Notas iniciais
Maaais um, agora POV Cobra. Eu fico muito feliz com os comentários e por voces favoritarem e acompanharem a história!!! Gostaria de saber: o que voces acham que a Karina está pensando disso tudo??

Senti a respiração descompassada de Karina atrás de mim. Ela tremia de nervoso. Em poucos passos, Gael posicionou-se na minha frente com punhos cerrados e uma cara nada amigável.

Eu tinha medo de Gael. Mas não um medo de apanhar ou de machucar, pois esse era o medo que eu sentia de Lobão. Eu tinha medo de decepcioná-lo, de ouvir umas verdades da boca dele. Por mais que eu não fosse mais seu lutador, minha admiração e meu respeito jamais mudaram. E depois de tudo que eu aprontei, sabia que a confiança de Gael em mim estava muito ameaçada. E naquele momento, qualquer ato desastroso poderia cortar o pouco de relação de respeito que nos restava.

Eu precisava me acalmar, respirar fundo. E assim eu fiz.

– Soube da história e vim dar uma força. – comecei devagar, tentando não ser irônico como eu sempre era – só isso, Mestre. Karina é minha amiga, o senhor sabe.

Ainda nervoso, Gael estendeu a mão para Karina.

– Filha, vem pra cá – pediu ele, o que Karina prontamente obedeceu, abraçando-se a ele – e você, Cobra, faz favor de não ficar colocando as mãos desse jeito na minha filha no meio da praça.

– Nunca colocaria minhas mãos na Karina. Não é mesmo, K?

Maldito sangue ruim. Maldita boca. Aquilo tinha saído antes que eu pudesse me controlar. Karina se encolheu mais no peito do pai e aquilo me fez ter ódio de mim mesmo. Qual era o meu problema? Anos usando a maldita da ironia para me defender, talvez. Gael continuou me olhando feio, claramente desconfiado.

– Não quero você rondando ela por aí. Se quiser conversar com ela, é dentro da minha academia. Embaixo do meu teto, onde eu possa te ver.

– O senhor permite?

Gael pensou um pouco. Sabia que de uma maneira torta, ele ainda confiava em mim. Não importava o que aquele descabelado desafinado dissesse. Seus ombros relaxaram e vi com clareza sua guarda baixar para mim.

– Sim.

Olhei para o guitarrista, pois sabia que ele estava atento à conversa, a poucos metros de nós. Sua cara de desapontamento com Gael era impagável. O moleque bufava de ódio.

– O senhor permite que eu vá agora?

– Sim, se a Karina quiser – Gael desencostou-se da filha, mas ela ainda continuava de costas para mim – Topa?

– Não quero ir pra lá, pai. Muita gente vai comentar – disse ela em um sussurro.

Sabia que ela estava com medo de mim. De eu aterrorizá-la enquanto Gael achava que estávamos apenas conversando.

– Que tal na sua casa, K? – Gael ficou vermelho e ergui as mãos em rendição antes que ele explodisse – calma, Mestre. A Bete, a empregada, fica lá não fica? Ela vigia. Não que precise.

Karina abaixou a cabeça.

– Pode ser. Ligo pra Bete da academia. Você tem vinte minutos por hoje, Cobra. E nada de gracinha.

– Pode confiar, Mestre – respondi – mas a Karina ainda não disse se quer conversar comigo.

Karina nada respondeu, apenas deu um beijo na bochecha do pai, acenou para Dona Dalva e foi em direção a casa dela. Gael me olhou torto e também seguiu para a academia. Segundos depois, Pedro se aproximou.

– Gostou do meu poder de persuasão, guitarrista? Vai aprendendo. Se bem que pra um cara que descolou uma grana daquele jeito, isso é o que não falta, não é mesmo?

– Cala a boca, Cobra. Gael pode estar confiando em você agora, mas sei que uma hora ou outra você dá um jeito de estragar tudo. E pelo menos ele está avisado.

Gelei.

– O que você falou, seu moleque?

– Tranquilo – Pedro sorriu cínico – não saio falando pros outros as intimidades da Karina, como você faz. Eu só falei que agora que a Karina está solteira, ele precisa ficar mais esperto. Falei também aquilo que você sempre deixou bem claro: que sente atração por ela. Quem quem sabe agora, com ela livre, você poderia se aproximar.

Mas aquele moleque fracote estava se saindo melhor que a encomenda. Quando que eu iria imaginar que o musico de quinta também sabia ter estratégias como aquela? Eu podia ver o cérebro dele trabalhando a todo vapor para me ferrar de alguma maneira.

