Não Feche Os Olhos
24 Fases
Notas iniciais
Em dois capítulos, o foco da história vai mudar de cabeça para baixo e focar em duas coisas: André/Manu e nos sms :D Logo vocês descobriram quem é que anda mandando mensagens às escondidas.
Quando alguém dá a você uma notícia muito ruim, você passa por três fases. A primeira delas é a ‘não aceitação’, onde você fala tudo o que pode para não aceitar o que acabou de ocorrer, usa todas as desculpas e brechas que existem para reinventar um final diferente para tal fato. O que não seria diferente comigo.
Aquelas palavras fizeram meu mundo desabar.
– O quê? – uma dor se instalou no meu peito. – Minha irmã estava no andar de cima, eu me lembro disso. – Ele me olhava apreensivo, notando minha frustação.
– Depois da cirurgia, mandaram ela para um quarto ao seu lado... – ele pausou a voz delicadamente. – Manu, eu sinto muito! – ele se aproximou e eu fiz um sinal com a mão para ele não se mover.
– Não... Ela estava bem mais cedo. Minha mãe foi lá, a viu e perguntou. Os médicos disseram que ela estava bem! – gritei. – Você está errado! – ele apenas balançou a cabeça percebendo que eu estava a ponto de pirar. – Diga que está errado! DIGA!
– Moça... – André encarou o chão e apertou as mãos nervosamente.
– André, eu fiz a cirurgia! Eu doei a medula pra ela e agora vai ficar tudo bem! Ela está bem! – minhas palavras saíram emaranhadas ao choro que estava prestes a surgir. Minha garganta deu um nó apertado e ouvi meu coração falhar algumas batidas. – Ela vai ficar bem, não vai? – uma lágrima escorreu pela minha face e eu rapidamente a sequei.
– Manu, — ele deu uma longa pausa e levantou os olhos para me fitar. Talvez os olhos dele estivessem tão vermelhos quanto os meus. – Eles erraram. – ele engoliu seco – Os médicos erraram nos exames. Você não era compatível com a Maria e mesmo assim eles fizeram a cirurgia. Eles trocaram seu exame com os de outra paciente... Maria estava sofrendo a rejeição da doação e não aguentou. Ela já estava fraca demais para aguentar tudo aquilo. – ele se aproximou de mim. Deitou na cama e pôs minha cabeça em seu peito. Eu fitei o vazio estaticamente tentando compreender aquelas palavras. – Você fez tudo o que podia. A culpa não foi sua. – senti a vibração de sua voz em minha cabeça.
A segunda fase é a da ‘Culpa e Arrependimento’. Você relembra tudo o que ocorreu na sua vida e que tem relação com a notícia, tende a se culpar pelo fim patético daquilo, suas emoções perturbadas e descontroladas fazem você se tornar uma pessoa diferente a cada minuto. Suas atitudes geram em torno de raiva, riso doentio, dor, choro e desesperança. A vontade de entregar os pontos e desistir assumem o seu corpo.
– A culpa é minha sim! Eu era a única esperança dela e nisso eu falhei. – meus olhos arderam e sorri o gosto salgado da decepção. – Eu prometi a ela que tudo ficaria bem, para não ter medo... E não pude cumprir essa promessa.
– Moça, nada disso é culpa sua. Não tinha como prever que eles iriam trocar o teste.
– Mesmo se eles não estivessem errado, eu ainda não seria compatível. Ela poderia morrer do mesmo jeito e ainda sim a culpa seria minha. – respirei fundo. – Sabe? Eu acho que nem pude dizer que a amava. Não me lembro de ter dito isso alguma vez na vida dela. E Deus sabe como eu amei aquela pequena! – lágrimas turvaram minha visão. Aconcheguei-me ao corpo de André que me apertava forte abafando meu choro.
– Ela sabia o quanto você a amava e ela te amava muito, eu tenho certeza!
– E quando minha mãe entrar por aquela porta dizendo que já soube da noticia? O quanto ela vai sofrer por ter perdido a filha caçula? – minhas palavras ricocheteavam no peito de André fazendo as sair meio incoerentes.
Não esperava uma resposta para aquelas perguntas. Ambos sabíamos o quão terrível seria quando meus pais descobrirem que perderam uma filha que tinha tanto pra viver.
Uns quinze minutos de silêncio depois, minhas lágrimas cessaram. Olhava evasivamente para o chão, me sentindo morta por dentro.
– Quero ir vê-la. – soltei.
– Não acho que seja uma boa idéia.
– Eu preciso vê-la. Por favor? – André não lutou mais contra meu pedido. Ele se levantou da cama, tirou a sonda que ligava até a minha veia e me pôs em seus braços. Ele me carregou no colo até o quarto de Maria, porque eu não iria conseguir andar por culpa da dor. Falando na dor, estava lá, a ardência que todos os doadores já haviam reclamado. Mas a angústia em meu peito era tão maior que apenas não liguei para aquela dor física.
