Não posso ser ela
11 Capítulo 10
Notas iniciais
— Liz, mastiga devagar! – Eu digo firme, porém gentil e minha sobrinhas desacelera as mastigações.
— Eu... – Ela para pra engolir – amo panquecas. – Ela fala e sorri – Não, eu amo as suas panquecas! São as melhores do mundo todo! – Eu sorrio com seu elogio e ela fica séria de repente – Que vovó Esme não me escute, ela ia ficar triste.
— Prometo que não conto pra ela – Eu digo e pisco cumplice. Ela sorri novamente e nós prosseguimos o nosso café. Enquanto Liz vai buscar sua mochila e escovar os dentes, eu ajeito a cozinha. Logo estamos a caminho do colégio.
— Liz – Eu começo – Seu pai me ligou, avisando que você vai precisar ir para casa hoje depois da natação. – Eu mantenho meu olhar na pista por pura covardia, não quero ver seu olhar triste.
— Poxa tia! Mas então eu não vou pra casa do vovô amanhã? – Ela pergunta manhosa
— Eu acho que seu pai quer fazer algum outro programa com você, pequena. – Eu digo e estico minha mão rapidamente para lhe afagar o rosto. Ela me dá um sorriso fraco que murcha rápido demais. Ela volta seu olhar para a janela e não diz mais nada.
Eu suspiro e resolvo dar a ela o seu tempo. Liz é uma mistura perfeita em suas feições, tem muita coisa de Edward, mas os traços mais fortes são de Dora. E de mim. Eu sorrio ao lembrar em como todo mundo costuma acreditar que Liz é minha filha nos lugares em que passeamos. Fora que sua personalidade, agora que a conheço mais posso perceber, se parece mais com a minha do que com a da mãe.
Logo estaciono na minha vaga no estacionamento do colégio e vejo que Liz está com a expressão mais suave. Eu lhe dou um beijo carinhoso e a deixo ir ao encontro de suas amigas no pátio. Na sala dos professores, me encontro com Angela e ela me acompanha até a minha sala falando dos detalhes de seu casamento.
— Então na segunda podemos ir no ateliê confirmar o seu vestido? A Alice disse que vai poder ir também. – Ela fala encostando na minha mesa. – Preciso das duas lá!
— Claro que vou Ang, que tipo de madrinha eu seria? – Eu digo ajeitando algumas partituras sobre a mesa.
— E sobre entrar com o Jake? Tá tudo bem mesmo? – Ela pergunta desconcertada. Dou um olhar carinhoso para minha amiga.
— Ang, claro que está tudo bem. Você e Benjamim vão casar! Vou estar lá independente de quem vai sentar do meu lado! – Eu digo e ela sorri para mim – E no fim as duas opções são ruins né? — Ambas gargalhamos, afinal, os dois padrinhos escolhidos são os dois caras que eu estou meio que evitando: Jasper e Jake.
— Os dois são loucos por você – Angela diz e eu reviro os olhos
— Não são não. Eles só são dois moleques que precisam crescer e deixar para trás suas paixonites de adolescente e virar homem. – Eu digo – No fundo, nem assim eu ficaria com eles, você sabe disso.
— Bella...
— Não quero ter ninguém que tenha sido dela! – Eu solto – Parece um karma sabe? Todo cara que se aproxima de mim teve uma história com Dora, tô cansada disso!
Minha amiga me olha com carinho e pega a minha mão.
— Não sei como é isso que você tá sentindo, mas deve ser muito difícil. – Ela fala suave – Mas acho que talvez, você também precise exorcizar alguns demônios e enxergar as coisas de outro modo.
Eu fico muda com a sua fala e ela pisca para mim. Antes que eu diga qualquer coisa, o sinal da primeira aula bate e ela se afasta, me deixando imersa em pensamentos.
O dia passa na velocidade da luz. Eu levo Liz para a natação e ela volta a ficar triste (mal sabe ela que vai me ver ainda hoje). Depois vou para casa, dou uma pequena geral por lá e arrumo minhas coisas para o fim de semana. Como vai ficar muito tarde para ir para Santa Mônica depois do jantar de hoje, vou de manhã bem cedo, com isso já deixo minha mochila no banco traseiro do carro para facilitar.
