Jirou e Bakugou estão mais briguentos do que nunca. Nos últimos dias as brigas por motivos fúteis tem aumentado exponencialmente. Para surpresa geral, é Jirou quem as tem começado. Apesar da língua venenosa da garota sempre se provar ser o principal motivo das discussões, agora era ela quem também começava os ataques físicos.

Ela estava mais carinhosa também. Não se pode negar.

Os dois estavam agora acostumados com toda a encenação grudenta que acabaram por fazê-la sem nem sentir. Contudo, houve algumas mudanças gritantes nos últimos dias, todos perceberam. Os toques estavam mais sutis.

Embora ambos ainda rolassem no chão se enforcando por alguns segundos, logo em seguida Bakugou estava afastando o cabelo de Jirou do rosto; ou ela estava brincando com as vigas da camisa dele; ou eles estavam rindo de algo completamente diferente. O fato é, eles ignoravam todos ao redor quase 80% do tempo em que começavam a conversar entre si.

Por isso ninguém ficou surpreso quando Jirou acertou Katsuki nos ombros com seus fones, fazendo o garoto atacá-la no sofá. Kirishima, Kaminari e Sero, que estavam conversando no sofá ao lado, nem sequer se deram ao trabalho de olhar quando Kyouka começou a gritar para que Katsuki a soltasse. Pelo menos não até Bakugou soltar um ganido agudo, tão dolorido que os três sentiram um calafrio percorrer a espinha.

— Puta merda, Bakugou, foi sem querer, me desculpa, desculpa, desculpa – Jirou suplicou sem saber muito bem o que fazer.

No meio da briga, enquanto Jirou chutava tentando se soltar, ela o acertou entre as pernas. Agora Bakugou estava pálido. Ele colocou as mãos no local para conter a dor e ficou quieto, curvando-se sobre ela lentamente, apoiando a testa na clavícula da garota punk e murmurando alguns palavrões com a voz tão fraca que mal se podia ouvir.

— Você tá bem? — Jirou perguntou preocupada, erguendo o tronco.

— Fica quieta, Orelha. – Katsuki rosnou — Porra, isso dói – Ele acrescentou com esforço.

— Me desculpa, me desculpa – Jirou continuou, sem mover-se dessa vez – Eu não fiz de propósito.

— Eu sei, agora fica quieta!

— Bro, você consegue levantar? – Kirishima perguntou, agora todos estavam se aproximando dos dois.

— Não – Foi a resposta dolorida de Bakugou.

— Tudo bem, tudo bem. — Jirou consolou-o um pouco nervosa — Leve o tempo que precisar – Ela acrescentou passando a mão nos cabelos dele.

Nesse momento de dor e sofrimento para Katsuki, Yaoyorozu e Todoroki estavam voltando do costumeiro passeio que os dois faziam algumas vezes na semana juntos.

— Mas… quê? — Todoroki exalou confuso.

Não era para menos. Jirou e Bakugou estavam deitados no sofá, Katsuki entre as pernas de Kyouka com o rosto enterrado entre os pequenos seios da garota, enquanto ela segurava seus cabelos.

— Jirou chutou as bolas de Bakugou e agora ele mal consegue se mexer — Kaminari explicou segurando o riso.

— Foi culpa dele! — Jirou defendeu-se apreensiva.

— Foi você quem começou, porra! — Ele berrou de volta, levantando a cabeça e logo se arrependendo do movimento

— Você quem tentou me prender!

— Porra, eu nunca mais vou conseguir andar — Bakugou suspirou lentamente apoiando o queixo um pouquinho em Jirou, fazendo o mínimo de movimento possível.

— Me desculpe, ok? Não foi sua culpa, não foi minha culpa. Foi um acidente — Kyouka choramingou culpada, ainda afagando o cabelo dele. — Você acha melhor ir até a Recovery Girl? — Ela sugeriu acariciando o rosto dele com o polegar.

— Só me deixe respirar e eu vou ficar bem — Ele resmungou fazendo beicinho e inclinando o rosto para a mão dela.

— Pessoal, vão para um quarto — Sero brincou.

Tanto bakugou quanto Jirou o encararam. A próxima coisa que todos lembram é de Sero choramingando no chão e os fones de Jirou sibilando em volta do rosto corado da garota.

— Diga isso de novo e eu arranco seus olhos! — Kyouka ameaçou furiosa retirando Bakugou de cima dela com o máximo de cuidado que conseguia.

