Não Te Esquecerei Jamais
14 Uma lembrança resistente a mil anos
Notas iniciais
Como poderia um namoro à distância dar certo se nós somos tão jovens?
Esse era o pensamento que sempre insistia em surgir na minha mente desde o comentário do Guilherme no ônibus. Logo em seguida, quase de forma instantânea, eu repetia para mim mesma que não deveria gastar meu tempo e a minha energia com assuntos daquela natureza.
Aos dez anos, eu tinha decidido que a idade mínima aceitável para começar a pensar em algo como romance seriam os meus dezesseis. Minha irmã tinha quase quatorze quando enfrentou a sua primeira decepção amorosa. Claro que, quando somos tão novos, essas dores não parecem tão graves para quem olha de fora, e nós só entendemos isso de verdade quando estamos mais velhos e maduros. No entanto, o fato de amadurecer não apaga a intensidade da dor daquela primeira desilusão. Quando se tem essa idade, as responsabilidades reais são mínimas; portanto, qualquer drama sentimental ganha a proporção de um maremoto.
Alguns anos depois, vivenciei todo aquele drama com o Guilherme. O rompimento repentino da nossa amizade, misturado aos meus sentimentos românticos platônicos por ele, tinha sido a minha primeira grande desilusão. Foi a gota d’água para eu bater o martelo de vez: não adiantava iniciar qualquer relacionamento amoroso sendo tão nova. Aceitei que precisava de um mínimo de maturidade e, na minha cabeça, os dezesseis anos traziam esse limite seguro.
Foi fácil acordar cedo na manhã seguinte. Antes de tudo, eu estava super empolgada e ansiosa para aproveitar a piscina do lugar; além disso, tinha a minha avó, que já madrugava por hábito em casa, imagina só estando em viagem. Por esses motivos, nós duas fomos praticamente as primeiras hóspedes na fila do café da manhã, perdendo o posto apenas para um jovem casal que carregava um bebê de colo.
O bebê deve ter sido o despertador deles, pensei, achando graça.
A criança era uma fofura sem tamanho. Devia ter por volta de seis meses, era bem branquinha e, por isso, as bochechas pareciam extremamente rosadas. Estava vermelha com uma sainha jeans e uma regatinha amarela cor de ouro. O enfeite de cabelo seguia a mesma cor, rodeando a cabecinha que ainda tinha poucos fios. Depois que captei todos esses detalhes fofos, meus olhos correram direto para os pés dela.
Eu simplesmente amava as mãos e os pés de bebês. Geralmente eram gordinhos e cheios de almofadinhas no dorso, o que criava sulcos profundos e fofos na pele. As unhas eram finas, delicadas e, na maioria das vezes, quase cobertas por uma camada de gordurinha inocente. Tudo aquilo junto me fazia cair de amores de imediato. Dava uma vontade absurda de apertar e morder.
Enquanto conversava com a minha avó sobre como aquele lugar parecia maravilhoso e sobre todas as coisas divertidas que pretendíamos fazer ali, eu espiava de vez em quando o jovem casal e a neném. Ela fazia barulhos engraçados com a boca que ecoavam pelo ambiente ainda vazio e, sempre que os pais faziam alguma palhaçada, gritinhos agudos de pura alegria escapavam da sua garganta.
Quando o refeitório começou a encher de fato, a menininha ficou super agitada. Os movimentos frequentes e intensos dos seus braços e pernas resultaram em bochechas ainda mais vermelhas. Os gritinhos ficaram mais altos. Não conseguia parar de pensar que, se alguém filmasse aquilo e jogasse na internet, provavelmente o vídeo viralizaria em poucos minutos. Era uma cena cômica, daquelas que arrancam risadas da gente por puro carisma, bem parecida com as que costumavam aparecer nas minhas redes sociais.
