Não Sou Quem Você Imagina!
11 Capítulo 11
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Charles examinara a caixa contendo os papéis de Fitzwilliam, documentos que a companhia de trens enviara assim que ele fora identificado, e assim descobrira que o casamento ocorrera sete meses antes.
Mas o nascimento de Helena podia ter sido precipitado pelo acidente. Jamais saberia ao certo.
Observou mãe e filha por mais alguns instantes, chegando a uma conclusão. Não saberia se aquele era a filha de Fitzwilliam, a menos que a própria Anne revelasse a verdade. Ela era a única que a conhecia. Seu objetivo era convencê-la a revelá-la.
E usaria todos os meios disponíveis.
*****
Naquela noite, durante o jantar, Charles surpreendeu-se especulando sobre os homens com quem Anne havia se relacionado.
Teria ela apreciado as ligações? Ou havia sido apenas um meio de ganhar dinheiro?
Ela usava outro vestido preto, esse próprio para a noite, embora modesto. Contra vontade, imaginou como seria vê-la em um traje vermelho ou verde. Até mesmo os tons pastéis complementariam a coloração dourada dos cabelos e a pele rosada e impecável.
Os encantos com que Anne atraíra seu irmão eram evidentes. A graça e a beleza exibidas por aquela mulher saltavam aos olhos. Fitzwilliam certamente apreciara a pele macia e lisa, o contorno cheio dos lábios, e sentira-se atraído como teria acontecido com qualquer outro homem. Talvez os caracóis sobre a nuca houvessem capturado sua atenção desde o primeiro instante, levando-o a pensar em tocar a região com os lábios.
Um rubor tingiu seu rosto.
Teria o escrutínio provocado a mudança de cor também na pele sob o vestido?
Uma imagem imprópria do irmão tocando-a, beijando-a, fazendo amor com ela, deixou uma impressão profunda na mente de Charles e inflamou seu corpo.
Chocado com os pensamentos reprováveis, deixou os talheres sobre o prato e pediu licença para retirar-se.
Jane olhou para Mary, que parecia exausta demais para notar o estranho comportamento do filho.
— Devia ir descansar um pouco — disse. — Foi um dia exaustivo para todos nós.
— Tem razão. — Mary autorizou a criada a tirar seu prato. — Felizmente tudo acabou. Não sabe como sou grata por ter podido contar com sua ajuda.
— Foi um prazer — Jane respondeu com honestidade. Fazer o que podia para aliviar a dor daquela mulher amenizava sua consciência.
— Creio que vou para o meu quarto. Pode pedir a sra. Pratt para levar um cálice de vinho, por favor? A bebida vai me ajudar a dormir.
— Certamente. Tenha uma boa noite.
Mary a deixou sozinha na sala de jantar.
— Deseja mais alguma coisa, sra. Bingley? — A criada perguntou.
Jane transmitiu as ordens de Mary e saiu da sala. Nunca fora deixada no andar de baixo antes. Charles costumava levá-la de volta ao quarto logo depois do jantar. Se ele não fosse buscá-la, pediria ajuda a um dos empregados. Não estava preocupada. Quando Helena quisesse mamar, a sra. Gardiner iria procurá-la.
Aproveitou os momentos de solidão para conhecer a área social da casa dos Bingley, admirando a decoração elegante e a mobília discreta. Madeira, bronze e um mínimo de vidro compunham um panorama de influência masculina. Eventualmente, encontrou uma porta fechada e inclinou-se na cadeira de rodas para bater.
— Entre.
Jane conseguiu passar pela soleira e penetrar na sala ampla e arejada. Um fogo acolhedor ardia na lareira, seu brilho acentuando a luminosidade proporcionada por uma única lamparina.
Sentado numa poltrona ao lado da lareira, Charles virou a cabeça ao ouvir o ranger das rodas.
— Anne?
— Desculpe a interrupção.
Ele apontou para uma garrafa a seus pés.
— Conhaque?
— Não, obrigada.
— Não bebe?