Katsuki sentou no sofá com as pernas bem abertas e as mãos largadas na base do abdômen, os olhos estreitos e os ombros tensos. A garota punk subiu para o quarto fumegando de tão possessa pela raiva e vergonha.

— Cara, nem eu sou tão burro de falar alguma coisa assim para Jirou — Kaminari declarou colado ao sofá, com medo de sobrar para ele.

— Cara de Fita — Bakugou chamou lentamente — assim que eu terminar aqui, você tá morto.

Houve um segundo de silêncio antes de Sero correr como nunca na vida.

**********

Passado mais uma semana, Bakugou estava saindo do vestiário com Kirishima após a corrida que costumavam fazer todas as manhãs. Geralmente não havia muitas pessoas ali esse horário, estavam quase todos acordando agora.

Como de costume, Iida e Midoriya já estavam na sala comum, depois de terem tomado café. Ojiro estava na cozinha e... Jirou saindo do elevador?

— Caiu da cama, Orelha? — Katsuki provocou aproximando-se, Kirishima seguindo-o.

— Quase, Momo me chutou para fora. Literalmente. — Ela respondeu com o mesmo tom brincalhão — Ontem fizemos uma “festa do pijama”. Então todo mundo dormiu no quarto da Momo, ela acorda cedo e tentou sair sem me acordar, mas não deu muito certo — Jirou suspirou. Primeiro por estar acordada antes do planejado e porque… Momo acabou acordando-a porque estava muito colada à Kyouka para sair sem movê-la — As outras garotas ainda estão dormindo.

— Você não parece muito acordada também — Ele alfinetou cutucando-a na bochecha.

— E foi por isso que eu vim aqui primeiro, eu preciso de café — Ela choramingou se encostando nele com os olhos semicerrados.

— Ei, porque você está cheirando a chocolate? — Ele perguntou afastando-a pelos ombros e fungando em torno dela.

— Ah, é um dos cremes da Yaomomo. — Kyouka meneou esfregando os olhos — Todas as garotas vão estar cheirando assim hoje — Ela contou com um sorriso brincalhão — Claro, até todo mundo tomar banho.

— Porra, as formigas não te atacaram? Essa porra parece boa — Bakugou segurou ela pelo queixo e cheirou o pescoço dela como quem avalia algo realmente sério.

— Sai daí, isso faz cócegas — Ela brincou empurrando-o e encolhendo o pescoço.

Bakugou não deixou ela se afastar tanto assim.

— Qual o gosto disso? — Ele perguntou antes de literalmente lamber.

Jirou retesou a coluna e os fones ficaram em pé e espetados.

— V-você acabou de me lamber?! — Ela inquiriu incrédula.

— Porra, tem um gosto amargo, tipo leite azedo — Bakugou estava limpando a língua com uma careta.

— Você é o cara mais estranho da face da terra. — Kyouka constatou embasbacada — E Midoriya quebra os próprios ossos, então esse título quer dizer alguma coisa — Ela declarou séria e com uma expressão de estranheza enquanto apontava para Midoriya.

— Espera, Bakugou acabou de lamber você e você não está brava? — Kirishima perguntou segurando Katsuki pelos ombros.

— ele provou hidratante. É como quando kaminari mordeu minha caneta, é ruim, mas é idiota demais para eu me importa — Kyouka explicou com um olhar inexpressivo, então ela olhou para Bakugou e sorriu diabolicamente — Você chegou ao mesmo nível do Kaminari.

— Retire o que disse, Orelha, agora! — Katsuki berrou erguendo um punho

— Bakugou, como você se atreve a roubar do Kaminari o título de idiota do ano? — Ela debochou com uma ofensa fingida.

Katsuki rosnou antes de correr para pegá-la. Kirishima suspirou ao pensar que era muito cedo para lidar com esses dois quando viu Jirou corria para a cozinha.

— Parem com isso, os dois! — Iida gritou levantando-se do sofá.

Os dois pararam. Contudo, por outro motivo. Ao lado da entrada da cozinha havia uma caixa grande com dois palmos de altura, mas bem larga, da cor roxa e com um papel dobrado em cima, o que chamou a atenção dos dois.

— O que é isso? — Eles perguntaram ao mesmo tempo.

— Chegou hoje para você Jirou, é da sua mãe — Iida explicou ajustando os óculos.

— Ah sim, deve ser sobre a homenagem do meu velho — Ela imaginou com indiferença e pegou a caixa.

— O lance sobre a premiação que você falou que é no sábado? — Bakugou questionou olhando curioso.

— Não é uma premiação. É uma homenagem, é diferente.

— O que é, Jirou? — Kirishima também queria saber.

