Não Feche Os Olhos
5 Culpa
Notas iniciais
Tentei me concentrar novamente nos meus estudos até sentir meu celular vibrar no bolso. Havia terminado mais um dia e me parabenizei por tê-lo suportado tão bem. Ajeitei meus materiais e caminhei em direção à saída. Abri a porta.
- Tchau moça! – Não girei meu corpo para não encará-lo. Apenas abri a boca e deixei as palavras surgirem gentilmente.
- Tchau André!
Fui embora. Cheguei em casa, comi qualquer coisa que achei na geladeira e tomei um banho. Observei a data no celular. ‘Ainda é quarta-feira’. Cerrei os olhos me livrando de todo pensamento ruim tentando evitar pesadelos. Por um segundo achei que estava tudo bem, mas estava enganada.
Eu estava em algum lugar que parecia o sótão. Tudo extremamente escuro a não ser pela luz do luar que a janela deixava escapar. Era assustador. Tentei me mover, mas percebi que meus braços estavam acorrentados. Tentei gritar pedindo ajuda, mas uma fita adesiva bloqueava minhas palavras. Olhei para minhas pernas e notei que aquele lugar estava inundando. A água pairava em meus joelhos e continuava subindo. Eu teria no máximo o que? Dois minutos? Um minuto? Talvez menos.
Antes que eu pudesse perceber, a água perpassava meu pescoço. E segundo depois, eu comecei a me afogar. Minhas lágrimas se misturaram com a inundação. Debati o corpo em desespero sem conseguir resultados. Trêmula de frio e medo, apenas desejei que aquilo acabasse de uma vez.
*
O restante daquela semana e da semana seguinte havia sido uma perfeita rotina. Foram dias iguais ao de quarta-feira. Dias iguais a todos os outros e eu estava já habituada àquilo. Vi André algumas vezes depois e trocamos apenas cumprimentos tímidos. Somente por educação, ou talvez ele sentisse pena. Tentei não me sensibilizar com isso, afinal também já estava acostumada.
Continuei focada nos estudos e descobri que a sala do armário era um ótimo lugar para me concentrar também. Durante os dias que a biblioteca ficava fechada eu ia para lá.
Tive mais pesadelos durantes todos os dias. Contabilizei doze pesadelos em três semanas. Mas também não me deixei abalar por eles. Ficava assustada claro, mas tentava me distrair sempre que podia.
*
Sexta-feira da semana seguinte. Acordei no mesmo horário de sempre, me vesti novamente com legging e um short por cima, semelhante a vários outros que eu possuía. Vesti uma camiseta de uma banda que eu gostava por cima do uniforme. Eu achava isso nerd demais, só que não me importei. Coloquei outra bota que eu tinha cujo cano não passava mais do que três dedos do tornozelo. Deixei meu cabelo solto torcendo para acalmar o volume e para mim estava tudo no seu devido lugar.
Entrei no carro com minha mãe e alguma coisa me disse para tentar puxar assunto com ela. Observei sua aparência, alguns segundos antes de abrir a boca para falar algo. Seu rosto parecia cansado. Seus olhos expressavam dor. Seus longos cabelos loiros estavam sem brilho. Ela parecia mais magra e mais pálida que o normal. Respirava lentamente, como se doesse a cada inspiração. Senti culpa de novo. Parecia que era eu que causava isso nela de certa forma.
- Mãe, a senhora está bem? – Soltei pesadamente o ar dos pulmões.
- Estou! – Respondeu ela sem nenhuma empolgação.
- Tem certeza? A senhora não parece bem... – Insisti. Talvez eu estivesse tentando recuperar a intimidade que tínhamos alguns anos antes.
- O que deu em você para se importar comigo agora hein? Você acha que eu já superei tudo aquilo que você fez? E ainda me culparam por uma atitude idiota sua! – Eu sabia sobre o que ela estava se referindo. Senti meus olhos lacrimejarem e contive um choro. – ‘Samantha controle sua filha, ela vai acabar fazendo coisa pior. Samantha sua filha vai virar uma assassina, porque você não a educou direito? Samantha, onde você estava que não ensinou essa menina os bons modos?’ – Ela dizia tudo àquilo de forma diferente, como se imitasse vozes de outras pessoas. Repetia seu nome, várias e várias vezes.
Mantive-me calada durante o tempo em que ela gritava. O choro na garganta me sufocava cada vez mais. Eu não era culpada de nada do que achavam que eu fosse, mas jamais conseguiria contar a verdade.
