Não Feche Os Olhos
20 Pânico
Notas iniciais
Bom, essa capítulo mostra que a Manu está realmente pirando e que logo vai precisar de André para reverter toda a situação.
Estávamos a caminho do hospital. Sentei na traseira da moto e vi uma oportunidade extra para me agarrar ao corpo dele. Cada centímetro do corpo dele me fazia suspirar.
Ao chegar ao hospital, caminhamos juntos até a recepção onde vi novamente aquela grande recepcionista me olhar feio.
- Se não me engano é a senhorita Rodrigues. – Ela havia me reconhecido.
- Ela mesma. – Fui meio sem educação. – Vou visitar minha irmã, onde tenho que assinar? –
- Você e o garotão assinam aqui. – Ela apontou com a cabeça para o André. Deslizou um caderno para a nossa frente e atirou uma caneta no balcão. Assim que ela se virou para pegar algo, fiz cara feia e André riu silenciosamente. Ambos escrevemos nosso nome no caderno e seguimos pelas escadas atrás do quarto de minha irmã.
- Parece que você já arrumou encrenca nesse hospital. – André balbuciou. Dei de ombros.
*
André e eu entramos no quarto da minha irmã. Ela estava ainda mais pálida do que no dia anterior. Forçou os olhos e abriu um sorriso ao me ver.
- Hey Mana! – Tentei aparentar feliz perto dela. Mas confesso que ao ver ela naquele estado meu coração doeu.
- Você não está com aquele moletom horrível hoje! – Foi o que ela disse. Olhei minhas roupas. Estava vestindo um vestido de pano bem leve, com estampas de flores. Não tinha nada a ver comigo, mas era a única peça de roupa feminina que André tinha em casa. Era da irmã dele.
– É verdade, estou mais... Digamos assim... Apresentável. – Sorri — Como você está? –
- Melhor agora que você chegou! – Ele encarou o André e arregalou os olhos para mim. Captei a mensagem.
- Ah sim. Maria esse é meu amigo André, André essa é minha pequena Maria. – Apresentei-os.
- Prazer André. Você é muito bonito sabia? – Maria piscou pra mim e quase tive um ataque do coração. Aquela descarada já tinha sacado que ele não era apenas um ‘amigo’. –
- Prazer, pequena Maria! – André se aproximou dela e bagunçou seus cabelos. – E você é muito bonita também, puxou a sua irmã. – Corei e olhei apreensiva para Maria que me encarou com deboche.
- Bom, — Tossi e desviei a atenção do elogio que André havia dito. – André que tal ir comprar um chocolate para Maria? – Virei-me pra ele o condenando com o olhar. Ele desdenhou um sorriso idiota. – Chocolate branco, por favor! E depois eu te pago. –
- Pode ficar tranquila boba, já volto. – E ele saiu do quarto.
- Manu? – Virei a cabeça lentamente para minha irmã. – Quer me explicar direitinho quem é esse? -
- Não tem nada para explicar... É só um amigo. – Fingi desinteresse.
- Ele te olhava apaixonadamente e você retribuía. –
- Nós não temos nada além de amizade. –
- Trouxe dois bombons para duas princesas. – Pressionei os olhos quando ouvi André dizer na porta. Sussurrei para Maria que explicaria depois toda a nossa situação. Ela era muito esperta para a idade.
- Onde achou bombom tão rápido? – Perguntei ainda corada por ele ter me chamado de princesa, de novo.
- Uma mulher aqui dentro está vendendo aqueles bombons caseiros. – Ele se aproximou de Maria. – Chocolate branco com recheio de leite condensado e o seu – Se virou para mim – Chocolate com recheio de maracujá. – Ele tinha acertado meu sabor preferido. Agradeci e logo estava comendo o bombom.
- Mamãe passou por aqui hoje? – Indaguei.
- Não, ela me ligou dizendo que estava resolvendo algumas coisas e disse que passaria aqui à noite. – Ela levou a mão na cabeça e apertou o semblante.
- O que foi? – Me preocupei.
- Estou com uma terrível dor de cabeça. É um dos sintomas sabe? –
- Sei sim Maria... – Relaxei os ombros. E um nó apareceu em minha garganta. – Os resultados saem amanhã, vai dar tudo certo. Prometo tá? – Tentei transparecer confiança. Ela simplesmente sorriu.
*
Lágrimas rolavam minha face enquanto eu pressionava meu corpo contra o de André. Médicos e enfermeiros iam e vinham do quarto de Maria, com rostos desesperadores me deixando ainda pior do que estava. Eu escutava de longe os confortos do André, mas minha cabeça estava focada na imagem anterior. De cinco minutos atrás.
_ Havia saído por dois minutos do quarto para conversar com André algo sobre meus exames. E quando voltamos choquei ao ver Maria se debatendo sobre a cama, com os olhos revirados e saindo um liquido estranho da boca. Gritei desesperada. André correu atrás de alguma enfermeira ou alguém que pudesse ajudar. Eu não conseguia se aproximar da minha irmã, apenas chorava ao ver ela naquela situação. Um médico chegou no quarto e minha pernas falharam quando ele gritou a palavra convulsão. _
Imaginei minha pequena me deixando ali. André me sufocava com o abraço apertado e eu simplesmente deixei. Talvez se ele não estivesse me segurando, eu teria caído no chão e ficado por lá mesmo. Vi minha mãe correndo pelo corredor em direção ao quarto.