– Bela jogada. Tentando me colocar contra o pai da moça. Que sacada inteligente. Já estava começando a achar que você não pensava. Estou orgulhoso. Mas agora se me permite, vou lá conversar com a Karininha. Dar um abraço, dar uns conselhos. Quem sabe ela não se empolga e até deixa eu consolar ela de outra maneira.

Pedro sorriu como se aquilo não o afetasse, mas eu sabia que afetava. E fazer isso com ele, depois daquela cena ridícula, era demais.

– Você é ridículo, Cobra. Por que você não volta para aquele muquifo e deixa a Karina em paz?

– Justo lá, onde mais tem o cheiro dela? Se quiser pode ir lá dentro chorar abraçado na camisa enquanto eu fico com ela. Ou quem sabe com o lençol.

– Você trata a virgindade da Karina como uma piada. Tenho certeza que se ela pudesse voltar atrás, jamais teria se entregado pra você.

Foi minha vez de sorrir fingindo que aquilo não tinha me afetado.

– Pode até ser. Mas é como diz aquele ditado antigo: há quatro coisas que não voltam atrás: a flecha lançada, a palavra falada e o tempo perdido.

– São três coisas, Cobra.

– São quatro. Estou acrescentando na lista a virgindade da Karina – Pedro quase convulsionou de ódio na minha frente – Gente boa, até mais, Fui.

Dei as costas e segui para a casa de Karina, tentando mostrar confiança. Quando estava a uns bons metros longe de Pedro, comecei a andar mais devagar, pois precisava pensar no que diria a ela. Com certeza ela estava arrasada e eu não poderia terminar de acabar com ela. Depois de um tempo queimando neurônios, cheguei a conclusão que não tinha como montar um discurso, pois eu não sabia nem o que era apropriado falar. Decidi que era melhor basear minhas falas de acordo com as reações dela.

Bete abriu a porta para mim, sorridente. Essa também confiava em mim: ponto.

– No quarto – me deu passagem e me apontou o corredor – seu Gael quer que eu vigie, mas sei que não precisa. Tenta animar minha menina.

– Pode deixar, e obrigado.

Bete foi para a cozinha e eu me dirigi até o quarto dela. Abri a porta devagar e me deparei com a cena mais fofa do mundo: Karina encolhida na cama, com fones de ouvido, cantarolando de olhos fechados e abraçada a um bicho feio de pelúcia, verde. Fechei a porta, me aproximei devagar e sentei na beirada da cama. Ela notou minha presença. Sentou-se encostada na cabeceira, abaixou os fones. Não me encarava e parecia determinada a olhar apenas para a pelúcia.

– O que você quer, Cobra – começou ela.

– Conversar – respondi, calmo – mas antes de mais nada, quero que você olhe pra mim.

Karina respirou fundo e seus olhos incrivelmente azuis encontraram com os meus. Eu via dor, decepção, raiva, ódio. Misturado com algumas lágrimas que começaram a aparecer.

– Sua cabeça deve estar uma confusão tremenda. Muita coisa aconteceu nas ultimas horas – ela concordou com a cabeça – e imagino que parte da sua mágoa seja por causa do que eu te disse... antes de você ir embora.

Karina enxugou as lágrimas com as mãos. Minha vontade era de coloca-la no meu colo e eu mesmo limpar aquelas gotas.

– Cobra, eu não sou uma vagabunda.

Fiquei surpreso com aquilo. Pelo jeito que aquilo foi dito, parecia que Karina tentava também se convencer disso. Como se duvidasse de seu próprio caráter.

– Claro que não é – não resisti e me aproximei um pouco dela, mas sem tocá-la – você sabe que não. Agiu por impulso porque estava magoada, mas não porque é uma vagabunda.

Karina agora soluçava.

– Mas eu dei pra você. Cobra, eu sonhava com aquilo. E foi daquele jeito tão... – Karina ia desabafar, mas então ela percebeu que o decepcionado agora era eu. Não consegui disfarçar minha cara de angústia. Sabia que ela havia detestado, que sentia nojo do que fizemos – não quero te ofender. Mas você sabe que eu penso em sexo de uma forma diferente.

