Não será a última vez
3 Intoxicação alimentar
Notas iniciais
Um ano havia se passado desde que negou a oferta do irmão mais velho e ali estava Takeo, reunido com sua própria banda na casa do líder, onde iriam comemorar o primeiro show que fizeram. Não a abertura para alguma banda popular, não um evento com várias bandas pequenas e desconhecidas, mas o primeiro show somente deles.
Claro que sair para comer e beber em algum restaurante seria legal, mas ainda não podiam se dar àqueles luxos, afinal estavam no começo da carreira.
Shibuya e Jack, os respectivos baixista e baterista da banda saíram para comprar as bebidas enquanto Teruo, Takeo e Arata, os dois guitarristas e o vocalista, ficaram para preparar os lanches e arrumar a mesa. Apesar que Teruo não demorou muito para sair de fininho, sabendo o que veria com aqueles dois tão próximos na cozinha.
Apesar de Takeo ter pensado que Izumi se afastaria dele após resolver o problema no antigo emprego, além de estar inseguro sobre sua relação com a música, tê-lo conhecido pareceu ser o pontapé inicial para várias outras mudanças. Sem que nenhum dos cinco planejasse nada, eles foram se encontrando e se conhecendo pelo caminho, notando os gostos em comum, jogando as ideias soltas e sem pretensão de algo maior, até que se reuniram para decidir se aquele objetivo teria futuro.
— Era pra vocês estarem preparando a comida e não se comendo! – na falta de uma baqueta, Jack lançou o que tinha à mão na direção do casal, fazendo Takeo se afastar dando risadas e Hayato se virar para esconder o rosto corado.
— Foi mal, Jackie. Mas está tudo sob controle! – Takeo conferiu a panela no fogo, batendo continência e acompanhando as bebidas que eram dispostas sobre a mesa – Vocês foram rápidos.
— Se eu tivesse demorado mais um pouco, tenho certeza que a comida tinha queimado e vocês estariam se comendo na minha cama.
Talvez no banheiro, ou em algum outro canto escuro da casa, mas a cama do líder seria interessante, se não tivesse a certeza que seria a última coisa que faria na vida.
Assim como os trabalhos da banda estavam avançando, a sua relação com Izumi também parecia próspera. O vocalista negou todas as suas investidas, desde o momento que se conheceram na lanchonete até mesmo depois de estarem na mesma banda. Somente após várias conversas e algumas provas concretas de que não seria só uma noite de sexo é que Hayato cedeu. Apesar que, na época, a intenção de Takeo era realmente levá-lo para a cama. Seus joguinhos de conquista decidiram se vingar e fazê-lo começar a gostar do outro rapaz e, quando percebeu, já não tinha mais volta.
* * *
O aniversário de primeiro mês de namoro aconteceu alguns dias atrás, mas como coincidiu com as gravações do novo álbum, o casal adiou a comemoração para a próxima folga que tiveram.
Hayato era expert em macarrão instantâneo, prática que adquiriu e aperfeiçoou ao ir morar com o primo. Takeo sabia fazer o básico para sobreviver, conhecimento que veio na base do erro e acerto durante aqueles anos em que morava sozinho, mas seu cardápio incluía basicamente sushi, onigiri, omuraisu, karê* ou qualquer outro prato que levasse arroz.
Nenhum dos dois tinha muita experiência com pratos doces, apesar de Takeo amá-los. Sempre que queria um, precisava se locomover até o mercado mais próximo para comprar. Contudo, aquela era uma data especial que decidiram comemorar preparando um bolo juntos. Não devia ser tão difícil!
E realmente não seria, se Takeo tivesse aceitado desde o começo a ideia de seguir a receita à risca. Hayato precisou usar de seu charme e algumas indiretas bem sugestivas para fazer o namorado se comportar.
— Agora coloca a farinha be-
O ‘devagar’ foi engolido de volta, junto com um pouco da farinha que voou da batedeira quando Takeo virou a vasilha de uma vez. Pelas atitudes do guitarrista nos ensaios e encontros que tiveram, já havia ficado claro para Hayato que o namorado não era, nem de longe, o adulto responsável entre eles, mas alimentou esperanças que aquela comemoração o fizesse se comportar. Grande engano…
— Ops… – Takeo sorriu de canto, nem um pouco constrangido pelo deslize, ainda tendo a audácia de passar o dedo pelo pó branco que voou até a face do vocalista, desenhando uma estrelinha em sua bochecha – Acho melhor você ir lavar o rosto, está um pouquinho sujo.
— Um pouquinho? – Hayato suspirou fundo, desligando a batedeira e se virando para Takeo de braços cruzados, sem compartilhar da diversão – Pensei que tínhamos um trato pra terminar o bolo. Ou não quer o que combinamos pra depois?
— Claro! Quero sim. – rapidamente ele pegou o caderno de receitas, lendo a próxima instrução enquanto usava o pano de prato para limpar o rosto do vocalista, pegando os ingredientes que via na lista e colocando-os o mais próximo possível, repetindo a medida a ser usada para ter certeza que o namorado havia entendido.
Takeo sabia que havia abusado na brincadeira, talvez além do que devia, mas estava animado demais para conseguir se conter. Pensar que depois de toda a insistência, todos os foras e dificuldades que enfrentaram, estariam agora comemorando o primeiro mês. Era pouco e talvez bobo festejar com tão pouco tempo, mas levando em conta o tipo de vida que levava antes, dormindo na cama de desconhecidos e sem muita perspectiva de futuro ou algo estável, ter alguém pra compartilhar tudo era especial.
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