Névoa Branca

3 Vodka Sabor Algodão Doce


— Puts, então é isso o que o meu sonho quis dizer? O Cascão é o Mendigo Carlos porque ele é sujismundo?

Os sonhos de Bruna pareciam agir de formas simbólicas. Os quatro entenderam isso e logo assimilaram as informações do sonho com o acontecido com o Mendigo Carlos.

— Suponho que isso signifique que o Mendigo Carlos vai ser uma pessoa importante pra gente então? — Bruce indagou.

— Mendigo Carlos, nos diga o que aconteceu! Por que todo mundo sumiu? O que são essas névoas brancas? — Natália perguntou fitando os olhos do mendigo.

O idoso esperou alguns segundos. Olhou para os lados, por fim olhou para Natália e disse:

— Como assim?

Todos ficaram surpresos e decepcionados ao mesmo tempo.

— COMO VOCÊ NÃO SABE? — Bruna gritou. — ONDE VOCÊ ESTEVE NOS ULTIMOS DIAS?

— Milady, eu me coloco a acreditar que eu estava a tirar uma soneca. — O mendigo respondeu.

— Uma soneca de uma semana? — Adrian indagou confuso.

O homem começou a gargalhar. Todos o olharam questionando sua sanidade.

— Uma semana? Pois me parece que o novo Corote Sabor Maracujá é dos bons mesmo!

— Você tava em coma alcoólico todo esse tempo? Você não viu NADA do que aconteceu? — Bruce perguntou, meio nervoso.

— Receio que não, Milorde.

Todos desanimaram. Por um momento acharam que tinham encontrado alguém que poderia os dar as respostas que precisavam, mas no fim, era só um bêbado qualquer.

— Bom, pra te situar: Todas pessoas da cidade, talvez do mundo, parecem ter desaparecido sem deixar rastros. — Bruce explicou.

— E os cachorros e gatos também! — Adrian acrescentou.

— Sem contar que surgiu névoas brancas em vários pontos da cidade e nós não sabemos o que elas são. — Bruna contou enquanto apontava para uma dessas tais névoas próximo a um poste ao lado do Mendigo Carlos.

O mendigo pareceu ter ficado preocupado. Ficou com uma expressão séria e então abaixou sua cabeça. Repentinamente olhou para uma névoa branca e pulou de encontro a mesma, gritando “Yupi”.

— O MENDIGO FICOU LOUCO! — Bruce gritou.

— ELE VAI MORRER! ELE ENCOSTOU NA NÉVOA! MEU DEUS DO CÉU! — Adrian estava perplexo.

Quando Mendigo Carlos entrou em contato com a névoa, ela se dissipou lentamente. Exatamente como se fosse uma fumaça sendo soprada pelo vento. Não teve nenhuma consequência ao velho, ele pulou saudável e saiu de dentro da névoa da mesma forma.

— Bom, pelo menos agora sabemos que a névoa supostamente não faz mal... — Bruce disse.

Decidiram chamar o velho Carlos para se juntar a eles. Parecia ser uma boa ideia permanecer juntos, já que o mundo estava misterioso e não se sabia os perigos que os aguardavam. Voltaram para a casa de Natália para que o homem tomasse um banho e para que todos colocassem a cabeça no lugar e decidir qual seria o próximo passo.

Por fim, decidiram.

— Acho que deveríamos procurar por pessoas em outras cidades. — Bruna disse.

— Mas acho que antes deveríamos passar em um lugar... — Bruce olhou sapecamente para a Natália, a qual respondeu com um olhar igualmente sapeca.

— SHOPPING! — Os dois gritaram.

Então lá eles foram. Por sorte estava tudo aberto e não tiveram que arrombar nenhuma porta. Foram direto para as lojas de roupa e foram pegando tudo o que fosse interessante aos olhos.

Mendigo Carlos vestiu um terno vermelho com uma roupa social preta por baixo, uma calça igualmente vermelha ao terno e um sapato preto social. Por fim vestiu um chapéu Fedora preto e finalizou o look com um relógio de ouro e um óculos de sol preto.

Bruna, com muito custo, conseguiu achar o vestido mais gótico do Shopping. Longo até os pés, com mangas esvoaçantes e uma cauda Vitoriana. Obviamente preto e com detalhes ainda mais pretos. Para finalizar o look, uma bota preta e um colar de pedras azuis escuro.

Adrian vestiu uma camisa longa e preta, por cima uma jaqueta de couro marrom. A calça também era preta e cheia de bolsos. De acordo com ele, bolsos nunca são demais. Colocou um sapato grande e marrom com cadarços confusos. Para finalizar colocou um colarzinho desses que pareciam ter sido feitos na praia.

Natália colocou um vestido curto, vinho e com um laço no meio dividindo seu tronco. O vestido era muito brilhante. Por cima um casaco preto com detalhes na manga. Calçou um tênis All Star preto e para finalizar o look uma bolsa branca de couro.

E por fim, Bruce. O garoto vestiu uma camisa rosa bebê com mangas esvoaçantes e de gola larga. Uma calça preta skinny e uma bota preta de salto plataforma. Colocou brincos de cruz pretas nas orelhas e encheu os dedos de anéis.

Bruce e Bruna também foram dar uma olhada nas maquiagens das lojas. Voltaram com uma make preta marcada nos olhos e Bruna também estava com um batom preto na boca.

Os cinco começaram a desfilar pelo Shopping como se fossem as pessoas mais estilosas do mundo, e na verdade talvez fossem.

Aí foram para várias lojas pegar outras roupas e acessórios. Pegaram várias comilanças no caminho, acessórios de cozinha, enfeites de casa, e diversas outras coisas. Tudo o que fosse interessante eles pegavam e levavam até o carro. Mendigo Carlos deu a ideia de também pegarem alguma bebida alcoólica.

