Não Te Esquecerei Jamais

13 O que fez ele voltar?


Capítulo 12

O primeiro registro oficial daquela viagem aconteceu logo no final do filme, quando nos aninhamos perto da tela individual do Guilherme e tiramos uma selfie com o John Wick caminhando ao fundo ao lado do seu novo cachorro, aquele que ele tinha acabado de pegar na clínica veterinária. O presente que a Mirela trouxe da viagem dela era extremamente prático e fácil de manusear. Havia um minúsculo espelho posicionado bem ao lado da lente, o que tornava possível nos observarmos antes do clique para checar se o enquadramento estava aceitável.

Com o pedaço de papel fotográfico em mãos, esperamos os segundos necessários e passamos a observar os detalhes da imagem revelada. Ao fundo, dava para notar a telinha do ônibus com a cena pausada do filme. Eu e o Guilherme aparecíamos lado a lado, com as cabeças relativamente próximas. Minha pose tinha sido a mais básica possível: um sorriso contido e uma leve inclinada de lado com a cabeça. A do Guilherme, contudo, saiu completamente peculiar. Ele resolveu fugir da mesmice dos retratos padrões e fez uma careta; sua boca estava repuxada em um sorriso forçado enquanto os olhos apareciam espremidos.

Soltei uma risadinha baixa, analisando o papel.

— O que rolou aqui, Guilherme? Parece até que você estava dormindo na hora do clique.

— É que todo mundo sempre diz que meus olhos saem muito arregalados nas fotos — ele se justificou, coçando a nuca. — Aí eu tentei deixá-los mais fechados para compensar.

— Bem, o resultado ficou bem exótico. Não está feia, só ficou engraçada. Isso a deixou especial.

Guilherme me encarou com a testa franzida em um sinal de puro questionamento. Se as expressões faciais dele pudessem projetar palavras no ar, com certeza seria algo como: Como assim? Explica melhor essa lógica.

— É que fotos com poses básicas e sorrisos ensaiados todo mundo tem, e está tudo bem — expliquei, gesticulando com a mão livre. — Mas tentar espremer os olhos para evitar o efeito arregalado gerou algo totalmente inesperado. E o inesperado é mais marcante. Tipo, toda vez que eu olhar para esse borrão na foto, vou me lembrar desse momento com muito mais facilidade.

O sorriso que transformou a feição séria do Guilherme foi daqueles tão largos que fizeram suas bochechas aumentarem de tamanho, quase escondendo os olhos de verdade. Os hormônios da adolescência ainda não tinham conseguido apagar todos os traços infantis dos nossos corpos; por isso, nossos rostos ainda guardavam aquele aspecto um pouco fofo e redondo da infância.

— Entendi o seu ponto. Tem como fazer uma cópia dessa foto? — ele perguntou, esticando o braço para tocá-la.

— Não tem como. Essa câmera é analógica, ela não gera arquivos JPG em cartão de memória. Mas acho que, se a gente digitalizar em uma impressora, dá para revelar em papel comum depois. Sei lá, não tenho certeza.

— Uma câmera tão bonitinha, mas com uma tecnologia tão atrasada — ele provocou, rindo. — As câmeras de antigamente pelo menos usavam rolos de filme e dava para revelar quantas cópias a gente bem entendesse.

Ri do posicionamento dele. O pior era que o argumento dele fazia todo o sentido do mundo.

— Ah, mas é que essa câmera tenta imitar o conceito retrô. Onde é que haveria espaço ou laboratório para revelar filme analógico de verdade hoje em dia? É uma pegada antiga, porém modernizada para o consumo rápido.

— Hum, sei...

Na verdade, aquele "hum, sei" dele queria dizer, na mais pura realidade: Essa é só mais uma maneira esperta de o comércio arrancar dinheiro das pessoas.

— Enfim, foi um presente da minha irmã. Sou uma simples adolescente sem emprego, não tenho dinheiro para bancar esses luxos — brinquei, encerrando o assunto.

Guilherme ergueu as duas mãos no ar, num gesto idêntico ao dos personagens de filmes de ação quando são rendidos pela polícia e precisam mostrar que estão desarmados.

— Não disse nada em contrário.

Soltei um suspiro profundo, fingindo irritação.

— Nem precisou falar, meu anjo.

De repente, o sorriso divertido no rosto dele desvaneceu por completo. Ele inclinou o corpo na minha direção, apoiando os dois cotovelos sobre o console de plástico que dividia as nossas poltronas no ônibus.

— Como você acha que vai ser a nossa vida quando formos adultos? — ele perguntou em um tom de voz baixo, quase um sussurro.

