Não posso ser ela
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Eu me lembro de estar super feliz e empolgada, tinha escolhido a roupa perfeita para aquele momento. Um vestido soltinho, que segundo Leah, era o ideal para a situação devido à praticidade de retirar. Eu tento não correr, para não chegar lá toda suada e ofegante. Quero que tudo seja incrível e perfeito.
Hoje eu perderei a minha virgindade com Jasper!
Já namoramos há muito tempo e estamos completamente apaixonados. Acabamos de nos formar do ensino médio e talvez vamos para a mesma faculdade. Temos 18 anos e acho que está mais do que na hora de darmos este passo. Então, quando eu disse a ele, na semana passada, que estava pronta, ele tratou de programar tudo. Decidido a fazer algo especial e diferente, combinamos de passarmos a noite na praia.
“Nada melhor do que a lua e as estrelas para testemunharem o nosso amor, Bells!” Ele havia dito. Como não amar este homem?
Quando me aproximo da praia mais afastada, a que combinamos de nos encontrarmos para um piquenique noturno e fazermos amor ao luar, eu sinto um aperto no meu peito. A pequena fogueira está acesa, mas não vejo sinal de Jasper. Avisto a barraca montada, e percebo que há gente ali dentro. Ele provavelmente está ajeitando tudo, afinal ele é bem perfeccionista. Ao invés de chama-lo, resolvo lhe fazer uma surpresa. Sorrio de antecipação. Ele deve estar nervoso com o meu atraso, mas ficará feliz ao ver o quanto me produzi para ele.
Ao chegar na frente da barraca, porém, o meu mundo desmorona. A noite que deveria ser a mais especial, se tornou a pior de todas quando eu avistei o meu namorado afundando seu corpo no de uma outra mulher. Uma mulher idêntica a mim, mas que não era eu.
O mesmo sentimento de desolação me toma mais uma vez. Dora sempre passa a minha frente. E eu estou muito cansada disso. Eu adianto os meus passos deixando a fúria guiar mesmo movimentos até alcançar Edward, já um pouco próximo à festa, mas eu nem ligo.
— Edward! – Eu o chamo e ele se vira. Seu olhar está impassível. Quando dou por mim, minha mão já está voando na direção do rosto dele, afundando o primeiro tapa que eu já dei na cara de alguém.
— O que... – Ele começa com o rosto lívido de raiva e surpresa.
— Você não está lidando com qualquer uma, não. Ninguém neste mundo sofreu mais na mão de Dora do que eu. Eu sei muito bem o tipo de sentimento que ela faz brotar na gente. – Eu cuspo apontando para ele e percebo uma movimentação de pessoas na nossa direção. – Então não ouse sequer pensar que eu sou como ela. Lutei muito para não ser confundida com ela para você chegar aqui e achar que pode descontar a sua frustração com ela em mim! – Eu dou um passo em sua direção. – Eu não vou permitir que você me destrua como ela fez!
Ficamos nos encarando por um breve momento. É intenso pra caramba, ambos estamos ofegantes. Sinto todo o meu corpo tremendo.
— Bella, o que está acontecendo!? – Ouço Jacob perguntar bem próximo a nós e sei que tem outros ao nosso redor. Não respondo nada, apenas encaro Edward, que me encara de volta.
— Que porra você fez com ela? – Jasper se direciona para Edward que também não olha para ninguém a não ser eu.
— Nada, só estava acertando uns pontos com ele sobre Dora. E já acabou! – Eu digo por fim e dou outro passo em sua direção. – Está tarde, vamos embora. – Eu digo e sinto alguém me segurar. Eu sei que é Jasper e aquilo me enfurece.
— Bells...
— Me solte Jasper! Chega disso. Você perdeu a chance de qualquer coisa em relação a mim no dia em que se enfiou em Dora. – Ele se assusta com minhas palavras, já que nunca me expressei dessa forma. – Vá viver a sua vida com Alice e me deixe em paz.
Eu me viro e começo a andar para fora da praia sem olhar para trás. Se Edward quiser, ele que me alcance. Se não, ele que ache o caminho de volta para casa. Agradeço mentalmente quando percebo que ninguém se atreve a vir atrás de mim. Eu preciso estar sozinha para exorcizar os meus demônios. No caso, uma demônia só. Dora.
