Não Te Esquecerei Jamais
11 O neto mistérioso da amiga da minha avó
Notas iniciais
Capítulo 10
Corri meus olhos pelo rosto de cada um sentado no círculo. Meu objetivo era me certificar de que todos estavam devidamente concentrados e esperando o início da história. Garantindo que a plateia estava pronta para as minhas palavras, joguei as duas mechas de cabelo para trás dos ombros e pigarreei, adotando um tom misterioso.
— Em uma noite de lua cheia, uma gitana se ajoelhou sob o brilho intenso do luar. As palavras que carregavam o seu desejo eram límpidas e claras, mesmo que dos seus olhos caíssem grossas lágrimas. O pedido era simples — fiz uma pausa dramática, avaliando se meus amigos já estavam imersos na narrativa. Como o silêncio era absoluto, retomei a voz: — A gitana queria casar de qualquer jeito com um calé. Por causa disso, a mulher conjurou a Lua até o amanhecer.
A lanterna em forma de fogueira que depositamos no meio do círculo lançava raios de luz falsos, que pouco lembravam o fogo de verdade. Éramos crianças e tínhamos que nos contentar com aquela imitação barata, já que era perigoso demais mexer com fósforos. Ainda por cima, estávamos no auge do verão. Uma estação tão quente e seca que qualquer faísca boba seria o suficiente para dar início a um incêndio de grandes proporções.
— A gitana repetiu o clamor durante algumas noites. Quando já começava a acreditar que suas preces seriam em vão, ela finalmente obteve uma resposta. "Terás o teu homem, mulher de pele", disse uma voz fina e calma, ecoando devagarzinho. A mulher olhou para o céu e, mesmo que o satélite estivesse com a mesma aparência de sempre, soube que a entidade tinha respondido ao seu apelo. "Com uma condição: deves me entregar o primeiro filho que tiver com ele. É uma troca fácil e justa. Não quero mais ficar sozinha. Além do mais, pouco irás amá-lo." Sem pensar duas vezes, ignorando as consequências de fechar um acordo com a Lua, a gitana aceitou os termos.
O sol ainda não tinha se posto; pelo contrário, ainda faltavam horas para que ele desaparecesse na linha do horizonte. Estávamos sentados o mais longe possível da janela por onde tínhamos entrado. Queríamos evitar o excesso de iluminação solar para simular, o máximo possível, aquela atmosfera de lual noturno que os adolescentes mais velhos e os adultos costumavam aproveitar.
Uma gota de suor escorreu lentamente pelas minhas costas, apenas intensificando meu desejo de ter um ventilador por perto, ou ao menos uma brisa forte passando pela janela aberta. A penumbra do cômodo não me deixava enxergar o suor acumulado no rosto dos meus amigos, mas o movimento constante de seus antebraços enxugando as testas denunciava que eles também eram castigados pelo abafamento.
— Trato feito, a gitana conheceu seu calé e eles se casaram em um curto período de tempo. Em um prazo mais curto ainda, ela engravidou. Longos e ansiosos nove meses se passaram até a chegada do bebê e, quando o feliz acontecimento bateu à porta, ele excedeu todas as expectativas. De um pai com a pele cor de canela, nasceu um menino branco como o pelo de um coelho, exibindo olhos azuis em vez de verdes. Era o filho albino da Lua. Rapidamente, um boato cruel se espalhou pela comunidade: "De quem é esse menino?". A fofoca já corria feito fogo em palha seca. Dado aos fatos, a cor da pele e dos olhos da criança, era biologicamente impossível ela ser filha de um cigano. Ao crer que tinha sido desonrado diante de todos, o homem invadiu o quarto da mulher com um punhal em punho.
Ergui a mão direita fechada em um punho firme, como se realmente segurasse uma arma branca. Endireitei as costas, adotando uma postura ameaçadora:
— "De quem é esse filho? Você me enganou com certeza!". A lâmina do punhal cortou o ar duas vezes. A ponta afiada rasgou a bochecha da recém-mãe e, antes que ela pudesse ensaiar qualquer defesa, ele a matou. Com o recém-nascido nos braços, o homem subiu até o topo da montanha mais alta e ali o abandonou, cumprindo, sem saber, o acordo que a gitana tinha feito. É por isso que, nas noites em que a lua está cheia, é sinal de que o menino está bem e feliz; mas, se o menino chora, ela mingua imediatamente para se transformar em um berço de prata.
— Que história mais triste! — Cristina exclamou. Ela foi a única a demonstrar uma revolta clara. O restante do grupo permaneceu em um silêncio sério.
— Quem vocês acham que é o verdadeiro vilão da história? — perguntei, desafiando a roda.
— Ora, quem mais seria? — a garota rebateu, como se a resposta estivesse estampada na minha cara. — O marido, óbvio.
