Notas iniciais
Ei, voltei para vocês. É um capítulo curto, eu sei... espero poder escrever alguns mais longos, eu apenas quis atualizar a estória para não deixá-la parada. Para vocês conhecerem um pouco melhor a pequena Emmy. Nos vemos ali embaixo!

Pov. Emily.

O que o faz sentir-se vivo? Era o seu sangue circulando e pulsando em seu ouvido? Era as batidas que podiam ser sentidas se nos concentrarmos bem para tocá-las ao repousar nossa palma em nosso tórax? Já ouvi minha irmã contando em seus dedos os segundos para terminar de fazer um bolo. Eu observei-a ao longe, franzindo o cenho, sem compreender. Olhei para o relógio, e notei que ele estava parado. Comecei a contar com ela, mesmo que ainda me perdesse nos cinco dedos que tinha em cada uma de minhas mãos. Havia arduamente chegado a 120 segundos quando um odor efervescente e ocre inundou meus sentidos. Levantei meus olhos e percebi minha irmã encarando fixamente seus pés, as mãos pressionadas em punhos, e sua atenção compenetrada em algo que definitivamente não era o fogão, de onde saía uma densa nuvem escura que deslizava através da janela afora e fazia-me tossir. Acho que foi apenas depois de ter expelido meu terceiro engasgo ruidoso que ela despertou e esbugalhou seus olhos escuros, os quais minavam qualquer traço de desespero de mim nos dias mais obscuros.

Ela estava distante de mim, nos últimos dias. Não sentia mais o abraço dela por muito tempo, porque ela se retraía e desapareceria em um recanto onde ela pensava que eu não conseguiria ouvir o murmúrio de seus soluços. Mas eu ouvia, e eu podia sentir cada vez que ela chorava – como se um rasgo riscasse meus pulmões e tornasse tudo uma realidade confusa e turva. Era como se cada vez que ela despencasse em lágrimas eu ficasse sem oxigênio para respirar. Não podia agarrar suas mãos e dizer que estava tudo bem, porque eu sabia que se ela escondia algo de mim, pois ela não iria querer que eu me preocupasse. Me preocupasse? Eu me preocupava. Mas não sabia porquê. Não sabia o porquê ela estava daquela maneira.

Jenny sempre cuidou de mim. Mas agora, ela não conseguia encarar-me e sorrir de verdade. Recordo-me quando vi seu sorriso sincero pela última vez, e essa memória estava se apagando em meio a esse presente que estava vivendo. Era um presente em que eu me perdia. E não conseguia encontrar uma maneira de reverter isso. Não era como se pudesse apenas parar o tempo, e voltar naquela noite quando papai sentara ao meu lado, em minha cama umedecida pelo mesmo suor que tingia minha camisola de pontos escuros que grudavam-se em minha pele. Era de madrugada, e era véspera de meu aniversário de dez anos. Estava ansiosa, pois restavam apenas algumas horas para me apresentar com o quarteto de cordas, tocando em meu violino, no mesmo dia que completaria um ano a mais. Não teria mais nove anos, não poderia mais levar rosas brancas para a sala todos os dias, o acordo que fizera comigo mesma em meu aniversário do ano anterior. Agora levaria flores Não-Esqueças-De-Mim, em um vaso que já estava preparado no nosso estreito corredor. Era a nova promessa, que iria selar assim que soprasse as velas que ainda estavam descansando na gaveta da mamãe. Mas estava chorando naquele momento, porque não conseguia dormir e não conseguia segurar com firmeza o suficiente meu violino, pois meus dedos suavam e meus braços tremiam. Meu pai havia me aconchegado em suas pernas seguras, e afagado meus cabelos, fios dourados de minha franja colando-se em minha testa de onde brotavam gotículas salgadas que escorregavam por minhas têmporas. Eu estava com medo de minha apresentação. Era a primeira vez que pisaria em um palco de verdade, meus pés pequenos iriam caminhar nas madeiras que estalavam discretamente onde ficaria frente a dezenas e dezenas de adultos.