Ele parou de andar na porta do quarto, onde vi Maria. Os olhinhos fechados, a palidez da pele, os aparelhos desligados. E novamente a aflição me incendiou.
– Ei, você não pode sair da cama assim mocinha! — uma enfermeira berrou a uns três metros de nós.
– Eu precisava ver minha irmã! – eu disse, em tom baixo sem tirar os olhos da minha pequena. Aquilo pareceu chocar a enfermeira, pois em seguida ela apenas se distanciou de nós e deu meia volta.
– Tem certeza que quer entrar? – André sussurrou.
– Sim, eu tenho. – ele nos aproximou do corpo de Maria. Ela parecia tão menor naquele quarto escuro.
– Ela vai ficar aqui até seus pais chegarem e pedirem para retirarem o corpo dela. –
Tudo o que consegui fazer foi assentir.
– Me coloca na cama com ela? – ele me depositou na cama, ao lado da minha irmã e se afastou um pouco de nós. Observei o rosto de Maria, que agora era iluminado apenas pela luz da lua que atravessava a única janela do quarto. Aquilo era tão triste que não pude deixar de lacrimejar. Levantei seu corpo magro e a deitei em meu colo. Ela estava tão fria que me assustei um pouco com o toque da pele dela com a minha. O tom rosado de suas bochechas havia sumido completamente agora, e tudo o que ela parecia era uma boneca. Uma linda menina por fora, mas completamente sem vida por dentro. Abracei seu corpo inerte e olhei para André. – Queria poder te agradecer por ter ficado comigo hoje, no dia em que mais precisei. Mas, me desculpe pedir isso, você tem que ir pra casa. Eu preciso ficar sozinha com ela até meus pais chegarem... Tudo bem? – Ele comprimiu os lábios e assentiu. Aproximou-se de mim, deu um beijo em minha testa e outro na testa de Maria.
– Adeus, pequena Maria! – Ele se despediu e saiu da sala, deixando nós duas a sós.
Naquela noite, quando meus pais chegaram, não houve nenhuma palavra dita; apenas lágrimas e dor.
*
Durante os cinco dias que seguiram à morte de Maria, eu e meus pais não havíamos trocado nenhuma palavra. No meu coração, eu sentia que eles me culpavam e eu acreditava que fosse mesmo a minha culpa.
Do banco de trás do carro eu observava as árvores correndo na direção contrária à janela. Observei meus pais no banco da frente. Meu pai segurava uma mão o volante e a outra acariciava a mão de minha mãe. Ela, que passou todos esses dias de luto apenas suspirando pelos cantos e soltando lágrimas quentes pelo travesseiro, olhava o vazio, algo além da paisagem que a janela refletia.
O céu nublado e os respingos de uma possível chuva me faziam lembrar como antes eu estava certa: Quando algo ruim acontece, o dia acaba espelhando na sua dor e a natureza se transformando em algo ainda mais depressivo de se ver. Talvez não tivesse muito sentido, mas tudo ainda estava muito confuso em meus pensamentos. A morte repentina da minha irmã tinha de certa forma, me deixado com a cabeça ruim. Cada vez mais com medo e amedrontada com tudo e com todos.
André tinha ido me ver no hospital durante os dias em que ainda tive que permanecer lá. Não nos falamos muito, apenas ficávamos encarando um ao outro ou abraçados na cama, mas aquilo pra mim era um ótimo consolo e conforto. Era o que eu realmente precisava naquela situação.
A janela do carro embaçava com a minha respiração tão próxima. E me recordei de dias atrás, no qual a mesma situação aconteceu e eu rabisquei algo no vidro.
‘Fé’
Fé era o que eu havia escrito. E era a única coisa que eu não tinha naquele momento.
Senti o carro parando em frente a um enorme campo aberto.
Abri a porta logo depois que meus pais fizeram o mesmo e desci. Assim que coloquei os pés no chão, uma dor chata se instalou nas minhas pernas e eu me desequilibrei. Apoiei uma das mãos no carro e consegui me equilibrar de volta. Lembrei que a enfermeira tinha dito que às vezes isso poderia acontecer dentro da semana da cirurgia e bufei.
Levantei os olhos e algumas gotas da chuva umedeceram meu rosto. Vi algumas pessoas se misturando no horizonte, mais ou menos no meio do campo, embaixo de uma grande tenda. Comecei a caminhar até eles, com meus pais alguns passos mais a frente de mim.
Logo que fui me aproximando, consegui reconhecer alguns rostos. Eram a maioria dos meus parentes, amigos dos meus pais, conhecidos da Maria e André. Ele tinha dito que me faria companhia durante a cerimônia e achei que seria bom me sentir mais forte naquele momento.
A maioria daquelas pessoas chorava, orava ou até ambos em volta de um pequeno caixão que estava no centro da tenda. Meu coração se apertou ao reconhecer minha irmã dentro dele.
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