Não Te Esquecerei Jamais
15 Suas mãos não cabem mais dentro da concha
Notas iniciais
Janeiro de 2022
Minhas pálpebras estavam fechadas sob uma força descomunal exercida por mim mesma. Era o meu método desesperado para fixar o conteúdo que tinha acabado de revisar, mas o resultado do processo nunca saía como o esperado; naquele momento, minha mente rodava demais. Parecia um daqueles dias longos em que passamos a tarde inteira na praia e, ao deitar, o cérebro não para de reproduzir a sensação oscilante de estar flutuando na água.
Quando finalmente abri os olhos, eles miraram direto nas prateleiras da estante do quarto. No topo dela, reinava o copo que dei de presente ao Guilherme no seu aniversário de quatorze anos. Tinha sido logo após as nossas férias no litoral, no primeiro fim de semana que se seguiu a uma semana árdua de aulas. Eu o encontrei por puro acaso, enquanto passava em frente a uma loja de artigos variados no centro. Lembro que meus olhos se arregalaram e tive o impulso imediato de espalmar as mãos na vidraça. Ele era feito de vidro duplo e, no espaço entre as camadas, havia um líquido denso onde várias estrelas e luas minúsculas pairavam, agitando-se conforme movíamos o objeto. O fundo do copo era azul-escuro como o céu noturno, e os seres estelares eram de um tom verde-limão fluorescente, que brilhava intensamente no escuro.
Pedi o embrulho para presente e a atendente quase escolheu um papel infantil com estampas do filme Carros.
— Você poderia usar um embrulho mais neutro, por favor? — pedi na hora.
— Tudo bem — ela respondeu, trocando o rolo.
Saí dos meus devaneios repentinamente quando algo envolveu meus braços com firmeza e ergueu meu tronco do chão. Minha cabeça foi a última a acompanhar o movimento; meus fios ruivos se arrastaram pelo tapete antes que eu estivesse totalmente sentada. Senti meu coque bagunçado pender para o lado quando olhei diretamente para o rosto sereno e focado do Guilherme.
— Você precisa se concentrar, Ariana.
— Eu estou concentrada, mas Física definitivamente não é o meu forte.
Antes de afrouxar os dedos, ele apertou os lábios, segurando o riso, meus braços deslizaram por entre as palmas dele e deixei minha cabeça cair para trás de pirraça. Quando as mãos dele alcançaram a altura dos meus pulsos, ele voltou a apertar, me suspendendo de leve no ar, deixando minha cabeça a poucos centímetros do chão.
Os lábios dele se curvaram em um sorriso torto — aquele em que o canto esquerdo era visivelmente mais baixo. Notar aquele detalhe anatômico me transportou de volta aos comentários que eu costumava ouvir no banheiro feminino do colégio. Guilherme tinha mudado drasticamente nos últimos três anos, assim como qualquer um de nós, mas alguns tiveram transformações muito mais significativas. Ele atraía os olhares das meninas por onde passava. Tinha crescido demais, tornando-se um dos alunos mais altos do colégio, sendo constantemente confundido com alguém do terceiro ano por aqueles que não o conheciam. Apesar de ser apenas alguns meses mais novo do que eu, ele aparentava ser bem mais velho.
Guilherme agora fazia parte do time oficial de natação da escola e o seu nome vivia na boca dos alunos e professores após os campeonatos . Ele não era exatamente o clichê do atleta popular dos filmes americanos, mas com certeza já não passava como um aluno comum pelos corredores.
Devagar, meu corpo foi descendo até que senti a madeira firme do piso sob a minha cabeça. Levei as mãos até a barriga e entrelacei os dedos, sentindo o ritmo leve e compassado da minha respiração. Encarei-o dali de baixo. Ele já estava de pé, com as costas bem retas, mantendo aquela postura impecável de sempre.
— Você é o gênio por aqui, Guilherme, não eu. Estou cansada, já é noite e estamos no meio do inverno. Deve estar fazendo zero grau lá fora.
— Tudo bem. Podemos encerrar os estudos por hoje — ele cedeu, dando um passo para trás e estendendo a mão. Aceitei a ajuda, flexionei os joelhos e impulsionei o corpo para cima. — Dentro de uns dias você vai se sentir a verdadeira gênia por aqui, porque na semana que vem não teremos mais nenhuma prova de exatas.
— Ai, como é difícil a vida de uma aluna do Ensino Médio.
Ele riu baixo, mas não respondeu. Caminhei até a porta do quarto, onde minhas botas pesadas repousavam, e enfiei os pés dentro delas.
— Sou muito nerd por estar em pleno domingo me matando de estudar para uma prova. Isso deveria contar pontos extras no boletim, não acha? É tão errado ter que aprender essas fórmulas todas... — fiz uma pausa, corrigindo-me: — aprender não, decorar. Porque assim que o sinal tocar e essa prova acabar, eu vou esquecer absolutamente tudo.
