Nêmesis
5 V. and i'm so furious at you for making me feel this way
Notas iniciais
V
.
{and i'm so furious at you for making me feel this way}
.
.
Havia algo acontecendo entre Rose Weasley e Scorpius Malfoy. Naquele ponto era bem óbvio. Os dois nunca haviam sido bons mentirosos e, para além das desculpas esdrúxulas que inventavam para desaparecer por horas, não conseguiam sequer disfarçar as emoções que gritavam em seus rostos. Scorpius olhava para Rose como se estivesse vendo o sol pela primeira vez. E Rose olhava para Scorpius como se ele fosse um fenômeno cósmico que só acontecia a cada mil anos. Era patético. E também adorável.
Albus Severus Potter se sentia feliz pelos amigos estarem finalmente juntos – ou fosse lá o que estivessem fazendo –, mas não conseguia evitar se sentir abandonado. Especialmente por nenhum deles ter lhe dito nada. Verdade seja dita, não haviam dito nada a ninguém e Al sabia que falariam quando estivessem prontos. Sempre fora o tipo de pessoa que respeitava os espaços alheios e não pretendia mudar seu comportamento agora. Apenas não conseguia deixar de sentir medo de ser esquecido pelos dois melhores amigos e de ficar sozinho. O único lado bom de toda aquela história era que os N.O.M.s o mantinham tão ocupado e estressado que restava pouco tempo para pensar sobre aquilo.
— É oficial, eu irei entrar para a história de Hogwarts como a pessoa a tirar a nota mais baixa nos N.O.M.s de poções. Vão ter que inventar uma categoria nova de nota, abaixo de Trasgo, só para mim. — o Potter reclamava, aproveitando que tinha finalmente a atenção dos pombinhos, enquanto deixavam a sala de aula. As vestes dele ainda exalando um leve cheiro de queimado, devido à explosão que seu caldeirão causara. Novamente.
Rose abriu a boca para oferecer algum consolo ao primo, mas antes que pudesse pensar em alguma coisa, uma voz masculina soou atrás deles, fazendo o trio se virar.
— Eu posso te ajudar a estudar, se você quiser.
Bradley Wood estava parado ali, parecendo um tanto inseguro. A gravata da grifinória frouxa em seu pescoço, a mochila azul jogada sobre o ombro, a mão esquerda percorrendo nervosamente os cachos escuros.
— Sou bom em poções. — ele afirmou, dando de ombros, como se aquilo respondesse tudo.
— Quantas vezes eu vou ter que dizer que não quero a sua ajuda, Wood? — Albus gritou — Guarde essa pose de bom moço solicito para quem acredita nela e me deixe em paz.
O goleiro deu um passo para trás, como se o grito o atingisse como um soco. Um vestígio mágoa brilhou em seus olhos castanhos.
— Quer saber, Potter, você é um babaca. Um babaca maluco. Nem sei por que perco meu tempo com você. — Bradley disse, ao passar pisando firme pelos três.
— Imbecil! — Albus sibilou.
Scorpius e Rose trocaram um olhar receoso.
— O que diabos foi isso? — a garota perguntou.
— O Wood sendo um idiota, como de costume.
— Não, Al, você sendo um idiota. Ele estava sendo legal. Pelo menos, até você ser gratuitamente agressivo. — a prima o censurou.
— Legal? Ele estava claramente debochando de mim.
— Acho que não, Al. — Scorpius comentou, passando uma das mãos pelo pescoço — Acho que talvez, você esteja errado...
— Vocês vão ficar do lado dele. É isso mesmo? — Albus perguntou aborrecido, cruzando os braços sobre o peito.
— Não estamos do lado de ninguém. — o Malfoy tentou.
— Ah, pois eu estou, sim. Estou do lado do Wood nessa, porque você foi um idiota. Não vou ignorar, só porque somos amigos — Rose disse com firmeza — Já parou para pensar, Al, que talvez seu problema com o Bradley seja, na verdade, um problema com você mesmo? Que talvez você esteja projetando e descontando nele algo que é pessoal?
O primo a olhou incrédulo. Abriu a boca para dizer algo, contudo, não encontrou palavras. Então, apenas enviou um olhar feio para os dois amigos, antes de lhes dar as costas e sair furioso.
.
.
A pior parte de brigar com alguém era quando você sabia que estava errado. E, por mais que detestasse admitir, Albus sabia que Rose estava certa. Ou, em outras palavras, que ele estava errado. Sabia que a prima também estava correta sobre os motivos que o levavam a odiar Bradley Wood com tamanha intensidade. Pelo menos, entendia isso agora que a menina havia jogado a informação em sua cara.
Albus Potter tinha muitos problemas consigo mesmo. Mais do que poderia contar. E mais do que conseguia lidar sem perder a cabeça. Ele compreendia que tendia a exagerar, a explodir, a sentir as emoções como se elas fossem consumi-lo. E sabia racionalmente que a sua vida não era a pior do mundo, pelo contrário. Mas aos 15 anos a razão não importa muito e o mundo acaba toda semana. Aos 15 anos todo sofrimento é eterno e auto piedade é quase lei
Aos 15 anos, tudo o que Albus queria era ser bom em alguma coisa. E demorara muito para encontrar essa coisa. Algo que pudesse ser dele. Apenas dele. E quando finalmente conseguira... lá estava o Wood. Sendo tão bom quanto. Às vezes, até melhor. Sendo tão incrível que fazia com que todas as inseguranças do garoto gritassem dentro dele.
Não bastasse tudo isso, Bradley ainda tinha o péssimo defeito de ser malditamente bonito. Tão lindo que deveria ser um pecado. Aqueles cachos escuros, aqueles olhos castanhos, aquele maxilar forte, aquele sorriso perfeito, aquele corpo esculpido como uma estátua grega. Albus não queria perceber todas essas coisas, mas percebia. Fingia que não. Dizia a si mesmo que não havia nada acontecendo. Mentia para si mesmo. Reprimia todo vestígio de reconhecimento, todo pensamento, toda vontade de tocar e estar próximo, todo o desejo que pulsava dentro dele. Engolia, engolia, engolia, até que não aguentasse mais e tudo o que lhe restasse fosse vomitar raiva.
Bradley Wood fora a pessoa que apareceu em sua vida no instante em que ele achara que encontrara uma saída, algo seu, um talento único e mostrara ao Potter que ele nunca seria o melhor em nada. E Albus Severus o odiara por isso. E Bradley Wood também fora a pessoa que aparecera em sua vida, no instante em que ele começara a questionar sua ausência de interesse por garotas – algo que jamais admitira em voz alta –, e mostrara ao Potter que ele se atraía por garotos. E Albus Severus também o odiara por isso.
O rapaz, no entanto, acabara de perceber que Bradley Wood não era nada além de um espelho. Um reflexo distorcido. E a pessoa que ele estivera odiando por todo aquele tempo era a si mesmo. E Albus estava cansado de odiar e se odiar. Muito, muito, muito cansado.
Fale com o autor