Não posso ser ela
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Quando a manhã de sábado chega, meu pai é pura euforia. Foram poucas as vezes na vida que o vi tão agitado e feliz. As 7h, já estamos prontos para ir dar nossas aulas.
— Que horas você marcou com o Cullen? – Meu pai pergunta enquanto caminhamos lado a lado até o fim da rua.
— Ele acredita que chegará aqui por volta das 15h. Já mandei a localização certinha, pai. Fique tranquilo. – Eu digo me apoiando em seu braço enquanto viramos a esquina do quarteirão.
O Centro de Artes Elizabeth Swan, ou simplesmente Eliza, fica na antiga casa de minha avó. Quando ela faleceu, meu pai a herdou por ser filho único. Nós moramos nela durante toda a minha adolescência. Quando fui para a faculdade e meu pai ficou sozinho, ele decidiu que não queria mais ficar naquela casa enorme e carregada de lembranças. Eu não discordei, eu mesma tinha a minha cota de lembranças difíceis ali, mas ambos decidimos não vender. Esta casa pertenceu a diversas gerações de Swans, não queríamos que isso se perdesse. Então criamos o centro ali.
A casa é grande o suficiente. Por ter uma arquitetura antiga, todos os ambientes são amplos e bem decorados. Claro que tivemos que investir numa boa reforma para que ela ficasse adequada para as aulas. É um sobrado alto e amplo com um jardim considerável, ótimo para eventos ao ar livre. No andar de baixo, temos a recepção, a cozinha com um pequeno refeitório, o escritório administrativo, banheiros e a sala geral, uma espécie de auditório pequeno. No andar de cima, todos os 5 quartos que havia ali foram transformados em salas de artes: Música, dança/teatro, desenho/pintura, fotografia/cinema e artesanato, sendo que no final do corredor há mais banheiros.
— Bom dia Lee! – Eu digo para a minha amiga que já está arrumando as coisas na recepção. Ela para tudo e vem me abraçar. Essa é a Leah, a intensidade em pessoa.
— Bee! Caramba parece que te vi faz um século! – Ela me aperta e na mesma intensidade ela me larga. – Falei com Jake, ele só poderá vir a tarde. – Ela diz empolgada fazendo seus cachos balançarem levemente. – Bom dia, tio Charlie
— Bom dia Leah! Tudo pronto para mais um dia?! – Meu pai pergunta com uma empolgação incomum que é notada por minha amiga na hora – Eu vou ver como estão as coisas na cozinha.
— Eu sei que ele ama o Eliza, mas que diabos deu nele? – Leah questiona no segundo seguinte à saída de meu pai.
— É melhor subirmos e eu te conto. – Eu digo, puxando-a para as escadas.
Leah é a minha melhor amiga da vida toda, como uma irmã. Talvez ela tenha sido mais minha irmã do que a própria Dora. Leah sempre me compreendeu apesar de ser muito diferentes. Quando Dora foi embora, foi ela quem me amparou e não me deixou fraquejar. Ela é quase da família para mim. Sua mãe, Sue, foi cuidadora de minha vó nos últimos anos de sua vida. Tanto que Leah sempre a chamou de avó também.
Quando vovó morreu, Sue abriu uma loja de antiguidades e artesanato. Leah tem muito da beleza indígena de sua mãe, porém seu cabelo bem cacheado vem de seu pai, Harry, que era negro. Harry morreu quando Leah tinha 3 anos e Seth, seu irmão, tinha 1 ano. Mulata de curvas acentuadas e muito espontânea, Leah sempre chamou a atenção dos homens desde a adolescência, porém ela sempre foi apaixonada por Sam. Sam é o irmão mais velho de Jake, ou seja eles são primos. Sam teve que casar com Emily quando ela engravidou depois do baile. Foi a primeira vez que eu vi a Leah fraquejar.
É, todo mundo tem seu drama.
— Desembucha que eu to vendo que é coisa séria. – Leah diz quando chegamos na sala de música.
— Tivemos notícias de Dora, Lee. – um silêncio espantoso se faz por breve segundos.
— E por isso ele está feliz daquele jeito? – Ela diz horrorizada. Digamos que Leah nunca foi fã da Dora. Muito pelo contrário. – Ela resolveu aparecer 8 anos depois?
— Não Lee... – Eu engulo seco – Ela está morta.
— Oh!
— Conheci o viúvo dela esta semana. – Leah me olha surpresa e eu dou uma pausa antes de prosseguir. – E a filha dela também. Elizabeth Marie!
— Puta merda! – Ela põe a mão na boca e balança a cabeça levemente – Morta? Viúvo? Filha? Caralho!
