Névoa Branca
2 Individualidades
Colocaram o celular para despertar as nove da manhã.
Natália o ouviu tocar, de longe. Sentiu umas dores no seu corpo. Abriu seus olhos. Estranhou. Ela estava deitada no banheiro, toda torta. Fez uma expressão de desentendimento e se levantou confusa. Foi andando em direção a sala, onde Bruce e Adrian dormiram. Adrian ainda estava enrolado nas cobertas. Bruce estava de pé, assustado.
Natália olhou para Bruce e ficou igualmente assustada quando o viu. Bem na frente do garoto, um copo de vidro cheio de água estava flutuando. Bruce não tirava os olhos do copo.
— Natália, você também tá vendo isso? — O garoto perguntou.
— É você que tá fazendo isso? — Indagou.
— Não sei, mas eu tô com medo de parar de olhar.
Nisso, ouviram passos de alguém vindo do quarto até a sala. Era a Bruna. Ela ainda estava bem sonolenta, veio esfregando os olhos e dizendo:
— Gente, eu tive um sonho muito louco. Sonhei que a Natália ficava sumindo e aparecendo em vários lugares da casa e o Bruce ficava levantando os móveis com o poder da mente.
Bruna olhou para os dois. Olhou para o copo. Olhou para Bruce. Bruce olhou para ela. O copo caiu. Adrian deu um pulo de susto ao ouvir o copo se quebrando. Gritou “Ayaya”.
Todos se sentaram no sofá e começaram a conversar. Bruce contou como sentiu um tipo de conexão espacial com o copo enquanto o olhava, parecia que ele o estava segurando com um tipo de braço invisível. Natália contou que havia acordado no banheiro, sem entender nada. Bruna explicou com detalhes seu sonho. Era extremamente confuso. Ela sonhou que dentro do sonho ela estava sonhando que Bruce e Natália tinham esses poderes. Que eles todos, incluindo o Adrian, estavam dentro de uma casa grande e lá com eles havia pessoas encapuzadas. E o sonho terminou com o Adrian dando a mão para o Cascão, da Turma da Mônica.
Bruce deu uma gargalhada e disse:
— Que caralhos está acontecendo nas nossas vidas?
Adrian se ajeitou no sofá.
— Parece que temos poderes. Vamos chamá-los de “Individualidades”! — Disse.
Natália olhou confusa para o garoto.
— É um negócio de anime... — Bruce explicou.
— Mas pera aí, então quer dizer que o Bruce é a Jean Grey, a Natália teletransporta, eu... tenho sonhos proféticos, e o Adrian, sei lá, o Adrian vira o Cascão.
— Eu não quero virar o Cascão... — Adrian pareceu borocochô.
— Não faço ideia do que a ... “Individualidade” do Adrian quer dizer, mas parece que nós três é isso mesmo. Será que tem algo a ver com a “Névoa Branca”? — Bruce indagou.
— Calma aí, gente. Vocês tão dizendo que nós temos “super poderes”, vocês têm noção do quanto sem sentido é isso? — Natália explicou.
— Mas nada tá fazendo sentido. As névoas de esperma, o desaparecimento de todo mundo... Nada tá fazendo sentido! — Bruce concluiu.
— Ok, levita o sofá então! Faz o sofá voar, quero ver! — Natália o desafiou.
Bruce franziu as sobrancelhas, cerrou os olhos. Colocou uma expressão séria no rosto. Estendeu sua mão direita para o sofá.
— Aaargh — Rosnou.
Levantou sua mão esquerda e continuou tentando e rosnando.
Natália, sentada no sofá junto de Bruna, olhou com olhar de desaprovação para o garoto. Bruce notou e se pôs a fazer ainda mais força. Ficou alguns segundos tentando. Rosnou mais alto. De repente o sofá começou a tremer calmamente, então mais forte, mais rápido, por fim flutuou uns vinte centímetros do chão.
Bruna e Natália gritaram de susto. Natália, assustada, acabou se teletransportando para o outro sofá o qual Bruce e Adrian estavam sentados. Bruce desviou o olhar do sofá para olhar a Natália repentina que apareceu do seu lado, assim perdendo o controle do móvel, o derrubando. Bruna gritou de novo e soltou alguns palavrões depois do sofá atingir ao chão com ela em cima.
Então todos se olharam boquiabertos.
— Ok, nós temos poderes! — Natália disse, finalmente acreditando naquela loucura.
— Individualidades... — Adrian sussurrou.
Decidiram tomar um café com bolachas para se preparem para o dia que teriam pela frente. Os objetivos eram dois. O primeiro era dar voltas pela cidade em busca de alguma pessoa, o segundo era entender como suas individualidades funcionavam, aprender a controlá-las.
Depois de tomar café já foram direto para o carro, sempre observando ao redor.
— Nós poderíamos dar uma passada no Shopping né? Se não tem mais ninguém no mundo, não seria roubo pegar umas roupinhas de lá. — Natália riu.
— Se não tiver mais ninguém no mundo mesmo, acho que tudo bem. Mas agora nós precisamos ir num posto de gasolina, meu carro precisa reabastecer. — Bruna concluiu.
Os quatro entraram no carro e foram para o posto de gasolina mais próximo. No caminho, Bruce e Natália debatiam que tipo de coisas eles gostariam de “pegar emprestado” dos Shoppings e supermercados.
