Não será a última vez
4 Beijos e sorrisos
Notas iniciais
O show estava quase no fim, mas a banda ainda tinha muita energia pra gastar. Faltava apenas três músicas, mas ninguém ali parecia cansado e os fãs continuam gritando e pedindo mais. Era como se a animação da platéia desse mais força aos músicos.
Exceto para Takeo. A animação dele vinha de outro lugar.
Aquele vocalista sacana estava provocando desde a metade do show e cada vez o atiçava mais! Como se já não bastasse os shorts e a cinta-liga, Arata ainda ficava sorrindo na sua direção, lançando olhares de soslaio e encarando-o fixamente em trechos sugestivos das canções. Claro que Takeo não ficava atrás, usando dos momentos em que fazia alguns solos no centro do palco para rebolar na sua frente, para alegria também das fãs grudadas na grade de proteção.
Takeo foi paciente. Deixou que o vocalista brincasse à vontade, apenas provocando de volta, correspondendo aos sorrisos e olhares, até que chegaram à última música, onde aproveitou de uma pausa na letra durante o solo do outro guitarrista para se aproximar, roubando-lhe um selinho e arrancando gritinhos histéricos das fãs, que sempre gostava de um bom fanservice. Afastou-se tão rápido quanto se aproximou, voltando a se concentrar na música, notando que Arata também conseguiu retomar a canção sem problemas, mas era possível notar que havia ficado envergonhado. Era bem possível que ele reclamasse quando voltassem ao backstage, mas seria por uma boa causa.
Aquelas idas e vindas estavam durando bastante e Hayato ainda não parecia ter decidido se ele era uma boa pessoa para se relacionar mais intimamente, mas ele não tinha intenção de desistir ainda.
Takeo foi um dos primeiros a chegar no backstage, indo retirar a maquiagem enquanto o líder foi trocar de roupa e o outro guitarrista atrás de uma bebida. Em seguida, entrou o vocalista e o baixista, conversando animados sobre os melhores momentos do show. Tinha certeza que Hayato ia parar atrás de si e brigar pelo que havia feito instantes atrás. Não haviam combinado aquilo para a apresentação e isso poderia gerar um vazio na música caso o vocalista não tivesse conseguido continuar, mas ele conseguiu. Por mais que Arata brigasse, ele iria pedir desculpas e então teria uma chance para conversarem mais um pouco. Ou era esse o plano, que foi por água abaixo no momento que o vocalista passou direto, sem lhe direcionar nem um olhar, continuando o assunto como se nada tivesse acontecido.
Era o primeiro quase-beijo entre eles. Sério que Hayato não ia comentar nada? Nem lhe dar um sorriso de aprovação ou um puxão de orelha? Ou pior… será que ele não gostou?
* * *
Os voos estavam todos atrasados devido ao mal tempo. As viagens de trem foram canceladas devido à neve e os carros foram proibidos de circular. Mesmo assim, a fila para entrar na casa de shows era quilométrica. A P”Saiko estava sabendo aproveitar bem essa fase de sucesso.
E mesmo que já estivessem no ramo há alguns bons meses, era impossível não se sentirem ansiosos, ainda mais com todos os transportes sendo cancelados. O risco da apresentação também ser adiada era grande, além dos fãs que ficariam decepcionados se não conseguissem chegar até o local.
Takeo repassava sua parte no palco, errando um trecho do solo pela terceira ou quarta vez só naquela hora. Seus dedos estavam gelados e mesmo que tentasse aquecê-los, o nervosismo o fazia cometer erros bobos. Não é que ele fosse ruim ou não estivesse concentrado, mas Arata o abordou mais cedo, dizendo que precisavam conversar antes que o show tivesse início e era aquilo que atazanava sua mente durante todo o ensaio.
Quinze minutos para subir ao palco e só então Arata o puxou de lado, encarando-o sério e pedindo que levasse o assunto da mesma forma.
— Você está pensando em fazer aquilo de novo?
— Aquilo o quê? – Takeo encarou-o de volta, sem ter certeza sobre o que falavam.