Pego um caminho pelo calçadão e quando dou por mim, estou na Praia Bonita. Duas grossas lágrimas caem quando deixo que as lembranças daquele dia de verão de anos atrás me tomem novamente. Um soluço me escapa. Ainda consigo me lembrar de quantas vezes cai naquela areia enquanto corria da dor da decepção. Meu namorado e minha irmã gêmea juntos.
— Por quê, Dora?— Eu pergunto para o vento frio da noite.
Eu me sento na calçada e fico observando o mar revolto.
— O que havia de errado com você, Dora? Por que você nunca conseguia ser feliz com o que você tinha? – Eu grito para o nada – Você tinha Jacob! Mesmo assim me tirou Jasper! E para quê? Para ir embora uma semana depois? Você só queria me mostrar o quanto era melhor que eu em tudo né? – Os soluços me tomam e percebo que meu rosto está lavado em lágrimas.
Fico ali remoendo o meu passado por um longo tempo. Quando o frio começou a ficar insuportável demais, eu me levantei e fui caminhando para casa. Cerca de 30 minutos mais tarde, estou virando a esquina na rua de minha casa quando o vejo. Um sorriso brota de meus lábios. Ali sempre foi o meu porto seguro.
— Bells! – Meu pai me aconchega em seus braços ainda na entrada de casa. Ele veste seu pijama xadrez que tem quase a minha idade. – Fiz um chá para você.
Aquele homem, que também foi a pessoa que me consolou na noite em que fui traída pela minha irmã, aqui estava a me consolar novamente.
— Eu te amo, pai! – Eu digo com a voz cheia de emoção.
— Eu te amo filha! – Ele afaga meu rosto e fica sério. – Edward já se recolheu. Ele ficou preocupado, saiu daqui agora a pouco. – Eu dou de ombros.
— Melhor assim. Vamos entrar. – Envolvida nos braços de meu pai, nós entramos em casa.
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— Bom Dia! — A voz doce e melodiosa de minha sobrinha é revigorante. Eu tiro minha atenção das panquecas e me viro para ela com um sorriso.
— Bom Dia, minha pequena! – Eu digo. Meu sorriso vacila um pouco quando vejo Edward ao lado dela, mas eu não fraquejo. – Bom Dia Edward! – Eu digo sem encará-lo e acolho minha sobrinha num abraço.
— Bom Dia, Bella. – Ele diz com uma voz estranha, que me faz encará-lo enfim. Seus olhos estão fundos e seu semblante está cansado. Que bom que ele também não teve uma boa noite.
— Liz, estou fazendo panquecas, você gosta? – Eu volto minha atenção para a menina ao meu lado.
— Siiiiiim! Eu adoro panquecas! – Ela diz sorrindo, indo se sentar ao lado do pai. – Papai também adora! Só mamãe que não gostava. – Ela conclui pensativa e fico intrigada com a menção de Dora. – Eu sonhei com a mamãe... – Ela agora sussurra como se fosse um segredo. Até Edward parece surpreso.
— Foi, minha linda? Um sonho legal? – Eu pergunto parecendo animada e ela assente.
— Não sei... foi estranho. Ela estava desenhando a gente. – Ela ergue seus olhos castanhos para mim. – Eu tocava com você, titia. Papai estava ao seu lado, e mamãe no fundo nos desenhando... — Vejo Edward se mexer meio desconfortável
— Legal... acho que isso quer dizer que a sua mamãe deve estar feliz que estamos todos juntos. Que finalmente nos conhecemos, né verdade? – Eu digo tentando amenizar e recebo um grande sorriso de Liz.
— Claro tia, ela deve estar mega feliz! Né papai?
— Sim, filha, com certeza. – Ele diz e cruzamos nosso olhar por um breve segundo. Eu volto para minha panquecas.
— Bom dia! – Meu pai anuncia logo em seguida e Liz desata a falar com ele do sonho e da nossa breve interpretação sobre ele. Meu pai sorri e concorda com a menina, que o abraça.
Depois de um café tranquilo, com Liz nos divertindo a cada minuto com suas façanhas, logo nos arrumamos para desbravar a nossa pequena cidade. Iniciamos pelo centro histórico, onde meu pai conta de forma breve como a cidade foi construída em 1886, e em como lutou bravamente para se tornar uma cidade independente de Los Angeles. Depois fomos ao Mayfayr Theatre, o cinema mais antigo da cidade, que agora é um museu. Almoçamos por ali e depois fomos à Route 66.
