Não posso ser ela
4 Capítulo 3
Notas iniciais
— Bella, Dora, venham aqui! – A voz de minha mãe ecoou pelo andar de cima de nossa casa de uma forma tensa. Me lembro que eu encarei os olhos de Dora que estavam tão arregalados quanto os meus. Nós sabíamos o que aquilo significava.
Descemos o mais rápido que conseguimos, de mãos dadas. Na sala da casa dos Swan, o chefe da família estava sentado em sua poltrona, com os braços apoiados nos joelhos e a cabeça baixa entre as mãos. Seu choro era forte, dolorido. A dor de perder a mãe.
— Dora... – Eu sussurro já sentindo o primeiro soluço se formar em meu peito. Eu agarro o corpo de minha irmã, idêntico ao meu e permito que meu choro saia.
— Bella, vai ficar tudo bem. – Dora dizia ao meu ouvido – É só a morte cumprindo o seu papel.
Ela se matou. A voz de Edward ainda ecoa na minha cabeça.
— Ela...? – Eu pergunto num desejo de ter entendido errado.
— Sim. – A voz dele é um sussurro doloroso. Eu o encaro e percebo minha vista embaçada pelas lágrimas.
— Como?... Por quê?... – Eu sussurro perguntas e permito que algumas lágrimas caiam. O homem a minha frente, visivelmente abalado, me fita. – Ela não estava doente?
— Sim – Ele suspira – Um ano antes de morrer, Dora começou a sentir-se mal. Desconfiamos até mesmo de uma nova gravidez — Ele fala aquilo com dureza na voz — Mas não era – Ele engole seco e de uma certa forma, eu já imagino o que vem a seguir.
— Ela tinha câncer né? – Eu pergunto num fio de voz e ele assente sem desviar o olhar.
— Mama e ovários. – Ele responde com a voz fraca – Já estavam avançados quando descobrimos. O tratamento foi longo, sofrido. Fez com que nos uníssemos de novo, de certa forma. – Eu franzo o cenho. – Estávamos a um fio do divórcio. Eu descobri que ela estava...
— Entendi. – Eu digo absorta. – Então o caso era tão grave a ponto de... – Edward nega.
— Depois das cirurgias e das radioterapias, os médicos nos deram muitas esperanças. – Ele diz tenso – Ela ia ficar bem. Ia voltar para casa. Ela não precisava ter feito aquilo. – Seu queixo trava e eu fico confusa.
— Não entendo
— Nem você e nem ninguém. – Ele rosna de raiva. – Ela ia receber alta na manhã seguinte. – Sua voz era sofrida. – Liz estava tão feliz... Até eu pensei que podíamos...
— Então ela...
— Cortou os pulsos no banheiro do quarto do hospital. – Sua voz soou fria como gelo.
Um silêncio se fez na sala por um breve momento.
— Céus, como vou contar isso para papai?! – Eu exclamo depois de um tempo. Nosso olhar se cruza. – Ele nunca superou muito bem a partida dela. Foi muito difícil.
— Imagino que sim, já que ela nunca pretendeu voltar para casa. – Ele diz e eu o encaro. – Ela me contou sobre vocês numa época difícil do tratamento. Ela... – Ele suspira – Todos nós achávamos que ela não fosse resistir. Foi aí que ela disse que não queria morrer sem contar sobre vocês. Confesso que nem consegui assimilar a dimensão de sua mentira no momento. Mas depois que o pior passou, eu percebi o quanto fui enganado.
— Você a amava muito não é? – Pergunto num impulso e seu olhar brilha para mim.
— Do que adiantou amá-la? Hoje só sinto uma raiva imensa pela dor que ela me causou. – Ele diz frio – Mentiras, traições, o mínimo que ela podia fazer era se arrepender e fazer tudo diferente. Aí ela vai e se mata? – Ele diz retoricamente. – Eu me odeio por tê-la amado um dia.
O peso de suas palavras fica no ar por um tempo. É uma dor quase palpável.
