Não Tão Tarde...
2 Lembranças
Notas iniciais
Pov. Jenny
Permanecia de repouso, no aquecido colchão o qual tanto conhecia. Ainda não criara coragem para levantar-me, atravessar aquelas cobertas para expor-me à gélida corrente de ar a qual entrava pela fresta da janela semiaberta. Quem a deixara desfivelada? Ora, ora. Meu olfato dispersou-me de tal linha de pensamento, pois aquele doce e almiscarado odor flutuava diretamente para mim. Café da manhã.
Meus pés titubeavam ao descer os degraus, os longos patamares cobertos de bichos de pelúcia de minha irmã. Quem me dera. Os dedos de meu pé escorregaram e aderi-me ao corrimão, abraçando-o como uma barra de ferro única a qual separava-me de um vulcão. Uma pelúcia em formato de lobo desabou do canto onde dependurava-me, e um suspiro alcançou minha audição proveniente de mim ao visualizar aquela figura derramar-se no chão e não meu próprio corpo. Cautelosamente, deparei-me com a cozinha, esbaforida. Parte em razão do fascinante cheiro e parte por vivenciar uma quase morte ao acabar de despertar.
Rastejei-me com minha meia atritando-se no liso chão, e apoiei-me nas costas de mamãe, que cambaleou, assustada. Ao tornar seu pescoço para trás, seus olhos rapidamente firmaram-se nos meus, cinzentos e seguros, cristais reluzentes cuja confiança transmitida fazia-me sentir realmente aconchegada em casa.
–Bom dia, pequena. –a voz lírica ressoou para mim como um belo hino. Ela curvou-se e beijou-me a testa, meu riso aflorou como uma flor floresce na primavera. Senti um calor amoroso subindo-me ao peito, e o sono invadiu-me novamente, fazendo-me tombar a cabeça em seu ombro com as pálpebras cerradas, a adrenalina de minutos atrás desvanecendo, substituída por uma noite mal dormida.
–Acorde e brilhe, brotinho. Foi semear teu jardim tarde ontem à noite? –o som grave e penetrante de papai crepitou em mim e endireitei meu corpo. Girei o calcanhar e a feição jocosa de papai avolumou-se por cima do jornal, as sobrancelhas levantadas em um arco categórico. Mamãe estendeu uma risada característica, e limitou-se a adornar meu prato com uma panqueca com as bordas manuseadas de glacê. Minha expressão emburrada amenizou-se. Estava retrocedendo meus pensamentos, ainda letárgicos em seu estágio dormente, contudo, embora não entendesse plenamente o significado de sua frase, sabia que era algo referente a mim. Sempre era.
–Já amanheceu? Por quê, sol? –uma voz aguda esgueirou-se para o cômodo. Esfregando os olhos exauridos, as bochechas coradas, com uma mãozinha pressionando com convicção a patinha de um ursinho, roçando metade de seu corpinho de pelúcia no carpete do chão, minha irmã menor de sete anos de idade aproximou-se de papai, escorando o topo de sua cabeça na altura de seu estômago, seus cabelos dourados naturalmente bagunçados espalhando-se como um véu a sua volta.
–Bom dia, princesinha. –papai enrodilhou-a em seus braços longos, soltando o jornal no chão e trazendo-a para perto de si. Vi seu sorriso acocorar-se no canto de seus lábios, em um majestoso cumprimento. Em resposta, minha pequenina irmã permitiu escapar-lhe um grunhido engasgado, incompreensível, o qual aceitamos como um bom dia. Ou melhor, a maioria de nós aceitamos.
Papai ergueu-se, carregando a pequenina em apenas um braço, pairando sua mão livre até o rostinho delicado oculto na camiseta azul dele. Ele deslizou a ponta de seu dedo no narizinho enrubescido pelo frio e fulminou suas pálpebras lacradas.
–Princesinha?
Não houve resposta, pois a vítima já havia encontrado o portal a fim de retornar em sua pequena realidade alternativa, onde o impossível tornava-se existencial, onde aquela estrela perdida em um sonho antigo e substancial podia-se ser agarrada nos dedinhos miúdos de Emily. Minha pequenina irmã apenas quatro anos mais nova, embora, muitas vezes, eu esquecesse. Papai alargou seu sorriso radiante, transparecendo seu singelo amor não fingido.
–Bela Adormecida, tu espetaste o dedo novamente ao fiar teus tecidos? Oh! Onde será que encontrarei o Príncipe Encantado? Como o papai vai acordá-la? Deixa-me ver...
Era perceptível ver o harmônico sorriso suave estampar-se em seus lábios rosados, uma ligeira meia lua bordada. Os braços altearam-na, obrigando-a a escancarar as pálpebras, sedentos por um sustento, ávidos pelo solo. Vendo o improvável, ela agarrou-se ao pescoço de meu pai, assim que ele soltou-a em suas costas.