Assim que deixamos o refeitório e saí do alcance dos encantos do bebê, dei-me conta de que não tinha visto o Guilherme aparecer para o café da manhã. Ao perceber a ausência dele, fiquei surpresa com o fato de ele não estar ansioso o suficiente para madrugar. Afinal, na minha lógica, quanto mais tarde você toma o café, mais tempo demora para usufruir da piscina. Eu, por exemplo, tive que esperar longos trinta minutos na espreguiçadeira; antes disso, minha avó não me deixou molhar nem o dedinho do pé na água.
Enquanto aguardava a meia hora de segurança exigida pela velha guarda, estiquei-me confortavelmente. A sombra que o guarda-sol lançava sobre o meu rosto permitiu que eu observasse o céu com os olhos bem abertos, sem precisar franzir a testa por causa da claridade. Havia poucas nuvens, um dia típico e limpo de verão. As formas esquisitas delas se movimentavam lentamente pela imensidão azul e, em um curto espaço de tempo, já tinham se redesenhado em outro lugar.
Eu já estava dentro da piscina me divertindo sozinha havia algum tempo quando o Guilherme finalmente chegou, dando um pulo bombástico que espalhou água para todos os lados. Não que as bordas já não estivessem completamente encharcadas devido aos saltos de outras pessoas, mas o escândalo dele foi notável.
Observei a imagem turva do corpo dele se movendo por debaixo da água na minha direção e foi aí que descobri que ele era um excelente nadador. Eu realmente não esperava por aquilo. Eu sabia o básico para não morrer afogada — o que incluía o uso de bóias e prender a respiração por curtos segundos —, mas não dominava técnicas avançadas. Guilherme emergiu bem pertinho de mim, passando uma das mãos pelos olhos para tirar o excesso de cloro e com a boca aberta, recuperando o fôlego.
— Você não esperou os trinta minutos de digestão depois do café para entrar na piscina? — perguntei, cruzando os braços.
Ele balançou a cabeça, rindo.
— Que nada. Eu só preciso esperar se tiver almoçado ou jantado algo pesado. O café da manhã é super de boa.
— Hum... — respondi, sentindo uma pontada de inveja. — A minha avó me obrigou a mofar na espreguiçadeira por meia hora.
Os ombros do garoto se ergueram em um gesto simples. Não havia muito o que ser dito; as regras familiares eram o que eram. Eu seria eternamente obrigada a esperar o relógio girar após qualquer refeição, enquanto ele estava livre.
O restante daquele primeiro dia se resumiu exatamente àquela rotina deliciosa: comer, esperar o tempo de segurança e voltar correndo para a água. Acho que o Guilherme foi presenteado com a paciência de um idoso de oitenta anos, porque ele fez questão de me acompanhar em cada uma das pausas obrigatórias que precisei fazer . Em determinado momento, me peguei refletindo se eu teria a mesma consideração e faria o mesmo sacrifício por ele se os papéis fossem invertidos.
Embora estivesse longe de ser uma nadadora profissional, eu amava a sensação de estar na água brincando. Não era sempre que eu tinha aquela oportunidade de ouro; afinal, a temporada de calor de verdade só durava de três a quatro meses no ano. Resistir àquela superfície brilhante e aquecida a poucos metros de distância seria uma tortura. Felizmente, o Guilherme estava passando por aquele teste de paciência por mim.
No final da tarde, eu estava completamente exausta e com a pele ardendo por causa do sol. Eu tinha passado o protetor solar antes de sair do quarto, é verdade, mas com tantas idas e vindas da água, era necessário um reforço frequente que acabou sendo negligenciado. O resultado foi uma pele avermelhada e dolorida que, provavelmente, pioraria ao longo da viagem. Mas eu não pretendia deixar de entrar na piscina só por estar ardendo um pouco.
Infelizmente — ou felizmente, para a saúde da minha pele —, todos os meus planos de continuar fritando as células sob o sol foram descartados na manhã seguinte. Acordei com a sensação esquisita de que tinha feito xixi na cama, mas, ao checar o estrago, percebi que não era nada além da minha menstruação dando as caras no pior momento possível. Lembro-me da onda avassaladora de frustração e raiva que senti quando a ficha caiu. Eu não podia fazer absolutamente nada para mudar aquela realidade.
