Não posso ser ela
10 Capítulo 9
Notas iniciais
— Tia, posso falar com você? – Liz se aproxima após o sinal do fim da aula. Como agora é o intervalo, eu sinalizo para que ela se aproxime.
— Claro, princesa! Como você está? Curtiu a aula? – Eu pergunto aconchegando-a num abraço.
— Sim, você é a melhor professora do mundo! – Ela fala empolgada e eu reviro os olhos.
— Nem tanto, pequena! – Eu digo e é a vez dele revirar os olhos. Apesar de ser filha de Dora, Liz tem muito mais de mim do que de minha gêmea. Ela é espontânea, viva, alegre. Igual a mim na sua idade. É tão incrível o quanto somos parecidas. Fico me perguntando como a Dora reagiria se estivesse aqui.
— Tia? – Liz me tira de meus devaneios e eu me sobressalto.
— Oi minha linda, perdoe-me, eu me distraí.
— Meu pai quer saber se a senhora vai poder me levar hoje depois da aula. – Ela pergunta com os olhinhos atentos.
— É claro, meu amor. Já está tudo combinado, vou falar com o seu pai! – Eu digo e ela me abre um lindo sorriso. – Agora vá aproveitar o seu intervalo e brincar um pouco com suas coleguinhas. – Ela assente e dispara para fora da sala, após me dar um beijo bem estalado.
Faz apenas 5 semanas que eu a conheço e ela já é tudo para mim. Descobri em Liz tudo o que eu nem sabia que faltava na minha vida. Não entendam mal. Eu sou muito realizada com o meu trabalho, tanto aqui na escola quanto no Eliza, tenho o melhor pai do mundo e muito bons amigos. Mas Liz me trouxe vida. Intensa, brilhante e única. Ela é parte de mim. Não tem um único dia que eu durma sem lhe desejar boa noite, não tem uma única decisão que eu tome sem que pense nela. Nossa relação tem sido cada vez mais profunda e o senso de responsabilidade tem tomado conta de mim de um jeito sobrenatural.
Basicamente, vivemos quase um sistema de guarda compartilhada. Liz dorme na minha casa dia sim dia não, e temos estado juntas quase todos os finais de semana em Santa Mônica. Ela começou a fazer aula de música e dança conosco e a felicidade anda estampada no rosto do meu pai. Em um mês ele já sorriu mais do que em 8 anos. Acredite, estamos vivendo um sonho.
Enquanto eu e Liz estamos cada vez mais ligadas, Edward está cada vez mais distante. Acredito que tudo o que houve naquele primeiro fim de semana tenha sido muito intenso para ele também. Ele não retornou para Santa Mônica nos finais de semana desde então, deixando Liz sob minha responsabilidade nas viagens. Temos nos visto poucas vezes e muito rápido, acredito que assim seja melhor para nós. Há muita coisa que preciso digerir.
Edward mexe comigo. Isso é um fato e acho que estou sendo um pouco leviana também. Ele mexe muito comigo seria mais justo. Todo dia em que nos vemos, ainda que rapidamente, é motivo para que eu sonhe com ele. Eu me recordo do nosso quase beijo nos corais e acordo suada e quente. Muito quente. Céus, o que há de errado comigo?
Aparentemente, isso é totalmente unilateral, pois Edward parece totalmente indiferente a mim, talvez eu ainda mexa com ele, mas só por conta da semelhança com Dora. Digo isso porque ele parece estar muito bem com a Tânia. Na semana passada, Liz contou ter visto Tânia saindo do quarto do pai de manhã cedo por umas duas vezes, porém ainda andam bem discretos na frente dela.
“- Até parece que eu não sei que eles são namoradinhos, tia... – Ela disse revirando os olhos enquanto fazíamos cookies no domingo passado na casa de papai.
Ela não parece se importar muito com o pai se envolvendo com outra mulher, porém é visível que ela não gosta de Tânia. Ela evita mais que tudo falar na loira. Mais de uma vez tentei fazer ela me contar como é o relacionamento entre elas e ela sempre desconversa.
