Não Te Esquecerei Jamais
12 Viagem de férias
A viagem teria a duração de quase quatro horas e nós a faríamos de ônibus. Bem, nenhuma das duas avós estava apta para dirigir. Minha avó tinha desistido do volante há anos e passou a não renovar a carteira de motorista quando percebeu que meu pai nunca se negaria a levá-la aos lugares se estivesse disponível; às vezes ele pagava um Uber e, em outras, ela ia de ônibus mesmo. Já a avó do Guilherme tinha a visão muito limitada, então já não era mais possível renovar a habilitação dela.
Meu pai foi nos deixar no terminal rodoviário e esperou pacientemente até que embarcássemos para ir embora. Comi uma coxinha acompanhada de refrigerante na lanchonete da rodoviária, precisando ouvir meu pai reclamar exatamente seis vezes do preço abusivo do lanche. Guilherme, por sua vez, escolheu ficar em jejum e, no lugar do salgado, tomou um comprimido para enjoo. Pelo visto, ele era fraco para viagens longas. Para mim, na minha cabeça, ficar de estômago vazio é mil vezes pior e torna o enjoo bem mais fácil de aparecer, mas cada corpo funciona de um jeito.
Eu e o Guilherme sentamos lado a lado. Fizemos um par ou ímpar rápido para decidir quem ficaria com a poltrona da janela e, felizmente, eu ganhei. O único problema de sentar no canto da janela é que, se você precisar ir ao banheiro, é obrigada a pedir licença para o vizinho. É meio vergonhoso, o que me fez pensar que, se eu estivesse na ponta do corredor, era só levantar e pronto. Mas a vista lá fora compensava o incômodo.
Partimos da rodoviária às onze e quinze da manhã e, em questão de minutos, o leve balanço do veículo fez meus olhos pesarem como pedra. Eu tinha dormido pouco e mal na noite anterior, somado ao fato de que fazer viagens longas sempre me dá um sono absurdo. São horas ali parada, no mais puro ócio e tédio; acho que é um processo natural o corpo querer desligar.
Minha mente começou a se distanciar, flutuando em direção àquela confusão característica do sono, um turbilhão de pensamentos desconexos e sem o menor sentido. No entanto, por causa do contexto da situação — por estar dentro de um ônibus chique, mas não tão confortável quanto a minha própria cama, e colada ao lado do Guilherme —, minha consciência não conseguia apagar completamente. Consequentemente, a possibilidade de um sono profundo e reparador não era real. Minha única esperança era que, mesmo sem um descanso perfeito, aquele leve cansaço da noite em claro fosse aliviado.
Em algum momento desse cochilo superficial, quando minha percepção estava um pouco mais atenta ao que acontecia ao redor, abri os olhos por um breve segundo. Meus olhos escuros focaram de imediato na pequena tela do celular do Guilherme, que estava ligada. Ele assistia a um filme conhecido. A tela transmitia justamente a cena icônica em que a Louisa Clark fica superempolgada ao ganhar as meias listradas de Will. Fechei meus olhos no mesmo instante e virei o corpo de lado, ficando de costas para a tela. Aquele era um dos meus filmes preferidos da vida, mas que eu só me permitia assistir quando estava psicologicamente preparada para chorar um rio. Mesmo já tendo visto tantas vezes, o sentimento não mudava: as lágrimas sempre caíam no final.
Era difícil para as outras pessoas entenderem o motivo de tanta emoção da minha parte, e acho que sou apenas uma pessoa muito empática. Diante de um roteiro bem amarrado e de uma boa atuação, consigo me colocar perfeitamente no lugar do personagem. Eu realmente fui arrebatada pela composição daquele filme e acho que o sentimento entre os dois foi construído aos poucos, de forma muito natural. Tudo terminou de um jeito tão dramático que me deixou dividida, porque eu conseguia compreender os dois lados. Foi um desfecho sofrido, porém completamente real. Consigo imaginar algo daquele tipo acontecendo na vida real.
Mas por que ele decidiu assistir logo a esse filme agora? Não podia ver sozinho em casa?
Por regra, eu sempre assistia a produções do gênero completamente sozinha. Afinal, quem gosta de se emocionar e chorar na frente de outra pessoa? Na verdade, poucos tipos de choro são bem aceitos socialmente. Basicamente, o pranto precisa ser movido por uma extrema felicidade: alguém casando e superemocionado porque vai passar o resto da vida ao lado de quem ama, uma mãe que acabou de dar à luz ou quando conseguimos realizar um sonho tão desejado que as lágrimas brotam espontâneas. Mas as lágrimas motivadas por pura tristeza são repudiadas, e nós preferimos sofrer às escondidas. Demonstrar sofrimento parece ser um sinal de fraqueza.