Passei os olhos lentamente pelo rosto de cada um dos meninos, incentivando-os a arriscarem uma resposta, mesmo que boba, mas todos continuaram calados.
— O homem foi uma figura horrível na história — comecei a analisar —, mas, na minha interpretação, a própria Lua é a verdadeira vilã. Em sua obsessão egoísta de ser mãe, ela manipulou o destino e a tragédia de várias pessoas. A Lua foi ardilosa e cruel. Será que, por ser uma espécie de deusa mística, a vida humana simplesmente não importava para ela?
— Mas essa história aí não tem nada de terror — João reclamou, revirando os olhos, quebrando o clima poético.
— Eu avisei que ia contar a lenda das fases da Lua — respondi. A ponta da minha língua deslizou entre meus lábios em um formato de "O", e precisei segurar minha mão para não fazer um gesto obsceno na direção dele. — Conta logo a sua história de terror então, queridão.
João remexeu o quadril no chão e adotou uma postura bem ereta. Pousou as palmas das mãos sobre as coxas, em uma posição que me lembrou imediatamente um monge em meditação. Faltava apenas ele unir os polegares aos indicadores e começar a soltar um "ommm" prolongado.
— A lenda que eu vou contar é sobre um espírito maligno chamado Aka Manto. Significa "Capa Vermelha", traduzido do japonês.
— Deixa eu adivinhar: você conheceu essa história assistindo a algum anime? — O tom da Cristina veio carregado de deboche, beirando a acidez. No fundo, ela estava julgando o gosto dele.
— Não. Essa eu descobri jogando um videogame — João respondeu de pronto.
Era óbvio que ele tinha recorrido àquela desculpa por achar que seria menos "vergonhoso" ter conhecido o conto em um jogo do que em uma animação, já que era constantemente provocado por ser fã inveterado da cultura oriental.
— Quem estiver usando a última cabine de um banheiro público pode escutar uma voz misteriosa perguntando se você escolhe o papel azul ou o vermelho. Diferente de Matrix, aqui as duas opções são péssimas. Se você escolher o papel vermelho, terá o seu corpo fatiado por uma lâmina até que suas roupas estejam completamente encharcidas de sangue. Se optar pelo papel azul, será sufocado até que seu rosto fique roxo e sem ar — João despejou o enredo.
Para além dos poucos detalhes da sua história, percebi que mais uma vez ele tinha usado Matrix como termo de comparação. Especificamente a famosa cena da escolha das pílulas, onde o Neo precisa decidir entre continuar na ignorância pacífica da simulação ou engolir a realidade dura de um mundo dominado por máquinas. Havia alguns meses, as turmas do oitavo e do nono ano tinham sido levadas ao auditório da escola para assistir ao primeiro filme da trilogia. Pelo que fiquei sabendo, era um clássico absoluto das aulas de Filosofia, e os alunos eram obrigados a assistir à obra pelo menos uma vez antes de se formarem.
Eu não tinha me sentido muito tocada pelo longa na época. Talvez não tivesse maturidade suficiente para pescar as entrelinhas e as mensagens filosóficas escondidas ali. O João, por outro lado, tinha idolatrado a produção apenas por causa das cenas de artes marciais bem coreografadas e dos efeitos visuais inovadores. Duvido muito que ele tenha captado a essência da discussão.
— E qual é a motivação desse espírito assassino? — Guilherme perguntou, demonstrando interesse.
João ergueu os ombros algumas vezes, curvando os cantos da boca para baixo em um sinal de desinteresse.
— Sei lá. Desilusão amorosa? A motivação é sempre essa. Traição, vingança... blá, blá, blá.
— Como sempre, você faz o seu trabalho pela metade! — Cristina fuzilou o amigo com o olhar. — Nem para pesquisar os detalhes reais da lenda antes de contar?
— Gente, vamos fazer outra coisa? — Ricardo interrompeu, erguendo os braços para o alto enquanto esticava a coluna. — Cansei de ficar sentado aqui no chão. Minhas pernas estão completamente dormentes porque estão cruzadas há muito tempo.
Ninguém se deu ao trabalho de responder verbalmente. Apenas nos levantamos juntos, arrastando os pés e produzindo um barulho arrastado pelo cômodo de madeira.
[...]
O curso de desenho de verão finalmente chegou ao fim. Passou muito mais rápido do que eu tinha planejado. Talvez isso estivesse diretamente ligado ao fato de ter acontecido durante as férias, e todo mundo sabe que as férias sempre têm a mania de passar voando. A secretaria da escola pediu um prazo de trinta dias para emitir os certificados de conclusão, o que significava que eu só colocaria as mãos no documento no início do ano letivo regular.
Nesses últimos dias, vi minha avó extremamente animada com a notícia da chegada de uma velha amiga, que estava retornando para a ilha após passar anos morando fora. Comovida, ajudei as duas a planejarem uma viagem de reencontro para a região litorânea.
