber se não apostassem no novo, este que se desvelava tão instigante e revitalizador para elas.
Ainda assim, era difícil. Não só para Brittany que tinha saído de um namoro desgastado há muito pouco tempo, como também para Santana que, apesar de manter uma amizade saudável com Sebastian, sentia-se mal e muitas vezes até culpada pelo ex-namorado permanecer cultivando esperanças após seis meses de término. Fora isso, a questão de nunca ter se relacionado com uma mulher antes. Sempre quis, mas... Nunca pensou que na ocasião estaria grávida. Isso mudava tudo. E, agora, o cenário era ela e a desenhista tendo a total convicção de que estavam solteiras, exalando interesse mútuo e um grande receio no peito. Os músculos paralisados, a respiração contida.
— Ahn, de qualquer forma... — Santana começou, virando-se para evitar os olhares da Pierce enquanto voltava a caminhar pela calçada. — Não acho que eu esteja pronta pra me envolver agora.
— Entendo. — Brittany deu um leve suspiro frustrado, mais pela sua própria falta de atitude do que pela resposta da morena, e ponderou com ela: — Acho que... No fim, também não tô muito pronta não.
Instantaneamente, a Lopez fitou a loira de relance e correu para “corrigir” seu discurso de antes. Não queria que a mulher interpretasse errado... Santana queria estar com ela, só não tinha a coragem necessária ainda. E isso poderia mudar muito em breve, então não se fecharia por conta dos seus medos irracionais, apenas manteria um pé atrás como tinha que ser até mais certezas passarem a surgir pelo caminho.
— Mas, isso não significa que eu não esteja aberta pra possibilidade...
Na hora, olhos azuis adquiriram certo brilho com a fala da Lopez, e Brittany não conseguiu conter o sorriso crescente em seus lábios. Afinal, não estava sendo rejeitada. Ainda tinha chances de provar o seu verdadeiro interesse pela outra, que sentia ir além de mera atração.
— É, com certeza!
Santana parou, rindo do desespero da outra em concordar com ela tão rápido. Logo, a Pierce relaxou os ombros apreciando a cena e ali se deixou rir junto a sua paixão. O clima havia ficado infinitamente mais leve, isso era bom.
— Você muda de ideia muito rápido, Britt-Britt...
— Eu, Sant? Imagina... Sei nada disso não.
— Claro, claro. — Ela riu um pouco mais e voltou a ficar séria, tendo alguma dificuldade em sustentar o olhar na loira. — Enfim, eu só acho que... Preciso ir devagar com tudo isso. Entende?
— Nunca ficou com uma mulher antes, né? — Brittany deduziu.
— É... Não. Mas, eu sempre soube que gostava. Esse não é o motivo pra eu querer ir devagar... Pelo menos, não exatamente.
— Tudo bem. Você não precisa se explicar pra mim, Santana. — A desenhista abriu um sorriso, aproximando-se consideravelmente da outra. Era a primeira vez que ficavam tão perto aquele dia e, sem muita cerimônia, Brittany se apossou de ambas as mãos da morena. Conseguia enxergar brecha para tal agora, e aí, uma onda de coragem brotou em seu interior com isso, tão repentinamente que poderia desaparecer a qualquer instante, da mesma forma que apareceu. — Vamos fazer uma promessa.
— Uma promessa? — Santana engoliu a seco, enquanto alternava olhares entre a boca e os olhos da outra. — M-mas, que promessa?
— Eu te beijei primeiro, certo?
— Aham...
— Então, já que vamos ir devagar a partir de agora... Eu, Brittany S. Pierce, prometo não cruzar qualquer limite nessa relação, a não ser que você Santana Lopez, tome a próxima iniciativa. Fechado?
Assim que terminou de falar, a loira mal teve tempo de entender o que aconteceu. Santana havia se aproximado ainda mais, sem soltar as suas mãos, e agora estava com os lábios ligados aos seus. Olhos fechados... Um simples selinho até então, logo tomou forma de um beijo completo – quando a Pierce inclinou o pescoço um pouco mais para frente a fim de regular suas alturas. Línguas se encontraram, sabores se misturaram e estalos fizeram-se ouvidos.
Para quem queria ir devagar, Santana estava era muito rápida... A mais alta não tinha do que reclamar. Entretanto, não estava entendendo nada. Bastou Brittany chegar perto o suficiente da Lopez para acontecer, como um campo de força que as puxava na mesma direção em sincronia... Vai ver era por isso que a dos olhos castanhos se esquivou tanto da outra aquele dia, também queria repetir a dose o mais rápido possível. E, na primeira oportunidade, foi o que fez.
