Não Escolhi Amar Ele

14 Capítulo 14 - Triste Realidade


(Lucas)

Dona Rose saiu correndo de casa para ir até o hospital e eu aproveitei para vir com ela, viemos o mais rápido possível e chegamos até sem folego pois corremos do estacionamento até a portaria do hospital.

–Cadê meu filho? – diz ela para a atendente

–Calma senhora, preciso que me diga o nome dele por favor. – responde a recepcionista

–É Daniel Augusto de Lima.

–Está no quarto 18 da U.T.I o estado dele é bem grave inicialmente, pode seguir o guarda e ele te levará até o local.

–Obrigado! – agradece e em seguida o porteiro a acompanha até a sala de espera.

Fui seguindo eles sem nem saber se poderia estar lá, mas como ele era meu amigo estava pouco me importando com o que podia e o que não podia fazer, quando chegamos na sala avistamos um rapaz com a roupa ensanguentada em frente a porta do quarto que estaria o Daniel e ele veio nos cumprimentar.

–Olá, boa noite me chamo Fabio.

–Boa noite, o que você faz aqui nesse estado? Você estava com o Daniel? – pergunta ela rapidamente

–Não, eu não estava com ele, Dani me ligou pouco tempo antes de ser espancado e quando cheguei o encontrei desmaiado.

Em seguida o médico sai de dentro da sala e interrompe o “papo” dos dois

–Boa Noite, a senhora é a mãe dele? – questiona o doutor

–Sou sim, quero ver meu filho como ele está?

–Calma senhora, ele está inconsciente mas continua respirando, as enfermeiras estão tomando todos os cuidados possíveis, tirando raio x e tratando os ferimentos. Mas por hora não é possível vê-lo. Só vim pedir para ter paciência.

Em seguida ele vira as costas e volta para a sala, eu estava do lado só observando, pensando em como estaria o Dani, pensando no sofrimento que e mãe dele está passando e vendo o Fabio ali na minha frente, jamais pensei em conhece-lo, ainda mais depois de saber que ele tentou transar com o Daniel.

–Então, Fabio não é? – diz Rose

–Sim senhora. – responde ele

–Você... é gay? – pergunta ela de um modo nada discreto

–Sou sim, por que?

–Deve ter sido por culpa sua que meu filho se tornou essa desgraça, aposto que foi na sua casa que ele passou a noite semanas atrás. – diz ela no meio do hospital

–Desculpe mas não estou entendo onde a senhora quer chegar! Desgraça? Está se referindo a que?

–A ser gay, meu filho era normal antes de te conhecer e agora ele está nesse hospital e tenho certeza que a culpa disso também foi sua.

Fiquei abismado com a atitude dela, jamais pensei que a mãe do meu amigo pudesse ser tão homofóbica desse jeito, ela realmente não aceitou o filho ser gay e agora está culpando alguém que não tem culpa.

–Calma ai, você nem me conhece e está me julgando? – disse ele já engrossando o tom de voz. – Quando conheci seu filho ele já era gay, ninguém escolhe ser hetero, as pessoas só escolhem ser felizes mas atitudes como a sua desanima qualquer um.

–Atitudes como a minha? Eu estou tentando proteger meu filho. – responde

–Dona, você sabe que isso só aconteceu com o Daniel por culpa sua né! Depois de rejeitar o modo que ele “escolheu” de ser feliz, o garoto se sentiu muito mal e ficou o dia todo isolado no parque até que provavelmente alguém tentou assaltar ele ou algo do tipo. Então apenas pense o que seria melhor, ter seu filho morto ou apenas deixar ele ser feliz do jeito que lhe agrada. – depois de “esfregar” isso na cara dela ele se vira e vai embora.

Já estava bem tarde e eu aproveitei que se foi para ir embora também.

–Dona Rose, está tarde já e eu preciso ir para casa. – disse á ela

–Tudo bem Lucas, obrigado por vir e por se preocupar com meu filho desculpa qualquer coisa que eu tenha feito, ah e eu vou passar a noite aqui no hospital.

–Está bem, até amanhã. – me despeço e vou para casa de ônibus mesmo.

Cheguei em casa e fui direto para meu quarto, ver toda aquela discussão me deixou sem fome e muito pensativo, ela estava culpando o Fabio por seu filho ser gay, mas na verdade quem fez isso com ele fui eu, se ela descobrir toda a verdade vou perder mais que um amigo. Realmente essa situação é bem chata, estou preocupado com o Dani, espero que ele fique bem e amanhã assim que sair da escola vou correr para o hospital ver se ele está melhor.

(Rose)

Fiquei mais de uma hora na sala de espera aguardando por notícias de meu filho e aquilo que aquele rapaz me disse mexeu com minha mente, será que eu sou mesmo a culpada de tudo isso?

–Dona Rose? – disse o doutor a chamando.

–Sim, sou eu! – respondeu e rapidamente se levantou.

–Estamos com o relatório do seu filho, ele teve contusões leves no rosto, um corte no braço esquerdo que foi necessário dar 9 pontos e uma pancada forte na cabeça por isso está inconsciente mas nada muito grave, amanhã ele já deve acordar. – com os papeis na mão ele explica

–Nossa doutor. Posso passar a noite com ele lá dentro caso ele acorde?

–Pode sim, só vá na recepção assinar os documentos e depois já pode entrar. – responde o médico

Então fui assinar todos os documentos e em seguida entrei no quarto, meu filho estava com o rosto todo roxo, o braço machucado e um olho inchado. Foi a pior coisa que eu já vi na vida, não aguentei ver ele naquela situação e comecei a chorar, acariciei seu rosto enquanto ele estava dormindo e pedi desculpas, mesmo sabendo que ele não estava me ouvindo. Fiquei rezando para que ele acordasse bem, para que me perdoasse pois agora sim eu entendo que é melhor ter ele aqui do jeito que é do que não ter.