Eu nunca conseguia controlar direito em qual dia o sangramento viria. Até aquele momento, eu nunca tinha sentido a real necessidade de mapear o meu ciclo com precisão. Se eu tivesse um pouco mais de noção de como o meu próprio corpo funcionava, teria me preparado psicologicamente para o evento ou, quem sabe, sugerido que a viagem fosse marcada para outra data. Eu poderia até ter conversado com a minha mãe ou com um médico para saber se existia algum método seguro para atrasar a visita do ciclo.
Mas não. Fui completamente alheia à minha própria biologia e agora pagaria o preço por isso, assistindo a tudo da cadeira de sol.
Mais tarde, vi as sobrancelhas do Guilherme se erguerem em perfeita sintonia com a confusão estampada em seu rosto. Ele tinha percebido o quanto eu amava ficar na água, e me ver desanimada, sem fazer menção de correr para a borda da piscina, o deixou totalmente perdido.
— Você não vai entrar hoje? — ele perguntou, apontando com o queixo para a minha roupa que, embora seguisse um estilo praiano e leve, estava seca e grudada ao meu corpo.
Soltei um suspiro tão alto e profundo que ficou óbvio que havia algo muito errado comigo.
— Coisas de mulher, Guilherme — respondi, curta.
Eu definitivamente não precisava entrar em detalhes íntimos com ele. Ele já tinha idade suficiente para saber que pessoas do sexo feminino menstruavam. Se ele sabia o nome técnico ou os detalhes do processo, pouco importava; o que realmente contava era que o restante das minhas férias perfeitas na Ilha de Loirinhos estava oficialmente arruinado.
E, como desgraça pouca é bobagem, as coisas conseguiram piorar antes do anoitecer. Antes do fim do dia, comecei a sentir uma pontada incômoda e persistente na boca do estômago que logo desceu para o baixo ventre. Após uma breve conversa por vídeo chamada com a minha mãe, descobri que estava experimentando, pela primeira vez na vida, a dor real de uma cólica menstrual — quase três anos após a minha menarca. Eu sempre senti um leve desconforto na região, mas nada que se comparasse àquela intensidade que parecia me rasgar por dentro.
Eu estava praticamente dopada de remédios analgésicos, esperando o efeito começar a anestesiar minhas dores, quando minha avó entrou no quarto e me entregou o seu celular. A tela do aparelho estava acesa, brilhando na penumbra.
— O Guilherme ligou para saber se você está melhor. É melhor você mesma falar com ele — ela anunciou, exibindo um sorriso cúmplice de canto. Aquele tipo de sorriso que sempre surge nos lábios das pessoas quando querem tirar sarro por estar rolando um clima óbvio entre você e alguém. — Ele é um garoto tão atencioso... Quando tiver idade para namorar, vai ser um baita partidão.
Ela piscou o olho para mim, como se tivesse acabado de dar a maior dica de ouro do universo, e saiu do quarto, batendo a porta de leve. Minha avó era uma defensora ferrenha da privacidade; ela provavelmente nunca espionaria ninguém, ou pelo menos não o faria com tanta evidência a ponto de ser flagrada.
Assim que o remédio finalmente fez efeito e a dor aguda deu uma trégua, decidi sair um pouco do quarto. Ao caminhar pelo resort, evitei ao máximo olhar para o caminho que levava em direção às piscinas, mas foi impossível não notar várias crianças correndo animadas naquela direção, o que me fez morrer de inveja delas. Com aquela experiência amarga, entendi perfeitamente o porquê de tantas mulheres fazerem posts engraçados na internet brincando que o corpo feminino poderia enviar sinais bem mais fáceis e menos dolorosos para avisar sobre a ausência de uma gravidez.
