Não Te Esquecerei Jamais
10 Emocionada desde da tenra infância
Notas iniciais
Capítulo 9
Eu realmente achei que seria uma excelente ideia tirar uma foto surpresa dos meus pais juntos assistindo à televisão. Pelo visto, todas aquelas fotos perfeitamente espontâneas que eu via espalhadas pela internet eram a maior farsa. A imagem, que levou noventa segundos agonizantes para se revelar no papel fotográfico, saiu um pouco borrada. Acontece que meu pai ergueu a mão no exato milésimo de segundo em que viu a câmera, na intenção de cobrir o rosto. No fim, a palma dele virou apenas um vulto fantasmagórico que nem conseguiu cumprir a missão, já que as feições dele saíram limpas.
— Olha aí! Mais um filme jogado fora. Esses rolos são caros, Ariana! — meu pai reclamou assim que analisou o resultado.
— Em minha defesa, eu achei que ia ficar parecendo aquelas fotos asterics do Tumblr.
— Tumblr? Sei nem o que é isso, menina.
— Ah, minha Nossa Senhora... — minha mãe entrou na conversa, plantando as mãos na cintura. — Ariana, por acaso você acha que nós somos modelos? Modelo é que fica lindo de qualquer ângulo. Seu pai e eu já estamos velhos para essas invenções.
Encarei a foto novamente e sorri de canto. Embora estivesse longe de ser perfeita, ela servia como um registro precioso. Eles estavam de mãos dadas, e a maneira como o corpo do meu pai se inclinava fazia com que seus ombros esbarrassem com carinho no dela. No fundo da imagem, enquadrado na parede da sala, dava para ver o quadro com a foto do casamento deles. Os dois de frente um para o outro, as mãos erguidas e unidas, as testas coladas e um sorriso gigante estampado em ambas as bocas.
Hoje, vinte anos após aquela cerimônia, os dois já carregavam várias marcas do tempo — diferentes, mas que se completavam. Meu pai tinha perdido o volumoso cabelo black power da juventude e agora exibia apenas fios ralinhos quando deixava crescer. Minha mãe tinha ganhado um pouco de peso e começado a pintar o cabelo para camuflar os primeiros fios grisalhos que insistiam em aparecer. No fim, aquela foto borrada acabou se tornando um contraste lindo entre o passado e o agora.
O som da campainha fez com que todos dessem um salto no sofá. Ela era absurdamente barulhenta, e mesmo quando a casa estava cheia de ruídos, o toque ainda conseguia soar escandaloso.
— Que horas são? — perguntei e, sem esperar que alguém respondesse, consultei o visor do meu relógio de pulso. — Oh, deve ser o Guilherme.
Corri para o quarto, guardei a câmera instantânea na caixa com cuidado e grudei a foto nova no meu mural improvisado. Voltei correndo para a sala, onde encontrei Guilherme parado na entrada, exibindo uma postura tímida, com as mãos escondidas nas costas. Minha mãe conversava com ele perto da porta, e lá atrás o portão aparecia entreaberto. Aquela situação constrangedora me fez lembrar, mais uma vez, que nada disso aconteceria se eu já tivesse um celular. A ansiedade pelo meu aniversário de quinze anos só aumentava.
— Carona check! Estou prontinha para ir — anunciei, quebrando o gelo.
Caminhei até meus ombros se alinharem aos deles. Eu estava virada para a saída, enquanto Guilherme mantinha os olhos fixos na sala de estar, encarando o meu pai. Dei uma leve cotovelada no braço dele e, assim que consegui sua atenção, chamei-o com um movimento sutil de cabeça, convidando-o a me seguir. Ele girou o corpo na mesma direção e finalmente começamos a andar.
— Volte cedo, Ariana! — minha mãe gritou.
— Eu sei, mãe!
Assim que ganhamos a calçada da rua, comecei a desabafar:
— No dia em que eu finalmente ganhar o meu celular, nada disso vai se repetir. Você vai poder me mandar uma mensagem e a gente se encontra direto aqui fora.