— Minha pequena – Meu pai começa a falar assim que estacionamos e a nostalgia me toma. Me vem na cabeça a memória de quando viemos aqui pela primeira vez e ele nos contou, a mim e a Dora, essa mesma história. – Essa é a estrada mais famosa do mundo. Foi estabelecida em 11 de novembro de 1926. Iniciava em Chicago, Illinois, passava pelos estados de Missouri, Kansas, Oklahoma, Texas, Novo México, Arizona e terminava exatamente aqui onde você está, na nossa Santa Mônica.
Liz fica encantada ainda mais quando ele conta que estrada é berço do primeiro Motel e do primeiro McDonald's do mundo, e que foi cenário de filmes como Hard Fish, Bagdad Café e os filmes da Disney: Carros (Pixar, 2006) e Carros 2.
— Papai! Tia! – Ele grita para nós. Eu estou olhando alguma flores silvestres no acostamento e Edward está mexendo no celular. – O Vovô disse que o McQueen passou por aqui também! Né legal?! – Todos rimos com ela e tiramos muitas fotos. Toda a atenção dos adultos se volta para a pequena garotinha de 5 anos e assim passamos nosso domingo.
Por volta de 15h, retornamos para casa com uma Liz sonolenta e cansada. Foi basicamente uma mini-batalha fazer ela tomar banho para viajar para Los Angeles. Eu fico encarregada de cuidar dela e arrumá-la enquanto meu pai conversa algo com Edward.
Eu desço com Liz dormindo em meu colo e sua mochila. Edward tenta pegá-la, mas eu lhe dou a mochila, mostrando que posso leva-la até- o carro. Meu pai deposita um beijo na testa da neta com muita emoção. Liz responde algo em meio ao sono que ninguém entende. Eu a coloco em seu assento e ela se aconchega sem despertar. Quando ergo meu corpo, percebo Edward bem próximo a mim.
— Bella, eu queria me desculpar por ontem. – Ele diz sério.
— Olha Edward, eu poderia facilmente te perdoar em outros tempos. Só que muitas pessoas fizeram o que você fez comigo. Eu tô cansada de ser comparada a ela... nem mesmo sem ela estar aqui. – Eu digo – Sei que a sua história com ela deve ter sido difícil com ela, mas coloque de uma vez na sua cabeça que eu não sou ela.
— Eu... sinto muito por isso, Bella. Mas você não tem noção do que ela fez comigo e conhecer você bagunçou a minha vida. Pareceu uma última brincadeira suja ela me pedir para vir encontrar alguém idêntica a ela.... como se fosse ela voltando à minha vida.
— Tudo bem, Edward. Mas eu espero que você aprenda a lidar com isso de uma outra maneira. Eu não vou mais permitir que coloquem sobre mim o peso dos erros dela. – Digo firme e ele assente com um olhar intrigado. Estamos a centímetros um do outro. – O que foi?
— Você é genuinamente mais bonita do que ela. – Ele diz numa mistura de surpreso e admirado, como se estivesse me enxergando pela primeira vez. E talvez seja isso mesmo. Talvez ele esteja me vendo agora e não uma cópia de Dora. Mas é impossível não corar com seu comentário.
— Obrigada – Eu sussurro.
— Até mais, Bella! – Ele diz recuando um passo e eu percebo o quanto eu estou presa nele
— Até, Edward. Por favou avise quando chegar. – Eu digo andando para o jardim de casa – E cuidado na estrada.
— Você também. – Ele diz e eu assinto.
Eu retorno então pra dentro, para arrumar minhas coisas e também retornar para Los Angeles. Quando vou subir o primeiro degrau, levo um susto com a voz do meu pai.
— Bella? – Seu tom é gentil, mas é firme. Me deixa em alerta. Não respondo, apenas me viro para ele. Ele me olha profundamente. — Ele mexe com você.
Não é uma pergunta. Encaro o olhar de meu pai sem saber como responder. Ele está apenas preocupado comigo.
— Pai, não se preocupe. Sou adulta agora. – Eu digo e lhe dou um sorriso. – Eu sei me cuidar.
Ele assente e eu subo as escadas. Ao alcançar a porta do meu quarto e entrar, eu solto o ar.
Assim eu espero, suspiro.
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