Notas iniciais
Minhas queridas leitoras *-* Estou imensamente feliz com o resultado dessa fic. Tantos comentários e recomendações em poucas semanas. Espero não decepcioná-las nesse capítulo. Prometi o beijo e aqui está ele. Só que devo dizer que esse realmente não é "um primeiro beijo" e eu vou provar isso pra vocês hahaha! Esperem que muitas surpresas ainda virão (:

Já haviam se passado dois meses que eu tinha conhecido André. Víamo-nos quase todos os dias e sempre conversávamos bastante. Estávamos nos tornando bem íntimos, aliás, eu já teria coragem de chamá-lo de ‘melhor amigo’ (embora não fosse bem o título que queria dar para ele).

Durante esse intervalo de tempo, as coisas na minha vida não mudaram tanto. O pavor de encarar a minha mãe tinha sumido, mas mesmo assim continuava evitando-a como sempre evitei. Meu pai havia desaparecido, nunca mais tinha falado comigo. Trocávamos poucas palavras e eram apenas perguntas tediosas entre pais e filhos. Daniel me ligou mais vezes e nunca fiz questão de atender. Enquanto eu não descobrisse seu plano, decidi impedir de encontrá-lo. Em algumas noites continuei recebendo mensagens do número bloqueado. Todas se referiam à como eu fazia falta ou que estava pensando em mim e aquilo começou a me assustar. Meus pesadelos continuavam tão frequentes quanto antes, mas de certa forma eu me sentia muito mais segura para enfrentá-los.

Tecnicamente eu estava feliz.

Era uma quinta feira qualquer no final do mês de maio. Eu já estava dentro do carro indo para a escola e meus pés balançavam nervosamente sem motivo. Aquela sensação de frio na barriga passou a ser repetida nos últimos dias, eu parecia ansiosa demais toda vez ao chegar ao colégio e mais ainda quando acabavam as aulas onde eu corria para a biblioteca. Sensação que nunca senti antes.

Desci do carro e me despedi de minha mãe. Ela parecia cada vez mais velha e cansada. Tentei não me importar com isso, como André já havia dito, a culpa não era minha.

Ao andar em direção à escola, me analisei. Estava toda empacotada por culpa do frio. Um casaco por cima de uma blusa que estava por cima do uniforme. Uma calça legging sob uma calça jeans surrada. Minha bota preferida. E ainda complementei minha coleção de inverno com um cachecol, luvas e um gorro. Era o dia mais frio do ano e eu parecia uma árvore de natal. Ao me verem talvez passassem mesmo a se perguntar se era dia 25 de dezembro. Eu estava aquecida e então não ligaria para os comentários.

Dormi durante todas as aulas, mas graças ao meu dom de se esconder das pessoas (quando eu conseguia mesmo essa façanha), nenhum dos professores notou. Dormi tanto que nem vi o recreio passar e logicamente ninguém se importou de me acordar.

O sino soou, comprei dois bolinhos de coco na cantina e eu fui cambaleando para a biblioteca. Não fazia ideia de onde havia surgido tanto sono.

A porta da biblioteca estava entreaberta.

- Bom dia moça! – André pulou no meu lado. Levei a mão desocupada ao coração pelo susto.

- Você gosta de me assustar né? –

- Desculpe, mas são engraçados seus sustos... Hey – Ele tomou um dos bolinhos de coco da minha mão e mordeu um pedaço – Isso é pra mim? – Perguntou de boca cheia.

- Bom agora que você mordeu, é né? –

- Valeu! Tá muito gostoso. Continue assim, traga sempre um docinho pra mim. –

- Você tá ficando folgado com isso, vou é parar de trazer. – Sorri.

- Então já que eu sou folgado, vou fazer isso também. – Ele pegou o outro bolinho que era meu, da minha mão e deu uma mordida. Abri a boca pelo ato inusitado dele.

- Não acredito! Devolve meu bolinho, eu vou comer ele sabia? – Tentei roubar o bolinho de volta, sem sucesso.

- Quer mesmo um bolinho babado? -

- Eu estou com fome, é claro que quero! –

- Então, abre a boca. – Eu obedeci submissamente. Não sei por que havia feito aquilo. Ele deu dois passos para trás e jogou o bolinho em direção a minha boca e por incrível que pareça ele tinha conseguido acertar. Enquanto eu mastigava, ele se aproximou e deu três tapas carinhosamente na minha cabeça. – Muito bem cachorrinho! Merece até o outro bolinho. – Retribui os três tapas no braço dele, só que mais violentamente. – Ai! Era brincadeira moça. E você tá vermelhinha! – Que maravilha, ele estava rindo porque eu estava corada.