–Vamos ter de trancá-la na Torre! Guardada por um dragão, muito, muito bravo! –ele rugiu, personificando com sua voz profunda um ronco sonoro, saltando pela sala, alçando as pernas agitadas de Emmy que ria, docemente, de maneira genuína cuja amena canção fez-me recostar um sorriso em meu rosto. De esguelha, observei mamãe meneando a cabeça, os olhos cintilando uma clareza absurda. Uma felicidade eterna.
Aparentemente eterna.
–Não, papai! –a pequena gaguejou, o temor dando-lhe um choque ribombante, sacudindo-lhe o corpinho e trazendo-a de volta a realidade vívida e morna a qual recusara a cumprimentar. Por que eu jamais degustei de aparentes ínfimos momentos? Momentos que poderiam ter despendido de toda uma vida, drenando a força e cor de todos os anos abandonados de um corpo sem rigidez...
–E pois não? Eu sou um dragão, um hediondo e poderoso dragão! Sou seu dragão, um furioso dragão que a protege! A princesa do castelo, a princesa da torre mais alta da aldeia! –ele entornou o corpo, movimentando-se para trás e curvando-se mais uma vez para frente ao assistir Emily esconder o rosto nos cabelos escuros de papai, aumentando o aperto envolta de seu pescoço.
–Não, não! Eu ordeno que pare, oh, dragão!
Papai gargalhou, o riso chacoalhando seus ombros e oscilando o peso da pequena garota. Ele ergueu os olhos e encarou os borbulhantes cinzentos de minha irmã. Ela estufou as bochechas, em protesto, e apertou o nariz de papai com os dedinhos frágeis de sua mão, obstinada. A resolução de papai despencou e ele agachou-se, submisso, permitindo que a minha irmã menor escorregasse para o chão e iniciasse uma fuga pela sala. Seus pezinhos eram ágeis, e embora suas pernas fossem menores que as minhas, ela alcançava uma velocidade impressionante, assombrosamente veloz. Nosso pai sobressaltou-se e começou a persegui-la, com afinco, os braços estendidos em uma tentativa de alcançá-la, reduzindo a distância de ambos. Ele saltou da cadeira, emitindo um grunhido pesado pelo fundo da garganta, um pseudo rugido, o qual fez-me soltar uma risada abafada.
A correria de ambos estendeu-se por um longo período, e havia finalizado minhas panquecas quando Emmy desabou no sofá, exausta, e papai aconchegou-a no colo e iniciou a guerra das cócegas, ele impedindo-a de fugir com seus longos e fortes braços. A risada da pequena trouxe um despertar imediato de minha mente liricamente vagante pelos sonos dissimulados pelo cansaço. As imagens nebulosas foram desvanecendo com a gargalhada altiva, e levantei-me de sobressalto da cadeira. Minhas pernas moveram-se antes que pudesse optar para estancar, e despejei meus braços ao redor do pescoço de meu pai, minha queda amortecida pelo abraço que papai me ofereceu, preenchendo o calor que necessitava naquela manhã ricocheteada por ventos gelados. Com um olhar conciliante, em sintonia, aquiescemos e sobrepujei as cócegas com a qual ele atacava minha irmã. Nossas risadas alteavam aos poucos, como níveis de uma música, uma melodia tão conhecida, tão familiar, tão aconchegante.
–O que está havendo? –a tonalidade inebriante de uma sonora exclamação, expirada em um suspiro leve como passos de uma sombra interrompeu nossas gargalhadas frenéticas. E houve uma pausa assombrosa, três pares de olhos fixando-se em minha mãe, fulminando-a em um temor inegável assomando-se sobre nós. Suas mãos delicadas apoiavam-se no quadril, e um sorriso desabrochou de seus lábios, agravando meus medos irrefreáveis – geralmente, quando mamãe sorria daquela maneira, não significava boas notícias. –Vocês esqueceram de minha existência?
Meu coração acelerado foi enregelando-se, em razão das palavras de mamãe, contudo logo restitui minha sanidade, libertei-me dos braços de papai, em suave acordo. Aproximei-me de mamãe, e apanhei seu punho, fitando seus olhos doces e compreensivos. Ela deixou ser guiada até a borda do sofá, onde seu olhar divergia-se para os de papai, jocosos, as sobrancelhas arqueadas.
–Eu jamais esqueceria de você, Vossa Alteza.