— O beijo. Fanservice. Eu não gostei de como você abordou da última vez.
— Ah… foi mal. – então Hayato realmente não havia gostado. Paciência… era melhor apenas parar com aquilo – Eu não vou fazer de novo.
— Eu não me importo que faça. – e provando o que dizia, o vocalista se aproximou rapidamente, colando os lábios e se afastando – Só me avise antes. Dê algum sinal ou algo do tipo.
— Sério? Posso mesmo?
— Se me avisar, sim. Não quero correr o risco de errar durante a música.
— Hmm… então eu te faço errar. Fica pensando em mim depois, é isso? – Takeo sorriu de canto, satisfeito por ter conseguido aquela brecha para se aproximar.
— Eu não disse isso.
— Mas não negou também. – ouviram um staff anunciar os minutos restantes antes de subirem ao palco e ambos ficaram em silêncio, o chamado dos fãs aumentando gradativamente. Arata acenou com a cabeça em direção ao palco, murmurando um ‘Vamos’ antes de começar a se afastar, mas Takeo o segurou mais um instante – E fora dos palcos? Podemos fazer isso também? Sabe, ter beijos?
Por que não? Os amigos mesmos provocavam dizendo que a tensão sexual era palpável. Ele queria aquilo e Izumi não parecia repudiar a ideia de todo. Então por que não dar mais aquele passo?
— Conversamos sobre isso depois. – Hayato respondeu baixinho, meio pensativo, mas o fato de não ter negado de imediato fez Takeo comemorar muito.
Ainda havia uma chance!
* * *
— Você me levaria a sério se eu te pedisse em namoro?
Hayato aceitou o pedido e Takeo finalmente conseguiu um beijo de verdade. Não os amassos afoitos que tinham pelos cantos do estúdio ou os beijos sedentos após os shows, que mais serviam para gastar o resto de energia do que qualquer outra coisa. Foi um beijo calmo, com troca de carícias, num lugar bonito e que marcou o começo da relação.
Quando deitou para dormir aquela noite, Takeo não conseguiu evitar comparar todos os beijos que deram até aquele instante. O primeiro foi um selinho roubado, apenas um leve roçar de lábios que Hayato pareceu não aprovar muito. Depois vieram outros durante os fanservices da banda, que avançaram para o pós-show e a seguir alguns encontros nos cantos escuros da gravadora. Takeo não demorou muito para perceber que Hayato não tinha nada de puritano; apesar de ficar envergonhado com algumas brincadeiras, em certos momentos ele revidava com comentários quase tão sacanas quanto os que o guitarrista costumava soltar.
O melhor de tudo é que, a partir daquele dia, teria vários outros momentos como aquele com Hayato. E não seria algo de uma noite apenas, não seria como os casos que tinha no Cyber Cafe. Seria um relacionamento sério, um namoro de verdade! Há quanto tempo não se envolvia com alguém assim? Desde o final do colegial, apesar de ter sido um namoro de adolescentes…
Takeo sentou-se na cama de supetão, outro pensamento cruzando sua mente. Aquele jantar não era para reatar a amizade? Havia feito o convite na esperança de que pudessem conversar com calma, acertar as diferenças e tentar superar os estragos causados com a aparição do ex de Arata. E agora ele era o atual namorado!
Aquilo foi uma reviravolta e tanto em sua vida. E pensar que o conheceu depois de pagar um lanche e, quando o encontrou novamente, só tinha intenção de levá-lo para a cama. Não que tivessem ido, pois Hayato continuava negando alguns toques com todas as forças, mas Takeo não queria se envolver no começo. Só queria uma noite. Ele também não cogitou que acabaria gostando a sério do outro rapaz, ao ponto de querer saber mais a respeito dele, de fazer planos que o envolvessem, conhecer mais de seu passado e o que Hayato esperava do futuro.
O que mais o assustou nesses pensamentos foi desejar e se imaginar tendo um futuro com Izumi. Não sabia se daria certo, nunca imaginou algo daquele porte, mas ele queria tentar. Queria ver aquele sorriso bonito ao seu lado todos os dias, se fosse possível.
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