Uma Varinha Especial


















— Vinte e três pontos... No primeiro dia vocês duas conseguiram fazer a Lufa-Lufa perder vinte e três pontos! – o monitor chefe diz irritado.

— Sentimos muito... Você sabe como a zeladora pode ser cruel... – Lúcia tenta justificar.

— Isso não é justificativa! Vocês duas estavam erradas em se atrasar.

— Nós já sabemos, mas ainda tem muito tempo para recuperarmos.

— Acho bom vocês conseguirem esses pontos de volta Landerwood. Acho bom! — Ele sai da sala comunal.

Olho Lúcia sentar no sofá cabisbaixa.

— Quanta confusão... Não achei que perderíamos tantos pontos assim...

— Eu vou tomar banho, o Diretor chegou de Londres agora a pouco. – olho para fora da janela, o céu escuro da noite.

— E você vai vê-lo? Pode pedir para ele recuperar nossos pontos? — Ela diz esperançosa.

— Eu vou tentar, mas não garanto nada.

—Ah... – ela suspira novamente.

Eu saio do salão comunal e ando em direção ao banheiro feminino.

— Aquele relógio maldito, perdi a hora outra vez. É um absurdo que ele só funcione a hora que quer.

Vejo dois Sonserinos descendo as escadas. Uma garota de cabelo preto, magra e bonita e um garoto de cabelo loiro baixinho e meio gordinho.

— Você quer fazer uma reclamação por causa de um relógio? Logo nesse castelo onde nada faz sentido? — A garota debocha.

— É você tem razão... Ninguém iria me dar ouvidos de qualquer forma.

Eles passam por mim e a garota para.

— Ei, você é a Landerwood não é?

— Quem quer saber? — olho ela de cima a baixo.

— Meu nome é Lorie Wichwoman.

— E daí?

— Você não deve saber disso, mas nossos pais trabalham juntos no departamento de investigação.

— E daí?

— Que garota idiota, vamos embora. — Seu amigo começa a puxá-la.

— Eu tenho uma coisa para você no meu dormitório, meia-noite me encontre na frente do salão comunal da Sonserina. — Ela desaparece virando o corredor com o garoto.

— Hum? Uma coisa para mim? — penso.

Subo as escadas para o banheiro. E depois do banho rápido vou para a sala do diretor.

— Senhorita Landerwood. O diretor está te esperando a cinco minutos! — A zeladora olha o relógio de mão resmungando enquanto a sigo.

— O Castelo é imenso, não dá para chegar nos lugares sem se atrasar.

Ela bufa, e paramos de frente para uma estátua dourada de Gárgula.

— Gota de laranja.–Ela aponta a sua varinha para a estátua. Ela começa a girar saindo do chão e formando escadas que levam até o topo da torre — Depressa! Não se atrase mais!

Eu imediatamente coloco meus pés nas escadas que vão surgindo, e elas me levam para cima rapidamente.

De frente para a porta do diretor tento bater, mas ela se abre sozinha.

— Entre.

— Com licença.

Eu entro na sala, é cheia de quadros, decorações excêntricas e troféus, coisas que não consigo decifrar.

— Você é a Senhorita Landerwood não é? Sinto muito por tê-la feito esperar.

— Tudo bem... Não tem problema. — me aproximo da mesa hesitante — O Senhor vai me expulsar diretor Joseph?

Ele ri.

— Não, não vou, senhorita Landerwood.

— Ufa... Então por que me chamou aqui?

— Soube do incidente de hoje cedo...

Olho a minha varinha em suas mãos, ele a gira entre as pontas dos dedos.

— A Senhorita Milore não prestou nenhuma queixa contra a senhorita.

— Mesmo? Isso é um alívio... Então eu posso ter a minha varinha de volta?

— Contudo... Estou intrigado com as coisas que me disseram sobre você e o seu conflito com a Lufa-Lufa.

— Ah, isso... Eu disse a todos que foi um engano e que o chapéu seletor boboca me colocou na sala errada.

— Rá! Boboca?! — Uma voz acima da minha cabeça em uma prateleira alta me assusta.

É o chapéu seletor me encarando.

— Eu não vi você aí... Mas é verdade! Isso tudo é um engano. E o que aconteceu hoje cedo é a prova que estou na casa errada.

— Eu nunca erro a casa Senhorita Landerwood.

O diretor levanta a mão para que ele pare de falar.

— Senhorita Landerwood, não toleramos qualquer tipo de problemas que quebrem as regras. E mesmo que o que aconteceu hoje cedo não seja supostamente culpa sua, eu gostaria de ouvir o seu lado da história, ouvir o que você tem a dizer sobre essa terrível situação.

Eu inspiro me acalmando.