— Eu... sinto muito Edward. – Eu digo sincera. Não sei porquê, mas a dor dele me incomodava demais. Eu queria levantar e abraça-lo, mas ele provavelmente me afastaria. Eu sou a cópia perfeita da pessoa que ele mais odeia no mundo.
— Por isso que levei muito tempo até conseguir vir. Eu não queria nenhum contato com a história dela. Me machucava demais. – Ele diz sofrido – Me mudei para casa dos meus pais e vendi a nossa casa. Porém aquela cidade inteira me lembrava dela. Ela amava aquele lugar.
— Como vocês se conheceram?
— Na Julliard. – Ele diz. – Ela engravidou ainda no primeiro ano. Estávamos loucos de paixão e fomos imprudentes. Mas Dora era intensa e aquilo...
— Atraia você! – Eu digo com rancor. Sei bem como o jeito intenso e impulsivo de minha irmã era capaz de enlouquecer qualquer jovem naquela época. Ignoro a dor no meu peito.
— É. – Ele se limita a dizer e me olha profundamente.
— Papai, eu terminei minhas atividades, quer revisar? — Liz adentra a sala com um lindo sorriso em seus lábios. Eu sorrio para ela automaticamente.
— Eu posso? – Perguntei num impulso. Na mesma hora eu sinto meu rosto corar com o olhar intrigado que de Edward me dar. – Desculpe...
— Tudo bem, afinal você é professora, né mesmo? – Ele diz dando de ombros e ficando de pé, o que eu também faço. – Preciso fazer umas ligações de qualquer forma. Fique a vontade. — Ele diz e sai da sala, indo em direção a um corredor do lado da escada, enquanto Liz me leva para cima, em seu quarto.
Eu a ajudo a finalizar seu dever de casa e depois ela me mostra seus brinquedos favoritos e outras coisas em seu quarto. Há varias caixas por ali, indicando que ainda falta muito para que o quarto esteja devidamente pronto. Liz começa a me perguntar diversas coisas sobre a mãe e a nossa infância. Apesar da dor em voltar àquelas memórias de minha irmã, eu consegui trazer a Dora que eu amava e que eu queria de Liz também amasse.
Assim, ficamos conversando até a noite cair e eu me dei conta de que precisava ir para casa.
— Liz, seu pai está pedindo para que você e sua tia desçam para o jantar. – Tanya aparece com uma cara nada agradável. Percebo a minha sobrinha baixar o olhar para ela e assentir. Tem algo de errado nisso, eu penso.
— Ah, obrigada! – Eu digo me levantando e pegando a mão de minha sobrinha que me dá um olhar sem brilho enquanto acompanhamos a moça.
Eu juro que não gostei nada disso.
— Eu devo ir agora. – eu digo quando encontramos com Edward no hall, próximo a escada.
— Achei que fosse jantar conosco – Ele diz e nosso olhar se cruza.
— Por favor, tia Bella, fica! – Liz pede, fazendo com que eu fite os seus olhos castanhos claros. Como dizer não?
— Eu fico, se realmente não for incomodar. – Eu digo e o sorriso de minha sobrinha cresce de uma maneira muito bonita. Céus, eu já amo essa menina!
— Então vamos! – Edward diz indicando um caminho logo a frente e minha sobrinha praticamente me arrasta para lá.
A sala de jantar é muito bonita, assim como todo que eu já vi da casa até agora. A mesa é grande, de 10 lugares ou mais. Toda de uma madeira bonita e bem trabalhada. Percebo que há 4 lugares postos à mesa. Fico sem saber para onde ir até que Edward me indica a segunda cadeira do lado direito. Ele puxa a cadeira e eu me sento o mais confortável possível. Ao meu lado, ele puxa a cadeira para Liz e em seguida, do outro lado da mesa na direção de minha sobrinha, ele puxa a cadeira para Tanya, que ostenta um sorrisinho presunçoso.
Eu desvio os meus olhos e todos começamos a nos servir. Tanya tenta servi-lo, mas ele a impede. Ela desvia o olhar sem graça e começa a montar seu prato. Eu ajudo minha sobrinha com o seu e depois monto o meu.