–Emmy. –o sussurro de meu pai havia abrandado meu coração, e por um instante pude puxar o ar com tranquila paz, sem quase me afogar em um arquejo vindo de meu estômago retesado. Ele afastou a franjas de meus olhos, e os seus olhos tão parecidos com os de Jenny me fitaram. Assim como os dela, quando a luz refratava no canto de seu rosto, e quando ele estava a ponto de derramar uma lágrima, seus olhos eram pincelados com uma tonalidade verde escura, que me faziam lembrar dos arcos de luzes que teciam os céus nos invernos mais frios. –Não precisa ter medo. Você sabe o que eu faço quando estou com medo?

Eu balançara a cabeça, meus pensamentos turbulentos colapsando-se como se fossem imensas folhas de outono maciças caindo das grandes árvores que sempre encaminhava por debaixo nos finais de tarde junto com minha mãe. Era como se elas agrupassem-se no topo de minha cabeça e a pesassem em uma balança. Estava eu ainda em um pesadelo? Não porque ainda sentia as mãos quentes de meu pai acariciando meus cabelos, traçando com eles um emaranhado entre seus dedos. Então apenas encarei-o, aqueles olhos verdes salpicados de luz, uma luz que sempre brilhava na escuridão que tentava me deixar cega.

–Eu fecho meus olhos e escuto minha respiração tamborilando dentro de mim, sussurrando em meus ouvidos. Está ouvindo, minha pequena? O som de sua respiração, de meus batimentos cardíacos? –ele gentilmente enrola-me em seus seguros braços e encosta minha cabeça em seu tórax. Tum, tum, tum. Sorri, um leve sorriso sentindo-me abrandar aos poucos, tornando-me calma mais uma vez. Aquela vez que jamais esqueceria. Era uma canção lírica, que trazia em meu peito uma grande paz onírica, como se caminhasse em nuvens, como se conseguisse voar. –Eu tento encontrar a porta daquele imenso labirinto cheio de monstros, aquele lugar horripilante que me aprisionaram. Está vendo, princesa? Todos os heróis têm suas fraquezas, e não precisa temer. São com as nossas fraquezas que nos tornamos fortes e conseguimos superar montanhas. –a voz dele era um murmúrio constante e abafado contra meus cabelos claros, uma grande desordem em meio a uma confusão cor de mel. Fixei minha atenção em seu rosto, tão tranquilo, tão pacificador. Ele havia fechado os olhos, e agora prosseguia pausadamente. Recostei-me em seu ombro, imitando-o, cerrando minhas pálpebras mesmo com medo daquela escuridão que me encobriu de imediato. Confiei nele. Sabia que ele, meu guardião, estava ali. Meu papai. –Eu tento esquecer os uivos dos dragões, as garras dos fantasmas, e continuo andando, tentando encontrar aquela porta, me concentrando apenas naquela batida conhecida. Na batida de seu coração, minha garota. Ainda me lembro quando a ouvi pela primeira vez, enquanto hibernava na barriga de sua mãe.

Arqueei as sobrancelhas, espiando por entre os fios bagunçados que recaiam sobre meu rosto, a expressão de meu pai. Seus lábios haviam se repuxado para o lado, um sorriso terno e sonhador. Não estava nesse mundo, mas onde quer que estivesse sempre encontrava um meio de comunicar-se comigo, de encontrar um caminho para me encontrar.

–Não deixe que o medo alimente-se de você, Emmy. Mostre para ele que você é forte, mostre que você é valente, uma grande guerreira corajosa. Mostre que ele não vai conseguir vencer enquanto você ainda estiver empunhando seu escudo. Não é? Minha pequena menina, você pode vencer tornados e ainda não sabe. Você consegue.

