Não Te Esquecerei Jamais
16 Quando você começar a namorar
Notas iniciais
Capítulo 15
Empilhei todos os pares de luvas dele que estavam sob minha posse e os amarrei com uma fita de polipropileno, caprichando no laço. Usei a lâmina da tesoura para encaracolar as pontas e guardei o embrulho dentro de uma sacola bonitinha, como se fosse um presente de verdade. Assim que terminei, coloquei o pacote direto na mochila para não correr o risco de esquecer. Tinha se passado quase uma semana desde a noite de domingo em que prometi devolver as luvas de Guilherme, mas só agora eu tinha finalmente lembrado de cumprir a promessa.
Desliguei o aquecedor do quarto e deslizei para debaixo do edredom pesado. Eu tinha um ritual bem específico durante o inverno: dormir com a mesma blusa que usaria no colégio na manhã seguinte significava um passo a menos para me preocupar no frio da alvorada. As temperaturas daquela estação eram tão baixas que pareciam congelar qualquer objeto do ambiente; então, trocar de roupa de manhã significava tocar em tecidos que pareciam pedras de gelo. Dormir de calça jeans já era ir longe demais até para os meus padrões de conforto, então essa era a única peça de roupa que eu dispensava na cama.
Levantei pela manhã após adiar o despertador por três vezes seguidas. Trinta minutos preciosos se foram como se fossem meros cinco segundos. Sair debaixo das cobertas exigiu um esforço hercúleo da minha parte, porque eu sabia perfeitamente que, no instante em que levantasse o edredom, uma lufada de ar digna do congelador de uma geladeira atingiria minha pele nua. Mas eu criei coragem, empurrei o cobertor para longe e saltei para o piso de madeira.
Como último ato do meu ritual matinal, vesti minha calça jeans por cima da legging térmica quentinha. Comi meu pão com recheio de ovo mexido acompanhado pelo meu café passado na hora, bem quentinho. Como ainda estava adiantada, saí de casa pedalando a minha bicicleta nova; a outra tinha ficado pequena demais para o meu tamanho. Essa era fofa, pintada em um tom de rosa e exibia um cestinho de vime acoplado ao guidão.
Apesar de ter enfrentado uma sequência massacrante de exatas nos últimos dias, uma coisa em especial me deixava bastante animada: a proximidade do meu aniversário. O dia trinta de janeiro sempre foi uma data muito especial para mim. Eu amava comemorar o meu dia. Não porque eu fizesse questão de ser o centro absoluto das atenções — embora isso até fosse legal —, mas porque eu gostava de ver as pessoas que eu amava reunidas, se divertindo e celebrando o fato de eu estar viva e fazendo parte da vida delas. Eu me sentia genuinamente valorizada. E esse dia especial seria no próximo domingo, com direito a uma comemoração em um karaokê improvisado.
Nossa ilha não tinha tantas opções de lugares badalados para sair, mas, em compensação, eu tinha amigos incríveis. Eles se reuniram em segredo e bolaram um plano perfeito para o fim de semana. A Cristina morava em um prédio que tinha uma área de lazer excelente, uma espécie de salão de festas do condomínio. Ficou combinado que o Ricardo levaria dois microfones, o João traria a caixa de som potente do pai dele e eu ficaria responsável por encomendar o bolo e os salgados. Eu me sentia radiante e bastante ansiosa.
Pedalei sozinha naquela manhã fria de inverno até a metade do caminho, mas, no trecho final, já era fácil cruzar com vários outros alunos uniformizados. Alguns caminhavam em grupos e conversavam alto para superar o barulho do movimento de carros na avenida. Tirei meus fones de ouvido assim que passei pelos portões da escola, sentindo minhas orelhas finalmente seguras daquela corrente de ar congelante.
Acomodei-me na minha carteira habitual, um pouco surpresa comigo mesma por ter chegado tão cedo a ponto de nem sequer cruzar com o Guilherme durante o percurso da rua. Ele ainda não tinha nem pisado na sala. Meu coração começou a acelerar conforme os minutos iam passando no relógio da parede, e a ansiedade para entregar o pacote de luvas escondido na bolsa só aumentava. Talvez esse tivesse sido o verdadeiro motivo inconsciente que me fez pular da cama tão cedo hoje: eu queria muito devolver aquelas luvas e provar para ele que eu sabia cumprir minhas promessas.
Mas ele demorou a aparecer. Quando Guilherme finalmente cruzou a porta da sala, seu rosto estava visivelmente vermelho, a respiração saía ofegante e havia outros pequenos detalhes que denunciavam que ele tinha vindo correndo. Ele jogou a mochila de qualquer jeito em cima da mesa bem à minha frente e me encarou com as sobrancelhas levantadas. O olhar dele transbordava surpresa, e eu sabia perfeitamente o porquê daquele choque. Era a primeira vez em séculos que eu chegava antes dele. Geralmente, minha pontualidade só dava as caras em dias cruciais, como o primeiro dia de aula do ano, quando minha barriga gelava com a expectativa de descobrir quem seriam os meus colegas de classe.