— Não conversamos muito tia, passo o dia na escola e depois fico no meu quarto fazendo dever de casa. Só desço quando meu pai chega.— Sempre respostas assim ou parecidas a essa.
Não estive mais que 15 minutos na casa deles novamente para observar mais como a dinâmica da casa funciona, mas algo me diz que preciso estar atenta à Tânia. É claro que ela não gosta muito de lidar com Liz.
— Swan, não vai almoçar? – Angela pergunta da soleira da porta. Eu balanço a cabeça.
— Estou sem fome, Ang.
— Eii, que cara é essa? Aconteceu algo? – Minha amiga pergunta se aproximando de minha mesa, onde eu estou sentada na ponta.
— Não, nada demais – Eu digo e ela ergue uma sobrancelha. – Tava pensando na Liz e em algumas coisas.
— Tipo?
— Ela me disse a alguns dias que viu a tal da Tânia saindo do quarto do pai pela manhã. Escondido, é claro. – Eu digo desviando o olhar para umas partituras.
— E? – Ang pergunta, mas me abstenho. – Você está preocupada que Liz não aceite isso muito bem?
— Na verdade, não. Liz parece não se importar muito com o pai se envolvendo com a outra mulher. – Eu digo e suspiro – É só que... – Olho para minha amiga – Não gosto dela.
— Ah... – Ang faz ênfase e eu rolo os olhos
— É sério Ang, essa Tânia não parece ser legal com Liz. Minha sobrinha não fala sobre isso, sempre foge, como se tivesse medo. Isso é um sinal. – Eu digo pontuando.
— Calma, Bells.... essas justificativas todas são para mim ou para você mesma?
— Oi?
— Ah Bella, você gosta dele. – Eu pisco surpresa com sua afirmação.
— Nem pira Angela Weber! Não mesmo! – Eu digo enfática, me levantando.
— Se você diz – Ela dá de ombros. – Mas de qualquer forma, se você acha mesmo que tem algo de errado entre essa Tânia e a Liz, acho interessante você comentar com Edward, como quem não quer nada, sabe?
Eu paro para refletir sobre isso.
— Não sei Ang, ele pode achar que eu tô me metendo na vida deles, sei lá. Ele nem assumiu o namoro de fato. – Eu digo – Mas caso o assunto venha a surgir, eu comento sobre isso. Afinal, ele como pai deve se preocupar com a filha em primeiro lugar, não é?
— Isso aí, agora vamos comer vai, tô quase desmaiando aqui.
— Pode ir Ang, é sério, estou sem fome. – Eu digo voltando a me sentar e ela vai embora após dar de ombros para mim.
O resto da tarde passa tranquilo. Em algum momento no meio da última aula, vejo que meu celular recebe uma mensagem, mas som me permito olhar faltando um pouco mais de 10 minutos para o fim da aula, enquanto os alunos estão terminando o exercício.
“Oi Bella, tudo bem? Sei que combinamos que a Liz passaria esta noite com você hoje e que desde então ficaria o fim de semana com você e seu pai mais uma vez. Porém, meu irmão e minha cunhada me confirmaram hoje que chegarão amanhã aqui em LA. Tudo bem desmarcarmos os planos de fim de semana? Me ligue quando ver essa mensagem, por favor!
Cullen”
Eita, os padrinhos de Liz!
Eu suspiro e retorno minha atenção para os meus alunos. Mas assim que o primeiro sinal toca e meus alunos começam a se despedir, eu ligo para Edward. Ele atende no terceiro toque.
— Oi Bella! – Ao ouvir sua voz grave e levemente ofegante, percebo o quanto ele parece cansado. De fato, ele tem trabalhado muito nos últimos tempos devido a um novo projeto do teatro em que trabalha.
— Oi Edward. Vi sua mensagem agora pouco.