O curioso é que transformar o sofrimento em sinônimo de fraqueza é algo completamente contraditório à própria essência do ser humano. As pessoas não vivem dizendo que sofrer faz parte da vida? Então, por que o sofrimento seria uma fraqueza se ele é inevitável?
Claro, obviamente não é uma sensação gostosa ter que sofrer por algo, e é evidente que, se a dor puder ser evitada, ela será. A questão é que às vezes ela simplesmente bate à porta, e por ter essa natureza imperfeita, deveria ser melhor aceita por todos. Em filmes, e até mesmo no meu cotidiano, já cansei de ouvir alguém dizer: "Ah, pode chorar. Chorar faz parte, coloca tudo para fora". Mas também já vi minha irmã repreender uma amiga por ainda estar sofrendo por um ex-namorado, o que me fez refletir. O que invalidava a dor daquela garota? Por que ela não podia sofrer mesmo depois de alguns meses de término? Ela era obrigada a se recuperar no mesmo ritmo dos outros?
Ah, é tudo muito complicado quando as pessoas tentam julgar os sentimentos alheios de acordo com os seus próprios parâmetros, considerando única e exclusivamente as suas vivências e os seus princípios.
Custou-me algum tempo de divagações, mas acabei pegando no sono leve outra vez. Quando acordei, ainda tentando me situar no espaço, percebi que alguém balançava meu ombro de leve. Minha avó precisou repetir a frase uma segunda vez, porque na primeira eu estava sonolenta demais para registrar.
— O ônibus fez uma parada para o lanche — ela repetiu, ajeitando a bolsa. — Está com fome, Ariana?
— Não, vó. Eu trouxe umas batatas na mochila. Qualquer coisa, se a fome apertar, tenho algo rápido e barato aqui.
Observei enquanto a testa dela se franzia de imediato. Um som de desdém escapou de sua boca e sua mão desenhou um gesto cortante no ar.
— Isso não alimenta ninguém, querida — ela decretou, encarando-me como se estivesse explicando a coisa mais óbvia do mundo.
— Está tudo bem, vó.
— O seu amigo não perdeu tempo. Já está lá na lanchonete se esbaldando.
Levantei da poltrona e me espreguicei, sentindo meus ossos estralarem.
— Vou aproveitar a parada para esticar as pernas lá fora, mas não quero comer nada pesado.
A mão direita da minha avó balançou no ar, me apressando para que eu passasse logo pela frente dela. Com agilidade, espremi meu corpo pelo pequeno espaço que havia entre a poltrona pouco inclinada de Guilherme e o encosto da fileira da frente.
Do lado de fora, o ar abafado do verão soprou direto no meu rosto. A diferença climática do interior climatizado do ônibus para a área externa era gritante. Caminhei em direção à lanchonete da paragem, onde Guilherme e sua avó estavam acomodados.
Ao ver meu amigo mordendo um pastel enorme e bem recheado, perguntei-me se aquilo era realmente uma boa ideia. Afinal, ele tinha saído de casa em jejum justamente para evitar o enjoo do trajeto. Comer um lanche frito e pesado daquele seria o mais adequado para o estômago dele?
Guilherme abriu um sorriso assim que me avistou na entrada. Ele estava sentado em uma mesa próxima à luz do sol e, quando inclinou o corpo para o lado para me dar espaço no banco, o feixe luminoso alcançou seu rosto. Sob a claridade direta, seus olhos verdes adotaram um tom visivelmente mais claro e brilhante.
— Não vai comer nada? — ele perguntou, limpando o canto da boca com um guardanapo.
— Ah, não. Não estou com muita fome — menti, apontando com o queixo para o salgado na mão dele. — Você não tinha dito que ficava enjoado em viagens? Tem certeza de que comer esse pastelão é uma boa?
Ele estalou a língua na boca, em um sinal divertido de derrota.
— Tinha que arriscar, Cenourinha. Era a possibilidade de ficar enjoado pelo movimento ou a certeza absoluta de passar mal de fome.
— Ah, entendi.
O aroma do pastel frito na hora estava delicioso e aconteceu exatamente o que costuma acontecer quando vemos alguém saboreando algo com uma cara ótima: minha barriga roncou e a fome apareceu. Soltei um suspiro insatisfeito, repreendendo meu próprio estômago.
— É melhor você comer alguma coisa. Ainda temos uma hora e meia de viagem pela frente — ele insistiu.
— Ah, não. A fila da lanchonete está enorme e o balcão fica muito longe daqui.