— O jantar está delicioso. – Eu comento tentando ser gentil pelo convite.
— Realmente está. Esta cozinheira que conseguimos é muito boa mesmo. – Edward comenta de forma leve. – Vinho, Isabella? – Ele me oferece e eu assinto. Ele preenche metade de minha taça com um vinho rosê de cheiro maravilhoso.
— Papai? – Liz chama atenção dele, que desvia o olhar de mim. – Tia Bella me contou que meu outro vovô mora perto daqui. – Edward sorri para filha e pousa o seu olhar em mim. – Eu quero ir visitá-lo.
— Liz, você irá conhecê-lo em breve. – Edward diz um pouco desconfortável e me olha.
— Minha linda, a tia Bella vai ver seu avô amanhã e contar para ele que você quer conhecê-lo. – Eu digo suave – Tenho certeza de que ele vai ficar louco para te conhecer também. Mas primeiro preciso contar a ele tudo o que aconteceu com a sua mamãe e contar que você existe. – Eu digo com um sorriso. Ela me olha atenta.
— E ele vai gostar de mim? – Ela pergunta receosa e eu lhe dou um sorriso enorme.
— Com toda certeza do mundo. Ele só tem motivos para te amar minha linda.
— Como assim, tia? – Ela agora me olha curiosa. Um olhar que me lembra Dora.
— Meu pai adora crianças e é louco para ter netos. Fora que você tem o mesmo nome da mãe dele e tem o dom da música também. – Eu digo sorrindo e alisando seu rosto. – Mas alem de tudo isso, Liz, você é neta dele. Você tem os olhos dele. Em seu sangue também tem o sangue dele. Ele vai te amar desde o primeiro momento que souber sobre você. – eu digo emocionada e pela minha visão periférica vejo Edward olhar para nós duas com satisfação e Tanya revirar os olhos.
Ótimo, se ela não gosta de mim não posso fazer nada.
— Então eu posso ir com você amanhã? –Liz pergunta e eu nego com a cabeça — Por quê? – Ela cruza os braços e faz um biquinho adorável.
— Liz, preciso ter uma longa conversa com ele antes. – E digo piscando para ela.
— Então no sábado?
— Liz, já chega, sua tia nos avisará quando for melhor. – Edward intervém e eu o olho. Ele está sério, porém gentil.
— Isso mesmo. No sábado talvez não seja uma boa ideia, pois é um dia muito corrido para nós. – Eu digo e Edward me olha intrigado – nós damos aulas durante todo o dia.
— Mas a escola só funciona até sexta, tia. – Liz pergunta.
— Sim princesa, porém não é este tipo de aula. – Eu digo e ela franze o cenho. – Eu e o seu vovô temos um centro comunitário. Lá nós oferecemos aulas de várias artes para quem não pode pagar.
— Nossa! Que legal tia! – Os olhos da menina brilham.
— Isso é incrível, Isabella. Deve ser um trabalho muito bonito e gratificante. – Edward diz com um sorriso tão bonito, quase sonhador, e um olhar tão admirado que ficamos ali presos um no sorriso do outro.
— Sim – Eu digo corando. – É o que tem dado sentido a nossa vida.
— Ah eu quero conhecer! – Liz pede – Podemos ir lá papai? – Ele não olha para filha, mas para mim. Eu sorrio e assinto.
— Vamos combinar o seguinte. Eu vou amanhã conversar com o meu pai. E vocês poderiam ir no sábado a tarde para conhecerem tudo. Se quiserem, podem passar o domingo conosco também. Sei que papai vai adorar isso. – Eu ofereço e Edward me olha atentamente.
— Por favor, papai! – Liz pede.
— Não acho uma boa ideia. Fora que temos planos para este fim de semana. – Tanya fala pela primeira vez desde que o jantar começou. Juro que por um momento eu tinha até me esquecido dela.
Edward não desvia o olhar do meu. Como se tentasse me ler ou algo assim.
— Você acha que isso é uma boa ideia, Isabella? – Ele pergunta e eu assinto.