Emmy desvencilhou-se com lentidão de nosso pai, e observamos enquanto ele erguia-se, buscando as mãos de mamãe. Seus dedos entrelaçaram-se, e a sintonia de sua harmônica risada abrigou-se em minha audição quando ele uniu suas testas. Naquele instante, tudo estava bem. O universo havia se esquecido de nós, e isso era bom. Tudo estava encaixando-se com suas peças de formas exóticas, aquelas as quais meus pais me ensinaram a entender. Não conseguia assimilar sequer uma peça deformada a qual ruiria todas as outras.
E então o telefone tocou...
Minhas pálpebras subitamente se abrem, após uma agitação perturbada devanear em meu globo ocular, lutando a fim de sucumbir e ceder ao término de um afogamento. Ainda vejo linhas substanciais onde escorriam as memórias apagadas. Uma lágrima salgada recostou-se acima de meus lábios e pude sentir o gosto roçar meu paladar. O sabor da melancolia aprisionada, revolvida em um caixão acorrentado de agonia, uma dor a qual resistia, para não transbordar.
E eu acordo.
Foi como se assomasse de uma onda. Uma estrondosa onda que me alojara em seu âmago para me sufocar. Eu estava assustada, ainda incrustrada naquele subconsciente que oscilava no desfiladeiro, a maré ricocheteando nas rochas emergentes, há poucos centímetros de minha sanidade. Despertei ofegante, e pude perceber que gotas de meu suor escorregavam em minha pele, sufocando-me naquela camiseta larga da mamãe. Fiquei um momento imóvel, meus membros trêmulos pesados demasiadamente para mover-se, para libertar-me daquela cápsula a qual aprisionava meu fôlego. Retirei a coberta de cima de mim e encostei minha mão em meu peito, onde meu coração batia, descompassado. Ele parecia almejar desvanecer dentro de mim. Abaixei minha cabeça, notando lágrimas salgadas desenrolando-se em minhas bochechas e depositando-se sobre o travesseiro. Uma mecha úmida de meu cabelo soltou-se e oscilou em minha frente, cambaleando de um lado para o outro, para enfim pausar.
Mais uma vez? O mesmo sonho? Sempre a mesma lembrança... a mesma dor. Aquela aflição trouxe uma pontiaguda batida arrematada sobre meu tórax, submetendo-me a um desespero tão conhecido nesses últimos tempos. Meus dedos tremulavam incessantemente, e escondi-os em punho, apoiando-o em meus lábios.
Onde eles estavam?
Haviam-se passado seis meses desde a última vez que os vi. Seis meses que senti aquele cheiro que sempre me acalentava. Seis meses que meu pai tocara em meu rosto e dissera que tudo iria ficar bem. Mas não ficou. Ou ao menos, não já mais alimentava esperança de que ficaria. Qualquer indício que eles voltariam eram destruídos por aquele avassalador futuro, aquele indefinido futuro que ocultava...
Suspirei, e meu sopro de vida recortou-se a meio trajeto. Tentei acalmar-me novamente, tentei abrandar aquelas passadas rápidas o suficiente para que não conseguisse acompanhá-las. Seria o universo novamente? Aquele o qual recordara-se de nós, mesmo que eu me empenhe para ser abandonada?
Acho que não seria algo possível. E não era como se eu pudesse mudar isso.
Batuquei na madeira da minha cama, dando bom-dia a minha irmã dorminhoca que estava deitada ao meu lado, seus bracinhos selados em minha cintura, ela enrodilhada em uma posição defensiva. Bocejou, um longo bocejo, seus olhos cinzas iridescentes, suplicando aquela dança imemorável, estavam afundados e escuros, como se houvesse chorado toda a noite, forçando a lua ouvir seu lamentar. Mais uma vez.
Desde aquela partida, ela não era capaz de ocupar seu quarto, ou passar seus sonhos sozinha. Seus pesadelos atormentavam-na, e eu acordava todas as madrugadas para tentar acalentá-la, deitando-se ao seu lado, murmurando uma música e ajeitando os fios de seu cabelo desarrumados, os cabelos dourados, como se houvessem sido traçados por pequenos e detalhistas dedos.
Inclinei-me e pousei um beijo em sua testa. Ela resmungou algo incompreensível, virando-se, denunciando sua noite mal dormida. Substituindo meu corpo pelas cobertas, pude arrastar-me para a beira da cama, o suor já frio trazendo-me calafrios. Curvei-me, ajeitando os sapatos para encaixar meus pés no aconchego acalorado de couro impermeável da bota do meu pai. As roupas deles, ajudavam-me a lembrar que um dia eu podia sentir o calor de seu contato e o toque delicado de seu afago.
Por que tinha essa sensação que nunca poderia experimentar aquelas memórias uma segunda vez? Por que eu apalpava esse pressentimento de que não desejaria mais carregá-los comigo por um período longo de tempo? Por que eu permutava essa tempestade de desesperança em meus pensamentos bagunçados – desordenados demais a ponto de jamais poder imaginar um dia ser capaz de organizar?