Por volta de 19h, eu estou a caminho da casa de Edward. Tento ignorar a tensão de conhecer Emmett e Rosalie. Principalmente Rosalie. Eu respiro fundo e fecho os olhos ao estacionar diante da linda casa onde minha sobrinha mora com o pai. Agora, depois de concluírem toda a arrumação da mudança, a casa está com mais cara de lar. Um pequeno jardim está sendo cultivado ali na entrada e eu me recordei de minha mãe. Ela adorava cultivar o jardim de nossa casa. Jardim que hoje, sou eu quem cuido aos finais de semana.
Afasto as memórias de minha mãe e do tempo feliz em que eu vivia quando nossa família ainda estava inteira. Pego minha bolsa e me encaminho para a porta da casa. Antes de tocar a campainha, ouço a risada alegre de minha sobrinha e um gritinho agudo que sei que é de felicidade. O poder que a felicidade de Liz tem sobre mim é tão grande que logo eu estou com um sorriso no rosto. Leva 15 segundos para que Tânia abra a porta depois que a campainha soa do lado de dentro.
— Boa noite! – Eu digo para ela com educação polida. Eu não vou com a cara dela e ela claramente não vai com a minha. Ainda não sei se é porque eu sou a cara de sua ex-patroa falecida ou se é por ser eu mesma. Forço um sorriso no rosto. Ela não está confortável com minha presença.
— Boa noite Srta Swan, todos a aguardam na sala de estar. – Ela diz com breve irritação na voz. Opa, isso não pode ser só para mim. Será que a presença de Emmett e Rosalie também não a agrada? Se for, já gostei deles.
— Obrigada! – Eu digo, passando por ela e estendendo eu mesma o meu casaco, para poupá-la do serviço. Ela segue em direção à cozinha e eu vou para a sala de estar.
Não estava preparada para isso. Rosalie é absurdamente linda.
Loira, olhos azuis. Bem penetrantes, concluo quando seu olhar se fixa no meu. Ela, com certeza, já sabia que eu sou idêntica à Dora, mas a surpresa do quanto sou idêntica a ela, a deixa atônita. O vestido vermelho-sangue de frente única abraça seu corpo com uma perfeição que invejaria qualquer mulher normal como eu. Sim, eu tive inveja a cada segundo enquanto ela levantava e seu corpo moldado à perfeição ia se mostrando mais. O vestido era longo, mas havia fendas laterais a partir do joelho. Seu lindo cabelo estava solto em ondas definidas, do jeito que só se consegue no salão depois de horas. Sua mão direita se conectou com a de seu esposo e só assim desviei meu olhar de sua figura.
— Boa noite! – Eu digo, tirando voz de algum lugar.
— Tiiiiiiia! – Liz me tira do meu torpor e me abraça pela cintura. Eu afago seu lindo cabelo.
— Bella, que bom que veio. – Edward fala e eu o olho. Ele está diferente, mais leve, ainda mais lindo. Ele sorri genuinamente e isso faz um pequeno sorriso brotar em meus lábios para ele. – Estes são Emmett, meu irmão e Rosalie, sua esposa e minha grande amiga. – Ele aponta para o casal que sorriem para mim. – Esta é Isabella Swan.
Me permito olhar para Emmett. Ele é uns 10 cm mais alto que Edward, que já é alto. Tem cabelos num tom mais escuro, mas não tanto quando o meu. Seu rosto é ligeiramente redondo, há covinhas no seu sorriso. Isso é um bom sinal, certo? Pessoas com covinha não podem ser ruins, né? Seu corpo é musculoso e forte, mas seu rosto é sereno. Me pareceu o perfil perfeito de professor de educação física para criancinhas. Percebo a mão de Rosalie pressionar a do marido e puxa-lo para si. Franzo o cenho, que diabos é isso?
— É um prazer conhecê-los! – Eu digo estendendo minha mão para o meio entre eles. Como eu esperava, Rosalie a pega primeiro e a aperta levemente. Devolvo o aperto com docilidade. Em seguida, aguardo o cumprimento de Emmett, que me surpreende.
Num segundo estou com a mão estendida em sua direção, na outra estou mergulhada em seu abraço. Um grande e forte abraço.
— Caramba! – Ele exclama e me solta – É como se ela estivesse aqui de novo.
— Emmett! – Rosalie e Edwrad exclamam repreendendo-o e depois me fitam. Eu encaro seu rosto constrangido e me surpreendo com o sentimento de ternura que me toma.
— Tudo bem. – Eu digo e afago o ombro de Emmett – É normal para mim.