A professora Sônia entrou logo em seguida, desejando bom-dia à turma, e o Guilherme foi obrigado a virar o corpo para a frente e se sentar direito. Diante da pressa do início da aula, decidi que o melhor seria entregar o pacote no final do período, quando estivéssemos indo embora para casa. Teríamos mais tempo e estaríamos com os ânimos mais calmos.
Tenho que admitir que havia coisas boas que tornavam o ato de sair de casa no inverno um evento menos doloroso. Uma delas, sem dúvida, era o sistema de calefação da sala de aula climatizada. O ambiente ficava tão quentinho que eu me sentia perfeitamente confortável usando apenas uma blusa leve de algodão de manga comprida. Quando o sinal do intervalo tocava, a grande maioria dos alunos preferia continuar dentro da sala; alguns até traziam o lanche de casa só para não precisarem encarar o vento do pátio. Embora o refeitório do colégio fosse um local fechado, não era tão aquecido quanto as salas de aula.
Eu, no entanto, sempre ficava sondando os sussurros dos corredores para descobrir qual era o cardápio do dia antes de tomar uma decisão. Dependendo da opção de lanche, eu avaliava se valia a pena ou não abandonar o conforto do meu microclima quente. Logo fiquei sabendo que o menu incluía "chocolate quente" — entre aspas mesmo, porque o sabor daquela bebida escolar era de procedência bem duvidosa, parecendo mais um achocolatado ralo e morno — acompanhado de biscoito doce. Com aquela informação nada atraente, relaxei na minha cadeira e puxei uma tangerina de dentro da mochila. Sim, eu sabia que o aroma cítrico e forte impregnaria o ar no exato milésimo de segundo em que eu rompesse a casca com as unhas, mas eu simplesmente não me importava.
— Você caiu da cama hoje, Ariana? — ouvi a voz do Guilherme perguntar, enquanto ele girava o corpo de lado na cadeira para conseguir me encarar de frente.
— Pois é, milagres acontecem de vez em quando. É o que as pessoas costumam dizer por aí — dei de ombros, fingindo desinteresse. — Sei lá. Acho que o meu cérebro ainda está muito pilhado porque ontem foi o último dia de exames. Passei os últimos quatro dias extremamente tensa por causa das provas. Acho que a mente não volta ao estado de calmaria normal assim, de uma hora para outra — menti, descaradamente, porque eu sabia muito bem qual tinha sido o verdadeiro motor que me fez saltar da cama cedo hoje.
— E eu achando que você estava atrasada... Fiquei esperando por você debaixo daquela barraca de frutas da esquina até perceber que você não passaria nunca. Aí eu tive que andar super-rápido e acabei chegando só dez segundos antes de o inspetor fechar o portão principal — ele reclamou, ajeitando a gola do casaco.
Dei dois tapinhas leves no ombro dele, rindo.
— Viu só? Essas suas pernas enormes de nadador tinham que servir para alguma utilidade prática na vida.
Ele soltou uma risada ironicamente falsa.
— Engraçadinha. Eu quase perdi um dia inteiro de conteúdo por sua causa.
Franzi o cenho e o encarei com os olhos levemente cerrados, entrando no tom de provocação.
— Ah, por favor, Guilherme. Perder um dia de aula não ia matar você.
— Não posso me dar ao luxo de faltar, Ariana. Vai que alguma celebridade resolve aparecer por aqui de surpresa? Tipo aquele caso famoso em que a Virgínia Fonseca foi visitar de surpresa a escola onde ela cursou o Ensino Médio — ele rebateu .
A voz dele veio carregada de puro deboche. A grande verdade era que ele simplesmente gostava da rotina de ir à escola, mas odiava admitir isso em voz alta.
— Guilherme, nós moramos em uma ilha isolada! Nós não temos celebridades circulando por aqui.
— Ah, é verdade. Que droga — ele fingiu lamentar. — Acho que posso começar a faltar às aulas à vontade a partir de amanhã, então.
Balancei as mãos no ar na frente dele, interrompendo a palhaçada.
— Ok, ok, chega de drama. Olha, o verdadeiro motivo de eu ter chegado cedo hoje na escola foi porque eu queria te devolver isso aqui.
Inclinei meu corpo para o lado até conseguir alcançar a mochila que estava jogada no chão, ao lado da carteira. Enfiei uma das mãos no compartimento principal enquanto a outra se apoiava firmemente no tampo da mesa para manter o equilíbrio, deixando meus pés levemente suspensos do piso. Voltei a endireitar o tronco, trazendo comigo a sacola bonitinha com a pilha de luvas. Balancei o embrulho no ar antes de esticar o braço na direção dele.
— Estão todas devidamente lavadas. Usei um amaciante supercheiroso e pode ficar tranquilo: tomei todo o cuidado do mundo de ler a etiqueta de cada uma e segui as instruções de lavagem direitinho. Lavei todas à mão, com água fria, e não passei nem perto da secadora de roupas para não encolher o tecido. Inclusive, minhas mãos quase congelaram no tanque por sua causa.