— Tudo que como ou bebo afeta Helena.
— Parece que nós dois temos responsabilidades com essa criança.
— Sente-se sobrecarregado?
— De maneira nenhuma. Os cuidados com Helena estão acima de tudo.
Ela o estudou com curiosidade.
— Afinal, ela é a herdeira dos Bingley.
Tomada de assalto por uma nova onda de culpa, virou-se para estudar o ambiente com falso interesse. Prateleiras cobriam uma parede, pinturas adornavam outra. Uma mesa enormeocupava um canto, a superfície polida coberta por papéis e pastas. Por quanto tempo teria de continuar com a arriscada encenação? Havia um retrato sobre a lareira.
— Seu pai? — perguntou, mudando de assunto. Charles assentiu.
Jane notou as similaridades entre o cavalheiro de expressão austera e seus filhos.
— Fitzwilliam tem o sorriso de sua mãe — observou. O homem no quadro parecia sombrio como Charles.
Sentindo o olhar fixo em seu rosto, virou-se para encará-lo.
— Queria alguma coisa?
— Na verdade, sim.
Ele esperou. O rosto raramente revelava alguma emoção, e Jane especulou sobre o homem por trás da máscara de estoicismo.
— Queria dizer que sinto muito por sua perda — começou. — Sei que amava Fitzwilliam. Tudo isso deve ser muito difícil para você, e mesmo assim conseguiu amparar sua mãe de maneira maravilhosa. Lidou com a morte de Fitzwilliam desde que ela aconteceu, tomando providências, indo me buscar, fazendo tudo que tinha de ser feito.
Jane ajeitou a saia sobre as pernas, pensando em tudo que ele fizera para tornar a situação menos dolorosa para ela e Mary. Se fosse realmente Anne Bingley, Charles teria sido uma bênção ainda maior do que estava provando ser para Jane Bennet.
— Acho que quero dizer... obrigada. Se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-lo, não hesite em pedir.
Um músculo contraiu-se em seu rosto. Ele parecia incomodado com o assunto. Ou talvez fosse apenas sua presença. Era possível que desaprovasse sua ousadia. Afinal, embora reconhecesse a obrigação de ampará-la, deixara claro que apenas a tolerava em sua casa.
Havia sido uma má ideia ir procurá-lo no escritório.
Jane olhou para o fogo.
Charles a observava com medidas idênticas de rancor, frustração e desejo, uma mistura mais inebriante que o conhaque que ingeria. As coisas que ela dissera despertaram emoções com as quais não sabia lidar.
— Não preciso de sua piedade — disse.
Ela o fitou com aqueles grandes olhos azuis.
— Não estou oferecendo piedade.
— Cuidado com suas ofertas. Não sou tolo como meu irmão.
Os olhos tornaram-se maiores, cheios de espanto. No instante seguinte sua expressão endureceu e ela desviou o rosto. Moveu as mãos sobre as rodas da cadeira, mas ele a impediu de sair estendendo um pé na frente do aparato.
— Precisa de ajuda para subir a escada.
— Encontrarei alguém.
Era isso que havia temido. Ficara furioso com ele mesmo durante o jantar, e na ânsia de bani-la da mente, esquecera seus deveres. Mas não permitiria que outras pessoas a assistissem. Embora o único homem na casa além dele fosse Gruver, um empregado leal e feliz com a esposa, Anne era uma tentação, e não exporia as pessoas que apreciava ao seu poder de atração.
Bebeu o restante do conhaque e deixou o copo sobre a mesa, levantando-se para tirá-la de seus domínios. Ao pé da escada parou, pegou-a nos braços e começou a subir.
Um braço buscou apoio em seu pescoço, e os seios roçaram seu peito. Os cabelos macios tocavam sua orelha e na face. Resistiu ao impulso insano de virar-se e enterrar o rosto nos cachos brilhantes. Odiava-se por ter reações tão intensas à esposa de seu irmão. Estar tão envolvido pelo charme que sabia ser estudado o fazia sentir-se um garoto tolo e ingênuo.
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