— Não tem porque adiar o inevitável. É capaz de Charlie querer vir atrás da neta amanhã mesmo quando eu lhe contar tudo – Eu digo e dou de ombros. Edward suspira e passa a mão pelo cabelo.
— Está bem. – ele diz e Liz dá um pulo e corre para abraçá-lo. Eu sorrio com a interação de ambos e observo Tanya estreitar o olhar em fenda para mim. É visível que ela não gostou nada da mudança de planos. Talvez porque não a inclui. – Vamos acertar tudo então.
O resto do jantar seguiu no planejamento dos detalhes sobre o encontro de meu pai e sua neta ainda desconhecida. Após o jantar, conversamos um pouco mais e Liz me pediu para colocá-la na cama. Aquilo aqueceu o meu coração, pelo carinho que estamos nutrindo uma com a outra, mas também me deixou em alerta pela urgência na voz da menina, quase como se fosse implorando por este tipo de gesto.
— Tenha uma linda noite, princesa! – Eu digo lhe dando um beijo carinhoso na testa.
— Obrigada tia Bella. – Ela diz e me olha com um carinho imenso – É muito, muito bom ter encontrado a senhora! – Sinto meus olhos lacrimejarem. – Vai chorar tia? Ficou triste?
— Não meu amor. Ao contrário. – Eu suspiro e a olho profundamente – Você não tem noção do quanto é bom ter você na minha vida, Liz. Você trouxe uma alegria que há muito tempo faltava dentro de mim. Você é um pedaço da minha irmã gêmea, ou seja, também é um pedaço de mim. – Eu digo e lhe dou outro beijo. – Agora descanse, amanhã ainda tem aula.
Nós nos olhamos por um breve momento.
— Estou sem sono. – Ela diz sussurrando, como se fosse uma coisa errada.
— Eu entendo, é muita coisa para entender ao mesmo tempo, não é? – Eu digo sorrindo e ela assente tímida. – Que tal se eu cantar um pouco para você? – Eu ofereço o sorriso da menina praticamente rasga a sua face.
Antes que a segunda canção termine a minha sobrinha já está dormindo tranquilamente. Eu apago o abajur e ajeito seu cobertor antes de me encaminhar para fora de seu quarto. Quando eu alcanço a porta, me sobressalto com a presença de Edward ali.
— Ela estava um pouco agitada, demorou a dormir. – Eu digo nervosa de estarmos tão próximos.
— Eu sei, estou aqui a um bom tempo. – Ele diz e eu coro – Não quis atrapalhar o momento de vocês, por isso não entrei. – Eu assinto entendendo e descemos lado a lado.
— Bom, ate breve então. – Eu digo pegando minha bolsa que deixei no hall.
— Até breve Isabella. – Ele diz colocando as mãos nos bolsos.
— Por favor, Edward. Me chame de Bella. – Eu digo por fim. Ele assente e abre a porta para mim.
— Como quiser, Bella! – Ele diz e o som de sua voz pronunciando meu apelido me estremece levemente. Nosso olhar se cruza mais uma vez.
Ficamos assim por um breve momento. Até que ele me estende uma carta de envelope branco. Eu engulo em seco. É a carta de minha irmã.
— Enfim estou cumprindo a minha promessa. — Ele diz com uma voz intensa e da um passo na minha direção. Com as mãos trêmulas, eu recebo a carta em minhas mãos. Sinto meus olhos encherem de lágrimas novamente.
Emocional de merda esse meu.
— Obrigada, Edward! – Eu digo quase num sussurro. Nós nos olhamos mais uma vez com intensidade. Ele tem esse tipo de olhar, que deixa você preso ali.
— Edward, vem descansar um pouco. – A voz de Tanya surge e me tira do transe que os olhos de Edward causam em mim. Ele fica visivelmente desconfortável. Eu engulo em seco e passo pela porta.
— Boa noite! – Eu digo baixo já do lado de fora e nem aguardo resposta. Apenas sigo direto para o meu carro apertando a carta de minha irmã contra o meu peito.
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