- Nada justifica sua atitude. – Deixei escapar uma lágrima. Abri a porta e fechei violentamente. Não queria demonstrar fraqueza ali. Eu estava com raiva.
Corri até o colégio. Forcei os olhos para não chorar, mas algumas lágrimas conseguiram escorrer pelo meu rosto. Senti esbarrando em alguém.
- Hey! – Era um garoto qualquer da minha sala. Chamava-se Bruno ou Breno. Nunca me importei em decorar os nomes dos meus colegas de classe. Ele observou meus olhos provavelmente vermelhos por culpa do choro contido e abriu meio sorriso como se admirasse o fato de eu estar daquela forma. – Olha só, quem diria. Seres estranhos também têm sentimentos. – Usei todo o restante de força que tinha e o empurrei. Corri para o banheiro ainda a tempo de escutar um xingamento a meu respeito.
Tranquei-me em um dos boxes, abaixei a tampa de um dos vasos sanitários e me sentei. Tentei me acalmar e não consegui. Enterrei o rosto em minhas mãos e me desfiz em lágrimas. Escutei o sinal soando e não me importei. Decidi não assistir aula, não daquela forma tão temperamental quanto estava.
Permaneci ali durante algumas horas tentando me acalmar. Mas parecia que eu não me cansava de chorar. Confessei a mim mesma que meus surtos desesperadores estavam se tornando tão frequentes quanto meus pesadelos.
*
Ouvi barulhos vindos em direção ao banheiro e presumi que já era hora do recreio. Antes que eu saísse do boxe para lavar o rosto e tentar me recompor escutei vozes de algumas outras garotas da minha sala. Não reconheci o nome de nenhuma e dei graças a Deus por isso. Olhei por uma fresta entre a porta do banheiro e observei cada garota. Eram três. Uma loira e duas morenas. A loira era uma perfeita boneca Barbie. Uma das morenas era visivelmente anoréxica e olhava para o espelho como se julgasse a si mesma. A outra morena (que em minha opinião era até bonita) tinha os cabelos muito cacheados e bem negros, contrastando com a brancura de sua pele.
- Sabe o que eu fiquei sabendo? – Grunhiu a loira. Digo grunhiu porque sua voz era incrivelmente irritante.
- O que? – Perguntou a morena dos cabelos cacheados. Estava visivelmente curiosa enquanto a outra morena se preocupava em esconder as gorduras imaginárias.
- A esquisita estava chorando. Eu a vi conversando com Daniel – E eu achava que o nome dele era Bruno ou Breno (passei longe). – Ela pediu pra ficar com ele e ele deu um fora nela. E ela começou a chorar. Lógico que ele não ia ficar com ela, ninguém é maluco o suficiente para isso. – Abri a boca incrédula com a mentira que a Barbie havia contado.
- Sério? Foi o próprio Daniel que contou isso? – Os cachos se balançavam cada vez que a morena perguntava.
- Uhum! – Assim que a loira confirmou, abri a porta com violência e encarei as três com a cara mais dura que pude fazer. Eu não precisei dizer nenhuma palavra, a forma como eu as olhei era como se eu tivesse dado um soco no estômago de cada uma. Elas se espantaram com a minha presença e engoliram seco. Silêncio. Caminhei lentamente até a saída do banheiro, tentando mostrar superioridade. Assim que ultrapassei a abertura que dava para o pátio, desprendi o ar dos pulmões que saíram rasgando dentro de mim. Eu estava ainda com mais raiva. Pensei em ir para minha sala dos armários.
Procurei andar olhando para o piso, evitando que outras pessoas notassem meus olhos. Ao parar em frente à sala, girei a maçaneta e descobri que a porta estava trancada. Eu queria um lugar para me esconder e ali não seria possível. Não voltaria ao banheiro, não depois do que ouvi.
Quando dei por mim, já estava subindo as escadas em direção à biblioteca.
Adentrei a biblioteca cabisbaixa. Meus olhos estavam fechados e mesmo assim conseguir chegar até o meu corredor. Encostei as costas na parede e deixei meu corpo deslizar até cair no chão. Dobrei os joelhos e me abracei. Apoiei minha testa em minhas pernas e comecei a chorar novamente. Um choro abafado e doloroso. Silencioso talvez. Escutei passos em minha direção, mas não me preocupei em saber quem era. De repente, ali me pareceu extremamente vazio e solitário. O silêncio imperava ao meu redor. Senti um hálito quente próximo ao meu rosto e os pelos dos meus braços eriçaram.
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