Não Sou Quem Você Imagina!
20 Capítulo 20
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
Por um momento Jane pensou naquele beijo e sentiu o coração bater mais depressa, mas felizmente controlou-se em seguida.
— Não — respondeu. — Ela não me disse nada.
— Faz alguma diferença o fato de mamãe não ir conosco?
Há meses não ia ao teatro, nem a qualquer outro lugar, e pretendia divertir-se. Charles Bingley, seus testes e beijos não a fariam mudar de ideia.
— Nenhuma.
***
A produção não foi das melhores que Jane já havia assistido, mas isso não diminuiu o prazer de estar ali.
A segunda esposa de Edward Coughlin, Georgiana, era apenas alguns poucos anos mais velha que Jane, e mantinha o marido, um poderoso banqueiro, hipnotizado por seus encantos. Quando os dois homens desapareceram durante o intervalo, Georgiana sentou-se ao lado da Jane e iniciou uma conversa entusiasmada, embora unilateral. Ela e o marido tinham dois filhos pequenos, e Georgiana participava de diversas organizações femininas.
— Vou oferecer um almoço em beneficio do Auxílio às Mulheres na próxima semana, Anne. Você precisa ir.
— Obrigada. — Charles devia ter provocado o convite para envolvê-la nas atividades locais, ou para estudar suas reações em funções sociais. — Será um prazer.
Os homens retornaram e o teatro foi novamente inundado pela escuridão.
Alguns momentos depois do início da apresentação, Jane olhou para o lado e viu Georgiana de mãos dadas com o marido. A visão assustou-a. Não porque estivesse chocada, pois já percebera o amor que os unia, apesar da diferença de idade existente entre eles, mas porque reconheceu o sentimento de inveja. E solidão. A felicidade estampada em seus rostos fazia com que se sentisse mais sozinha.
Planejara ter um marido amoroso algum dia. Os planos incluíam um homem apaixonado e filhos que criariam juntos.
O que aconteceria com ela e Helena quando deixassem a segurança da residência dos Bingley e a proteção conferida pelo nome da família?
Teria de fingir que era uma viúva, ou seriam discriminados onde quer que fossem. Mais mentiras. Mas não seria capaz de oferecer um ambiente decente e boa educação para a filha se revelasse a verdade. Ninguém alugaria uma casa onde pudessem morar nem a aceitariam em emprego algum.
Helana seria sua família. E ela seria a única responsável por ela.
Olhando para o palco, tomou consciência do olhar de Charles a seu lado. Virou-se e, ao descobrir que estava sendo observada, baniu da mente os pensamentos pessimistas.
— Devia ter percebido que o evento seria uma dolorosa lembrança de Fitzwilliam — ele comentou, tomando sua mão entre as dele.
O contato provocou um arrepio e despertou nela o desejo de aninhar-se em seus braços. Só uma criatura patética como ela podia extrair algum conforto de um homem de coração duro e espírito crítico. Estava tão faminta de amor e afeto que aceitava qualquer tipo de atenção.
Pois que ele pensasse que estava triste por Fitzwilliam. A ideia proporcionava uma vantagem que, naquele momento, não podia dispensar.
Na metade do segundo ato, ainda de mãos dadas com Charles, Jane foi tomada de assalto por uma questão espantosa: Seria ela a fonte de conforto no estranho intercâmbio?
Não. O grande Charles Bingley? O homem de aço?
Mas testemunhara os momentos de ternura entre ele e a mãe, e sabia que devia haver mais do que ele revelava com suas atitudes frias e distantes.
Afastou os olhos do rosto bonito e interrompeu o contato entre as mãos. Não. Tudo que ele fazia, cada gesto, palavra ou plano, tinha um motivo. Estava sob vigilância e observação constante, e por isso tinha de fazer exatamente o que Anne teria feito em iguais circunstâncias.
A tarefa seria mais simples se soubesse quem fora Anne.
Depois do espetáculo, Gruver levou-os ao elegante restaurante onde os Coughlin fizeram reservas. Jane recusou o vinho, dando preferência ao refrescante suco de uvas brancas. Incomodada com os seios cheios e doloridos, desejou poder oferecer uma boa desculpa e partir sem causar uma cena.