— Eu estava praticando o feitiço de levitação com a minha colega, Lúcia e a minha varinha se mexeu sozinha, no começo pensei que era algum outro colega aprontando uma brincadeira de mal gosto, mas ninguém estava fazendo nada... Foi aí que a varinha foi em direção a professora e tudo isso aconteceu... Mesmo que eu esteja chateada por estar em outra casa, eu jamais, jamais machucaria uma professora ou qualquer outra pessoa...

O diretor me olha pensativo, e depois olha a varinha em suas mãos.

— De que núcleo é essa varinha senhorita?

— O senhorzinho que vende varinhas me disse que era de... — Eu tento lembrar — Sangue de raposa chinesa! Isso.

Ele olha a varinha novamente, mais pensativo ainda e me entrega.

— Posso tê-la de volta?

— Sim... Mas saiba que ainda ficarei de olho em você.

Eu assenti e agradeci.

— Senhorita Landerwood...

— Sim Diretor?

— Sua varinha é especial, muito especial Senhorita.

— O quão especial?

— A raposa chinesa é um ser mitológico muito misterioso e poderoso, também é travesso e perigoso.

— Mas se é um ser mitológico... Como exatamente a varinha foi feita?

O diretor dá de ombros.

— Se qualquer outro evento estranho acontecer na presença da varinha, por favor avise um professor imediatamente e tire todos do local. Posso contar com você para isso? Para ter mais responsabilidade com ela?

— É claro.

— Bons estudos.

— Ah senhor, você pode repor os pontos? Eu prometi a Lúcia que tentaria pegar os pontos de volta, ou caso contrário vamos ter problemas com a Lufa-Lufa, o monitor ficou irritado então eu já imagino como os outros já estão...

— Vocês podem recuperar os pontos prestando serviços a escola.

— Serviços?

— A Madame Elvira vai cuidar disso amanhã após as aulas.

— Entendo...

Eu abro a porta olhando para trás e saio.

Desço as escadas encarando a varinha nas minhas mãos. E aperto entre os dedos.

— Não faça mais nenhuma bobagem, por favor...

Lúcia, que me esperava atrás da zeladora, me olha.

— Susie! Você está bem?

— Sim.

— Senhorita Landerwood, sua varinha...

— O diretor me deixou ficar com ela. E não vou ser expulsa.

Ela arqueia a sobrancelha e me olha passar com Lúcia.

— E como ele é? O diretor brigou com você? Te deu um soro da verdade? Ameaçou a sua vida?

— Quê?! Não, não fez nada disso. Ele foi até que bem legal comigo...

— Ah...

— Por que a pergunta?

— Há boatos sobre o Diretor Joseph. Muitos boatos!

— E o que eles dizem?

— Você sabe que o Diretor é um ex-Auror não sabe?

— Ele... Era?

— Está aposentado dessa função agora devido à idade, mas os alunos dizem que ouviram dos pais que ele trabalhava como espião em uma organização de bruxos das trevas.

— Isso é mesmo verdade?

— É o que dizem, ele teve que fazer coisas horríveis para provar a lealdade e manter o disfarce de espião. E depois que todos os bruxos das trevas foram presos em Azkaban seus "crimes" foram perdoados pelo primeiro-ministro em um longo julgamento que durou cinco dias inteiros.

— Caramba!

Os quadros ao nosso lado pedem silêncio.

— Temos que dormir, Susie, amanhã tem a segunda aula de Transfiguração.

— Eu preciso passar em um lugar primeiro.

— Onde?

— Uma garota da Sonserina, uma tal Lorie me pediu para ir para a sala comunal da Sonserina porque tinha alguma coisa para mim.

— A Lorie Wichwoman falou com você?!

— Quem é ela?

— A Família dela é muito poderosa! A mãe dela é uma auror com uma carreira brilhante, e o pai também, trabalha no setor de investigação.

— Ah, ela disse algo sobre nossos pais trabalharem juntos mesmo...

— Você ainda quer falar com ela? Pode acabar se metendo em problemas...

— Mas é claro, sou muito curiosa.

— Você quer que eu vá com você?

— Não, eu vou rapidinho.

— Está bem, então, vejo você depois.

Perto da sala comunal da Sonserina, eu olho o quadro.

— Senha.

— Estou esperando a Lorie, ela tem algo para mim.

— Senha.

— O quê...?

— Precisa de uma senha para entrar.

— Mas eu só Estou esperando!

— Senha!

— Argh!

Antes de pensar em alguma coisa, o quadro se move.

— Você demorou. – ela me olha usando um vestido branco até os joelhos — seu pijama —, e ela está com a Mariette no braço.

— Minha Coruja!

— Ela bateu na minha janela.

— Essa danada vive sumindo.

Ela se aproxima e entrega Mariette.