Rosalie me dá um olhar enigmático e todos se sentam. Edward me indica um lugar próximo dele e eu me acomodo. Liz se senta entre nós e toma a iniciativa da conversa.
— Tia, meus dindos me fizeram uma mega surpresa! Foi por isso que o papai mandou eu vir para casa! -Ela diz empolgada – Eles trouxeram vários presentes para mim, você quer ver? – Eu sorrio para a sua empolgação. Nem tinha a sombra da garotinha chateada que eu deixei na natação horas atrás.
— Liz, agora não, nós vamos jantar. – Edward fala.
— Mais tarde, Liz, ou quem sabe outro dia? – Eu emendo ao ver o sorriso da menina murchar. Ela sorri novamente.
— Certo! Sabe dinda, minha tia é minha professora de música! – Liz chama a atenção da tia que não desgruda o olhar de nós duas.
— Sim, seu pai me contou. – Rosalie responde e me olha – Sua família é toda artística então?
— Sim. Minha vó era bailarina de profissão, mas também desenhava. Ela casou com meu avô, que era pianista da companhia de balé que ela atuava. – Eu digo saudosa – Meu pai se desviou um pouco, formou-se em administração. Mas teve que se render, pois tem um dom nato para música.
— E a vovó? – Liz perguntou
— Bom minha mãe não era uma artista, mas ela fazia verdadeiras obras de arte na cozinha. Aniversários, casamentos, eventos entre os últimos 35 anos e os últimos 10 anos daquela cidade tiveram alguma delícia preparada pelas mãos dela. – Eu digo sorrindo para Liz que fica admirada
— Uau!
— E então você e Dora acabaram artistas também. – Emmett diz e eu lhe sorrio
— Sim, não tinha como não ser, sinceramente. Vó Eliza era a arte em pessoa. Tudo que ela fazia, falava, expressava, era arte. Nascemos imersas nisso. Ainda bem pequenas demos nossos primeiros sinais de talento nato. Dora desenhava como gente grande com 5 anos de idade. – Eu fecho os olhos para conter a emoção – Vovó ficou em êxtase!
— Ela sempre falava de sua avó – Rosalie comenta e me encara – Em como elas desenhavam juntas e tudo. Quando alguém perguntava sobre como ela desenhava tão bem ela sempre dizia
— Aprendi com minha vó! – Eu, Edward e Rosalie dizemos em uníssono.
— Uau! – Minha sobrinha diz e ri – Parece que ensaiaram igual nas aulas de música.
— E eu acabei na música. Minha vó ficou muito feliz de ver o dom do meu avô, grande amor da vida dela, passado para frente. Tanto que ela me deu o antigo piano dele quando fiz 12 anos. O último aniversário que tivemos com ela viva.
Um silêncio paira na sala e eu me sinto meio desconfortável por trazer este clima, afinal é um jantar festivo. Olho para minha sobrinha
— Bom, agora, ele será de Liz! A próxima musicista da família. – Liz me olha espantada
— Não deveria ficar para os seus filhos? – Edward questiona.
— Não. – Eu digo simplesmente – Não fazemos assim. Passamos para a primeira pessoa da geração seguinte a nascer com o dom e querer exercê-lo. Por isso ela deu a mim e não ao meu pai. – Eu digo e aliso o rostinho de minha pequena – Quando você fizer o seu primeiro concerto, será nele. – Eu lhe digo e vejo seu olhos brilharem
— É uma tradição interessante. – Emmett conclui. Eu lhe sorrio novamente. Emmett é aquele tipo de pessoa que você se encanta facilmente, é impossível não sorrir para ele ou seus comentários, mesmo tendo acabado de conhecê-lo. Se eu tivesse tido um irmão homem, com certeza eu ia querer alguém como ele.
— Com licença, o jantar está pronto! – Tânia surge e eu percebo que suas roupas estão mais informais. Ela sorri para Edward e senta no braço de sofá do lado onde ele está sentado. Sua mão pousa no ombro dele.
Eu arrisco um olhar para Rosalie e não sei dizer o que sinto. Os olhos de Rosalie se estreitam para a outra loira. Bom, deve ser desconfortável para ela ver alguém ocupando o ‘lugar’ da sua melhor amiga falecida. Fico contente por ela também não gostar da Tania, mas fico apreensiva porque percebo semelhanças deste olhar com o olhar que ela me lançou mais cedo.
— Obrigado Tânia, acho que podemos comer agora não é? – Edward diz e se levanta, pegando a mão da filha.