Georgiana os divertiu contando histórias sobre a viagem que fizera a Europa alguns meses antes. Ela ergueu a cabeça e sorriu maravilhada quando alguns atores da peça passaram pela mesa.
— Oh, adorei a atuação de todos esta noite! — exclamou em voz alta.
Uma morena alta e esguia aproximou-se sorridente.
— Obrigada.
Patrice Beaumont apresentou os outros artistas e Georgiana retribuiu apresentando o pequeno grupo que a acompanhava.
— Bingley? — Perguntou uma morena chamada Catherine de Bourge. — Por acaso são parentes de Fitzwilliam Bingley?
— Sim — Charles respondeu sem esconder o desconforto, levantando-se para aceitar a mão estendida em sua direção. — Sou irmão dele.
— Atuei em uma das peças de Fitzwilliam no último inverno em Londres. Ficamos devastados quando soubemos sobre sua morte. Aceite minhas condolências.
Os outros também manifestaram pesar.
— E Anne, é claro — ela disse, inclinando-se para beijar o rosto de Jane. — Deve estar perdida sem nosso querido Fitzwilliam. O que posso fazer por você?
— Bem, eu... eu... — Odiava ser o centro das atenções. Gostaria de poder abandonar o restaurante e buscar um refúgio seguro e discreto para esconder-se. — Nada. O irmão de Fitzwilliam está cuidando de nós.
— Nós?
— Anne teve uma menina — Georgiana explicou.
Os olhos verdes de Catherine inspecionaram os cabelos e o rosto de Jane, detendo-se no vestido. Ela a tocou no braço e encontrou o bracelete de esmeraldas.
— Que linda jóia — comentou, olhando para Charles com ar interessado.
— Obrigada. — Jane interrompeu o contato tomada por uma náusea súbita e violenta.
— De onde é? — Catherine perguntou, as sobrancelhas unidas numa expressão intrigada.
Jane sentiu o rosto queimar. Tentara desfazer-se do sotaque do interior, mas sabia que revelava sua origem sempre que falava com menos cuidado.
— Steventon — respondeu.
— Ah, adoro Steventon. Lá estão sempre as pessoas mais interessantes.
— Bem, obrigada por terem ido assistir ao espetáculo. — Patrice acenou e o grupo afastou-se.
Jane não levantou a cabeça até ter certeza de que todos haviam partido, e então encontrou o olhar duro de Charles.
— O bracelete foi presente de Fitzwilliam? — perguntou em voz baixa.
— Não. A jóia era de minha mãe.
Ele levantou as sobrancelhas numa resposta surpresa, e Jane sentiu vontade de morder a língua. Não devia ter dito isso.
— Um presente bastante extravagante para um homem que trabalhava em um moinho oferecer à esposa. Uma costureira não poderia ter comprado jóia tão cara.
— Trata-se de uma... herança de família. A pulseira é passada de geração em geração há décadas.
— Ah...
— Onde acha que consegui o bracelete? Pensa que o roubei?
— Não acredito que precise roubar coisa alguma. Com quem estava envolvida antes de conhecer Fitzwilliam é problema seu, certo?
— Não me importo como que pensa — ela devolveu furiosa. — O bracelete era de minha mãe. É a única lembrança que tenho dela, e sinto prazer em usá-lo.
— Fala como se sua mãe estivesse morta — Charles sussurrou.
O olhar penetrante a mantinha presa à cadeira como um inseto numa armadilha. Se Anne tinha mãe, por que não procurá-la? Esse devia ser o pensamento de Charles.
— Quero ir embora — disse com voz sufocada. — Não me sinto bem.
— Mas a comida acabou de chegar.
— Desculpe, mas não estou com fome. Mande-me para casa e Gruver voltará para buscá-los.
— Anne, isso seria rude. Somos convidados dos Coughlin.
Ela se virou para o casal.
— Georgiana, tenho certeza de que compreenderá se eu partir. Não tenho o hábito de passar tanto tempo longe de Helena.
— É claro que entendo, querida. Tenho dois filhos, e ainda me lembro de como são esses primeiros meses. Pode partir sem receios de estar sendo grosseira. Marcaremos outro jantar. Oh, e estarei esperando por você na quinta-feira da semana que vem.
Aliviada, Jane despediu-se, apoiou-se nas muletas e saiu apressada.
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