Por fim voltaram ao carro.

— Eu quero beber essa Vodka Sabor Algodão Doce que a gente comprou. Deve ter gosto de unicórnios! — Adrian disse maravilhado.

— É, mas tá quente. E eu não faço ideia de como a gente vai congelar isso aí se não temos energia elétrica. — Natália explicou.

— Pois eu bebo quente mesmo! — Disse Mendigo Carlos enquanto revirava as sacolas em busca da garrafa. Por fim achou, abriu, e se pôs a beber.

Todos olharam para ele com certo desconforto. Ele bebia aquilo como se fosse água.

— Tem mesmo gosto de unicórnio! — Mendigo Carlos deu uma pausa de beber e arrotou. Quando arrotou, algo inesperado aconteceu.

Uma brisa gelada saiu de sua boca e congelou a garrafa de Vodka Sabor Algodão Doce que estava em sua mão. Congelou não da forma que se congela no congelador, mas sim como um cubo de gelo envolta da garrafa.

— VOCÊ ARROTA O POLO NORTE! — Adrian gritou.

— QUE CONVENIENTE! — Bruce também gritou.

— Essa é sua individualidade, Carlos? — Natália perguntou ao mendigo.

Ele ficou confuso, olhou para a garrafa com certa tristeza.

— Foi a minha pessoa que fez isso?

— Ah, esquecemos de te contar que desde quando tudo isso aconteceu na cidade, nós quatro, quer dizer... Nós três, ganhamos uns tipos de habilidades estranhas. — Bruna explicou. Adrian se sentiu triste novamente por ainda não ter descoberto sua individualidade e na verdade nem saber se de fato ele tem uma.

— Então eu arroto gelo? — Mendigo Carlos perguntou.

“Arrotar?” Bruna pensou.

— Bruce, da vez que você usou sua individualidade você não estava rosnando? — Bruna indagou.

— Acho que sim... — Bruce respondeu meio confuso.

— E se essa for a forma que ativa seus poderes? Tipo, e se você precisar rosnar pra poder levitar as coisas? Assim como o Mendigo Carlos teve que arrotar. — A garota explicou.

Todos ficaram pensativos.

— Grrrraarrr! — Bruce começou a rosnar enquanto olhava para a garrafa de Vodka Sabor Algodão Doce.

Todos olhavam para Bruce esperando que algo acontecesse.

— GRUAAAARRRRUUU! — Bruce rosnava mais alto e mais forte enquanto levantava sua mão em direção a garrafa de Vodka Sabor Algodão Doce.

Depois de alguns segundos rosnando, a garrafa de Vodka Sabor Algodão Doce começou a vibrar. Mendigo Carlos foi a soltando lentamente, e logo Bruce tinha controle dela totalmente.

— Parece que eu estou a segurando com uma mão invisível! — Bruce disse.

Direcionou o objeto para esquerda e para direita, para baixo e para cima.

— Estou conseguindo!

O objeto começou a cair lentamente.

— ROSNE, BRUCE! ROSNE! — Natália gritou.

— GRAAAAAAAAAAAAUUUUU! — Bruce rosnou o mais forte e alto que conseguia. A garrafa de Vodka Sabor Algodão Doce vibrou fortemente e por fim explodiu, espalhando vidro, gelo e líquidos alcoólicos por todo o canto.

Todos se assustaram.

— MINHA GARRAFA DE VODKA SABOR ALGODÃO DOCE NÃO! NÃAAOO! — Mendigo Carlos gritou desesperadamente.

— Uau! Que que foi isso?! — Bruce estava empolgado. — O que será que você precisa fazer pra liberar seu poder, Natália?

Natália começou a pensar e por fim chegou à conclusão:

— Eu estava assustada quando eu teletransportei. Será que é isso? Medo? Susto?

— E como você vai ativar isso a hora que quiser? A gente vai ter que ficar te assustando? — Bruna indagou.

Nisso, Mendigo Carlos juntou os gases de seu estômago e começou a arrotar sem parar, congelando o ar a sua frente. Bruce começou a rosnar e levitar latinhas de cerveja em direção a Carlos para que ele as congelasse. Ficaram brincando assim até todas as latinhas acabarem.

Depois de toda essa descoberta, os cinco voltaram para a casa de Natália para guardar tudo o que haviam pego no Shopping. Eles passaram o dia todo fora de casa, já estava começando a anoitecer.

— Galera, acho melhor a gente ir viajar pra outra cidade amanhã. Nós ainda não sabemos o que está acontecendo e eu não quero passar medo na estrada de noite. — Natália fez a observação.

Todos concordaram. Passaram o resto da noite conversando e comendo. Por fim foram dormir.

“Eu estou sozinha. Não. Agora estou com eles. Os quatro. Bruce está levitando uma faca prateada. Natália está teletransportando pelos cantos da sala com várias facas na mão. Agora estou eu, Adrian, Carlos e Bruce. Cadê a Natália? Espera, onde está o Bruce? Está tudo escuro aqui. Eu, Adrian e Carlos.

Onde eu estou agora? Uma mansão? Não. Uma igreja. Tem um homem na minha frente. Ele está sorrindo. Quem é ele? Agora tem mais pessoas com ele. Estão vestindo roupas amarelas. Todos eles.

Agora eu estou na frente da igreja. Tem algo escrito numa placa na minha frente. Não consigo ler. Tem sangue na placa. Muito sangue. Eu limpo o sangue. Está escrito... Cachoeira Paulista? Sim. É isso! “

Bruna sonhou.