Todavia, o beijo não se estendeu tanto como o do dia anterior. Afinal, estavam no meio da calçada dessa vez. Era difícil ignorar... O que também não necessariamente tornava-o pior, apenas mais reservado e contido. Quando se separaram, Santana se divertiu horrores com a confusão estampada no rosto de Brittany. Era tão boba, não dava para aguentar... Simplesmente, não dava. E por quê? Bom, isso abria margem para diversas interpretações. Todas muito boas, diga-se de passagem.
— Isso não conta.
— A-ah, não? — A Pierce ainda estava completamente passada com a iniciativa da Lopez, mesmo assim muito feliz. — Eu jurava que contasse.
— Não... Ainda não tava valendo. — Ela deu alguns passos para trás, soltando a mulher à medida que sorria de forma provocadora. — Mas, agora tá. Eu aceito. Parece justo.
— Justo, né... — Brittany riu. — Sabe, eu tô começando a duvidar disso agora. Mas, tudo bem... Você vale o risco.
— Não teria tanta certeza se eu fosse você. — Santana entrou na brincadeira, voltando a caminhar pela calçada na direção de onde haviam vindo. Brittany só conseguia rir, parte empolgada, parte ansiosa. — Me leva pra casa?
— Sim, sim. O que quiser, San-shine.
Quanta moral, a grávida riu com ela. Em seguida, as duas entraram no carro da loira e se “distraíram” com as músicas do rádio, até chegarem em frente ao apartamento da morena. Foi um ótimo momento para digerir tudo o que acontecera até ali. Assim que foi se despedir, Santana decidiu abraçar Brittany outra vez. Agora, fora do veículo. Estava feliz com o desenrolar de toda a situação. Não queria ter medo de fazer o que sentia vontade, apesar de estar se contendo parcialmente.
Mas, agora só cabia a ela o próximo passo daquela relação e isso deixaria as coisas um pouco mais inclinadas à sua zona de conforto. Justamente por isso, havia se permitido beijar a Pierce uma última vez antes de concordar com a promessa, queria deixar muito bem registrado na memória, pois não sabia quanto tempo levaria até conseguir repetir a ação, sem dúvidas ou arrependimentos. Deixando toda a apreensão que perseguia-a de lado.
— Obrigada por entender, Brittany.
Ela se afastou, esbanjando um sorriso que demarcava as covinhas nas bochechas. Era o ponto fraco da Pierce. Não foi capaz de dizer nada, só o que fez foi sustentar o olhar em Santana e dar um leve aperto em sua mão, retribuindo aquele sorriso tão genuíno. Depois, cada uma seguiu seu lado.
Quando se deitaram para dormir aquela noite, tanto Brittany como Santana sentiram-se realizadas. Tinha sido uma boa conversa, uma ótima resolução. Agora a tendência era melhorar. E aquele beijo... Quanta saudade ele deixaria até acontecer novamente? Tão novo, com sabor nostálgico. O encaixe perfeito. Precisavam dormir, mas mesmo em sonho tinham que ter cuidado. Fantasiar demais poderia gerar uma grave falha na promessa.
(...)
Por volta das onze da manhã de sábado, Sam apareceu no apartamento de Brittany ao pulos. Queria contar uma grande novidade a ela. Bom, com aquele grau de animação só podia ser duas coisas... Finalmente largara o emprego ou então conseguira um comprador para o antigo apartamento da loira. Qualquer que fosse o motivo, para Brittany estava valendo.
Samuel estava a ajudando muito nos últimos dias, e havia tomado totalmente as rédeas das visitas naquela semana já que a Pierce não gostava nada. A ideia tinha sido de Marley, mas sempre havia passado pela cabeça da loira pedir ao amigo que bancasse o corretor de imóveis. Ele tinha jeito para vendas.
— Achei a compradora ideal, jovem padawan!
— S-sério?!
— Sim! — O rapaz passou a contar detalhe por detalhe a amiga, que meramente ouviu atenta. — Fechamos em cinco por cento a mais do que o pedido, e ela vai pagar tudo em duas vezes.
— Duas vezes? Nossa... E ela ainda aceitou fechar em cinco por cento a mais? Cê esbarrou com uma ricaça e fez lavagem cerebral nela, foi?
— Tenho meus contatos, né... E meus dons. — O Evans riu. — Um mágico nunca revela seus truques.
— Tem razão! Ainda bem que tenho você, Sam... Sério, não sei o que faria sem seus dons de persuasão! Me admira você no ramo da contabilidade, ao invés das vendas.
— É, né... Precisamos comemorar! — Ele procurou algo no bolso. — Peguei uma das chaves reserva da Kitty sem ela ver outro dia, vamos lá dar um susto nela e contar a novidade?
— Eu não devia, mas... Tô totalmente dentro!
Os loiros desceram às pressas até o carro do contador, e foram direto para casa da Wilde. Chegando lá, destrancaram a porta na espreita. Brittany foi na frente, rastejando no chão até a sala e logo percebeu que a amiga falava com alguém na webcam. Não dava para entender muito bem, mas Sam também ouviu... A única diferença é que a Pierce reconheceu a voz na hora. Era de Marley. Não tinha como não ser. Era idêntica à dela. Mas, ainda assim... Duvidou.
