Aos poucos o clima foi voltando ao normal, os alunos recomeçaram a conversar e tudo parecia mais tranquilo. Se não fosse o fato de todos estarem ignorando completamente Alana, nenhuma atitude seria considerada estranha. Na hora do almoço, todos os alunos, inclusive Mila e Marcos, saíram da sala, deixando Alana sozinha.

E foi esse o tratamento que ela recebeu até as aulas acabarem. Arrumou seu material e saiu da sala. Enquanto andava pelo corredor, que já estava vazio, passou por três meninas. A morena deu um encontrão nela, a ruiva puxou seu cabelo e a loira fez todo o seu material cair.

Sem entender o porquê elas tinham feito aquilo, resolveu virar-se e ver qual era o problema das três patricinhas da sua sala, mas assim que fez isso, recebeu um tapa no rosto. Antes que ela pudesse reagir, a ruiva puxou novamente seu cabelo e a morena a empurrou contra a parede.

-Me solta!

Socos e chutes acertavam-na e Alana tentava de defender como podia. Arranhou o rosto da ruiva e chutou a perna da morena. A loira sacou um estilete e cortou a blusa de Alana, enquanto tentava acertá-la de modo a deixar cicatrizes.

Tentou cortá-la no rosto e, embora ela tivesse conseguido desviar um pouco, uma linha vermelha se formou. Pisou no pé da ruiva e conseguiu se soltar e, quando foi se afastar, o estilete voltou certeiro para si. Em um momento de reflexo rápido, Alana conseguiu segurar o objeto que a loira forçava na sua direção. Quase que imediatamente sua mão começou a sangrar horrores.

Como sempre acontecia quando via sangue, sua pressão começou a cair. Voltou a apanhar e foi derrubada no chão. A ruiva veio para cima dela, arranhando todo o seu corpo.

-Sai de cima de mim! – Alana gritava.

-Isso é por você ser intrometida! – a loira chutou sua perna e Alana achou que ela tinha quebrado, de tanta dor que sentiu.

-Me solta!

Deu um soco no olho da ruiva e, antes que as demais pudessem impedi-la, levantou-se. A morena bateu em suas costas e o ar faltou por alguns segundo, quase a fazendo voltar para o chão.

Com muita concentração para não desmaiar, torceu o braço da loira e tirou dela o estilete. Pegou a ruiva e, virando-a de costas para si, grudou a lâmina em sua garganta.

-Não encostem em mim. – Alana falou entre os dentes.

-Então, para de se meter onde não é chamada, vadia! – a morena gritou. Aquela frase despertou um pouco Alana. Vendo que tinha uma delas como refém, resolveu tentar descobrir algo.

-Qual era a relação de vocês com Adriana? – as meninas se entreolharam.

-Não te interessa! – vociferou a loira.

-Mesmo? Pois eu digo que estou bastante interessada no assunto, principalmente por conta da reação de vocês! – o cheiro de sangue e o líquido viscoso em sua mão, faziam-na querer vomitar e, depois, desmaiar, estava lutando o máximo que podia se manter ali, de pé.

-Não! – gritou a morena – Não digo! Não digo! Não quero lembrar disso! Não digo! Eu quero esquecer! Esquecer! – ela ajoelhou no chão e, com olhos fechados e ouvidos tampados, chorava e gritava desesperadamente – Não digo!

Alana achou aquela reação estranha, para dizer o mínimo, e, pelo estado da menina, preocupante. E foi nesse momento de distração que a ruiva deu uma cotovelada em sua barriga e tirou o estilete de sua mão. Alana levou outro tapa no rosto, dessa vez mais forte, e só teve tempo de ver uma lâmina se aproximando do seu pescoço. Não conseguia reagir, então apenas fechou os olhos e esperou.

-O que vocês estão fazendo? – ouviu uma voz familiar. Abriu os olhos e viu André correndo na direção delas. As três largaram o estilete e, com passos bem rápidos, abandonaram Alana – Voltem aqui! – ele chegou até onde ela estava e deu uma boa olhada nela – Alana! Você está bem?

Com seu professor ali e sabendo que estava segura, Alana sentiu um cansaço enorme, sua visão ficou embaçada e ela já não conseguia fazer mais nada além de encarar aqueles orbes castanhos que a olhavam com tanta preocupação.

-Alana! Alana! – mãos quentes e macias segurar seu rosto com firmeza. Ela queria dizer que estava bem, mas seu corpo não reagia, sentiu braços envolverem-na e seu corpo foi erguido. Quando percebeu que André a segurava no colo, caiu na inconsciência.