Começo a narrar então tudo que aconteceu desde aquele dia e também toda a conversa com Edward Cullen.
— Imagine o choque que eu levei? – Eu digo me sentando ao seu lado. Ela afaga minha mão. – E o pior, é que ele nem sabia nada da família dela. Ela disse que era órfã! Só quando caiu doente foi que contou a verdade e escreveu uma carta para mim.
— Sua irmã era muito vaca! – Ela diz e me olha. – Ela escreveu uma carta para você? – Ela faz uma careta.
— Sim, Edward me entregou, mas eu não tive coragem ainda de abrir.
— Eu com certeza não abriria. – Leha diz e eu reviro os olhos. – Ela negou a própria família, Bells, abandonou vocês quando mais precisavam ficar juntos e ainda disse que era órfã para o marido e a filha. Aquela vaca...
— Lee... talvez ela tenha se arrependido quando ficou doente. – Eu digo e é a vez de Leah revirar os olhos.
— Dora e arrependimento definitivamente não combinam – Ela rebate – Mas, então, ela estava doente?
— Sim. Cancer de mama e ovários, igual a vovó.
— Putz! Tão nova... – Eu a olho, espantada – Tá, eu não gostava dela, nunca gostei, mas câncer é foda. Não desejo isso a ninguém. Nem mesmo Dora merecia este sofrimento.
— Eu sei Lee. – Eu digo chorosa — Só que ela não morreu por isso. Ela estava curada e tinha recebido alta. Na noite antes de ir para casa, ela se matou. – Eu digo e minha amiga me olha chocada.
— Não!
— Sim, ninguém consegue entender. Edward disse que ficou transtornado porque ela não parecia depressiva nem nada.
— Que história viu amiga!
— Sim. Parece roteiro de novela! – eu murmuro e sacudo a cabeça. – Bom, pelo menos tem uma parte maravilhosa nesta história. Liz é uma menina incrível, Lee!
Conversamos um pouco sobre minha sobrinha enquanto eu vou trocando as cordas dos violinos. Quando estou lubrificando as tarrachas do violoncello, os primeiros alunos vão chegando. Todos me cumprimentam com um abraço apertado.
— Sentimos sua falta, pró Bella! – Junie diz sorrindo. – Assistimos o vídeo da apresentação. Seus alunos são muito bons mesmo!
Varias outras crianças ali concordam com ela e eu sorrio.
— Assim como vocês! – eu digo me direcionando a todos – Vocês também são incríveis e também os levarei para muitas apresentações. Eu prometo! – Eu digo com orgulho. – Eles tem mais privilégios, mas aqui temos mais força e coragem. Fazemos do pouco o nosso muito, é o que mais me orgulho em vocês!
Observo os olhares admirados das 15 crianças e adolescentes ao meu redor. Eles tem sido a razão dos meus dias. Desde que criamos o Eliza, ajudar crianças que jamais teriam a oportunidade desenvolver seus talentos artísticos é o lema da minha vida. Toda a minha família foi artista e eu sei o quanto a arte dá sentido à vida. Por isso tenho batalhado para dar as mesmas oportunidades para crianças mais carentes. Uso praticamente todo o meu salário aqui, meu pai também. Recebemos doações de alguns comerciantes locais, mas nada muito grande. O que é enorme mesmo aqui é o talento, a força de vontade e o amor que eu sinto por cada um que acolhemos aqui.
As 4 horas seguintes passam praticamente voando e logo estou liberando a turma da manhã. Todos descem para curtir o intervalo com alegria, se juntando às outras turmas. Eu dou uma geral na sala e desço para comer alguma coisa e ver meu pai. Ele deve estar uma pilha de nervos.
— Ei Bella! – Jasper me chama no corredor e se junta a mim no caminho para o refeitório
— Ei Jazz, tudo tranquilo? – Eu digo meio sem graça. Droga, mesmo depois de tanto tempo a relação entre a gente ainda é estranha.
— Sim... queria falar com você rapidinho, pode ser? – Ele está ansioso e aquilo me intriga.
— Tudo bem, vou só pegar algo para comer – Eu digo apontando para o corredor que leva a cozinha. – Já venho.
Eu o deixo ali na recepção e vou buscar algo na cozinha.
— Sue! Como está? – Eu pergunto entrando e abrindo um dos armários.
— Tudo bem, querida, e você? – Ela pergunta me olhando profundamente. Ao encará-la, sei que meu pai já lhe contou tudo assim como eu contei à filha dela.