- Idiota! – Saí andando para o nosso corredor (sim, ele tinha deixado de ser só meu e tinha transformado em nosso). Nos sentamos um do lado do outro como era costume.

- O que vamos fazer hoje moça? –

- Não sei. Estudar ou conversar, você escolhe. – Entonei a voz na palavra ‘conversar’, eu não estava nem um pouco a fim de estudar.

- Bom, eu adoraria conversar, mas pelo seu bem vamos estudar. – Bufei – Que tal física? – Ele era incrivelmente bom em física e me ensinava tudo o que eu não sabia. Minhas notas estavam subindo graças a ele.

*

Passamos quase que a tarde toda estudando. Ele resmungava algo sobre vetores e eu tentava prestar atenção. Física sempre foi uma matéria chata e complicada pra mim. Eu estava cansada. Gesticulei os braços em sinal de rendição.

- Ok, chega por hoje! Você aprendeu rápido, parabéns! – Ele gostava de me elogiar para eu não me sentir uma completa fracassada. Eu até aceitava seus elogios.

- Obrigada pelo apoio moral. E obrigada mais ainda por ter paciência de me ensinar todas essas continhas chatas. –

- Depois de horas de estudo, você vira pra mim e diz que tudo isso são continhas chatas? Meu Deus, eu retiro meu elogio. Você não aprendeu nada né sua boba? – Ele jogou a cabeça pra trás.

- Claro que aprendi, só estou sendo irônica. Conhece a ironia? –

- Uhum, ela está na minha frente... Em pessoa! – Eu quis arrancar mais um daqueles sorrisos lindos que só ele conseguia dar.

- Há-há-há! -

- Olha ai, até sua risada é irônica. – Ele não conseguia parar de rir. Eu me peguei observando a curva de seus lábios e ruborizei. Uma sensação levemente gostosa me inundou. Mordi o lábio inferior e contemplei o chão. Percorri os olhos pelo assoalho e ele percebeu que o clima havia mudado. – O que houve moça? Ficou chateada por causa da brincadeira? Eu não faço mais, prometo! – Ele disse se aproximando de mim. Tentei acalmar minha respiração e o encarei.

- Posso te fazer uma pergunta estranha? – Perguntei. Eu não sabia se devia perguntar aquilo ou até comentar, mas me senti íntima o suficiente para falar sobre aquilo.

- Claro! O que foi? –

- Como é um primeiro beijo? – Permaneci meus olhos firmemente observando os dele, por mais que eu quisesse enfiar meu rosto debaixo da terra como os avestruzes costumam fazer.

- O quê? – Eu parecia não ter entendido a razão da pergunta.

- Desculpe começar esse assunto do nada... Mas é que, tipo, eu nunca beijei ninguém. Não que tenha sido por falta de oportunidade, mas é porque sempre esperei a pessoa certa. Alguém com quem eu realmente quisesse beijar. E às vezes eu penso que essa pessoa pode nunca chegar ou ela pode até chegar e não querer o mesmo que eu queira. É como se... – Eu nunca tinha revelado esse segredo pra ninguém.

- Você tem medo de gostar de uma pessoa e ela não sentir o mesmo não é? E ai, você acaba enrolando demais e nunca dá o seu primeiro beijo. É isso? – Ele me interrompeu.

- Talvez... –

- Moça, existe um momento certo pra tudo. Se você não se sentiu pronta para ter esse primeiro beijo ou se não achou a pessoa certa, tudo bem. Um dia você vai achar! Você é linda e pode ter o homem que quiser. –

- E se eu achei a pessoa certa e ela não perceber isso? – Analisei cada detalhe de seu rosto. Não sabia por que havia perguntado aquilo. As palavras simplesmente se formaram nos meus lábios. Ele ficou tímido de repente e deu de ombros a minha pergunta.

- Não sei como responder isso. –

- Mas e então, como é um primeiro beijo? – Retomei a pergunta inicial.

- Um primeiro beijo, — Ele respirou fundo e disse se aproximando de mim – com a pessoa que você gosta é mágico. Seus lábios ardem, seu coração dispara, sua respiração fica ofegante. Seu rosto se avermelha e aquece – Ele deslizou com uma das mãos o meu rosto e se aproximou cada vez mais. Um de seus dedos acariciou meu lábio inferior. Cada vez que nossos corpos se aproximavam, ele ia diminuindo o volume de sua voz. – Seus olhos se fecham para aproveitar a sensação de um beijo cálido. – Ele fechou os olhos e continuou falando – Sua mente se esvazia para se focar somente na pessoa com quem está. Quando os corpos se atingem, é possível sentir o quanto a pessoa gosta de você. Os carinhos aumentam juntamente com o sentimento que surge. Um primeiro beijo é único. Um primeiro beijo é doce. – Antes que os lábios dele tocassem os meus, virei o rosto.