Minha testa se franziu e apertei os lábios um contra o outro. Eu definitivamente não esperava por aquela pergunta filosófica e, ao mesmo tempo em que o questionamento me pegou de surpresa, me perguntei o que teria motivado aquele gatilho nele de uma hora para outra.

— Não faço a menor ideia — respondi sincera e, de repente, lembrei-me da minha bicicleta quebrada na garagem, que precisou esperar o mês virar para que meus pais tivessem dinheiro para o conserto. — Vai ser muito mais difícil e complicado, com toda a certeza. Tipo, se você não trabalhar, você não come, não se veste, não tem nada. Mas acho que a gente só vai entender de fato essa sensação quando chegarmos lá.

Encarei o Guilherme com um olhar mais severo, estreitando as pálpebras.

— Ah, mas você não vai precisar se preocupar tanto com isso por aqui, não é mesmo? — completei, deixando uma pontada de acidez escapar. — Assim que se formar no Ensino Médio, você vai morar com o seu pai no Brasil e cursar a universidade lá.

Ele se afastou do console divisor no mesmo instante, encostando o corpo de forma pesada no braço da poltrona que ficava voltado para o corredor.

— E você acha que isso é uma coisa boa? — ele rebateu, sem olhar nos meus olhos. — Eu tenho pavor do que pode acontecer depois que o colégio acabar. A minha vida inteira está construída aqui na ilha. A minha mãe vai ficar, a minha avó, a minha família, os meus amigos... — Quando ele finalmente virou o rosto na minha direção, confessou com os olhos baixos: — A separação dos meus pais foi muito dura para mim, Ariana. Foi uma fase bem difícil de engolir. Mas você sabe o que realmente me fez sumir e me afastar de você naquela época?

— Eu sempre achei que tivesse sido pelo choque do divórcio. Não só pela separação em si, né? O fato de o seu pai ter mudado de país de uma hora para outra deve ter quebrado você.

— Também. Mas, desde o dia em que eles assinaram os papéis do divórcio, ficou estabelecido em um acordo que o meu pai seria o responsável financeiro por mim durante a fase da faculdade. Como ele ia deixar a ilha para morar fora, já estava certo que eu teria que deixá-la também no futuro. Eu sempre soube que iria embora um dia. Em setembro, entramos no Ensino Médio e faltam só três anos. Então, na minha cabeça de doze anos, por que eu cultivaria uma amizade tão linda com você se eu já sabia que mais cedo ou mais tarde seria obrigado a ir embora?

Engoli em seco antes de continuar. Minha garganta parecia arranhar, mas eu precisava fazer aquela pergunta, por mais que doesse.

— Mas os planos não mudaram, Guilherme. Você continua com as malas prontas para ir embora em poucos anos. Por que resolveu mudar de ideia e se aproximar agora?

— Você sabe que eu completo anos agora no final do mês — ele começou a explicar. — E eu sei muito bem que a minha mãe meio que subornou os seus amigos para me incluírem no passeio de bicicleta, prometendo convites para a minha festa em troca. Eu só não fazia ideia de que você andava de bicicleta com eles...

— Se você soubesse que eu estaria lá, não teria ido? — interrompi-o, sentindo um nó se formar no peito.

Ele soltou um suspiro profundo, encarando as próprias mãos.

— Não. Eu não teria ido. Fiquei completamente chocado quando vi você chegar.

Senti meu coração palpitar forte, uma dor fina e incômoda subindo pelo peito. Meus olhos arderam de imediato e precisei piscar várias vezes seguidas para segurar as lágrimas. Ajeitei meu corpo na poltrona do ônibus de forma brusca, mesmo que o assento não precisasse de ajuste algum. Eu só precisava urgentemente focar meu olhar em outra direção que não fosse o rosto dele. As palavras do Guilherme tinham me magoado profundamente, e senti uma raiva súbita de mim mesma por ter amolecido tão rápido em relação ao ranço que passei dois longos anos cultivando.

— Nossa... Você é um ator espetacular, então, porque eu não notei um traço sequer de surpresa na sua cara naquele dia — rebati, com a voz cortante. — Eu sim! Eu quase caí da bicicleta de tamanho susto.

— A surpresa veio no exato milésimo de segundo em que eu te reconheci de longe. Você ainda estava distante, muito antes de conseguir me avistar no ponto de encontro.

— Continua, Guilherme. Por que decidiu forçar uma aproximação se o plano de ir embora continua de pé?