Guilherme me encarou de lado. Ele parecia intrigado com a minha lógica, e não demorei a entender o motivo assim que ele abriu a boca.
— Você não gosta que eu fale com os seus pais?
— Não é isso. É que eu não me sinto muito à vontade conversando com os pais dos meus amigos. É meio estranho. Sei lá, nunca sei sobre o que falar, porque nossos gostos são totalmente diferentes. Eles são adultos e eu sou uma adolescente — dei de ombros. — Achei que todo mundo sentisse esse mesmo bloqueio, mas se você prefere puxar papo com eles, quem sou eu para discutir?
Guilherme franziu o cenho, achando graça.
— Os adultos não são tão alienígenas assim, Ariana. Você e a minha mãe, por exemplo, teriam assunto para passar horas conversando. Ela gosta das mesmíssimas séries que você. Não sei se você sabe, mas ela é completamente viciada em novelas coreanas.
— O quê?! — Minha voz subiu alguns tons, tomada por uma surpresa genuína. — Nossa! Faz meses que eu tento fazer a minha irmã assistir a um dorama para eu ter com quem surtar, e ela nunca me deu uma chance.
— Olha só — ele comentou, montando na cela da bicicleta. — Parece que vocês já têm o gancho perfeito para quando você for lá em casa.
— Ah, mas não é a mesma coisa. Eu sou muito tiete, sua mãe provavelmente ia achar meus surtos um exagero.
Apoiei minhas mãos firmemente nos ombros de Guilherme, uma de cada lado. Firmei o pé direito na pedaleira traseira e, pegando impulso, passei a perna esquerda por cima do pneu, acomodando o outro tênis no segundo apoio de metal.
— E se vocês assistissem a alguma coisa juntas? — ele sugeriu, dando a primeira pedalada.
— Nem pensar! Já basta o filho dela viver me zoando por eu ser emocionada demais.
— Mas você chora com absolutamente tudo o que assiste? — Guilherme perguntou, enquanto dobrávamos a primeira esquina do bairro.
— Não! Só quando acontece a morte de algum personagem de quem eu gosto muito. Quando os outros sofrem com a perda na tela, o sentimento meio que é transferido para mim. Também choro quando o casal principal se separa, mas isso só se eu estiver shippando os dois de verdade.
— E qual casal já te fez chorar desse jeito?
— Vários! Como Eu Era Antes de Você me fez desidratar. Eu tive que ser literalmente consolada no meio do cinema. Mas, como eu já disse, não são só os romances que me quebram. Chorei horrores com a animação de O Pequeno Príncipe; a partida do inventor acabou comigo. Às vezes, eu choro simplesmente porque uma boa história chegou ao fim. Tenho certeza absoluta de que vou chorar um rio quando a trilogia de Para Todos os Garotos que Já Amei terminar. A Lara Jean e o Peter Kavinsky são tudo para mim!
Respirei fundo, me dando conta de que tinha falado sem parar, disparando as palavras feito uma metralhadora falante.
— Mas Como Eu Era Antes de Você não é um filme de 2016? — ele calculou.
— Sim. O que tem a ver o ano de lançamento?
Entramos em uma ruela antiga onde o calçamento era todo feito de pedras irregulares. A bicicleta começou a quicar e chacoalhar, tornando desconfortável a tarefa de me manter em pé naqueles ferrinhos.
— É que você só tinha onze anos na época — ele riu.
— Foi o que você mesmo acabou de diagnosticar: eu sou emocionada desde a minha mais tenra infância.
— Verdade. Agora, quando eu quiser que você fale bastante, já sei exatamente qual assunto puxar.
— Aí você vai ter que aguentar a metralhadora de spoilers — brinquei.
Fechei minhas mãos em punho, prendendo parte do tecido da camiseta dele entre os meus dedos. Foi um reflexo automático ao avistar a ladeira íngreme a poucos metros de distância; eu não me sentia segura o suficiente para apenas repousar as palmas sobre os ombros dele naquele declive. Fiquei surpresa, contudo, quando a bicicleta começou a descer a rua em uma velocidade surpreendentemente baixa. Por um segundo, achei que o meu peso extra estivesse travando as rodas, mas logo percebi que o Guilherme não pedalava rápido de propósito. Suas mãos apertavam os manetes do freio com agilidade, desacelerando o veículo com todo o cuidado para me proteger.