Meu reflexo demonstrava a responsabilidade que pesava-me, sobrepondo-se a minha oportunidade de descobrir algo novo. Minha irmã tinha apenas dez anos, e as nossas aulas haviam iniciado e tive de fingir que tudo estava bem, e mentir para aqueles que pensava conhecer, o que na realidade, conseguia enxergar que desconhecia cada dia mais. Ao abrir os olhos de uma noite sem sonhos, despertara para uma realidade a qual jamais imaginaria que iria possuir. Tinha de ser forte por nós duas. Tinha de cuidar de minha irmã menor. Porém, quem cuidaria de mim quando eu precisasse? Embora não admitisse, eu precisava que alguém me sustentasse algumas vezes. Porque não sou forte o suficiente.
Não ainda. E será que um dia, de fato, seria?
Abri uma brecha da cortina, enxergando aquele sol o qual esforçava-se para ternamente levantar. Levantar de um sono prolongado, um sono cuja duração desejava nunca chegar ao seu fim. E chegou, de qualquer maneira. Haviam escolhas? Abaixei o olhar, e observei a rua deserta, pálida sob o amanhecer ainda esquálido e preenchido daquela névoa que encobria as sentinelas a espreita nos cantos, ocultos em sua marcha irrefreável.
Fechei a cortina e virei as costas para a janela. Bufei. Por quê? Eles apareceram alguns dias depois que meus pais se foram. Ninguém sabe quem são. Usam as máscaras e observam cada passo ao longe. Eles nunca somem, em um ápice da manhã, já estavam todos a postos, como se aguardassem. Aguardassem o quê? Era o que eu sempre esperava descobrir, e o que eu pensava que nunca descobriria.
Fiz o último leite que restara para minha irmã, e ouvi o som latejante de minha barriga resmungando. Depositei o copo de vidro na mesa quase empoeirada da cozinha. Com o canto dos olhos, fitei a porta, trancada e escura, com riscos arranhados em sua superfície, demonstrando as memórias armazenadas naquelas linhas perfuradas há tantos anos acumulando-se. E agora parecia morta, uma vez que aqueles os quais esperançosamente esperava nunca chegariam.
Mordi meu lábio inferior, e olhei para o relógio acima. Ele estava parado. Assim como tudo aparentava estar. Porém sabia que já não devia ser tão cedo quanto imaginara ao acordar. Observei os raios radiando-se e convergindo-se até um ponto específico da sala, aqueles raios do sol que conseguiram encontram uma fenda da cortina entortada, desajeitadamente fechada. Elas cobriam suntuosamente o piano, o mesmo piano que minha mãe costumava tocar todas as manhãs, e o qual ela me ensinava todas as noites, desde quando era pequenina. Aproximei-me, e encostei meus dedos nas teclas brancas, que conheciam meu toque, e eu conhecia seu contato. Afundei a tecla e um fundo de pó fino levantou-se, rodopiando pelo ar, criando um redemoinho a minha frente, como pequenas criaturas provocando-me.
Talvez... ou não?
Sentei-me no banco, aquele banco frio e morto, atemporal no espaço onde me encontrava. Era o passado ou era um futuro de uma distopia a qual apenas estava sonhando? Será que poderia acreditar nisso apenas por alguns segundos? Será que poderia me permitir confiar naquele seguro incerto? E aquelas memórias frívolas, tão distantes, enterradas em uma cicatriz sem remendo?
Comecei a flutuar meus dedos pelas teclas, percorrendo toda sua extensão harmoniosa. E elas me carregaram, transportando-me para uma realidade a qual retumbava seus murmúrios em tonalidades distintas de uma canção esquecida. Ela cantava para mim quando eu tinha pesadelos. E eu conseguia sentir as palavras surgirem em minha mente, a doce melodia mesclando-se com sua voz longe, inalcançável, de mim. Onde poderia reencontrá-la? Será que um dia criaria coragem o suficiente para procurá-la?
A última nota pareceu prolongar-se em uma linha infinita de meus pensamentos, dissolvendo minha existência. Por que não poderia ser apenas uma contrastante trilha a qual poderia compreender e seguir? Contudo ela havia sido apagada. Nós não possuímos familiares próximos, nossos pais eram tudo o que conhecíamos. E eles haviam resolvido que nunca iriam existir.
–Sentia falta de quando você tocava, mana... –ouvi aquele sussurro com um aperto no meu íntimo, aquela mínima voz confrangendo-se em uma implacável linha frágil, sem forças. Virei-me e examinei minha pequena irmã, apertando com rigidez seu bichinho de pelúcia, esfregando seus olhinhos sonolentos e ofertando-me um minúsculo e acalentador sorriso. Oh, Emmy... eles tinham de abandoná-la? Tinham de fazer brotar aquela realidade de um retorno perdido nos sonhos de uma pequena mente a qual ainda estava tentando descobrir onde vivia? Era um labirinto, um labirinto pelo qual eu precisava conduzi-la.