Meu pai, meu soldado. Ele beijou minha testa, calando-se logo em seguida. Não havia aberto os olhos mais uma vez, pois algo ardia neles, e não entendia o que era. Mantive-me em seus braços, até eu despencar em um sonho o qual passou em um lampejo impossível. Conseguia ouvir a canção dele ressonando em minha mente, baixinha, mansa.

Por que não conseguia acreditar em meu pai agora? Eu não era forte... não. Minha irmã me emprestava suas forças, e apenas por causa dia eu ainda me sustentava, por causa disso eu ainda conseguia andar. Mas parece que nossos passos se tornavam cada vez mais lentos, e o medo estava me provocando, intimidando-me para poder preencher meu vazio mais uma vez. Eu queria que meu pai estivesse ali, para me reconfortar, para dizer aquelas palavras mais uma vez. Não sabia onde ele estava. E estava determinada a encontrá-lo. Porém, não podia fazer isso sozinha, podia?

Estava esperando minha irmã na frente da escola, na escadaria, por onde aquelas grandes pessoas corriam a fim de libertar-se para o ar fresco do fim da manhã. Cruzava meus pés, apoiando-me na parede ao lado do corrimão, tentando me manter escondida daqueles olhares. Eu costumava brincar com eles, com aqueles pés apressados, correndo atrás dos meus amigos e rir enquanto perseguíamos os pássaros que sentavam-se ao longe, enquanto gatos espreitavam-nos como gigantes tigres. Mas eles tinham ido embora depois da tempestade, e quando tentei correr pelos corredores e pelos jardins fui bruscamente puxada pelos cotovelos e levada para uma sala apertada e assustadora. Tentei não demonstrar isso para Jenny, e sorri afavelmente quando ela me buscou com as feições contraídas de preocupação.

Se eu pudesse apenas encontrar as palavras. Porém parecia que elas haviam sido enterradas junto com as gotas da tempestade, bem debaixo da terra. E o que eu poderia fazer? Eu queria mostrar para Jenny que tudo estava bem, iríamos encontrar o papai, porque eu estaria ali na frente a conduzindo. Isso era bom, não é? Assim poderia protegê-la assim como ela sempre me protegeu. Mas como poderia? Eu era tão pequena...

–Emmy! –assim que alcançou-me suas mãos flutuaram para as minhas paralisadas na lateral de meu corpo. Estavam frias, como se ela houvesse acabado de cair em uma correnteza congelada. Encarei-a, a íris dos olhos de minha irmã sendo refletidos pelos raios de sol, contrastando o esverdeado pintalgado de serenidade em meio ao turbilhão violento da escuridão preocupada. Sorri para ela, um sorriso torto que fazia cócegas no canto de minhas bochechas.

–Ei, mana. Demorou, não?

Jenny balançou a cabeça, respirando fundo. Pude perceber um resquício de pavor esvaindo-se de seus membros retesados. Havia uma grande pressão tornando-a uma nova irmã para mim nos últimos meses. Ela não era aquela antiga Jenny. A minha Jenny. Sabia que ela acordava e ficava parada na frente do piano nas madrugadas, sem conseguir tocá-lo com seus dedos que tremiam, estremecendo como se uma rede a envolvesse, prendendo seus membros em uma armadilha. Queria poder soltar essa rede, porém sabia que ela era mais forte que eu. Eu era fraca. Fraca demais...

–Não irei me atrasar mais. –em um lapso de segundos, ela estava inclinada para mim, suavizando a expressão e beijando delicadamente o topo de minha cabeça. Meneei de forma quase imperceptível, e voltei-me para cima, a fim de fitá-la segura, para demonstrar que não estava com medo, que não precisava se preocupar.

–Tudo bem. Nós não controlamos o tempo, não é?