Fui parar na área do parquinho e me acomodei em um dos balanços, impulsionando o corpo lentamente. Fiquei até um pouco impressionada pelo meu quadril ainda caber perfeitamente no assento de plástico, já que algumas das minhas calças jeans mais antigas simplesmente se recusavam a passar pelas minhas coxas ultimamente. Eu estava perdida nesses pensamentos quando, de repente, o balanço recebeu um impulso muito maior e meus pés atingiram o ponto mais alto do ar.
Olhei para trás assustada e vi o rosto do Guilherme por um ângulo totalmente invertido e esquisito. Dei-me conta, naquele exato milésimo de segundo, de que nunca tinha reparado o quanto ele tinha ficado alto de verdade. Surpresa, perguntei:
— O que você está fazendo aqui no parquinho?
Ele deu de ombros com naturalidade antes de responder:
— Eu sabia que você não estaria na piscina, então me perguntei: onde mais a Ariana poderia estar se escondendo? Para mim, o lugar mais provável era esse aqui. E parece que eu acertei em cheio.
Achei a resposta dele cheia de rodeios desnecessários, mas, no fundo, meu coração entendeu perfeitamente o recado: ele estava gastando o tempo dele me procurando.
— A piscina parecia ser muito mais legal do que ficar aqui — comentei, enquanto ele me empurrava cada vez mais alto. Precisei aumentar o tom da minha voz, sem ter a certeza se era realmente necessário gritar, mas a adrenalina do impulso causava aquilo.
— Existem várias outras brincadeiras divertidas por aí — ele rebateu.
De repente, as mãos dele seguraram as correntes e pararam o movimento do balanço de forma brusca. Ele precisou usar uma força considerável e senti o aperto firme dos seus dedos ao redor dos meus braços para garantir que eu não caísse. Com um sorriso travesso bem estampado no rosto, Guilherme começou a girar o assento, fazendo com que as cordas de ferro fossem se entrelaçando e a madeira onde meu corpo estava apoiado subisse aos poucos.
Quando não era mais possível torcer nem mais um centímetro da corrente, ele se inclinou na minha direção. Seus olhos verdes brilhavam, cheios de expectativa.
— Segura bem firme nas correntes e tira os pés do chão, Cenourinha. Eu vou soltar.
Assenti com a cabeça, embora estivesse morrendo de insegurança. Ao primeiro movimento de liberação, apertei os olhos com força, reflexo da reviravolta instantânea que aconteceu nas minhas entranhas e do medo genuíno de ver o mundo girando tão rápido ao meu redor. O momento durou apenas alguns segundos. Num piscar de olhos, o balanço deu um último solavanco quando a corrente desenrolou a última volta e, por puro instinto de sobrevivência, finquei meus tênis no chão de terra, travando qualquer outro movimento.
Ainda com o ritmo cardíaco completamente acelerado pelo susto, ergui o olhar. Meu cérebro demorou um pequeno delay para conseguir focar a imagem e fixar os olhos no Guilherme. Quando tomei consciência de que o encarava fixamente, com o peito subindo e descendo, um sorriso bobo surgiu nos meus lábios.
Ele sorriu de volta, os dentes brancos brilhando sob o sol, e desafiou:
— Minha vez.
Mais tarde, naquele mesmo dia, a minha cabeça já moldava um buraco perfeito no travesseiro macio havia uns quinze minutos. Eu estava naquela caminhada lenta e gostosa em direção ao sono, mas não me sentia tão exausta quanto provavelmente ficaria caso tivesse passado o dia inteiro mergulhando na piscina. Se tem uma coisa que consegue esgotar as energias de qualquer ser humano é o sol, embora eu não tenha a mínima ideia científica do porquê isso acontece.
Minha mente insistia em repassar cada pequeno acontecimento da tarde. Era o que sempre acontecia nas noites em que eventos importantes e marcantes marcavam a minha vida. Eu sabia, encarando a penumbra daquele quarto na Ilha de Loirinhos, que me lembraria daquele dia no parquinho com o Guilherme mesmo depois de mil anos.
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