Notas iniciais
Olá meninas como vão? Pois é... eu não sei se iria postar mais este capítulo amanhã, mas resolvi fazer isso hj. Obrigada pelos comentários deixados para a minha pessoa, gostei deles, espero que tenham uma ótimo final de semana, bjs

[RECAPITULANDO]

Uma lágrima brotou de um daqueles olhos azuis.

— Desculpe, Anne. Você está vulnerável neste momento. Não me comportei como um cavalheiro honrado. Tem todo o direito de estar aborrecida. Prometo agir com maior discrição no futuro.

Ela se manteve quieta, silenciosa.

— Olhe para mim, por favor. Foi só um beijo.

O pedido foi atendido. E ele lamentou tê-lo ex­pressado. Porque ao ver os olhos cheios de espanto e dor, soube a verdade e sentiu-se o pior dos homens.

Nenhuma negativa seria suficiente para apagar o que acontecera ali.

Não havia sido apenas um beijo.

***

Jane preparou-se para a noite no teatro, lamen­tando não poder ficar em casa enquanto Charles e Mary saíam. Assim teria tempo para devolver as cartas de Fitzwilliam e ler as que ainda não pudera examinar. Até então só tomara conhecimento de his­tórias sobre as viagens que ele fizera e as peças que produzira. Tinha certeza de que as informações seriam úteis em algum momento, mas a decepção ainda era maior que todos os sentimentos. Gostaria de ter uma chance de voltar ao quarto de Charles para procurar as chaves da escrivaninha do escri­tório. Mas sabia que a probabilidade de realizar a busca era quase nula.

Jane escolheu um dos vestidos novos, um mo­delo em seda negra com renda francesa da mesma cor e pérolas bordadas desde os ombros até a cin­tura formando um triângulo.

Estudou-se no espelho, tentando acostumar-se às mudanças recentes que o corpo sofrerá. Os seios es­tavam mais cheios, os quadris, mais arredondados. O que pensaria o pai se a visse naquele momento?

Lembrou a noite em que Charles a carregara até o quarto e o ardor com que a beijara.

O que ele pensava a seu respeito? O que importava?

Ele nem conhecia sua verda­deira identidade. Mesmo assim, não conseguia dei­xar de pensar que errara ao encorajar aquele beijo.

E quanto mais pensava nisso, mais acreditava que o beijo havia sido apenas mais um teste. Uma maneira de descobrir com que tipo de mulher seu irmão se casara, de provar que tipo de mãe possuía a única herdeiro dos Bingley. E cada vez que recordava sua reação, ficava sem saber se fora aprovada ou reprovada.

Dispunha de pouca experiência com o sexo opos­to, e por isso não tinha meios de comparação. O beijo de Charles ainda a mantinha acordada à noite, causando respostas físicas que comprova­vam o perigoso efeito daquele homem sobre seus sentidos. Jamais fora beijada daquela maneira.

Com ternura e sensibilidade, como se fosse al­guém digna de reverência.

Mas isso era tolice. Charles não a considerava especial. Pelo contrário.

Então, por que lembrava a distinção acima de todas as outras caracterís­ticas do beijo, acima da sensualidade e até mesmo do fato chocante de que ele a beijara?

Falhara no teste. A viúva de seu irmão o teria esbofeteado e anunciado seu ultraje para quem quisesse ouvi-la. Mas ela não.

Pressionara a mão contra o peito musculoso e sen­tira o calor emanado pelo corpo másculo. Lembrara a visão estonteante daquele mesmo corpo nu e fora envolvida por um calor intenso, paralisante. Além do pulsar do sangue correndo rápido pelas veias, ouvira a voz da consciência alertando-a para os deveres com a filha, e só então empurrara o homem que gostaria de ter sentido mais perto.

Para não cair em uma armadilha, lembrara a última vez em que havia acreditado na sinceri­dade de um homem.

Charles tinha um propósito, um objetivo que não a beneficiaria jamais.

Virou-se de costas para o espelho, tentando ig­norar o rubor de humilhação e desejo que ainda tingia sua pele sempre que pensava no episódio.

Helena ainda estava acordado no berço. Amamentara-a antes de vestir-se, mas, tomada por uma necessidade súbita de tê-la nos braços, pe­gou-a e foi até a janela.

— Mamãe não vai demorar — prometeu, bei­jando a testa pequenina. — E vou sentir saudade. Você é minha maior riqueza.

— Helena ainda não dormiu? — A sra. Gardiner perguntou, aproximando-se sem fazer barulho.

— Não. Ela está começando a aumentar os períodos de vigília. Não saia de perto dela esta noite, sim?

— É claro que não, senhora.

— Obrigada. — Entregou a criança à enfermeira e foi terminar de arrumar-se, transferindo o con­teúdo de sua bolsa para uma das de Anne. Depois libertou o bracelete que havia costurado sob o for­ro da bolsa.

As esmeraldas brilharam como se piscassem, partilhando um segredo. Ela fechou os dedos em torno da preciosa jóia, as gemas frias contra a pele. Como teria sido sua vida se a mãe ainda fosse viva? Os conselhos bondosos e a atenção constante de uma mulher poderiam ter impedido o erro que cometera com William Collins. E se mesmo assim houvesse cometido o engano, talvez a mãe houvesse convencido o pai a não expulsar de casa a única filha.

Jamais saberia. Colocou o bracelete no pulso. Só tinha duas coisas que lhe pertenciam de fato e de direito: Helena e aquela pulseira. Era melhor usar a jóia antes que ela também se tornasse parte do passado.

Charles esperava por ela no saguão. A casaca e a calça negra e a camisa branca enfatizavam a beleza devastadora.

Os olhos claros examinaram-na com atenção e admiração.

— Pronta?

— Sim, estou. E sua mãe?

— Foi jantar com amigos. Ela não disse nada?

Então sairiam sozinhos?

Por um momento Jane pensou naquele beijo e sentiu o coração bater mais depressa, mas felizmente controlou-se em seguida.

— Não — respondeu. — Ela não me disse nada.

— Faz alguma diferença o fato de mamãe não ir conosco?

Há meses não ia ao teatro, nem a qualquer outro lugar, e pretendia divertir-se. Charles Bingley, seus testes e beijos não a fariam mudar de ideia.

— Nenhuma.