- Ãnh desculpe, eu preciso ir. Tenho que chegar mais cedo em casa hoje! – Por mais que eu queria beijá-lo senti medo. Vergonha talvez. Pensei que ao beijá-lo não iria conseguir encará-lo de novo. Senti medo de estragar a nossa amizade e por fim ele nunca mais falar comigo. – Obrigada por ter me ensinado. — Levantei, peguei meus materiais e sai apressadamente dali. – Tchau, até amanhã! – Consegui dizer sem olhar diretamente pra ele.

- Até! – O ouvi dizer.

O que deu em mim? Pensei. Eu sabia que queria ele. Eu sabia que ele era a pessoa certa. Mas não sabia se o medo de perdê-lo após o beijo, seria normal. Era óbvio que ele não era como os outros garotos, que queriam ficar por ficar. Mas não sabia se ele gostava mesmo de mim. Talvez ele quase tivesse me beijado por que tinha criado um clima entre a gente. Eu precisava ter certeza que ele sentia algo por mim, algo parecido com o que passei a sentir por ele. Era um pouco mais além de amizade, isso eu tinha certeza.

*

Tomei um banho frio ao chegar em casa. Meu corpo ainda estava quente após aquele quase beijo. Não senti fome. Apenas deitei a cabeça na cama e repensei como aquela situação afetaria nossa amizade. Decidi que iria falar com ele antes que piorasse as coisas. Eu não queria perde-lo, era a única pessoa que eu tinha do meu lado.

E com esse pensamento, acabei dormindo.

*

Era sexta-feira, eu estava certa de que falaria com ele assim que chegasse ao colégio. Não iria esperar nem a hora do recreio, nem o final da aula. Eu sentia que precisava resolver aquela situação.

Arrumei-me rapidamente, não prestando muita atenção no que eu tinha vestido. Entrei no carro e minha mãe me levou para a escola vagarosamente. Talvez ela tenha sempre dirigido devagar e era eu que estava ansiosa demais para o tempo passar rápido.

Ao chegar à escola, girei a cabeça de um lado para o outro e ninguém me observava. Subi as escadas lentamente ensaiando um discurso que falaria para André. Quando atravessei a porta esbarrei com ele, que me olhou timidamente.

- Moça, antes que você fale alguma coisa – começou ele – eu quero te pedir desculpas. Ontem, na hora que você perguntou sobre primeiro beijo, eu... Eu quase beijei você e me desculpe por isso. Por um segundo, quando você falou sobre ser a pessoa certa, achei que era eu. Achei que sentia o mesmo que eu. Vou te confessar um segredo, na sua idade também esperei a pessoa certa, mas ela nunca de fato realmente chegou. Acabei beijando alguém, mas era de longe o que eu queria. Mas então, você veio. Pra mim você é a pessoa certa agora e achei que achasse o mesmo de mim. Eu me enganei me desculpe por isso. Eu gosto muito de você, apesar de que nos conhecemos há pouco tempo. Não quero perder sua amizade. Não quero perder você! E... – Aquilo havia sido o suficiente pra mim. Entrelacei meus dedos em sua nuca e puxei seu rosto para perto do meu. Quando a minha boca tocou a dele, meus lábios arderam iguais à descrição que ele tinha feito. Meus pensamentos se fixaram nele e naquele momento que eu já havia imaginado tantas vezes. Ele hesitou por alguns milésimos de segundo, talvez houvesse se assustado com a minha atitude. Mas em pouco tempo, senti suas mãos na minha cintura, me apertando contra ele. Nossos corpos se chocaram e se moldaram. Parecíamos que éramos perfeitos um para o outro. E quando dei por mim, senti que realmente gostava dele. Gostava demais dele. Parecia algo inexplicável. Notei que meu corpo se amoleceu e eu estava totalmente entregue ao beijo dele.

Meus pensamentos pararam ao ouvir o sinal tocar. Era inicio de aula e eu nem estava na sala ainda. Por mais que o beijo havia sido apenas um selinho de uns sete ou oito segundos, teve uma intensidade enorme. O sentimento havia sido compartilhado de ambos tornando aqueles segundos perfeitos. Afastei dele e forcei meus olhos para observá-lo. Era visível que ambos estavam entorpecidos.

- Preciso ir, a aula vai começar. Eu apareço aqui mais tarde ok? – Minha mente demorou em processar aquelas palavras.

- Ok, moça. Vou te esperar. – Disse ele estonteado.

Notas finais
O que acharam? Eu adorei escrever essa capítulo fofo ^^ E resolvi aumentar ainda mais ele pra vocês aproveitarem cada detalhe. Não desanimem ok? Prometo mais suspense, mais romance e mais 'passados sombrios' '-'