— As bandas para quem ele compõe se uniram para homenageá-lo porque muitas músicas dele receberam prêmios, então vão dar uma festa e tudo mais. — Ela abriu o cartão e leu — Não disse, mamãe quer que eu vista isso no dia. É só.

— O que ela quer dizer com ‘mostre o seu material do seu pai’? — Kirishima perguntou apontando para o bilhete que, tanto ele quanto Bakugou, leram sem a menor cerimônia.

— Ela quis dizer para eu deixar meu cabelo como o dele. É praticamente a única coisa que eu herdei do meu velho. — Kyouka encolheu os ombros — Eu geralmente aliso porque se não fica uma bagunça e eu não tenho paciência de cuidar dele.

— Espera aí. — Bakugou estreitou os olhos — Espera só um pouco. Você tá me dizendo que esse não é o seu cabelo? — Bakugou piscou pegando uma mecha do cabelo da Jirou.

— Claro que é, cinco segundos como o idiota do ano e você já quer virar o idiota do século? — Jirou provocou, recebendo um puxão no cabelo de Bakugou — Ai! Não, seu idiota. Meu cabelo não é liso como o da minha mãe, é enrolado como o do meu pai — Ela respondeu tirando bruscamente a mecha das mãos violentas de Bakugou. — Mas é um saco lidar com eles. Ou ficam uma bagunça ou não ficam no lugar, dá muito trabalho para definir e vivem embaralhando, então eu aliso e nem sequer preciso pentear. Satisfeito agora?

Apesar de ser uma resposta mal-humorada, foi bem explicada. Então Bakugou ficou satisfeito. Depois disso, os três decidiram tomar café antes de prepararem-se para a escola e o assunto ficou esquecido pelo resto da semana.

Especialmente porque, no dia seguinte, Kirishima se comportou estranho no vestiário. Fazia algum tempo que ele parecia um pouco estranho, às vezes tinha a sobrancelha franzida, como se pensasse muito sobre algo que o incomodava, o que não acontecia com frequência. O ruivo sempre sustentava um grande sorriso e era muito sincero.

Por esse motivo katsuki decidiu perguntar o que estava acontecendo. O pequeno tubarãozinho resistiu à princípio, porém, quando viu que Bakugou não o deixaria ir sem uma explicação, Kirishima o fez prometer que não riria dele.

— Só diz logo essa merda!

— É só… bem, parece que você não está muito interessado em ser meu amigo — Kirishima confessou esfregando a nuca — Toda vez que Jirou aparece você corre para ela, nem que seja para vocês brigarem. Eu me sinto… um pouco deixado de lado quando vocês estão juntos, como se estivesse atrapalhando.

Bakugou não conseguiu evitar que seu queixo caísse. Toda essa história realmente estava funcionando! Para falar a verdade, ele já tinha até abandonado esse plano, ele realmente só ainda abraçava Jirou porque ele se acostumou mais do que devia. Kirishima finalmente estava demonstrando algum interesse que não podia ser só de amizade, podia?

— Isso é burrice, Cabelo de Merda — Ele bufou antes de respirar fundo. Quando ele prendeu a respiração? — Eu não trocaria você por ninguém, seu idiota — Por que ele não consegue não xingá-lo?! Ele precisava se acalmar. Talvez esse fosse o momento, ele precisava jogar as cartas, havia uma chance maior que zero dele ser correspondido, ele tinha que arriscar! — Eu nunca faria isso porque… porque… — Bakugou reuniu todas as suas forças, afastando um pouco as pernas e apertando os punhos para ganhar coragem ele decidiu falar — Porque eu gosto de você, Kirishima.

— Eu também gosto de você, Bro! — Kirishima sorriu calorosamente antes de passar o braço em volta de Katsuki.

Bakugou piscou um pouco antes de perceber que o ruivo estava falando sobre o treino do dia. Por quê? Por que ele tinha que gostar desse imbecil?

— Caralho, você é muito burro mesmo — Katsuki suspirou esfregando seu rosto — Você alguma vez já pensou em alguém pelo lado romântico, Cabelo de Merda?

Ok, essa era uma pergunta retórica. Bakugou só estava desabafando para o vento sobre a sua má sorte, ele não esperava a reação exagerada de Kirishima.

— S-sim, mas não conte para ninguém — O ruivo corou furiosamente e se afastou do amigo, encolhendo-se e esfregando o pescoço — E-eu gosto muito de… uma pessoa, mas nós somos muito próximos — Kirishima olhou Bakugou de relance e corou um pouco mais — Eu não sei se eu realmente gosto, ou se eu só acho que gosto. Então… eu não sei como se sinto direito. Por isso eu tenho medo de dizer e estar confuso.