— Sim... Então. Emmett e Rose conseguiram uma miniférias e estão vindo amanhã. Chegam por volta das 10h. Eles queriam fazer uma surpresa para a Liz e só avisaram agora, me pegando de surpresa também. – Ele fala e pausa por um breve momento – Obrigada Megan, leve estes textos para edição com urgência, essa cenas estão atrasadas!— Ele dá uma ordem do outro lado e depois retorna a falar comigo – Desculpe por isso Bella, aqui está um caos. – Suspira pesadamente.
Um impulso de estar agora ao seu lado e lhe massagear os ombros me toma. Eu coro violentamente com o pensamento mesmo que ninguém possa saber o que eu pensei.
— Tudo bem, eu entendo. – Eu digo – E sobre amanhã... vai ser complicado convencer Liz mas acho que posso dar um jeito. Ela ainda vai dormir comigo hoje?
— Sim, pode ser... – Ele diz ponderando. – Vou busca-los no aeroporto e vamos fazer um jantar especial. Por favor, quero que venha, Emmett e Rose vão adorar te conhecer.
— Ah certo. – Eu digo meio desconcertada. – Pode ser.
— Combinado então. Até amanhã, Bella! – Ele se despede.
— Até, Edward.
Ah Deus, como será esse jantar? Pronto, aqui estou eu sofrendo por antecipação. Resolvo empurra isso para o fundo da minha mente e me preparar para a minha noite de garotas com Liz. Ajeito meu material e me encaminho para a sala dos professores. Quinze minutos depois eu sorrio ao ver minha pequena me esperando ao lado do meu carro.
— Demorou tia! – Ela diz com um ar de repreensão que me faz rir.
— Tão pequena e tão resmungona! Tsc, tsc... vai ficar velha cedo – Eu digo e começo a gargalhar, abrindo a porta para uma menina de cara fechada passar.
O caminho é tranquilo. Passamos no mercado para comprarmos ingredientes para fazer cookies para o fim de semana e eu resolvo não contar ainda que dessa vez ela não irá comigo. Liz é uma criança muito sensível e ansiosa. Se eu disser a ela que ela não vai mais para casa do avô é capaz dela não dormir à noite inteira se eu não lhe disser o motivo.
Ao chegarmos em casa, eu a ajudo com seu dever de casa e depois vamos para a cozinha. Coloco uma torta de frango no formo para o nosso jantar e começo a prepara a massa com a ajuda de Liz.
— Liz, você sente falta de Nova York?
— Um pouco. – Ela diz e tenta fazer um bolinho nas pequenas mãos. – Sinto falta da vovó e do vovô loiro, do dindo e da dinda, das meninas do colégio...
— Entendo. Seus avós e seus dindos são legais? – Eu digo, colocando mais uma bolinha na assadeira.
— Sim! Meu dindo é muito engraçado, faz todo mundo rir, sabe. Minha dinda é tão linda! Ela e mamães sempre estavam bem arrumadas.
Um breve silencio acontece.
— As vezes eu tenho medo, tia. – Minha sobrinha fala com uma voz baixa.
— De quê pequena? – Eu me viro para ela e encaro seus olhos curiosos.
— De acabar esquecendo a mamãe. – Ela diz temerosa.
— Isso não vai acontecer, Liz. – Eu digo emocionada – Eu sei que pode parecer que estamos esquecendo por não falarmos dela todos os dias, mas ela sempre vai estar aqui – Eu toco no seu peito esquerdo – E isso não se esquece jamais.
Ela me olha intensamente.
— Pelo menos, tenho você tia, que é igual a ela e assim vai ser bem mais difícil de esquecer. – Ela diz e me abraça, nos sujando um pouco mais de farinha.
— Sim, Liz, eu sempre vou estar aqui para você.
Seguimos com a nossa noite. Após jantarmos e assarmos 4 assadeiras de cookies, eu dou um banho na minha sobrinha e a coloco na cama. Meu apartamento é pequeno, mas dispõe de um quarto de hóspedes singelo, que eu e minha sobrinha arrumamos e decoramos para ela ficar. É bem simples, nada como o que ela tem em casa, mas é aconchegante e encantador.
— Boa noite minha linda! – Eu digo colocando a na cama. Ela sorri fraco devido ao sono.