Voltei para o centro do quarto para recolher meu caderno e os livros que continuavam espalhados pelo chão. Minha cabeça ameaçou rodar só de vislumbrar o emaranhado de cálculos nas folhas, então enfiei tudo dentro da mochila de uma vez para evitar mais fadiga mental.
Saímos do quarto. De repente, fui tomada por uma ansiedade gostosa de chegar logo em casa e me enfiar debaixo das cobertas da minha cama quentinha. Vesti meu casaco grosso e joguei a mochila em um dos ombros, encaixando a segunda alça em seguida. Senti minhas costas curvarem um pouco sob o peso do material.
Segundos depois, senti aquele peso ser magicamente suspenso. Rapidamente, as alças acolchoadas deslizaram pelos meus braços, mas ficaram presas na altura dos meus antebraços porque eu segurei as tiras por instinto.
— Deixa que eu levo para você. Vou te acompanhar até em casa — Guilherme anunciou, assumindo a carga.
— Wow. Tão cavalheiro... Como sempre — brinquei, esticando os braços para que a mochila terminasse de descer e ficasse com ele.
A caminho da saída, vi que a mãe e a avó dele estavam na sala, entretidas com algo na televisão. Despedi-me delas rapidamente e, mais uma vez, a Dona Fabíola me convidou para ficar para o jantar. Declinei com polidez, justificando que já tinha aceitado o convite nas últimas duas vezes em que estive lá. Assim, sem maiores delongas, cruzamos a porta de saída.
Senti imediatamente o choque térmico da mudança de temperatura. Como estava frio! Levei apenas alguns segundos para a ponta do meu nariz congelar e mais um tempinho para minhas orelhas começarem a doer com o vento cortante.
Geralmente, eu andava por aí com meus fones de ouvido grandes. Eram daqueles modelos over-ear que cobrem toda a orelha e têm um arco acolchoado que se encaixa na cabeça. Às vezes eu nem estava escutando música nenhuma, mas eles funcionavam como excelentes protetores auriculares contra o inverno, e para mim aquilo já era o bastante. Hoje, infelizmente, eu os tinha esquecido.
Esfreguei as palmas das mãos uma na outra antes de enfiá-las profundamente nos bolsos do casaco. Fechei as mãos em punhos lá dentro porque os dedos estavam tensos e gelados, e eu tinha a nítida sensação de que mantê-los fechados conservava mais o calor.
— Acho que eu deveria marcar uma consulta médica urgente e fazer exames para ver se há algum problema com a parte do meu cérebro responsável pelas memórias — reclamei, soltando uma lufada de ar que virou fumaça no frio. — Outra vez eu deixei minhas luvas em cima da cama, sendo que olhei a previsão do tempo antes de sair e vi que a noite seria congelante.
Eu não podia nem respirar fundo com força porque também tinha esquecido minha vaselina e, sem ela, o ar frio e seco do inverno fazia minhas narinas arderem por dentro.
— Já era de se esperar vindo de você. Por isso, eu trouxe isso aqui — Guilherme comentou, erguendo no ar um par de luvas escuras.
Tirei as mãos dos bolsos no mesmo instante, esticando os braços na direção dele para que ele as colocasse em mim.
— Talvez a culpa seja sua, sabe? O meu subconsciente sabe que eu sempre terei tudo o que preciso quando estou com você, aí meu cérebro simplesmente desliga e nem liga para os detalhes — brinquei, enquanto meus dedos encontravam caminho nos vãos do tecido. — Obrigada por cuidar tão bem de mim.
Abri e fechei as mãos dentro das luvas, que tinham quase o dobro do tamanho das minhas. Eram imensas, mas incrivelmente confortáveis e quentinhas. Movida pelo impulso, eu o abracei, passando meus braços por debaixo da mochila que ele carregava nas costas. Guilherme me apertou de volta contra o peito, mas, após alguns segundos de conforto, uma de suas mãos subiu e tocou direto na pele do meu pescoço.
Dei um pulo para trás no mesmo instante, quebrando a conexão física de forma abrupta.
— Ai! Que mão congelada, Guilherme! — dei alguns pulinhos no asfalto enquanto me afastava, rindo e batendo os dentes. — Estava sendo um momento tão fofo e você estraga tudo.
— Não é justo, Ariana. Você aquece as suas mãos com a minha luva e eu fico aqui passando frio? — ele brincou, mostrando as palmas nuas.
— Põe as mãos dentro dos seus bolsos!
— Eles não são tão quentinhos quanto a sua pele — ele rebateu com um sorriso travesso.