A Ilha de Loirinhos tinha como principal ponto turístico o seu litoral paradisíaco. Muita gente era atraída para lá por causa das famosas fontes termais e pelas praias de águas quentinhas. Isso com certeza era um diferencial e tanto, já que a imensa maioria das praias europeias costumava ser gelada. O verão era, sem dúvida, o auge da nossa economia local . Minha avó e sua amiga aproveitariam os últimos dias de calor desfrutando daquela areia, e eu iria junto como acompanhante oficial. Eu estava morrendo de ansiedade; afinal, o verão sempre foi a minha estação preferida do ano.
Despertei extremamente cedo na manhã marcada para a viagem. Notei que os primeiros raios solares mal conseguiam atravessar a fresta da cortina da janela. Meus olhos encararam a penumbra cinzenta daquele fim de madrugada. Tentei voltar a dormir de qualquer jeito; apertei os olhos bem forte e permaneci na escuridão oferecida pelas minhas pálpebras por algum tempo, mas foi simplesmente impossível retornar à inconsciência do sono. Um frio característico da ansiedade tinha se instalado direto nas minhas entranhas, e não havia técnica que acalmasse aquela sensação gelada na barriga. Permaneci deitada, movendo o corpo de um lado para o outro na cama, até que finalmente comecei a ouvir os primeiros ruídos de movimentação pela casa.
A verdade era que eu tinha pensado em muita coisa durante o período em que fiquei encarando o teto no meio da insônia. Aquele frio na barriga que agitava minha mente e espantava meu sono não era causado exclusivamente pela viagem em si. Dias antes, quando todos os detalhes do roteiro foram acertados, minha avó tinha ligado para a Amélia para contar as novidades empolgada.
— Ah, a minha neta organizou tudo! Horário de ida e volta, as diárias do Airbnb, as possíveis despesas com alimentação, tudo mesmo — minha avó comentou ao celular, orgulhosa.
Eu estava assistindo a um filme na televisão na hora, então não fixei muito a minha atenção na conversa dela. Mas houve um momento específico em que minha avó tapou o microfone do aparelho com a palma da mão, afastou o telefone da orelha e sussurrou para mim, radiante:
— Olha que legal, Ariana! A Amélia também tem um neto da sua idade, e ele vai conosco. — Ela abriu um sorriso cúmplice e deu um tapinha leve no meu joelho. — Você vai ter um amiguinho para te fazer companhia!
Apenas balancei a cabeça, concordando e sorrindo de volta. No fundo, achei que seria bom ter alguém da minha geração por perto. Considerando que iríamos nos hospedar em um Airbnb em vez de um hotel com recreação, imaginei que seria bem mais difícil encontrar outras pessoas para interagir na praia.
"Será que ele é do tipo que gosta de se divertir ou tem aquela vibe da Cristina, que adora pagar de adolescente maduro e rabugento?", perguntei a mim mesma. Balancei a cabeça de leve na cama assim que o pensamento surgiu. Não seja esse tipo de pessoa, Ariana. A que julga os outros antes mesmo de conhecer.
Eu só não imaginava o tamanho da surpresa que o destino estava guardando para mim poucas horas depois daquela ligação. Na noite anterior à viagem, estávamos terminando o jantar em família quando o telefone residencial tocou. O toque estridente se prolongou por cinco vezes antes que minha irmã esticasse o braço, levantando o quadril levemente da cadeira para alcançar o aparelho.
— Alô? — Mirela atendeu. Todo mundo na mesa a encarou com extrema curiosidade; afinal, quem ligaria para a nossa casa àquela hora da noite?
— É para você — ela anunciou, estendendo o fone na minha direção.
Ergui o braço e peguei o aparelho das mãos dela, confusa. Com o telefone colado ao ouvido e todos os olhares da janta transferidos para a minha cara, pigarreei e falei:
— Alô? Quem é?
Ouvi uma risadinha abafada do outro lado da linha. Uma risadinha masculina, jovem e terrivelmente familiar.
— Então você é a neta bondosa e organizada que planejou toda a viagem da minha avó?
Não foi nem um pouco difícil reconhecer o tom de voz do outro lado da linha. Tampouco foi difícil ligar os pontos no meu cérebro. Eu conseguia visualizar perfeitamente a minha própria cena: paralisada na cozinha, com o fone grudado no ouvido. Minha primeira reação foi o puro choque do reconhecimento, o que me causou um breve momento de palidez total, rapidamente substituído por uma cara de paisagem forçada — resultado do meu raciocínio rápido para não entregar o jogo para a minha família.
Mas, por dentro, meu rosto entrou em chamas com o entendimento avassalador de que o garoto que passaria as férias inteiras comigo no litoral era ninguém menos que o Guilherme Martins.
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