Mas como poderia manejar o caminho que eu nem sequer poderia controlar? Encontrar o rumo cuja jornada cegara-me? Como poderia guiar aquela a quem desejava proteger se tudo o que enxergava era escuridão e imagens desbotadas?
Levantei-me, fragmentada. Não percebera, porém minhas pernas haviam se tornado fraquejadas. Estava com medo. Mas se eu estava com medo, como minha irmã se sentia? E ela parecia tão valente, irradiando uma esperança incomparável – como poderia destruí-la? Isso a machucaria, e não gostaria de vê-la chorar. Não. Eu não conseguiria vê-la chorar.
–Eu também, Emmy. –meu sorriso radiou-se pelos meus lábios, e com o queixo direcionei a mesa, onde seu leite a aguardava. Ela seguiu as minhas coordenadas, e seus olhos degustaram do pequeno copo parco. Sabia que não era muito, talvez não conseguisse sustê-la. Mas para ela isso não era relevante, podia ter a notável percepção de sua gratidão por apenas encontrar-me no final da escada, por poder me observar mais um dia, ao descer o último degrau. Aproximei-me dela, vertendo meus joelhos até por fim alcançarem o chão, e aconcheguei seu pequenino rostinho em minhas mãos, beijando-a na testa. Minha irmãzinha fitou-me nos olhos, com expectativa. Sussurrei, simplesmente. –Está na hora de começar um novo dia.
Eu toquei o piano para ela, e ela assistiu-me ao bebericar em goles minúsculos o leite gelado. Costumávamos fazer isso, e nunca imaginaria que um dia eu iria tocar mais uma vez. As notas faziam-me lembrar do riso terno daquela a quem não via. E as letras faziam-me recordar daquele que nunca vinha. E era como se apunhalasse-me com minhas próprias mãos, com aquela navalha rasgando o ápice de meu estômago.
Porém, teve um momento, onde senti as mãos pequeninas de Emily repousando em meus ombros. E percebi que meus olhos marejavam, em um oceano indecifrável. Piscando repetidamente e virando-me, ergui-me e esbocei um sorriso encorajador. Esfreguei meus olhos com a barra das mangas longas de minha camiseta, já com o uniforme do colégio, um tanto amarrotado. Ela tinha razão. Já era a hora. Tínhamos de ir.
***
Já estávamos a alguns quarteirões do colégio, e não conseguia pausar aquela sensação atormentadora de ser seguida. Sabia que eram apenas os olhos penetrantes dos guardas, aqueles os quais ocultavam-se nas máscaras negras refletoras de cada movimento. Apertei Emmy contra meu corpo, flexionando os dedos de minha mão livre. Não tinha certeza se deveria deixá-la no colégio sozinha, principalmente depois de tê-la encontrado na sala do diretor no final de uma das aulas, com dois soldados ao lado e o telefone tentando discar para casa. Meu coração, naquele instante, havia congelado, exterminado por um fogaréu de cristais de gelo. Havia conseguido, com muito esforço, convencê-los de que cuidaria dela, e a finalidade vaga de preocupar-se com ela já haver passado. Porém era questão de tempo até que soubessem a respeito de nosso evidente convívio sem pais. Porém não havia muito a se fazer.
Talvez...
O que eles fariam caso descobrissem? Os guardas não eram como os outros. Havia algo que escondiam, algo que acolhiam para si mesmos. Não conseguia interpretar suas feições, uma vez que nunca as mostravam. Porém, podia perceber a maneira com a qual nos analisavam, a cada passo, a cada instante. Aguardando, esperando. O que mais me frustrava? Ninguém parecia os notar. Talvez já se acostumaram, após meses em silêncio, apenas seus passos firmes e metódicos na noite muda, ecoando pelos ares incólumes.
–Jenny?
Encarei o par de olhos cinzas dirigindo-se, focalizados com um despertar de curiosidade, nos meus negros, completamente diferentes dos dela. Ao olhar meu reflexo, eles preenchiam-se de um vazio profundo e incalculável, enquanto os dela adornavam-se de expectativa e um sonho inacabado. Tive de crescer, por nós duas. E não podia curar aquela cicatriz a qual aprofundara-se em mim, rasgando meus pulmões. Não, não era tempo para ponderar sobre o que passou, nem sobre o que viria. Tinha de proteger-nos agora.