Paramos de caminhar sob o poste de luz. Agarrei as mãos dele pelas pontas dos dedos e juntei as palmas uma de frente para a outra. Tentei fazer uma concha ao redor delas com as minhas mãos enluvadas, mas as dele eram grandes demais e eu mal conseguia cobrir metade da superfície.
— Ah, é uma pena que você cresceu demais e as suas mãos não cabem mais dentro da concha das minhas — comentei, sentindo uma pontada de nostalgia da infância.
Friccionei as palmas dele por alguns segundos, tentando gerar atrito, e então, num gesto impensado, levei as mãos dele direto contra as minhas bochechas.
— Pronto. Estão mais quentinhas agora? — completei, erguendo os olhos para encarar o rosto dele.
O olhar verde-escuro dele me prendeu no lugar por alguns segundos que pareceram durar uma eternidade inteira. Senti a eletricidade estalar no ar gelado. Assustada com a intensidade do momento, mudei a direção dos meus olhos de forma brusca, afastando as mãos dele do meu rosto ao mesmo tempo. Larguei-as de volta nos bolsos do casaco dele e assumi uma postura de "missão cumprida" para disfarçar o pânico interno e a sensação incômoda de que eu tinha acabado de fazer uma tremenda besteira.
— Agora é só você conservar o calor aí dentro — avisei, voltando a marchar pela calçada.
O que eu acabei de fazer? Se controla, minha filha! Pelo amor de Deus.
Senti que ele sofreu um pequeno delay lá atrás, porque só voltou a caminhar alguns instantes depois de mim. A companhia do Guilherme me deixava à vontade demais, e aquilo estava se tornando perigoso para o meu coração.
— Mas vem cá, você não sente frio no rosto? — ele perguntou, dando uma corridinha leve para emparelhar o passo comigo. — Eu encostei no seu pescoço e você quase enfartou de susto. Agora, encostar direto nas suas bochechas está tudo bem?
— Tenho a nítida sensação de que o meu rosto é bem menos sensível que o pescoço — respondi, tentando manter a voz firme. — Acho que é por causa do inverno. Como as bochechas ficam sempre mais expostas ao clima, elas acabam se acostumando com o gelo.
— Hum. Até que faz sentido — ele concordou, pensativo.
O caminho restante entre nossas casas levava cerca de quinze minutos. Continuamos a caminhada mantendo uma conversa agradável, contínua e sem novos sobressaltos. No meu aniversário de quinze anos, eu tinha finalmente ganhado o meu primeiro smartphone e, desde aquele momento, eu e o Guilherme criamos o hábito quase sagrado de assistir a filmes juntos, comunicando-nos pelo aparelho móvel. A gente abria o mesmo site de streaming, dava o play rigorosamente no mesmo segundo e passava a trocar mensagens em tempo real, comentando as cenas como se estivéssemos dividindo o mesmo sofá da sala. Combinamos de escolher algum título de suspense para finalizar aquele domingo congelante.
— Eu prometo que da próxima vez vou trazer uma sacola bem discreta com todos os seus pares de luvas que estão guardados lá no meu quarto — avisei assim que paramos em frente ao portão de ferro da minha casa. — Tenho tantas luvas suas comigo que já estou começando a me sentir culpada. Capaz de esse que você está me emprestando ser o último par limpo na sua gaveta — brinquei, enquanto enfiava as mãos de volta nos bolsos do casaco dele para devolver o acessório.
Às vezes, eu simplesmente não tinha a oportunidade de devolver as luvas que pegava emprestadas no frio, e o pior era que eu sempre esquecia de colocá-las na mochila quando sabia de antemão que ia encontrá-lo.
Em resposta, Guilherme soltou um risinho soprado, como se quisesse dizer: Fala sério, Ariana. Eu tenho um estoque imenso dessas coisas em casa. Com um movimento rápido e ágil, a mochila pesada que estava nas costas dele passou para uma de suas mãos. Segurei-a pela alça acolchoada e dei um passo para trás, tateando o bolso em busca da chave.
— Vê se não se atrasa amanhã, hein? — ele alertou, apontando o dedo de brincadeira.
Ergui o lábio superior, fazendo uma careta dramática.
— Eu sei, eu sei. Eu serei oficialmente a primeira pessoa a pisar naquela escola amanhã. Antes mesmo de os funcionários pensarem em abrir os portões principais, eu já estarei lá plantada . Vou parecer o Julius de Todo Mundo Odeia o Chris, só que sem a parte das ameaças de economia.
Ele soltou mais um risinho gostoso antes de se despedir:
— Boa noite, Ariana. Durma bem.
De forma natural e carinhosa, Guilherme se inclinou e deixou um beijo suave na minha testa. Acenou com a mão e começou a se afastar pela calçada escura sob o céu de inverno.
— Boa noite! Até amanhã! — gritei de volta, sentindo o lugar do beijo formigar de um jeito bom enquanto girava a chave para entrar.
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