— Porque eu me lembrei de como eu me sentia bem quando estava com você — ele confessou, a voz caindo para um tom terno e sincero. — Lembrei de como senti falta da sua companhia todos os dias, das nossas brincadeiras idiotas, dos nossos risos frouxos. Sabe aquelas histórias de livros onde o mocinho decide se afastar para deixar a mocinha em paz, porque aparentemente isso é o melhor a se fazer por ela, mas depois de um tempo ele simplesmente joga a toalha porque o afastamento também é um sacrifício insuportável para ele? Foi exatamente assim que eu me senti. E ah... — ele bufou, rindo de si mesmo com um certo desdém — nós não somos namorados nem nada do tipo, não temos nem idade para pensar nessas coisas ainda. Os tempos estão mudando, a tecnologia está super avançada. A gente vai poder se falar por chamada de vídeo sempre que quiser, e eu com certeza vou vir visitar a minha mãe nas férias da faculdade. Dá para manter uma relação à distância hoje em dia, não dá?

Ele despejou tudo de uma vez só, falando sem respirar, disparando as justificativas sem um segundo de intervalo. Quando finalmente terminou o monólogo, o peito dele subia e descia em um ritmo visivelmente desregulado e tenso. Guilherme não tinha corrido uma meia maratona para estar com a respiração tão afetada pelo cansaço físico; por isso, soube imediatamente que ele estava sofrendo a mesmíssima reação biológica que eu tinha quando passava por situações de extremo nervosismo.

— É claro! — respondi com uma animação forçada, tentando aliviar o peso do ambiente. — A gente pode simplesmente trocar nossos números assim que a viagem acabar. Até lá, com certeza eu já vou ter ganhado o meu celular próprio — ergui as duas mãos no ar e as balancei em um ritmo frenético, abrindo um sorriso gigante para disfarçar o impacto. Foi a tática que escolhi para lidar com a situação: fingir que não tinha notado o colapso nervoso dele. — Minha mãe prometeu que me daria um aparelho novinho de aniversário de quinze anos.

— A internet quebra qualquer barreira geográfica, não é? — ele comentou, parecendo buscar uma confirmação.

— Com certeza! — minha cabeça balançou em uma afirmação convicta.

Não tive muito tempo para digerir ou refletir sobre o peso daquela conversa no restante do trajeto, pelo menos não naquele momento de agitação. Eu precisava de isolamento e silêncio para conseguir esmiuçar cada palavra dita por ele. E isso só foi acontecer bem mais tarde da noite, após tomar um banho quente demorado (apesar de estarmos no meio de um verão escaldante) e finalmente encostar a cabeça no travesseiro macio da nossa hospedagem.

Enquanto a minha avó já estava entregue ao seu oitavo sono, roncando baixinho na cama ao lado, meus olhos continuavam bem abertos, fixos no teto escuro do quarto. O pequeno abajur de tomada no canto da parede proporcionava uma iluminação fraca, sutil o suficiente apenas para eu discernir onde estava a silhueta de cada móvel. Meus pensamentos, contudo, voavam para longe, cruzando oceanos.

No final da minha análise noturna, encarando a penumbra, tive a certeza absoluta de uma única coisa: o sentimento em relação à nossa amizade era totalmente recíproco. Ambos sentiam uma falta absurda da companhia um do outro, e nenhum de nós estava pronto para abrir mão daquela conexão novamente.

Suspirei e mudei de lado na cama pela terceira vez naquela noite. Apoiada agora sobre o lado esquerdo do corpo, senti meu coração acelerar de repente. Pela primeira vez em muito tempo, me peguei pensando em como seria se eu e o Guilherme começássemos um relacionamento amoroso de verdade, nem que fosse apenas o famoso "fica". Acontece que logo me veio à mente o comentário dele sobre mudar de país e como ele achava que não seria tão grave manter o contato justamente porque não éramos namorados.

Lembrar daquela fala me fez criar uma verdadeira fanfic mental. Imaginar os cenários daquela possibilidade me fez apertar os olhos com força e chacoalhar a cabeça com energia, como se o movimento físico fosse capaz de arrancar aquelas imagens românticas de dentro do meu cérebro.

Não, não, não! Webnamoro definitivamente não é uma opção para mim.

Mudei de posição mais uma vez, desta vez ficando de bruços. Foquei meus pensamentos em coisas completamente aleatórias; afinal, essa era a minha técnica infalível para pegar no sono rápido. Pensar em assuntos sem nexo, lembrar de cenas de filmes, tramas de séries ou focar em vídeos de animais fofinhos que eu tinha visto na internet... qualquer coisa que não deixasse minha mente agitada. A tática, como sempre, funcionou. Em poucos minutos, a calmaria me envolveu e eu estava completamente inconsciente, entregue ao sono.