Fomos os segundos a chegar ao ponto de encontro. Ricardo tentava se proteger do sol forte se encolhendo em uma minúscula faixa de sombra projetada por um muro alto. Embora ele já fosse relativamente alto, a posição dos raios solares daquela hora do dia ainda não favorecia grandes coberturas. Li nos olhos dele o choque por me ver chegando exatamente no horário marcado. E, ao notar que eu vinha na garupa da bicicleta, a surpresa dele deu lugar a uma pontada de deboche.
Soube imediatamente o que se passava na cabeça do Ricardo: ele tinha concluído que o único motivo da minha pontualidade histórica era o fato de o Guilherme ser britânico com os horários, e eu fui obrigada a seguir o ritmo dele para não perder a carona.
Estalei a língua, aceitando o fato. O garoto não estava errado. Especialmente hoje, tomei o cuidado de adiantar todos os meus afazeres domésticos para não atrasar a vida de quem tinha se comovido com a minha situação e me oferecido apoio. Era o mínimo da minha parte.
João foi o último a chegar, surgindo na rua logo após a Cristina. Eu já tinha descido das pedaleiras enquanto esperávamos, porque não era exatamente confortável permanecer ali estática. Se íamos mofar esperando o resto do grupo chegar, por que não fazer isso com os dois pés plantados firmemente no chão? Além do mais, foi bom perceber que eu já tinha adquirido uma certa manha com a garupa. Não que eu tivesse morrido de dificuldades na primeira tentativa, mas tinha sido um processo bem mais lento e marcado por um leve desequilíbrio.
Já estávamos na estrada de terra quando me lembrei do meu capacete e das joelheiras que ficaram jogados em um canto qualquer do meu quarto. E daí se eu caísse e deixasse metade da pele do meu braço no asfalto? Pelo menos eu não seria obrigada a usar aquele equipamento ridículo que ninguém mais na nossa idade usava.
— Hoje é o dia das lendas. Você está preparado para a sua vez? — perguntei ao garoto que pilotava com pouca concentração e um sorrisinho misterioso no rosto.
— Dia das lendas? — Guilherme perguntou, o corpo se empertigando na bicicleta enquanto o sorriso sumia dos seus lábios de imediato.
— Sim. Por acaso os outros não te avisaram?
— Não.
Mordi o lábio inferior e apertei os olhos. Essa é a minha expressão clássica de culpa; ela sempre aparece quando preciso admitir algum erro.
— Desculpa. Esqueci de comentar e também achei que os outros tivessem falado sobre isso com você — estalei a língua, chateada comigo mesma. — Mas é assim mesmo. Você conta uma lenda na próxima rodada.
— Eu posso contar a história de um anime e a gente finge que é uma lenda — ele sugeriu pausadamente.
Guilherme parecia um pouco receoso. Não soube dizer se o motivo era o medo de eu achar a ideia de resumir um desenho ridícula ou se ele temia que eu o julgasse por assistir a animes. Abri um grande sorriso com a sugestão, mas, como estava atrás dele na garupa, ele não pôde ver minha reação.
— É uma ótima ideia! — respondi, balançando a cabeça positivamente contra as costas dele.
Deixamos as bicicletas mais perto da casa principal desta vez e, sem demora, entramos todos na velha construção. Nos acomodamos no chão, formando um círculo perfeito. Precisei de um milésimo de segundo para me concentrar no presente, porque, desde a noite fria daquele inverno, sentar em círculo sempre me trazia o estalo inevitável da lembrança do jogo da garrafa.
— Vai, Ariana. Hoje você começa — Cristina comandou, quebrando meus devaneios.
— Certo.
— Sobre o que é a sua história? — Ricardo perguntou, curioso, inclinando o corpo para a frente.
— Hum... — fiz suspense, olhando para cada um dos rostos na roda. — Vocês querem saber qual é a verdadeira história da lua?
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