- O que você fez com ela? – Ela foi capaz de me perguntar, ainda correndo até o quarto. Solucei e permaneci quieta. Minha mãe atravessou a porta, me deixando sozinha com André. Fechei os olhos e as lágrimas ainda rolavam pela minha face.
Poucos minutos depois, um médico apareceu.
- Ela vai ficar bem por enquanto, o estado dela é estável agora. Ela teve uma convulsão, o que é um dos sintomas da leucemia. Vamos fazer outra série de exames nesse momento, então vou pedir para vocês dois darem uma volta ou aguardarem na recepção. É o melhor para todos nesse momento. – O médico transpareceu serenidade. Ele assentiu para André, meio que pedindo licença.
- Moça, vamos dar uma volta? Você precisa se acalmar. – Eu não respondi nada. Ele apenas pegou uma das minhas mãos e foi caminhando para fora do hospital. Não vi minha mãe durante todo o trajeto, talvez ela pudesse estar com a minha irmã durante os exames, o que me confortava um pouco. Quando já estávamos na rua, de mãos dadas (O que teria sido romântico se não estivéssemos naquelas circunstâncias), André tentava me aliviar o máximo que conseguia.
- Confia em mim, vai dar tudo certo ok? Sua irmã é forte, um amor de garota. Nada de mal pode acontecer com ela. –
- Você tem razão! – Sorri fracamente para ele enquanto nossos passos ficavam lentos cada vez mais. – Minha pequena Maria é uma garota teimosa, não vai se deixar derrubar por causa disso. – E foi a vez dele sorrir. Ficamos em silêncio por mais alguns minutos.
*
Eram umas seis da tarde. Estávamos sentados em uma lanchonete na esquina da quadra do hospital. O médico já havia me ligado umas duas vezes e confirmado que o estado de saúde de minha irmã estava melhorando.
- Acho melhor te levar pra casa agora não é? Foi um longo dia... – André disse por fim. Ele comprimiu os lábios quando analisou meu rosto. Meus olhos provavelmente estariam inchados e eu consequentemente deveria estar bem pálida. – Você não parece nada bem. –
- Eu vou ficar ok? Não se preocupe. – Suspirei. – Vamos pra casa mesmo. –
Ele pagou o que tínhamos pedido na tal lanchonete e fomos em direção a moto. Agarrei meu corpo ao dele e fechei os olhos enquanto o vento batia no meu corpo durante todo o percurso.
Poucos minutos depois, já estávamos na porta de casa. Ambos descemos da moto e ficamos parados na porta de casa.
- Você vai ficar bem aí sozinha? – Ele perguntou. Resmunguei internamente.
- Vou tentar. –
- Olha... Se você quiser, pode ir dormir lá em casa de novo. Talvez não seja muito bom você ficar sozinha ai. – Gaguejou ele.
- Não, obrigada! – Sorri. – Eu vou ficar aqui hoje mesmo. – Por mais que eu não queria ficar sozinha, fiquei com medo de incomodá-lo novamente. Ele já tinha feito mais que o suficiente permanecendo o dia inteiro ali comigo e a última coisa que eu queria, era atrapalhar a vida dele com a minha. – Obrigada também por ter ficado comigo o dia inteiro, me ajudou bastante hoje! – Ele se aproximou e me abraçou.
- Eu sempre vou estar aqui pra você moça, sempre! – Sussurrou em meu ouvido. Senti borboletas rodopiarem pelo meu estômago. Ele beijou minha testa e se afastou. Quando começou a colocar o capacete e subir na moto, olhou para mim. – Se precisar me liga ok? Gravei meu número no seu celular. – Ele piscou. Assenti com um sorriso.
Quando ele se foi, adentrei em casa. Contemplei a minha completa solidão. Meu pai havia se juntado a minha mãe e minha irmã no hospital, então estava sozinha como sempre. Tomei um banho frio, coloquei um pijama e deitei na cama. Antes que eu pudesse sentir, já estava dormindo.
Tossi diversas vezes e quando olhei o chão, vi que sangue saia da minha boca. Continuei correndo sem direção em um campo aberto e eu não sabia do quê exatamente estava correndo. O gosto de sangue na minha boca não me incomodava mais. De repente, senti cócegas nos pés e ri. Eu estava perfurando meus pés em vários pregos e eu sentia cócegas. Era gostoso sentir aquela dor. Mais sangue. Perguntei-me durante uns segundos se era possível uma pessoa ter tanto sangue assim. Abaixei meu corpo e peguei um prego. Olhei para ele e tive uma idéia. Perfurei meu pulso com um deles e fechei os olhos. Sorri friamente ao me sentir liberta de tudo.
Acordei com meu celular vibrando debaixo do travesseiro. Mordi o canto da boca ao ver quem era que estava me ligando.
- Alô? –
- Me encontre na esquina, daqui vinte minutos. –
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