Havíamos estancado no início da escadaria, minha irmã alguns passos acima de mim, com seu frágil tronco apoiado na barra de ferro, espremendo-se contra sua estrutura de metal frio enquanto batidas apressadas no solo denotavam a pressa dos paralelos que se enroscavam em nossa linha do que chamamos de vida. Ela parecia retratada em uma grande partitura anexada em um painel de vidro translúcido, por onde gotas de chuva escorriam, manchando a tinta da realidade a qual batalhávamos para permanecer firmes. Meus olhos embora estivessem fixos nos de minha pequena e delicada irmã, meus ouvidos compenetravam-se na dança frenética dos estudantes. Os guardas agitavam-se nos portões, incrustando-se em seus postos de modo resoluto.
–Você está bem? –a voz adocicada invadiu meus pensamentos, e descobri estar sendo puxada levemente pela força débil dos braços de Emmy. Ela franzia o cenho, e tentava encontrar o motivo de minha distração. Meneei a cabeça, a franja já crescida em minha testa preenchendo minha visão. Afastei-as com um movimento rápido dos dedos, enquanto de soslaio encontrava-me com o painel magistrado de negror do capuz de um guarda direcionado em mim. Pude sentir a opressão que triturava em meu cérebro, de ser notada, de ser canalizada em sua atenção. Mordi meu lábio inferior e senti o sangue deslizar em meu paladar enquanto com voraz decisão voltava-se para minha irmã, acenando positivamente e pulando dois degraus até alcançar o patamar mais elevado e conduzir Emily pelo corredor quase vazio de nosso colégio. Para longe dos portões. Para longe do olhar inebriante de qualquer um. Para longe deles.
–Jenny! Você está estranha. –os passinhos velozes os quais tentavam abocanhar com seus sapatos pretos que engolfavam os sons, aquele tilintar que vinha abafado em minha audição, me acompanharam. Ela apertava minha mão com seus dedinhos longos, próprios para tocar seu violino, de onde provinham notas tão singelas e puras que acalmavam quando nas noites mais tempestuosas ela a segurava, tentando espantar os pesadelos que formavam lágrimas no canto de seus olhos. Não fitei seu rosto, pois sabia que ela iria conseguir interpretar minha expressão. E não era isso o que eu precisava agora.
–Emmy, é hora de você começar a lutar.
Não sabia de onde as palavras haviam emergido. Tudo pelo qual eu passava estava confuso, distorcido. Algo estava errado, algo iria acontecer. Estava frustrada por não poder saber o que era, e estava com medo do que poderia ser. Pude perceber as costas de Emmy endireitarem-se, e seus passos desacelerarem. O sinal tocou.
–Jenny, o que você... –seus lábios eram ligeiras aberturas por onde se espreitavam uma pergunta assustada. Não podia permitir que ela terminasse. Tinha de mantê-la segura, e quanto menos ela soubesse, poderia tornar a armadura a qual ela se escondia mais resistente. Não era? Pensava que sim. Mas não conseguia compreender o quanto estava enganada. Eu estava apavorada, porém tentava manter minha consciência forte. Tentava manter as chamas em meu coração vigorosas, mesmo quando sentia que ela estava começando a me queimar, e a me chamuscar.
Parei.
–Aula. Não se preocupe. Esqueça. –tornei meu corpo para minha irmã, segurando-a com os dois braços para perto de mim, beijando o topo de sua cabeça, os seus cabelos aterrissando em um compasso único pelas suas costas, enquanto rodopiavam em cada movimento que participava, seja em apenas um retrair de ombros, como ela sempre fazia quando sentia-se segura. Ela sorria para mim quando a afastei. Tentei sorrir de maneira confiante para ela, para retribuir a coragem que ela sempre me transmitia mesmo que não o soubesse. Queria dizer-lhe para ser forte, mas ela não entenderia. Respirei uma longa golfada de ar que estilhaçou meus pulmões. –Não se esqueça de anotar tudo, corujinha.
Emily soltou uma gargalhada e piscou, com o sorriso mais pleno e genuíno que poderia me oferecer, e que por um bom tempo eu não conseguiria corresponder. Ouvi os passos retumbantes dos guardas adentrando as portas do colégio, e instei-a a correr. Olhei para trás constantemente para me assegurar de que estava tudo bem.
Mas algo não estava.
Eu tentava me empenhar para continuar seguindo o fluxo de jovens que emergiam nas salas perfiladas diante daquele infinito corredor. Sentia-me pressionada, como se todos estivessem sufocando-me com seus olhares fixos e sugando meu ar com aquela atmosfera fria que me embalava desde quando os guardas surgiram das portas e adentraram a nossa pequena cidade. Ainda não entendia a razão de meus ombros se retesarem e meus ossos fraquejarem, como se fosse vulnerável, uma presa fácil para uma grande fera me arrebatar. O que não era de tudo uma mentira. Sentia-me frágil. E sabia que não podia continuar assim para sempre. Sabia que devia mudar. Precisava proteger Emmy – talvez ela seja a única que mantêm-me presa a essa realidade, a não apenas fugir e tentar encontrar um outro caminho, mesmo sabendo que não há.