— Estou bem, Sue. De verdade. Você vai adorar conhecer a Liz, ela é fantástica! – Eu digo pegando um pacote de cookies. – Mas confesso que ainda to digerindo tudo. – Eu suspiro.
— Imagino que sim. Se precisar de mim, já sabe né? – Ela diz e continua lavando os pratos e eu lhe dou um sorriso agradecido.
Encontro com Jasper onde o deixei e vamos ao jardim. Quando encontramos um lugar tranquilo, o que foi difícil com tanta criança brincando para lá e para cá, nós nos sentamos num banco lado a lado. Eu me viro para encarar o homem loiro ao meu lado.
Conheço Jasper desde sempre. Assim como todo mundo meio que se conhece em Santa Mônica. Cidade pequena tem dessas coisas não é mesmo? Pois bem, Jasper, Dora e eu estudamos juntos a infância e a adolescência inteira. Sempre houve um clima entre ele e eu. Ele foi o meu primeiro beijo, meu primeiro amor adolescente. E minha primeira decepção também.
Ser confundida e comparada com Dora era algo com o qual eu me acostumei enquanto crescia, mas que sempre odiei. Então eu sempre valorizei as pessoas que conseguiam nos identificar facilmente. Jasper era uma dessas pessoas. Até mesmo quando uma vez, de brincadeira, tentamos enganá-lo, ele conseguiu saber quem era quem. Foi o que fez eu me apaixonar por ele.
Porém, não sei se por inveja ou outro sentimento, Dora não gostava do nosso romance. E então, um dia eu os vi juntos e tudo desmoronou. Levei muito tempo para conseguir falar com ele novamente. Mas todo o sentimento juvenil se esvaiu com a decepção de ser trocada pela minha irmã. Anos depois, quando voltamos a nos falar e Dora já tinha ido embora, Jasper me contou o que houve naquele dia. Basicamente, Dora enfim tinha conseguido fingir ser eu perfeitamente a ponto de enganá-lo. Como aquilo já estava enterrado no passado, eu simplesmente disse que não importava mais e reestabelecemos a convivência. Tanto que ele é o professor de fotografia e cinema no Eliza.
— Bella, Leah me contou sobre a Dora... – Jasper solta num fôlego só – Eu só queria dizer que sinto muito mesmo. – Eu o encaro nos olhos – Crescemos juntos e apesar do que houve, jamais desejei mal a ela.
— Obrigada Jasper! – Eu digo e afago sua mão. – Eu realmente não sei como descrever como me sinto em relação a tudo que diz respeito a Dora. O vazio da ausência dela existe desde que ela foi embora, porém parece que só agora ele se tornou real. – Eu digo emocionada e ele afaga meu rosto – Quero dizer, agora ela se foi... mesmo.
— Você ainda esperava que ela voltasse. Mesmo que de forma inconsciente. – Ele diz carinhoso – E agora você tem certeza de que isso não vai acontecer nunca.
— Sim – Eu digo num sussurro. Ele se aproxima um pouco de mim.
— Sabe, Bella, eu me arrependo todos os dias pela dor que lhe causei. O que eu fiz acabou com a relação de vocês duas... e ela foi embora em seguida, você nunca mais conversaram
— Jazz...
— Eu me sinto meio culpado. Sempre me senti, desde que soube que ela tinha ido embora. – Ele diz visivelmente abalado. – Eu me torturava sobre como você estava sofrendo, precisando de mim, mas eu não podia mais me aproximar de você. Eu te traí com a sua irmã, Bella. Isso é imperdoável.
— Isso já passou Jazz. – Eu digo – Confesso que naquela época foi duro. Acho que Dora ter ido embora sem termos conversado sobre o que aconteceu me fez te odiar mais e por isso nossa distancia durou tanto. – Eu digo e dou um sorriso fraco. – Mas estamos aqui agora, somos amigos novamente e estamos bem. Ficou tudo para trás.
Ele sorri para mim e se aproxima mais de meu rosto. Estou muito consciente que sua mão em meu rosto e a nossa aproximação em um canto isolado dessa forma pode dar margem a uma interpretação totalmente errada. Quando decido me afastar um pouco, ouço uma voz me chamar e me sinto corar até a alma.
— Bella? – A voz doce de Alice faz com que Jasper pare no meio do caminho. – Oh me desculpem! Eu... eu... — Eu vejo as lágrimas escondidas em seu olhar e me xingo mentalmente por isso.
— Tudo bem, estamos só conversando. — Eu digo me levantando e me virando para ela. — Inclusive, já acabamos.
Eu dou um olhar duro para Jasper e saiu dali o mais rápido que minhas pernas conseguem. Droga!
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