Nêmesis
4 IV. you make me so happy, it turns back to sad
Notas iniciais
IV
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{you make me so happy, it turns back to sad}
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Havia momentos em que Albus Severus Potter achava que sua vida era um show de horrores. Um circo macabro ou algo igualmente patético e deprimente. Sentado em uma das camas da ala hospitalar de Hogwarts, enquanto segurava uma bolsa de gelo sobre o nariz quebrado e sentia o sangue lhe manchar o rosto de a camisa, ele tinha certeza que aquele era um desses momentos.
— O que vocês dois estavam pensando? — James esbravejava, andando de um lado para o outro. Ter que ouvir o sermão do irmão era certamente a pior parte de toda aquela situação.
— A culpa foi dela. — Al sibilou irritado, porque não havia nenhuma outra emoção que ele poderia sentir naquele momento — Foi essa louca que quebrou o meu nariz.
Lily Luna lhe enviou um olhar fulminante, enquanto segurava uma bolsa de gelo sobre a mão quebrada. A mão que quebrara socando a cara de Albus. Como ela ainda ousava se sentir ofendida diante a todo esse contexto era um mistério. Ao lado da cama de Al, Scorpius Malfoy observava tudo calado, não ousando se envolver na confusão dos Potter, mas oferecendo um apoio silencioso ao melhor amigo.
— Você mereceu. — não havia qualquer sinal de arrependimento na voz da menina. Apenas o mais puro desdém.
— Agora vocês estão saindo no soco no meio dos corredores de Hogwarts. Maravilha! Nossos pais vão adorar saber disso. Sabe quem mais vai adorar saber disso? Rita Skeeter. Ela com certeza vai adorar escrever um artigo de capa sobre a rivalidade sangrenta dos irmãos Potter. Nossos pais vão adorar ler. Nossos avós também. Vai ser incrível! — James continuava a surtar.
— A culpa foi dela. — repetiu Albus, tentando se defender. Ainda assim, ele sabia que o irmão tinha um bom argumento. E detestava isso. — Eu não soquei ninguém.
— Você não conseguiria me socar, nem se tentasse por mil anos. — Lily debochou — Além disso, a culpa foi sua. Eu estava tentando ser uma boa irmã.
Al riu sem humor. Ela era mesmo uma pirralha desaforada.
— E como exatamente você estava tentando fazer isso? Distribuindo socos?
— Não se faça de desentendido, eu só fui te falar para que pegasse leve nessa sua rixa ridícula com o Wood. As minhas amigas acham que você é doido, sabia?
— Eu não dou a mínima para o que as ridículas das suas amigas acham, Lily.
Não era verdade. O garoto se importava –até demais – com o que qualquer pessoa pensava dele. As amigas idiotas da irmã incluídas na equação.
— Tanto faz, eu ainda estava tentando ser uma boa irmã.
— Você me chamou de doido e depois me socou.
Albus estava cansado das pessoas o chamando de doido. Talvez ele estivesse levemente mais descontrolado do que o normal. E talvez ele tivesse ido assistir ao treino da grifinória na tarde anterior e começado uma briga com o Wood. E talvez as pessoas ainda estivessem comentando sobre isso. E talvez Lily estivesse realmente apenas tentando ajudá-lo, quando o abordara para falar sobre o assunto. Ainda assim, não havia motivos para questionar sua sanidade. Especialmente quando Bradley vinha agindo de forma tão suspeita e esquisita. O que as pessoas esperavam dele? Que ficasse sentado e esperasse o golpe que o que goleiro estava tramando se concretizar? Não, aquele não era o tipo de coisa que ele faria.
— Você disse que, como bailarina, eu nunca entenderia um mundo realmente competitivo e difícil como o do Quadribol.
James gemeu ouvindo a frase.
— Aí você socou a minha cara. Isso não tem desculpa, Lily Luna!
— Você mereceu, Albus Severus! Como você ousa subestimar o balé? Você já equilibrou o peso do seu corpo na ponta dos seus pés? Já fez isso, com um sorriso no rosto, enquanto seguia coreografias elaboradas? Não, a única coisa que você faz é ficar sentado numa vassoura. E ainda chama isso de esporte!
— Você precisava ter falado isso, Al? — James questionou com um suspiro. Nunca era uma boa ideia subestimar Lily. Ou irritá-la de qualquer forma.
— Você está do lado dela, James?
— Eu não estou do lado de ninguém. Vocês dois são idiotas. Nossos pais deviam ter tido um único filho, a vida seria muito mais fácil. — o primogênito esbravejou, passando as mãos pelos cabelos escuros.