— Só diga, porra! — Bakugou berrou mais rápido do que pretendia. Mas o que ele poderia fazer?! Ele estava sentindo o sangue subir para o rosto só de pensar que poderia ser ele.

— Talvez… talvez você esteja certo — Kirishima murmurou ainda em dúvida — Eu vou pensar sobre isso.

****

Meia hora depois, Bakugou estava arrastando Jirou pelo braço pra escada do dormitório feminino. Era o lugar privado mais perto que eles encontrariam até o toque de recolher. — Kirishima gosta de mim — Ele sussurrou tentando conter a bagunça que ele tinha na cabeça.

— Quê? Isso é ótimo! Ele confessou? — Kyouka reagiu depois de um breve choque e de piscar com força algumas vezes.

— Não, ele disse que tinha medo de dizer e que achava que estava confuso.

— Quê? Não entendi nada — Ela estreitou os olhos tentando compreender a informação.

— Ele disse que gosta de alguém muito próximo e ficou me encarando, e disse que não sabia como se sentia direito. Quer dizer, é meio confuso no começo certo? Eu fiquei meio zoado quando percebi que tava gostando de um cara — bakugou tagarelou encarando suas mãos agitadas.

— Ok, volta a fita e me explica isso direito — Jirou pediu depois de sacudir a cabeça um pouco.

— Eu não quis atrapalhar, eu só ia subir, eu não vi nada! — Antes que Bakugou pudesse continuar, eles foram interrompidos por Uraraka, que agora estava agitando os braços na frente e com um rubor no rosto.

— Que porra você tá falando, Cara Redonda?! — Katsuki urrou para a garota que saiu correndo, envergonhada. Com toda a certeza de que havia interrompido os dois em um momento de casal (Eles estavam muito próximos, mas, sério, Uraraka?).

Antes que Bakugou pudesse correr para atacar a garota, Jirou puxa-o pelo braço.

— Me explica isso direito depois, ok? — Ela pediu antes de sair também.

Katsuki a seguiu, o que foi um pouco estranho. Porque Uraraka ainda estava agindo como se tivesse acabado de vê-los engolindo a cabeça um do outro de tão corada. Então os dois logo atrás, agindo com certa indiferença, porém juntos.

Eles se encontraram depois do toque de recolher e Bakugou conta com detalhes toda a conversa que teve com Kirishima. Ele estava tão concentrado no assunto que não percebeu que Jirou estava se desvencilhando dele sempre havia uma oportunidade.

— Sabe, eu perguntei do Kiri uma vez, claro, brincando, se ele não gostava de caras — Kyouka começou esticando os braços para frente e, discretamente afastado os de Bakugou de si — Ele disse que nunca tinha parado para pensar nisso e não deu muita importância. Talvez ele esteja percebendo agora e.. sabe, só precise de tempo para processar a sexualidade dele.

— Hm. Deve ser — Katsuki suspirou e recostou a cabeça no sofá.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, Jirou encolheu as pernas, afastando-se um bom espaço de Katsuki antes de se pronunciar.

— Bom, eu acho que é isso, certo? Tem mais alguma coisa para me contar?

— Não. E você? — Bakugou levantou a cabeça e a fitou curioso.

— Não. Então eu acho que vou indo — Ela ponderou descendo as pernas.

— Ei, Orelha — Ele chamou, Jirou respondendo com um gemido enquanto levantava-se — Se não fosse por você, essa história não ia estar acontecendo. — Era a forma mais decente de Bakugou dizer obrigado — É bom saber que tem alguém que faria alguma merda por mim. Você é uma boa amiga. — Ele agradeceu puxando-a novamente para seu colo.

— Ahn, de nada. Eu acho — Ela disse, tentando sair dali — Você não precisa agradecer.

— Porra, precisa sim, agora fica quieta — Ele bufou uma risada e a apertou pela cintura e beijou-a no pescoço — Eu te devo uma. Você só tem que pedir.

— Então eu vou pedir para me deixar ir? — Ela brincou com uma risada nervosa.

— É sério, porra — Ele estalou sacudindo-a — Você não precisava ter feito tudo isso, e ainda assim fez. — Ele afastou o cabelo dela para que pudesse vê-lo mesmo com a pouca luz — Então para de frescura e aceita meu agradecimento direito — Ele enterrou o nariz atrás da orelha de Jirou e ficou ali, silenciosamente a agradecendo.