Parei a frente do grande oito acima de mim, e braços colidiram em meus pulmões enquanto corpos se arriscavam para entrar adiante aquela porta, a fim de assistir a primeira aula. Sabia que havia uma rachadura se eu me tornasse para a direita, um escondido trecho por onde poderia me esgueirar e correr. Estava no centro da respiração resfolegante dos jovens corações que batiam ao redor. Havia muitos passos, havia muitos focos. Sabia que era o momento para ir, quando as telas tingidas de um negror profundo não me atingiriam, aquelas pinturas que escondiam por detrás olhos cheios de fúria. Eles não me veriam. Ou assim eu pensava.
E como eu sabia dos feros olhos, se eu nunca os havia visto? Nós não contamos histórias, contamos o que há por trás delas. Nós nunca começaríamos a escrevê-las caso não quiséssemos mostrar o que o véu da realidade presente continua entorpecendo. Não há um futuro. Há uma consequência de suas escolhas. E não há coincidências ou o destino, apenas a presença das risadas que o caminho traz quando as escolhas que você deve fazer o alcançam.
E talvez nesse momento eu houvesse feito essa inevitável escolha que alterou o curso pelo qual passivamente eu caminhava. Recuei, e me esquivei de uma nova pancada que receberia. Não olhei em seus olhos, abaixei minha cabeça, e fui absorvida pelos constantes passos que ressoavam pelo corredor, apressados pelo alerta que o berro dos sinos havia despertado. Porém, assim que o quadro da Batalha Civil escorregou pelo canto de minha visão, tornei meus pés para a esquerda e atravessei uma estreita abertura entre a parede mesclada com as fileiras de armário. Acelerei meus passos, tentando puxar o menor fôlego que poderia suportar. O ar era gélido e denso. A abertura compreendia uma trilha fina que comportava apenas uma pequena pessoa. Eu não ocupava muito espaço, por minha estatura diminuta. Meus miúdos ombros ainda roçavam a rochosa parede, mas não o suficiente para rasgar minha pele. A fresta por onde atravessara desaparecia ao longe, não olhei para trás, mas soube pela fração de luz que se reduzia em uma faixa parca iluminada e fragmentada diante de mim.
Costumava-se ser uma continuação do colégio, que fora derrubado por uma tempestade alguns anos atrás, quando aquela instabilidade atmosférica atingira nossa cidade. Ainda me lembrava dela. Metade de nosso colégio ficara em destroços, e acabaram por fechar a parte destruída com os recursos que sobraram. A quantidade de estudantes ficou menor, o que não me impressionou. Depois daquele dia, houve muitos que não puderam acordar mais uma vez no raiar da manhã seguinte. Não haviam limpado as salas antes de restringi-las permanentemente, e ainda podia ver os pertences do antigo zelador espalhados pelas madeiras em decomposição. Passei por cima dos restos e pude enxergar o novo frasco de luz irradiando um pouco adiante, e prossegui com novo ânimo. Estava perto.
Havia descoberto aquele lugar alguns dias depois de haverem consertado a construção do colégio. Não haviam fechado aquela parede com os devidos cuidados, e não acho que se importavam com esse detalhe. Sabia que ninguém, realmente, percebia aquele rastro da antiga estrutura que tínhamos. Eles esqueciam, todos esquecem. Um dia, tudo apenas não será mais do que lembranças esvanecidas pelo tempo, desbotadas pelo peso de memórias intermináveis, e perdidas como aquela fotografia da família do zelador queimada no chão, há alguma distância de onde pisava com a sola dos meus pés, tentando fazer o mínimo ruído.
Mas por que deveria me incomodar? Talvez seja porque ainda penso conseguir ouvir as vozes do passado sussurrando naquele refúgio abandonado, descartado como uma enorme poeira que deveria ser varrida. Eles choravam, aquele passado. E tentava evitar ouvir os soluços que não percebia se esvair de dentro de mim.
Alcancei a porta arrebentada no final daqueles esqueletos dos alicerces, de onde costumavam haver vida. Eu a mantinha presa com um tecido extenso e em farrapos que encontrara na minha primeira semana naquele apertado espaço. O vento fazia-o flutuar e alguns fios do sol arrastarem-se por entre aquelas cicatrizes abertas. Pude notar o canto de meus lábios se repuxarem para o lado, formando um leve sorriso, enquanto uma calma pacífica dominava minha mente naquele espaço impregnado com o odor de chamas desgastadas.