— Como você se atreve, James Sirius? Seus irmãos machucados, feridos e com dor, aguardando atendimento médico na ala hospitalar, e você dizendo essas barbaridades. O que nós pais vão achar? — Albus indagou ofendido.
— Você é mesmo um animal, James. Um completo selvagem sem noção de família. — Lily devolveu indignada.
— Ah, agora eu sou o errado da história? Vocês dois estão se socando em público, suas crianças inconsequentes, e eu sou o errado?
— Eu não soquei ninguém!
— Você mereceu o soco!
Os três Potter ainda estavam gritando uns com os outros, quando a porta da enfermaria se abriu audivelmente, revelando uma Rose Weasley esbaforida. Os cabelos ruivos completamente bagunçados, o rosto coberto por um rubor vermelho, os olhos preocupados.
— O que aconteceu? — ela exigiu, ofegante — Está todo mundo falando que Albus e a Lily disputaram um duelo no meio do corredor e se feriram gravemente. Tem gente até falando em maldições imperdoáveis.
— Ah, que maravilha! — James levantou as mãos para o teto. — Eu já consigo ver as manchetes.
O irmão definitivamente se preocupava demais com o que a imprensa dizia.
— Quem se importa com manchetes, James? — Lily perguntou, revirando os olhos.
— Eu me importo.
— Não foi um duelo. — Scorpius esclareceu, se pronunciando pela primeira vez. Sua expressão mortificada indicava que ele não queria nada, além de sair correndo dali. Não que Albus pudesse julgá-lo, ele mesmo adoraria estar em qualquer outro lugar — A Lily só socou o Al.
— Ah! — Rose relaxou, como se aquilo não fosse grande coisa. Conhecendo a família deles, de fato não era.
— Um duelo? Por favor... — Albus debochou, porque os rumores que corriam por aquela escola ficavam cada dia mais ridículos — Como se uma terceiranista como a Lily sequer soubesse segurar a varinha direito.
— Você vai ver como sei segurar minha varinha, quando eu a enfiar no seu...
— Chega! — James interrompeu com um grito.
— Você não pode gritar comigo, James Sirius. — a menina se defendeu.
— Você não pode gritar com a Lily, James Sirius. — Albus apoiou a caçula. Apenas porque adorava contrariar o primogênito.
Scorpius e Rose trocaram um olhar silencioso.
— Hum... já que está todo mundo bem. — Rose começou — Acho que eu já vou, tenho que terminar um dever de Herbologia. Aquele com o qual você tinha ficado de me ajudar, Scorp.
— Claro, aquele dever. Aquele com o qual eu disse que ia te ajudar há muito tempo. Acho que devíamos mesmo ir fazer isso, Rosie.
Era difícil dizer qual dos dois era um mentiroso pior. Albus apenas revirou os olhos diante a desculpa esfarrapada. James e Lily continuavam concentrados em gritar um com o outro. Os dois amigos, entretanto, não perderam tempo e saíram praticamente correndo da ala hospitalar.
Madame Pomfrey apareceu pouco depois com uma expressão de desgosto no rosto. Al sabia que ela os havia feito esperar de propósito, prolongando a dor dos irmãos como uma espécie de castigo. Um nariz e uma mão quebrados eram coisas muito simples de serem resolvidas, afinal.
— Vocês deveriam se envergonhar disso. — a mulher disse estalando a língua — Dois irmãos brigando dessa forma...
Nenhum dos Potter disse nada sobre isso, porque não havia nada a ser dito.
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Bradley Wood estava tendo um dia surpreendentemente agradável. Havia milagrosamente conseguido terminar todas as suas tarefas como estudante, capitão e irmão mais velho e podia desfrutar de um raro momento de paz e tranquilidade. Um raro momento no qual podia apenas se sentar abaixo de uma árvore com um livro de poesia em mãos e não se preocupar com nada ou ninguém.
É claro que algo assim não poderia durar por muito tempo e não demorou para que um grupo de quintanistas se juntasse ao seu redor, trazendo as fofocas do dia.
— Você não vai acreditar, Brad. — Francesca Finch-Fletchley disse empolgada — Aparentemente o Potter se envolveu em um duelo.
— Com outras cinco pessoas! — Anthony Corner completou.
— O que? Qual Potter? — Bradley questionou, levemente assustado.
— Não se preocupa, não foi o James. Foi o Albus. — Edgar Bones tentou tranquiliza-lo.
— Sim, — Violet Bell concordou — Dizem que a coisa foi feia e ele vai ter que sair do time da sonserina pelo resto do ano.
