Não Escolhi Amar Ele

13 Capítulo 13 - Antes de Partir


(Daniel)

O sinal anunciando a hora de entrar de volta na sala de aula toca e assim como todos os outros alunos vou seguindo, perdido em meio as pessoas para que o Lucas não venha encher meu saco. Sentei na cadeira e fiquei pensando se deveria me despedir das pessoas que eu gosto e que também gostam de mim, ou simplesmente vou embora da vida deles, de qualquer forma eu já estava decidido que não quero mais ser motivo de desgraça para ninguém.

–Daniel, por que você não responde quem é o “pai” da genética? Já que está prestando muita atenção na aula deve saber! – diz o professor Mauro de biologia, ele me pegou completamente distraído eu nem sei do que estavam falando mas lembrava de alguns nomes que li nos livros

– é.... eu? Então tá bom, acredito que seja Gregor... não me lembro o sobrenome. – Fiquei com cara de tonto sem saber o resto da resposta e classe toda virou seus olhares para mim, mas ninguém zombou já que o professor era bem rigoroso na aula dele.

–Gregor Mendel é a resposta completa, e por favor pare de ficar no mundo da lua e presta atenção enquanto explico ou então vou te retirar da sala de aula.

–Okay professor desculpa.

Em seguida ele começou a explicar tudo sobre Gregor Mendel e então distrai minha mente um pouco e comecei a prestar atenção na aula, minutos depois se encerram as atividades dele e com isso iniciou a troca de professores, a próxima aula é da professora Luzia, um doce de pessoa e eu já tinha ótima média com ela então fiquei tranquilo enquanto ela passava explicações e exercícios.
Logo terminou o período escolar e então sai rapidamente antes que Lucas ou mais alguém viesse a atrás de mim, viro no sentido contrário da rua que estava acostumado a ir embora, apenas por precaução caso ele venha atrás de mim, peguei o primeiro ônibus que me levaria até a rodoviária, acredito que estou precisando de um tempo sozinho para pensar. Cheguei no terminal rodoviário e me sentei em um banco qualquer pensando em qual seria o melhor lugar para ir, onde eu poderia tentar encontrar uma solução para minha vida totalmente desgraçada.

Algum tempo depois chega o ônibus que tem como destino o parque municipal, ele tem uma lagoa em uma parte do parque, e no outro lado existe uma mata reservada para natureza e animais, acredito que poderia ser um ótimo lugar para eu me sentar e ficar pensando. Corri antes que ele partisse e me sentei no ultimo banco apenas observando o movimento fora do ônibus e pensando a cada segundo que se passava na merda que havia feito.

Cheguei ao Parque Lago Dourado, ele recebeu esse nome por causa dos peixes dourados que vivem lá, decidi ir direto até a parte florestal para sentar diante da natureza e relaxar um pouco, o local estava vazio acredito que por ser dia de semana e muitas pessoas não tem tempo para vir aqui, me sentei em um banco que se localizava no meio de 3 enormes arvores, coloquei minha mochila do lado e fiquei olhando as nuvens, o tempo já estava começando a ficar escuro, aparentemente vai chover mas eu não estou me importando com nada, minha mãe tem vergonha de mim então provavelmente não me quer em casa, meu pai mora em outra cidade e acredito que não vai gostar nadinha da minha decisão sexual. Essa é bem o tipo de vida que qualquer pessoa gostaria de ter, ironicamente falando...
Nesse momento eu só queria me deitar no colo da minha mãe e desejar que tudo voltasse ao normal.

Durante meus pensamentos ouço trovões vindos do céu e em seguida começa a cair a chuva, em uma quantidade absurda, em segundos fiquei todo ensopado e então me deitei no banco e deixei a água fria da chuva cair sobre meu corpo, minha mente começou a pensar somente em porcarias e mais porcarias, comecei a chorar de soluçar naquele local sem ninguém.

O frio já tomava conta de todo meu corpo, o tempo estava cada vez mais escuro e o vento a cada minuto que se passava ficava mais forte, os trovões eram enormes mas a chuva estava ótima, parecia que algo estava lavando minha alma, parecia que eu estava sendo perdoado, então apenas me ajoelhei sobre o barro olhei para o céu e gritei – Por que? Por que? – chorando e sem nenhum local para ir fiquei em um quiosque até que a chuva diminuísse e então adormeci no chão todo encolhido.

Quando acordei a chuva já estava fraca e quase acabando, peguei meu celular na bolsa que estava bastante molhada mas o celular ainda
funcionava, tinha algumas mensagens do Lucas

13:15 – Dani tudo bem?

14:00 – Daniel, por que você não responde?

14:52 – Estou ficando preocupado vou até sua casa!

Depois disso verifico 13 ligações perdidas da minha mãe e mais 5 do Lucas...
Sei que estava tarde, 18:13 exatamente mas não estou afim de falar com ninguém. Meu pensamento foi só um no momento em que vi as ligações “será que minha mãe ainda se importa comigo? ”

18:14 – Daniel, tudo bem? Você sumiu durante o dia, estou preocupado, beijos Fabio.

Pensei muito em responder ele, mas não sei se seria o correto, então deixei passar a mensagem e não respondi, já estava muito escuro e eu não tinha lugar para ficar, claro que poderia ir para a casa do Lucas mas o que eu falaria para os pais dele? Melhor não arriscar...