Quando chegaram no posto, Bruna desceu do carro e disse:
— Ok, já vi muito em filmes como fazem para abastecer os carros, acho que consigo.
Nisso, Bruce e Natália saíram do carro rindo sapecamente enquanto se dirigiam para a lojinha do posto.
Adrian também saiu do carro, mas ficou fazendo movimentos estranhos e gritando palavras esquisitas.
Depois de alguns minutos, Bruce e Natália voltaram da lojinha com vários salgadinhos e doces, um maço de cigarro Black e nenhuma vergonha na cara.
Notaram o Adrian agindo estranho.
— Que que cê tá fazendo, maluco? — Bruce indagou.
— HYEAAA! — Adrian gritou. — Estou tentando liberar meus poderes. — O garoto movimentava seus braços para cima e para baixo.
Bruce e Natália resolveram ignorar Adrian.
— Natália, nós deveríamos tentar usar nossos poderes de novo. — Bruce disse enquanto abria um salgadinho Doritos e enfiava um punhado na boca.
— HYEAAAAAAAAA! — Natália gritou. Mas nada aconteceu.
Bruce olhou assustado para a garota.
— Acho que não deve ser assim... Que tal: HOOOOEIEIEI! — Bruce tentou, mas de novo, nada aconteceu.
— Ei, seus doidos, eu já abasteci o carro. Vamos! — Bruna disse enquanto já entrava no carro e ligava seu motor.
Rapidamente os outros três entraram no automóvel. Dividiram os alimentos que pegaram e acenderam um cigarro cada um.
— Até que estar sozinho no mundo não é tão ruim assim. — Bruce disse enquanto colocava suas mãos atrás da cabeça e tragava um cigarro.
— Hey, eu deixo fumar aqui dentro, mas se vocês derrubarem sujeira aqui dentro, vocês vão limpar com o cu! — Bruna estava nervosa.
O carro era seu xodó. Uma Pickup novinha na cor preta. Quer dizer, não era tão nova assim, mas a garota tinha tanto zelo com o carro que parecia ter sido comprado ontem.
— Agora a gente vai ficar zanzando por aí em busca de alguém? Eu queria ir no Shopping. — Natália estava com uma expressão de criança quando pedem algo para os pais.
— Hey, galera... Acho que a gente não vai ter que procurar muito não. Olha ali... — Adrian apontou para um canto da calçada, onde parecia ter uma pessoa coberta por jornais e um cobertor sujo. Dava para ver os pés dela para fora.
Bruna rapidamente encostou o carro e eles desceram correndo em direção a pessoa caída no chão da calçada. Se aproximaram, tentaram enxergar a pessoa, mas ela estava escondida na coberta e nos jornais.
— Cutuca ele... — Natália disse enquanto cutucava Bruce com o cotovelo.
— Que? Eu? Eu não! Vai que é um bicho com pés humanos, sei lá, um demônio do apocalipse.
De repente a pessoa ali deitada murmurou algumas coisas e deu uma ajeitada no corpo.
— Meu Deus, tá vivo! — Bruna sussurrou assustada.
Todos começaram a levemente empurrar Adrian, dizendo para ele ir e tirar a coberta da pessoa. Ele foi se aproximando. Cada vez mais perto, e com medo. Foi aproximando sua mão na coberta, lentamente. Antes que pudesse a retirar, a pessoa bruscamente levantou seu tronco, ainda ficando deitada, mas com a parte de cima de pé. Mirou nos pés de Adrian que estavam calçando grandes sapatos marrons e vomitou.
— QUE NOJO! ELE GORFOU NO MEU PÉ! — Adrian gritou e deu pulinhos para longe enquanto chutava o ar em busca de tirar os restos de alimentos do sapato.
Era um homem. Tinha aproximadamente uns sessenta e cinco anos, talvez menos, mas estava acabado. Era alto, tinha cabelos acinzentados e grandes. Sua pele tinha uma cor queimada, possivelmente por andar no sol por muito tempo. Seus olhos eram azuis e ele tinha uma verruga no meio da testa.
O homem limpou o resto de vômito da sua boca com a parte de trás da mão. Fungou o nariz e sentiu o cheiro do Doritos.
— Ei, Milady, a senhorita poderia me agraciar com um pouco deste alimento em suas mãos? — O homem dirigia a palavra a Natália.
Natália, meio assustada, estendeu a mão onde segurava o Doritos para o homem.
Ele pegou um bocado, comeu. Esperou ate engolir o último pedacinho, então agradeceu.
Tentou se levantar, mas parecia estar meio tonto e caiu sentado.
Bruce, Bruna e Natália se afastaram.
— Ei, Milorde, será que o senhor poderia me ajudar a levantar para que eu possa me desculpar devidamente por ter despejado resto de alimentos em seus sapatos? — Disse o homem olhando para Adrian.
Adrian, meio desgostoso, se aproximou do homem e o estendeu a mão. O homem a pegou e a usou para se levantar com mais firmeza. Uma vez de pé, balançou sua mão em forma de cumprimento para o garoto.
— Meu nome é Mendigo Carlos! — Disse.
— O meu é cidadão comum Adrian! — Balançavam as mãos.
Bruce então percebeu algo e falou alto:
— Adrian! Você está dando a mão para o Cascão!
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