— Eu gostaria de ir lavar minhas mãos primeiro, acabei de chegar da rua... – Eu digo
— Eu vou com você tia. – Liz se oferece e juntas vamos para o banheiro social que fica no corredor que vai para a sala de jantar.
Lavamos as mãos e quando estamos saindo, ouço uma conversa que me deixa intrigada.
— Eu vou esganar você se você sorrir para ela mais uma vez daquele jeito Emm! – A voz da Rosalie está sussurrada, mas a ouço com clareza.
— Rose, pelo amor de Deus! Acabamos de nos conhecer, só estava sendo simpático. – Emmett fala meio torturado.
— Não importa, ela é irmã da Dora. Fui amiga de Dora o suficiente para saber que ela não era fácil. – Rose fala e eu me espanto. Ela está falando de mim?
— Rose...
— Eu amava Dora, sei que ela nunca deu em cima de você, mas ela era um furacão, você sabe...
Eu fico tão atordoada que até esqueço que Liz está comigo. Sei que eles estão logo mais a frente, mas sinto uma raiva tão grande de sua comparação que ajo por puro impulso.
— Liz, você poderia pegar uma presilha para o meu cabelo? Está fazendo calor aqui...
— Claro tia, já volto! – a menina dispara para as escadas e quando a perco de vista, eu viro no corredor dando de cara com o casal.
— Rosalie. – Eu digo e ela fica levemente surpresa com a minha chegada repentina. – Fique tranquila. Diferente do dom artístico, a safadeza não é hereditária na família Swan. – Eu a olho bem nos olhos. – A propósito, isso nasceu e morreu com uma única pessoa da família que você conheceu até hoje.
Ambos me encaram boquiabertos.
— Está tudo bem aqui? – Edward surge com Tânia ao seu lado. Céus, ela é um verdadeiro carrapato!
— Na verdade, eu estava explicando a Rosalie que apesar de idêntica por fora, eu não sou a Isadora. – Eu olho para ele furiosa – Coisa que você só aprendeu depois de um tapa, lembra? – Ele me encara sério – Devia ter contado para eles. Eu vou embora.
Antes que eu possa girar meus calcanhares para sair, eu olho novamente para Rosalie.
— Você só a conheceu por um par de anos, Rosalie – Eu digo – Os últimos. Você a conheceu como ela era. Eu cresci com ela. Vi cada uma das suas características se desenvolverem. As boas e as más. E senti todas na minha pele.
— Eu não posso ser ela! – Rosalie exclama feroz.
Eu a encaro confusa. Que diabos era isso? Os olhos de Rosalie lacrimejam.
— Foi a única coisa que ela deixou naquela noite. Num pedaço de papel, dentro da sua bolsa. – Rosalie me encara. – “Desculpe, Rose. Você foi uma irmã para mim. Mas eu não posso ser ela!”
Um silencio toma o ambiente.
— Dora deixou um bilhete para... você – Edward fala torturado. Com razão, ele era o marido e ela deixa um bilhete para a amiga.
— Ela sabia que só eu abriria aquela bolsa, fui eu quem dei para ela. – Rosalie diz e encara Edward – Você ficou tão arrasado que eu não podia contar e te magoar ainda mais. E eu também não tinha entendido o que queria dizer. Até você me dizer que chegou aqui e encontrou a irmã gêmea de Dora.
Eu sinto meu mundo rodar. O que Dora estava dizendo com aquilo?
— Olhe para ela Edward. Ela é igual a Dora dos primeiros anos. Por quem você se apaixonou. A nossa Dora. – Rosalie diz para Edward.
— O que você quer dizer com isso? – Eu digo num fio de voz.
— Quando eu conheci Dora, ela era exatamente como você. Doce, calma, meiga. Dava os mesmos sorrisinhos suave e encabulados, mordia o lábio inferior quando estava nervosa, olhava para baixo quando a elogiavam, usava roupas leves e casuais.
Eu sacudo a cabeça.
— Dora nunca foi assim. Ela era exatamente o contrário disso. – Eu digo furiosa.
— Bom, foi assim que eu me apaixonei por ela. – Edward diz e Tânia afaga seu ombro.
— Não posso ser ela... – As primeiras lágrimas caem sem permissão.
— É você não é.... foi por isso que ela se foi... ela queria ser você e não conseguiu. – Rosalie me acusa e todo roda ao meu redor. Eu olho para Edward que tem um olhar intenso em mim.
E é a última coisa que eu vejo.
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