— Ouvi dizer que vão manda-lo para o St. Mungus. — Francesca emendou.
A cada informação adicionada, Bradley sentia mais vontade de vomitar. Não era possível que fosse verdade, era? Quer dizer, tudo bem que o Potter era bem esquentadinho e parecia estar sempre querendo começar uma briga. Mas ele não seria estúpido a ponto de começar um duelo com cinco pessoas, seria? Albus Severus podia ser muitas coisas, estúpido não era uma delas.
De uma forma ou de outra, Brad sabia que aquilo não era problema dele, que não precisava se envolver de modo algum naquela bagunça ou sequer pensar muito sobre ela. Então, por que ele se sentia tão nauseado e com tanta vontade de saber se o Potter estava bem? Não fazia sentido ficar preocupado com alguém que nem gostava dele. E, mesmo assim, era exatamente preocupação o que o rapaz sentia.
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Bradley tinha total consciência de que não devia estar ali. De que devia apenas seguir com o seu dia como se nada estivesse acontecendo. De que não teria qualquer explicação plausível caso alguém questionasse o que, em nome de Merlin, ele estava fazendo nas imediações da ala hospitalar. Saber dessas coisas racionalmente, entretanto, não era compreendê-las de forma emocional. E o que o emocional do garoto precisava naquele momento era de notícias de Albus Severus Potter.
Estava tão distraído em seus pensamentos que só notou a presença de Rose Weasley e Scorpius Malfoy, caminhando apresados pelo corredor, quando literalmente se chocou contra eles.
— Wood? O que você está fazendo aqui? — Rose questionou com um misto de surpresa e curiosidade.
O rapaz hesitou, os olhos castanhos se arregalando, a pele negra se tornando rubra. Se empertigou meio minuto depois, erguendo o queixo, enquanto o rosto assumia uma expressão indiferente.
— Fiquei sabendo que o Potter se feriu seriamente em um duelo com cinco pessoas e vai precisar se afastar do Quadribol pelo resto do ano. — o rapaz estremeceu, quando disse aquilo. Embora tenha fingido que não e apenas enfiado as mãos trêmulas nos bolsos da calça — Vim saber se é verdade... Porque seria muito bom para a grifinória, se fosse, é claro. Apenas por isso.
Rose e Scorpius trocaram um olhar.
— Não, ele só teve o nariz quebrado mesmo. Nada demais. A Madame Pomfrey conserta isso em um segundo, ela só o está fazendo sofrer um pouquinho. — Scorpius informou.
Alívio tomou o corpo de Bradley e ele tinha certeza de que isso estava explícito em seu rosto. Então, fez o seu melhor para parecer indiferente.
— Hum... uma pena então. Espero que, pelo menos, ele sofra bastante. — o rapaz afirmou, porque eles eram inimigos, não é mesmo? Ou, pelo menos, eram aos olhos do mundo inteiro. Não disse mais nada, antes de dar as costas aos colegas e voltar por onde tinha vindo.
Aquilo era ridículo e ele sabia. No entanto, o fato de ter claramente se humilhado na frente do Malfoy e da Weasley valia a pena, já que o fizera descobrir que Albus estava bem. O alívio era absurdo. E, naquele ponto, era inútil negar o óbvio: Bradley Wood se importava com Albus Severus Potter. Era por isso que a ideia do garoto odiá-lo o incomodava tanto. Era por isso que queria que fossem amigos. Era por isso que havia se corroído em preocupação com a notícia de que algo havia acontecido ao sonserino.
O Potter poderia até odiá-lo, mas para Brad a relação dos dois sempre fora um bote salva vidas. Albus fora a primeira pessoa que o fizera rir depois da morte da mãe. Fora o primeiro que o tratara de forma normal e não como alguém que estivesse prestes a desmoronar. E fora também aquele que o impulsionara a continuar. A sair da cama e treinar, porque havia competição e um rapaz muito bom e dedicado que poderia se tornar o melhor goleiro de Hogwarts, se ele permitisse.
Era alguém que sempre o fazia gargalhar com todo seu mau humor, explosões, comentários ácidos e ideias absurdas. E era alguém que ele admirava por toda aquela paixão, comprometimento, trabalho duro e talento. Porque o Potter poderia ter escolhido se escorar no sobrenome de sua família e nunca precisar fazer nada, mas ali estava ele: tentando mais do que qualquer um. Então, sim. Bradley Wood se importava com Albus Severus Potter. E talvez até gostasse um pouquinho dele.
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