— Também deixou isso cair... — ela entrega uma carta.

— Ah! É a carta do papai...

Eu entrego Mariette novamente e começo a abrir a carta.

— "Susie... Soube que foi para a Lufa-Lufa. E que se meteu em problemas recentemente. Evite causar confusão na escola até que possamos conversar pessoalmente." – Eu leio a carta mentalmente.

— Pela sua cara não é coisa boa...

— Ele está decepcionado comigo, sei pela letra.

— Você parece conhecer bem o seu pai...

— Qualquer um saberia que seu pai não está contente.

Lorie desvia os olhos pensativa e entrega Mariette mais uma vez.

— Acho bom treinar a sua Coruja para não errar de janela... Na próxima não garanto que vou devolvê-la viva. — Ela dá as costas jogando seu longo cabelo preto para trás, e entra na sua sala comunal.

— Hunf... — Olho o quadro mostrando a língua para mim – Ela ficou arrogante de repente?

Volto para a sala comunal resmungando.

— Você está louca de andar a essa hora pelos corredores? Vamos perder mais pontos! – O monitor chefe me dá outro sermão.

— Eu só fui pegar a minha coruja de volta! E vou recuperar os pontos perdidos amanhã, você vai ver.

Ele revira os olhos e vai para o dormitório masculino. Na cama eu olho Lúcia dormir na cama ao lado. Ela está roncando muito! Me sento na cama não conseguindo dormir, olho a carta do papai no criado-mudo. Eu já consigo o imaginar o quão aborrecido ele deve estar por eu estar na casa errada. Se ele vier a Hogwarts pessoalmente, tenho certeza de que vai conseguir convencer o diretor a me mudar para a Sonserina.

Pelo menos é o que eu espero que aconteça... Se isso não for possível... Talvez seja porque o chapéu seletor realmente acertou...?

— Eu não vi você aí... Mas é verdade! Isso tudo é um engano. E o que aconteceu hoje cedo é a prova que estou na casa errada. – Me lembro do diálogo de antes.

— Eu nunca erro a casa, Senhorita Landerwood.

Ele foi bem firme no "nunca"... Me pergunto se ele vê além das habilidades e talentos... Se enxerga o coração também.

Se tiver algo de errado comigo, isso explicaria o porquê do papai sempre estar estranho comigo. Olho para a gaiola onde Mariette dorme profundamente. O dia seguinte chega em Hogwarts. É o segundo dia de estudos. A primeira aula é de Transfiguração.

— Atenção, classe, atenção. – Uma senhora magra, alta e com um vestido longo, preto e felpudo bate a varinha de leve na mesa – Vamos prestar bastante atenção nesta segunda aula. Vai ser fundamental para as que virão.

Os alunos fazem silêncio.

— Para realizar essa magia de Transfiguração é necessário visualizar primeiro em sua mente o objeto que quer fazer. Deve manter o foco nisso enquanto tenta fazer o feitiço acontecer. Hoje vamos aprender a transformar uma pena em uma caneta trouxa.

Há um murmurinho enquanto a professora se prepara para fazer o feitiço.

— Silêncio, vou mostrar a vocês, Visionem meam! — Ela gira a varinha suavemente e para em cima da pena, a transformando em uma caneta — Alguém gostaria de tentar primeiro para incentivar os colegas?

Eu bocejo mais ao fundo, cansada por não ter conseguido dormir, e estico a minha mão.

— Você Senhorita Susie, venha aqui.

Eu paro e olho todos os meus colegas me olhando.

— E-eu?

— Sim, sim. Venha. — ela vem até a minha mesa esticando a mão.

Me levanto hesitante e olho Lúcia rindo baixinho.

— Você já viu uma caneta trouxa não é? — A professora Margott me faz ficar na frente de toda a turma.

— Bem, sim, uma vez...

— Ótimo, tente transformar a pena em uma caneta exatamente como você se lembra.

Pego a minha Varinha. Os alunos se abaixam, e apenas Lúcia fica visível.

— Pessoal, prestem muita atenção.

Eles espiam por cima e debaixo das mesas.

— Diga Senhorita Susie, visionem meam! E balance a Varinha suavemente.

Olho a varinha na minha mão enquanto a professora coloca uma pena nova na mesa.

— Rápido, não temos muito tempo.

— Eu vou! – fecho meus olhos me lembrando de uma caneta que vi uma vez quando pequena. Pequena, cabo preto, soltava bastante tinta.

Balanço a varinha como a professora fez e a paro em cima da pena.

— Visionem Meam!

Pequena faíscas vermelhas saem da varinha e se espalham pela sala.

— Cuidado! — grito.

As faíscas começam a estourar como fogos de artifício. Os alunos gritam.