Sexo para mim sempre foi diversão. Perdi a virgindade com 13 anos, numa madrugada de sexta feira. A escolhida foi uma amiga da minha mãe: trinta anos, enfermeira, gostosa, traia o marido mais do que era possível. Transamos dentro do carro dela mesmo, um Gol vermelho. Depois daquele dia, não parei mais. Me aprimorei com as mais velhas, gostava de aprender e elas também eram mais fáceis de seduzir. Por volta dos dezesseis, comecei a ser mais seleto. Queria meninas da minha idade. Com o passar do tempo, descobri as “novinhas”. Elas se tornaram minha especialidade: ingênuas, puras, meia dúzias de palavras falsas sobre amor eterno, casamento e filhos eram suficientes. Não sei se hoje me orgulho disso. Afinal, eram moças que realmente acreditavam nessas baboseiras. Criadas em uma cidade pequena, sem informação e sem noção que existem pessoas de má índole. Má índole, assim como a minha. Depois que mudei para a capital, as coisas complicaram um pouco. Aqui haviam vários homens, as mulheres não eram ingênuas e o pior: são elas que selecionam por aqui. As bonitas, pelo menos.

Fábio, um amigo de infância, sempre me disse que um dia eu iria descobrir a diferença entre transar e fazer amor. Jamais acreditei nele. No final era tudo sexo. Era preciso variar o corpo, o rosto... mas era tudo sempre igual. Não havia motivo para ser diferente com alguém.

Depois de muito pensar, cheguei a conclusão que Karina havia mexido comigo apenas por dois motivo: o primeiro era que fazia tempo que eu não conseguia uma menina nova, inexperiente e pura que nem ela. Foi novidade naquela cidade. Além disso, Karina sempre me despertou um certo tesão por ser tão proibida. Eu apenas havia saciado a minha vontade.

Era isso. Nada mais. Mas uma coisa eu não poderia negar: havia sido maravilhoso, pelo menos para mim. Mesmo não sabendo nada, Karina e suas reações eram deliciosas. E eu realmente havia me esforçado para fazer com que aquilo fosse bom para ela também.

– Eu fiz de tudo para ser carinhoso, K. De verdade. Não levo jeito para esse lance, mas fiz o que pude. Não foi a primeira vez dos seus sonhos porque não foi com quem você ama, não foi em um lugar bom. Mas não queria que você ficasse com uma lembrança ruim. Afinal, foi sua primeira vez. Você não foi mais uma pra mim. Eu gostei, de verdade.

– Perto das que você deve transar, eu devo ser uma decepção – falou ela, sem graça.

– De aparência ou de desempenho?

– Dos dois.

Sorri. Por mais que tudo apontasse o contrario, Karina jamais entenderia que era linda e muito desejável. Mesmo ali, despenteada, com cara de choro e sem vaidade alguma, ela conseguia me deixar com vontade de transar com ela de novo.

– Foi sua primeira vez, bom desempenho vem com experiência – ela sorriu – e você é muito gostosinha, se quer saber.

Karina ficou mais vermelha do que um tomate. Para não ter que me encarar, voltou a brincar com a pelúcia.

– E esse bicho feio? – perguntei finalmente, apontando para o bichinho.

– Não fala assim do Flux – respondeu ela abraçando o urso – foi um presente do Pedro. Nunca gostei desses bichinhos, achava cafona e coisa de menina tosca. Mas eu preciso de alguma coisa para chorar em cima, e eu só tenho essa pelúcia.

Assenti com a cabeça. Haveria sempre algo dele perto dela e aquilo me irritava muito. Levantei e espreguicei o corpo. Era minha hora de ir embora. Karina levantou-se também e me olhou sem graça.

– Obrigada por ter vindo aqui. Mas eu ainda não consigo te encarar como antes – disse ela cruzando os braços.

– Acredite em mim, nem eu.

Num impulso, a abracei e para meu espanto ela correspondeu de um jeito tímido. Minha alegria durou cinco segundos: o tempo exato que ela permitiu o abraço. Nos afastamos sem graça e Karina me deu um sorriso tímido, mas lindo.

– Sei a saída. Tchau, K.

– Tchau.

Dei um beijo demorado na bochecha rosada dela e sai do quarto. Me despedi de Bete e cheguei a rua. Não via sinal de Gael e nem do guitarrista. De longe, chamei a atenção de Thawick e avisei que já voltava. Fui com passos largos até uma loja de presentes no quarteirão ao lado. Outro dia, voltando da Khan, havia passado por ali e a quantidade de presentes coloridos havia me chamado a atenção. Logo na vitrine, avistei o que seria ideal. Comprei e até mandei embrulhar para a presente.

A verdade é que não sabia o motivo de eu estar fazendo aquilo. Pensei em desistir. Mas ao encarar aquele golfinho de pelúcia dentro do papel de presente, eu sorri.

Karina merecia.

Notas finais
comentem e até o próximo!!!