Levantei os fiapos que cobriam a passagem para fora, e o ar fresco e puro nutriu meu organismo como uma cura para minhas aflições e dores que ali residiam, libertando uma pressão há muito tempo retida. Não havia dito que todos esqueciam? O colégio permanecia na beirada de um penhasco, onde o rio abaixo rugia com delicadeza, cantando canções de ninar com uma contínua melodia que conhecia tão bem. A tempestade e os ventos levaram uma abrangente partícula da estrutura, a qual foi agarrada pelos ventos e arrastada pela correnteza. Algumas árvores rasteiras haviam brotado da terra cavada, e um leviano galho o qual começara a se espessar emergia no canto, aquela semente a qual cuidei para que nascesse começara a crescer, e mantinha minhas esperanças ainda juntas, antes de despedaçaram-se como cacos de vidro. As madeiras partidas protegiam uma parte do desfiladeiro, e uma grama verde reconstruiu a antiga biblioteca que fora levada pelas águas violentas e perturbadas daquela noite adornada de distopias.
Sentei-me ao lado de minha pequena árvore, como se a estivesse protegendo de inimigos iminentes. Pousei minha palma na terra úmida e enchi-me de expectativas. Queria que momentos como esse nunca fossem quebrados, mas eles são frágeis e em algum descuido, sabia que podiam rachar. Gostaria que Emmy estivesse ali comigo, mas sabia que não poderia. Eu confiava nela, mas não confiava em mim. Temia perdê-la. Minha mãe gostaria de balançar suas pernas naquela beirada, muito próxima para despencar. Meu pai iria adverti-la, mas se aproximaria por detrás dela e beijaria o topo de sua cabeça, segurando sua cintura para protege-la, porém sem ranger os dentes por sua teimosia. Ele apenas ficaria ali, observando-a, e mantendo-a segura. Era o que ele mais sabia fazer, manter-nos em segurança, nos seus braços. Mas agora não sabia onde aqueles acalentadores braços haviam ido, e corria desesperada por alojar-me naquele abrigo que sabia que poderia nunca mais encontrar.
Eu sentia falta deles. Eu sentia saudades de cada detalhe de suas feições, do tom da voz de minha mãe, e do calor de meu pai. Sentia saudade de seus sorrisos, e das risadas silenciosas que trocavam com o olhar. Sentia saudades de poder senti-los perto de mim, de segurar minha mãe e de quando abraçavam-me forte quando chorava. E manter-me sem isso era como recortar pedaços de mim e espalhá-los pelo espaço, galáxias diferentes, e separar-me de quem eu realmente sou. Isso deixava-me confusa. Isso deixava-me com uma dor que agonizava-me e fazia-me perder a capacidade de respirar. Isso doía. E doía muito. Meu interior incinerava-se, e eu perdia meus sentidos.
Eu não entendia o porquê eu continuava ali. E imaginava se algum momento eu poderia descobrir o como eu conseguia ainda permanecer. Eu rodeava minhas pernas com meus braços, e os prendia junto a mim, escondendo minha mandíbula entre meus joelhos, marcando o tempo pelo suspiro do rio e pela passagem do sol vagaroso e estável. Queria poder apenas fechar meus olhos e desaparecer por uma fração de segundos. Mas isso não ia acontecer, e nunca iria. E talvez não precisava que algo assim acontecesse.
Eu ficaria bem. Não ia? Tudo ia passar. Tudo iria correr como a contínua água que borbulhava em minha audição. Os pássaros ainda cantavam, e a chuva ainda caía. Havia um oceano de memórias que ainda precisavam ser organizadas. Pensávamos que tínhamos tudo, e o tudo formou-se em um grande nada em apenas uma respiração entrecortada. Mas depois de cada escura noite, havia um brilhante amanhecer, e talvez isso seja a mais bela das oportunidades de recomeçarmos. Mas como recomeçar? Eu não sei onde eu estou. Eu sentia-me carregada como uma folha, levada por lugares desconhecidos, e coagida a lutar em batalhas frenéticas e preenchidas de armas pontiagudas e rostos indefinidos. Era um grande furacão, e estava sendo sufocada dentro dele. Eu permaneci ali por um período muito longo, e deixei que as lágrimas viessem. E se eu conseguisse resistir? E se eu conseguisse levantar-me? E se eu apenas chorasse, e tentasse não pensar no que poderia me tornar? E se eu tentasse confiar naquilo que sentia que deveria fazer? E se eu deixasse alguém entrar na sala trancada onde eu me barrava? E se eu entregasse essa chave a alguém? E se alguém não conseguisse me salvar? E se eu me afogasse naquele oceano onde tentava nadar? Eu não sei, eu não sei...
Ou eu me fazia pensar que não sabia.
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