— Boa noite tia. Te amo. – Ela responde entre dois bocejos seguidos.
— Eu amo mais. – Deposito um beijo no seu rosto e volta para a cozinha para terminar de arrumar as coisas.
As palavras de minha sobrinha volta e meia voltam à minha mente. É tão triste ter que lidar com a morte desde tão novinha. Meu coração aperta em ver o sofrimento e a saudade que minha sobrinha sente da mãe. Eu me sento no sofá e me pego pensando nas duas grandes mortes que tive que passar em minha vida e no quanto elas foram dolorosas para mim.
Eu e Dora tínhamos apenas 12 anos quando vovó Eliza morreu. Maldito Câncer!
Antes disso acontecer, eu e Dora, apesar de nossas diferentes personalidades, éramos muito unidas. Mas depois de perdermos a vovó algo mudou. Nossa família mudou um pouco. Papai já não queria tocar mais, se dedicava 100% ao trabalho, mamãe estava focada em fazer tudo dar certo novamente e Dora parecia focada no oposto.
Dora perdeu a virgindade aos 13 anos, tomou o primeiro porre aos 14 e fugiu de casa aos 15. Ela simplesmente se tornou uma adolescente problemática, mas sempre a perdoávamos. Mamãe era sempre a primeira a se compadecer. Ambas éramos muito apegadas à vovó, vê-la definhar até morrer foi muito difícil. Mas ao contrário de Dora, eu me enclausurei. Colocava toda a dor e todas as lágrimas silenciosas nas melodias que eu criava. Dora, por sua vez, deixava tudo nas pichações dos muros outrora branco da nossa cidade.
Mas aí o câncer veio de novo, dessa vez maltratando a nossa mãe. Renée ficou em negação por um tempo, isso prejudicou o tratamento. Aos 16 anos, Dora melhorou um pouco e usou toda a sua energia para se unir a mim e ao papai nos cuidados com Renée. Ver todos nós ao seu redor foi muito bom para mamãe, mas não a salvou. No verão após nosso ano sênior, mamãe piorou muito. Dessa vez, só havia cuidados paliativos, nada mais podia ser esperado além do inevitável. Uma espada atravessou a nossa família mais uma vez. Ambas estávamos cotadas para ótimas faculdades, mas não tínhamos coragem de sair de perto de nossa mãe naquele estado.
Foi de longe o pior verão da minha vida. Perdi minha grande paixão adolescente, perdi minha mãe e perdi minha irmã. Exatamente nessa ordem.
Encontrei Jasper com Dora 10 dias antes de Renée falecer. Durante aqueles 10 dias não trocamos qualquer palavra ou gestos. Nem sequer brigamos, afinal, o que precisava ser dito? Ela sabia o que tinha feito e eu não queria e nem esperava justificativas para aquilo.
Quando Renée morreu foi o único momento em que nos tocamos novamente, ela me consolou, impassível e distante. Como se tivesse morrido junto com nossa mãe. E talvez ela tenha mesmo, já que quando retornamos do enterro ela se foi. Ainda vestida de preto e cheirando a flores, ela arrumou suas coisas e foi embora, deixando a mim e ao papai para trás.
Lágrimas quentes escorrem pelo meu rosto e eu vou até o meu quarto, abro a gaveta da minha escrivaninha e pego a carta que ela me deixou. Já se passou mais de um mês e eu ainda não consigo abrir este envelope. Eu respiro fundo e viro para abrir. Por que ter medo de uma folha de papel?
As palavras têm poder...
Um vento frio me bate e sacode todo o meu corpo. Me recordo de quando eu corri atrás dela, gritando por ela e ela nem sequer se virou para me dar tchau. Eu engulo o choro e enxugo as lágrimas. Devolvo o envelope para a gaveta e a fecho bruscamente.
Não, eu não posso me deixar afetar por Dora dessa maneira. Eu me troco e deito na minha cama. Ainda que o sono não venha logo, não me permito me levantar, até que me vejo rendida ao cansaço e adormeço.
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