Não fazia o mínimo sentido, por que elas estariam conversando se a Rose não suportava Kitty? E por que estavam rindo daquela forma? Tantas perguntas surgindo, e só o que Brittany conseguiu fazer diante de tudo foi se pôr de pé para entender melhor aquela cena. No mesmo segundo, a Wilde notou a presença do primo e da melhor amiga e correu para fechar o notebook.
— Que susto, gente! — Ela riu, soltando o aparelho ao lado de suas pernas, e levantou-se para abraçá-los com certa brutalidade. Começando pela Pierce. — Eu devia chamar a polícia pra vocês aprenderem!
— O importante é que o susto rendeu... — Ele mostrou o GIF que acabara de fazer com a cara da prima. — Hilário, né?!
— Você não fez isso!
— Ah, fiz...
— Com quem você tava falando? — Brittany quis saber.
— Eu? Ninguém não, Britt. — Katherine desconversou, ou quase isso. — Era só uma paciente.
— De sábado?
— É... Abri exceção pra ela. Pode acontecer.
— Entendi. — Isso ainda não explicava exatamente o porquê Kitty havia fechado o notebook na cara da outra ou porquê estava tão tensa, mas talvez não tivesse nada a ver com Marley. Talvez, fosse apenas uma paciente mesmo ou então uma pretendente em potencial... Era bem provável, visto que a psicóloga não se relacionava com ninguém desde o rompimento com Spencer e raramente comentava sobre seus interesses românticos até de fato estar dentro de um lance sério. — Eu e o Sam temos uma puta novidade pra te contar!
— E tão esperando o que?!
— Que rufem os tambores, porque a venda tão esperada do apartamento da Britt vai finalmente acontecer! — Sam revelou, fazendo voz de narrador. — Eu ouvi um amém?
— Amém!
Os três riram, e passaram a compartilhar mais informações sobre o assunto. Kitty ficou sabendo de toda a história, fez uma careta. O primo estava só à espera dos parabéns da garota.
— É, Sam... Eu admito. Você é bom, feliz?
— E o que mais?
— Te devo meus parabéns... Guru das vendas. Pronto! Essa é a última vez que digo isso!
Sam e Brittany gargalharam, em negação.
— Você que pensa!
— Eu amo vocês, não dá!
(...)
Sebastian manteve a mão imóvel sobre a barriga de Santana, enquanto sentia pela primeira vez Elizabeth mexer com ele presente. Só bastou o jovem perder as esperanças para acontecer, era surreal. Rachel, Kurt, Lorenzo, Maribel e até Mercedes já haviam presenciado. Mas, ele? Nunca... Isso porque não fazia ideia da existência de Brittany e de como sempre, sempre ocorria quando estava por perto.
— Caramba... — O Smythe riu, abobalhado. Estava no apartamento da ex-namorada, pois havia jantado aquele dia junto a ela, Kurt e Rachel. Logo depois, foram até o quarto dela para conversar sobre algumas coisas, em especial o planejamento para a chegada do bebê. — Acho que você nunca tinha deixado eu tocar na sua barriga por tanto tempo antes disso.
— Pois é, sabe que eu não gosto. — Ela afastou a mão dele de si. — Por hoje chega.
— Sem problemas, já valeu pra vida toda. — Sebastian sorriu pensativo, e não demorou muito para jogar a hipótese no ar. — Imagina se a nossa filha é o que a gente precisava pra voltar?
— Ai, Sebastian... Nem começa, por favor.
— O que? Só tô comentando... Eu ainda gosto muito de você, Santana. E seria mentira se eu dissesse que entendo o motivo pelo qual terminou comigo, porque... Sendo bem sincero, eu não entendo. A gente tava tão bem. Não que você não tivesse no seu direito também... Mas, foi algo que eu fiz ou deixei de fazer?
— Não. Tem a ver comigo. — Santana respirou fundo, explicando: — Eu não te amo mais... Não desse jeito. Você é um cara incrível e eu tentei de tudo pra fazer dar certo justamente por você ser você, mas infelizmente não dá. Nem pela Elizabeth. Eu tava no meu limite, Sebastian... Queria poder dizer que a gente tem volta, mas não posso. A gente não tem. Você precisa seguir em frente, porque me esperar não vai te levar a nada além de tristeza... Então, por favor, para. Eu também fico mal quando vejo isso. Você merece alguém que corresponda o seu amor. E nós? Continuamos sendo amigos como sempre foi.
— Tudo bem... — Ele assentiu, com os olhos marejados, e levantou-se da cama da morena. — Vou tentar seguir em frente, por você e pela nossa filha. Não vai ser fácil, mas uma hora eu consigo. Prometo.
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