Um sorriso aberto e genuíno se estampou no rosto do Guilherme. Ele resgatou a pequena pilha da minha mão e, num gesto espontâneo, levou o tecido direto ao nariz. O garoto inspirou fundo o perfume do amaciante e fixou os olhos nos meus. Seus olhos verdes brilhavam intensamente, refletindo a alegria do sorriso que se abriu ainda mais. Instantaneamente, me perguntei o porquê de tanta emoção da parte dele. Eu realmente não esperava por aquela reação tão calorosa; afinal, eu só estava devolvendo algo que já pertencia a ele por direito.
— Eu adorei a decoração do laço — ele comentou, tocando os cachos da fita de polipropileno com a ponta dos dedos.
Ergui o ombro direito e inclinei a cabeça na direção dele, exibindo uma expressão de satisfação e orgulho pelo meu trabalho doméstico. Bem naquele momento, uma aluna qualquer cruzou a porta da sala de aula — quer dizer, eu não fazia a menor ideia de qual turma ou ano ela era. A menina caminhou decidida até o fundo, grudou um papel com bordas bastante coloridas de vermelho direto no quadro de avisos da parede e vazou sem dizer uma única palavra.
Os sussurros entre as carteiras começaram quase que imediatamente, e minhas suspeitas s foram confirmadas no mesmo instante. Todos os anos, no mês de fevereiro — o famoso mês dos namorados por causa do Valentine's Day —, a diretoria liberava para que a escola inteira fosse decorada com corações de cartolina, flores de papel, cartazes temáticos e tudo mais que lembrasse o amor. Aquele papel colorido provavelmente era o panfleto oficial convocando os alunos e informando as datas e horários em que os mutirões de decoração seriam realizados. Sim, nós, os próprios alunos, é que fazíamos todo o trabalho manual; aquilo sempre ajudava quem estava precisando desesperadamente de pontos extras na média de comportamento.
O melhor mês para os namorados e o pior pesadelo para os solteiros estava prestes a começar. Era genuinamente difícil ser solteiro naquela escola durante o mês de fevereiro. Absolutamente tudo rodava ao redor de casais, cartas perfumadas, bilhetes anônimos, cantadas de corredor e declarações dramáticas. O surgimento de novos casais durante esse período era algo extremamente comum. Parecia que as pessoas ganhavam um sopro de coragem coletiva e decidiam falar tudo o que guardavam no peito. Algumas faziam isso de forma mais discreta, ou seja, simplesmente passavam a aparecer juntas pelos cantos, enquanto outras optavam pela via pública, armando declarações teatrais bem no meio do intervalo. Essa segunda situação era menos frequente, até porque o risco de rejeição sempre existia, e passar por um "não" na frente do colégio inteiro devia ser uma humilhação difícil de superar.
— Será que este ano vai ser igual ao ano passado e você vai receber outra pilha de cartas no seu armário? — com o cotovelo apoiado na mesa, encaixei meu queixo na palma da mão e o encarei de lado. — Não é possível que todas fossem anônimas. Alguma garota com a autoestima nas alturas deve ter tido a coragem de assinar o nome.
Guilherme deu de ombros, parecendo indiferente ao próprio sucesso.
— Algumas estavam assinadas, sim, mas eu nem procurei saber quem eram as meninas.
Soltei um suspiro pesado antes de continuar:
— Vai ser muito estranho quando você finalmente começar a namorar sério, porque nós não vamos poder continuar sendo tão amigos assim.
— Por quê? — ele perguntou imediatamente, e meu olhar mudou para uma expressão de pura incredulidade no mesmo segundo.
— Você está brincando comigo, né, Guilherme? — rebati, arqueando as sobrancelhas. — Nós só andamos grudados. Você vive indo à minha casa e eu na sua. Nós sempre nos tratamos com um baita carinho e você passa a vida me emprestando as suas roupas. Qual garota no mundo vai ficar de boa vendo o namorado ter uma intimidade desse nível com outra menina? Nenhuma. Esquece.
— Hum... Entendi o seu ponto — ele respondeu após uma pausa. Soltou um suspiro lento, inclinou o corpo para a frente e apoiou os braços no encosto da cadeira, fixando o olhar em mim. — Mas você já parou para pensar que você também pode começar a se relacionar com alguém?
Ele deu uma ênfase pesada, quase cirúrgica, na palavra você.
Soltei um arzinho rápido pelo nariz assim que meu cérebro processou a insinuação oculta por trás daquela pergunta. Senti minhas defesas subirem no mesmo instante.
— Isso não vai acontecer — decretei, curta.
— Por que não? — ele insistiu, sem desviar os olhos verdes dos meus.
— Porque eu ainda não conheci ninguém neste colégio que me fizesse ter as famosas borboletas no estômago — respondi, mantendo a voz o mais firme que consegui.
Menti descaradamente para ele e para mim mesma. Eu já tinha experimentado aquela sensação exata de eletricidade e falta de ar uma vez na vida, mas tinha sido há muito tempo, no meio de uma sala fria, durante um jogo inocente com uma garrafa de vidro.
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