Guilherme soltou uma risada nasal, falhando na tentativa de contê-la. Um leve balançar de cabeça em desaprovação acompanhou o gesto dele.
— Ainda bem que eu previ tudo isso e comprei um misto-quente para você antes de você chegar — ele anunciou, empurrando um embrulho de papel-alumínio na minha direção. — Eu não sabia se você preferia pastel ou outro tipo de salgado e, bem, todo mundo gosta de misto-quente.
— Ai, quem é que não gosta de um pastelzinho bem oleoso? — brinquei, rindo. — Obrigada, Guilherme, mas não precisa se preocupar.
— É só um misto, Ariana. Come logo para não ter um mal-estar depois por causa de estômago vazio.
Suspirei, me rendendo ao cheiro bom do queijo derretido.
— Tá bem, você venceu. Vou só ali dentro comprar um café para acompanhar.
Eu mal tinha inclinado o tronco para me levantar do banco quando a mão dele subiu e tocou o meu antebraço, me fazendo congelar no lugar.
— Deixa. Eu compro para você. Já acabei o meu lanche mesmo — ele disse, com a voz mansa.
Aceitei a gentileza e estendi a moeda que já estava separada na minha mão para pagar a bebida. Guilherme, contudo, simplesmente fechou meus dedos em volta do metal, rejeitando o dinheiro, e se afastou com um sorriso de canto. Ele já estava de costas caminhando em direção ao balcão quando um sorriso involuntário moldou meus próprios lábios.
— Hum... Todo cavalheiro — sussurrei para mim mesma, observando-o de longe.
Meu corpo deu um sobressalto quando me lembrei de um detalhe crucial: eu precisava avisar que queria a bebida com açúcar. Fiquei de pé em um pulo, num sobressalto bem parecido com o daqueles gatos distraídos que dão um salto absurdo ao darem de cara com um pepino no chão.
— Eu quero o café com açúcar! — gritei em direção a ele, ignorando os poucos clientes ao redor. — O misto-quente é salgado! — justifiquei logo em seguida, para que ele entendesse a minha lógica.
Os pés dele travaram no piso da lanchonete e ele girou o corpo na minha direção. Guilherme ergueu os polegares no ar, confirmando que tinha ouvido o recado, e exibiu aquele sorriso torto característico antes de retomar a caminhada até o caixa.
[...]
Não me surpreendi quando percebi, já de volta à minha poltrona, que o sono tinha sumido por completo. Era certeza que eu não conseguiria cochilar mais. Aparentemente, eu já estava bem descansada ou, mais provavelmente, aquele tinha sido o efeito imediato do café preto com açúcar.
Para passar as horas restantes, eu e o Guilherme decidimos assistir a um filme juntos. Navegando pelo menu da tela individual do ônibus, optamos por um título de ação. O fato de o catálogo do aplicativo ser bem dividido por categorias ajudou bastante; foi prático e, em poucos minutos, escolhemos John Wick: De Volta ao Jogo.
Era a primeira vez que tentaríamos assistir a algo juntos e logo esbarramos em um empecilho técnico: seríamos obrigados a rodar o filme em nossas próprias telas individuais, porque cada uma delas tinha apenas uma entrada para fone de ouvido. Com certeza, quem planejou aquele sistema de entretenimento de bordo nunca imaginou que dois adolescentes iriam querer dividir uma experiência em uma tela minúscula dentro de um ônibus de viagem.
Eu não soube registrar o exato milésimo de segundo em que a expressão de decepção do Guilherme foi substituída por uma ideia brilhante, mas lembro muito bem do desânimo que cobria o rosto dele quando constatamos que não haveria como conectar dois fones no mesmo lugar. Por isso, quando ele me deu um toque de leve no braço para chamar minha atenção, fiquei confusa ao ver o sorriso largo que ele exibia. Ele não estava chateado?
— Vamos dar o play nas nossas telas exatamente ao mesmo tempo — ele sugeriu, os olhos brilhando. Entendi o motivo da empolgação dele na hora.
Ergui as sobrancelhas, avaliando o plano.
— Hum... E você acha que isso vai dar certo?
— Vai sim. A gente combina de deixar para comentar sobre qualquer cena só quando o filme terminar.
— Ah...
Analisei a proposta dele com um fundo de preocupação. Ninguém nunca gostava de assistir a filmes comigo porque, do nada, eu tinha a mania de pausar a reprodução para fazer perguntas ou comentar sobre algum detalhe técnico que tinha me incomodado. Será que eu seria capaz de assistir a uma produção inteira de ação sem dar aquela tão odiada pausa?
Estalei a língua na boca, aceitando o desafio.
— Vamos ver se funciona, então. No três.
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