–Fabio, Desculpe ter sumido esse tempo é que está a maior barra em casa e eu estou ficando sem bateria, qualquer coisa me encontre no Lagoa Dourada. – não tinha mais opções de ajuda e então decidi contar tudo para ele, e pelo menos passar a noite em um local que não seja na rua

Eu já estava faminto, não tinha comido nada desde o intervalo na escola, estou com pouco dinheiro e o que ainda resta está molhado, meus livros e os cadernos estão ensopados e o frio está me dominando, realmente estou jogando tudo na possibilidade do Fabio vir até aqui já que não tenho para onde ir ou terei que passar a noite onde estou.

Peguei minha mochila e fui me sentar na entrada do parque por que já estava muito escuro e perigoso lá dentro, assim que escurece usuários de drogas e bêbados se apossam do local para passarem a noite e fazer sei lá oque. Quando estava chegando na entrada fui abordado por 3 homens aparentemente usuários de drogas.

–Hey, Hey, espera ai! – Disse um deles me chamando, fingi não dar importância e continuei andando.

–Moleque ele tá falando com você porra! – o outro rapaz veio correndo em minha direção e me deu um empurrão.

–O que vocês querem? Eu não tenho nada! – respondi caído no chão e muito assustado

–Anda vai passando tudo o que você tem ai, manda pra cá essa mochila. – disse o cara mais alto enquanto os outros estavam em
volta de mim. Entreguei a bolsa para ele e disse.

–Não tem nada ai cara! Está perdendo seu tempo.

–Realmente não tem bosta nenhuma aqui, só livros e cadernos molhados. – diz ele jogando a bolsa de volta em cima de mim.

–Hey Cleiton vai deixar esse mané ai? Acho melhor dar uma surra nele já que perdemos tempo atoa – disse um dos rapazes para o homem que entreguei a mochila.

–Mas... Cara eu não fiz nada, deixa eu ir por favor! – respondi quase chorando mas não adiantou muito.

–Cala a boca retardado! – grita me dando um chute no estomago e em seguida comecei a levar vários chutes e socos em todas as partes do meu corpo, meu nariz e minha boca escorriam muito sangue e eu não tinha forças nem para levantar, nem ao menos para gritar...

(Fabio)

Sai de casa assim que recebi a mensagem do Daniel, espero que ele esteja bem, e sinceramente não sei o que ele faz no parque a essa hora, provavelmente a mãe dele o expulsou de casa e ele não tem para onde ir. O Trânsito não está ajudando e como sempre estou muito ansioso e preocupado com ele. Acho que houve um acidente mais adiante por isso a lentidão toma conta desse trecho da avenida, mas logo deve se normalizar. Assim que terminou o congestionamento acelerei o carro e cheguei rápido.
Procurei na entrada 1 do parque mas não obtive sucesso de encontra-lo, fui para a entrada 2 mas também não o encontrei, decidi então entrar e procurar mesmo estando escuro e perigoso. Bem próximo a um quiosque observei alguém deitado no chão e corri para ver, fiquei espantado quando vi que era o Daniel, todo ensanguentado, com os olhos inchados e nariz sangrando muito, ele estava com um corte enorme no braço e muito sangue no rosto.

–Daniel! Daniel! Por favor responde... Daniel!!! –gritei tentando reanimá-lo

–Socorro! Socorro!!! Alguém me ajude por favor! – tentei gritar e pedir socorro mas aparentemente não havia mais ninguém.

Peguei ele no colo e corri para fora do parque, fui o mais rápido possível até meu carro. Algumas pessoas da rua ficaram apenas observando eu passar com ele nos braços e nem se quer vieram perguntar seu eu estava precisando de ajuda, coloquei ele no banco traseiro do veículo e dirigi em alta velocidade até o hospital mais próximo.

Chegando no Hospital peguei ele rapidamente e fui até a área de emergência.

–Por favor, alguém me ajuda! Ele está muito mal – cheguei gritando e pedindo ajuda

–O que aconteceu? Corre entra com ele! – disse o porteiro.

–Não sei, encontrei ele assim aparentemente foi agredido.

Em seguida vieram enfermeiros e médicos com uma maca e o levaram para a sala médica, ele estava inconsciente mas estava respirando, espero que fique tudo bem.
Me sentei na sala de espera com a roupa toda ensanguentada, e fiquei aguardando por notícias ansiosamente.

–Moço, por favor venha até aqui! – disse a recepcionista

–Oi?

–Qual o nome do rapaz que foi acidentado?

–Daniel, mas não sei o sobrenome.

–Qual seu grau de parentesco com ele?

–Sou apenas um amigo.

–Precisamos contatar algum parente, conhece algum número telefônico de pai, mãe, irmão?

–Não senhora, mas vou dar uma olhada na bolsa dele para ver se encontro alguma coisa.

Fui até o carro e procurei dentro da bolsa alguma coisa que nos ajudaria a informar sua mãe, encontrei a carteira dele toda ensopada de água e dentro um número de telefone, não estava fácil decifrar alguns números pois o papel estava todo molhado e quase rasgando, levei até a recepcionista e ele conseguiu identificar o número completo.

–Alô boa noite, com quem eu falo?

–Alô é com a Rose, com quem gostaria de falar? – responde a mulher que atendeu a ligação.

–Estou procurando algum parente do garoto Daniel Augusto de Lima, a senhora conhece?

–Sim, eu sou mãe dele, por favor me diz se ele está bem? Da onde é? O que aconteceu com meu filho? Por favor me conte! – disse Rose desesperada

–Calma senhora, ele está no hospital municipal foi encontrado com ferimentos graves em todo o corpo.

–Hospital? Meu Deus, não acredito. Estou indo!