Acordei no dia seguinte sentada na poltrona ao lado do meu filho, estava exausta e até o momento não tinha nenhum sinal positivo sobre o Daniel acordar do “coma”. Logo após escovar meus dentes ouço batidas na porta e autorizo a pessoa a entrar.

–Bom Dia Dona Rose! – diz Lucas

–Bom Dia Lucas, você levantou cedo para vir? – perguntei admirada

–Levantei sim, afinal ele é meu amigo e a senhora precisa ir tomar um banho e comer algo.

–Mas e a escola? Questionei.

–Faltei hoje, minhas notas nas aulas de hoje já estão boas e qualquer coisa recupero depois. – respondeu ele com aquela carinha de anjo. Certamente eu sabia de uma coisa, meu filho tem um ótimo amigo, um amigo que jamais abandonará ele e isso me deixa extremamente feliz.

–Então você fica com ele aqui um pouco Lucas? Vou até em casa tomar um banho e volto em seguida.

–Fico sim senhora, pode ir tranquilamente.

Peguei minhas coisas e fui avisar os médicos de que estava deixando o hospital mas que logo estaria de volta, alertei para que ficassem de olho caso acontecesse algo.

(Daniel)

Acordei sem saber onde estava, assustado e me sentindo “nu”, com um friozinho nos meus “países baixos”, olhei ao meu redor rapidamente e me sentei procurando mais informações. Ao me virar com a cabeça me deparo com o Lucas mexendo em seu celular.

–Lucas?

–Daniel, meu Deus você acordou! – responde ele se levanta vindo rapidamente até a cama – Você está bem?

–Sim! Onde estou? Pergunto e me deparo com ferimentos e curativos e meu braço

–Está no hospital, espere vou chamar as enfermeiras. – responde ele e vai correndo lá fora, enquanto isso me deito e fico olhando para o teto, me lembrando da “surra” que levei.

Alguns minutos depois veio uma moça muito bonita, com os olhos pretos e roupa toda branca, mediu minha temperatura e me medicou com alguma coisa na veia. Fez algumas perguntas básicas como: “você está sentindo dor? ” “Tem queixa de alguma coisa? ” Se lembra do que aconteceu? ”

Respondi todas mas quando cheguei na pergunta “Se lembra do que aconteceu? ”, achei melhor responder apenas parte da verdade.

Depois que ela foi embora fiquei sozinho com o Lucas, fiquei deitado olhando para o teto e pensando na minha mãe, minha cabeça estava repleta de dúvidas.

–Lucas, minha mãe veio aqui?

–Veio sim cara, ela saiu faz pouco tempo. Foi tomar banho por que ela passou a noite aqui com você. – respondeu ele

–Como eu vim parar aqui no hospital?

–O Fabio trouxe você depois de te encontrar jogado no chão do parque.

–Fabio, cadê ele? Ele está bem?

–Calma, ele está bem sim. Mas sua mãe discutiu com ele ontem à noite, depois disso o guri foi embora e não voltou ainda.

–Affs, o que minha mãe falou para ele? –perguntei já um pouco preocupado com o que teria acontecido

–Falou que era culpa dele você ter se tornado gay e mais um monte de coisa, depois que sair daqui te conto os detalhes. – disse ele. – agora me diz. O que você foi fazer no parque? Estava chovendo, estava frio e eu estava pensando que você estaria na sua casa!

–Ah foi mal, eu não queria voltar para minha casa, não queria preocupar ninguém então fui até lá e fiquei de boa pensando na vida e tomando chuva.

–Meu Deus cara, para de ser idiota. Se você tivesse na sua casa não teria acontecido nada disso. Mas enfim, pelo menos está tudo bem.

Lucas se aproxima mais e segura minha mão, olha nos meus olhos e em seguida acaricia meu rosto delicadamente.

–Fiquei preocupado com você cara. – diz ele com aquela voz meiga

–Desculpe, não vou fazer mais nenhuma tolice desse tipo, prometo!

Ele se aproxima mais ainda e me dá um selinho, sei que foi rápido, mas também foi muito inesperado vindo dele. Alguém abre a porta e entra no quarto, ele rapidamente solta minha mão mas continua sentado ao lado.

–Filho, você acordou! – diz minha mãe e vem correndo até a cama, Lucas se levanta da cadeira e dá lugar para ela se sentar.

–Está tudo bem com você Dani? – pergunta ela já me abraçando e beijando meu rosto.

–Sim, Sim mãe, estou bem... Calma, estou bem! – respondi meio que afastando ela de mim.

–Meu lindo, fiquei tão preocupada com você. – diz ela

–Mãe o que a senhora fez com o Fabio? – ela olha para mim com uma expressão séria e em seguida diz.

–Você mal acordou de um espancamento e já pergunta desse moleque? Não acredito que você nem se quer pensou em mim!

–Mãe eu pensei em você, mas quero saber o que você disse para ele.

–Eu só conversei com ele filho, disse a verdade! – respondeu ela com convicção de que estava correta. Se levanta e vai até a porte, verifica se tem alguém por perto e diz.

–Filho, estive pensando e decidi te amar, te apoiar e te proteger do resto do mundo, sei que fui muito dura com você inicialmente mas é por que fiquei assustada com tudo isso, era novidade para mim e eu não sabia como reagir, entrei em pânico e não tive boas atitudes.

Olhei para ela e vi lagrimas escorrendo de seus olhos, com certeza não eram “lagrimas de crocodilo” ela estava sim emocionada e estava falando a verdade, comecei a chorar também e fiquei sem saber o que dizer.

–Obrigado mãe, te amo!

–Também te amo Daniel. Te amarei do jeito que você for!