Ela soltou uma risada baixa, havia uma luz por debaixo do som quieto e afável. Mas essa luz logo se escondeu, e o pequeno sorriso que ela esboçou nos seus lábios era silencioso, uma tentativa de me mostrar as cores que faltavam no mundo. Talvez ela não percebesse, mas a paleta neutra das teclas do piano estava lentamente se tornando ruborizado.

–Não ainda. –seus dedos contornaram ao longo de meu nariz, enquanto eu o enrugava e ela erguia-se. –Vamos? Está com fome?

Assenti avidamente. Claro que estava! Andávamos por entre a trilha de pedras, encaminhando-se para a rua frenética, para as vidas incrustradas de corridas e atenuadas desconfianças. Minha irmã orientava-me em meio as passadas distraídas das pessoas cujas atenções desviavam-se de nós assim que depositavam seus olhares em nossa direção. Não éramos mais do que mais alguém invadindo seus pensamentos. E o que eles seriam para nós? Nada mais que indivíduos avulsos sem passado e sem futuro para nos interessar? Havia tantas histórias, e onde nós nos encaixávamos nela?

Enquanto eu sentia o calor da mão firme de minha irmã acobertando a minha frágil, pensei que gostaria de saber. Mas não sabia o quanto eu passaria a imaginar o que teria acontecido se eu não descobrisse. E eu nunca queria ter descoberto.

Pov. Jenny.

Estava tarde. Não que eu me importasse em olhar o relógio. Os ponteiros estavam pausados, como se um lago congelado sucumbisse os números no fundo de uma caverna. Emmy estava no quarto, mas suspeitava que ela já havia se escondido nos seus sonhos. A cortina estava cerrada, o prateado da lua entorpecendo minha visão enquanto observava o pano fino esvoaçar diante do vento frívolo que escorregava por entre as frestas da janela fechada. Estava tendo uma tempestade lá fora. Mas não como aquela tempestade. Os pingos não cessavam em nocautear o teto de nossa casa, e meus dedos tremiam enquanto ouvia o som da noite cantar em meu ouvido.

Eu não conseguia dormir. Muito embora não conseguisse fazer outra coisa. Apenas ficava imóvel, sentada em uma das poltronas antigas, paralisada em meio a minhas memórias que tentava estancar como se fosse um fluxo de sangue jorrando de uma ferida aberta. Naquela tarde Emily havia se aprisionado no quarto, com o violino em mãos, e não me deixara entrar sem antes responder a senha a qual ela trocava a cada dia. Portanto resolvi esperar ela dormir mais uma vez.

Seis meses e duas semanas.

Estava cansada, tão cansada... Meu corpo era um abrangente conjunto de sentidos os quais não conseguia mais controlar. O núcleo que me impulsionava a prosseguir, o núcleo que me fazia sentir o que de fato eu sentia havia se quebrado, como os ponteiros, porém incurável. Doía, e pensei que aquela dor passaria. Portanto eu resisti. Eu aguentei por alguém, pelo último vestígio do núcleo que me restava proteger. Emmy. Até quanto ela suportaria? Até quanto eu suportaria?

Não percebi quando adormeci na poltrona, ainda sentindo o cheiro de meu pai absorvido em cada partícula do tecido macio o qual me afundava. Talvez fosse melhor esquecer... sim, por que não? Assim como nós fomos esquecidos na mente deles, para sempre.

Notas finais
Vocês acham que capítulos desse tamanho estão bons? Ou preferem maiores? Aaah! O que acharam da capa nova? Ficou horrível, não é? Não sou a melhor em editar imagens... como percebem. Ahn, não sei se a narração da Emmy ficou satisfatória... quero dizer, não sei se ficou coeso desde que ela ainda é uma criança... *cofcof* O que acharam? Vão me bater por demorar? Desculpem-me, mas estou sozinha, sabem? A minha prima resolveu me abandonar, por um tempo, rs. Espero que ela não veja essas notas. Amo vocês, obrigada por continuarem firmes conosco! -Reyna Potter.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.