Abriu os olhos e, não reconhecendo onde estava, sentou-se rapidamente na cama. Seu corpo todo doeu e não pôde deixar de soltar um gemido, uma mão forçou seus ombros para baixo e ela voltou a deitar.

-Vai com calma. – André estava simplesmente lindo aos olhos dela. Sentado em uma cadeira ao lado da cama, apoiado nos cotovelos, ele a olhava de maneira preocupada – Como se sente?

-Dolorida... – ele sorriu um pouco. Alana sentiu algo em sua mão, e quando olhou, viu que ela estava toda enfaixada – Obrigada.

-Disponha. – bagunçou um pouco o cabelo dela. Seu celular tocou e ele pareceu nervoso ao ver quem era – Espera aqui, pode ser? Eu te levo para casa.

Alana foi dizer que não precisava, mas ele já tinha saído. Dessa vez levantou mais devagar e percebeu que estava na enfermaria. Lembrou-se de tudo o que tinha acontecido, qual era o problema das pessoas daquele lugar, afinal? Por que simplesmente não diziam, de uma vez por todas, quem era Adriana? E que reação tinha sido aquela?

Veio à sua mente, também, a lembrança de estar nos braços fortes de André, e não pôde deixar de sorrir, algo nele a acalmava. Talvez fosse o fato dele ele ter se comportado de maneira estranha com ela.

De modo automático, pegou o celular e viu que tinha um e-mail.

“Pergunta errada para pessoas erradas. Você já viu o que acontece quando o assunto Adriana é tocado. Se tem um pingo de amor próprio, Alana, controle-se e espere que eu diga como você tem que fazer.

Por exemplo, seria legal se você desse uma passada na sala dos professores.

E mais uma dica, os amigos nerds são os melhores.”

Se ainda um pouco lenta por conta do desmaio, naquele momento foi despertada como se tivesse levado outro soco. Imaginava mesmo que, depois do ocorrido na sala, a outra pessoa saberia quem ela era, mas ler seu nome ali causou um calafrio na espinha. E o que ela queria dizer com “os amigos nerds são os melhores”?

Com um pouco de dificuldade, levantou da cama e, enquanto saída da enfermaria, passou na frente de um espelho. Estava pálida, com um corte do lado esquerdo do rosto, sua roupa estava rasgada e ensanguentada, sua mão, enfaixada, e ainda estava descabelada.
Sentiu muita vergonha por André tê-la visto naquele estado. Arrumou o que podia, pegou seu material e saiu.

A porta da sala dos professores estava fechada e Alana não entendeu porque Elvira tinha sugerido ir para lá. Assim que se virou para voltar e esperar por André na enfermaria, ouviu uma voz feminina vinda do outro lado da porta. Aproximou-se novamente e viu Victória, uma das meninas mais cobiçadas do colégio, e André.

-Para com isso, Victória! – ele brigava. Alana sabia que o correto seria dar meia volta e ir embora, mas a curiosidade, como sempre, falou mais alto e a fez ficar.

-Não, André! Eu faço o que eu quiser! – a maneira como os dois pareciam íntimos intrigou Alana e a fez sentir ciúmes. A ideia de que talvez ele fosse mais próximo de outros alunos também não a agradava, e quando percebeu isso, sentiu-se muito boba.

-Chega, Victória! – e bateu as mãos na mesa. Tanto Alana como Victória se assustaram, ele parecia nervoso e impaciente de uma maneira que Alana pensou que ele jamais ficava.

-Apara de mandar em mim. – disse em tom ameaçador – Isso tudo é culpa sua, se não se lembra.

Sem esperar por algum comentário, pegou sua mochila e foi em direção à porta. Alana tentou se afastar um pouco para não ficar tão evidente que ela estava escutando a conversa deles, mas não conseguiu. Logo Victória passou por ela e seus olhos castanhos e irados a encararam por breves segundos.

-A ideia era você me esperar na enfermaria... – André apareceu bem atrás dela e ele estava tão perto que era possível até sentir o calor do corpo dele.

-Desculpa... É que eu ouvi alguns gritos e vim ver o que era... – mentiu – André encostou-se à parede, passou a mão pelo cabelo e suspirou, parecia bem cansado. Depois de alguns segundos, sorriu para Alana.

-Minha prima... – apontou com o queixo a direção que Victória tinha ido – Às vezes ela só me dá dor de cabeça. – Alana se sentiu ridiculamente aliviada por saber que eram apenas primos.

-Sei... – um sorriso fraco e o silêncio.

-Vamos? Já está ficando tarde.

-Ah, não tem problema, eu vou a pé, mesmo.

-Está fugindo de mim? – alargou o sorriso da maneira que Alana adorava.

-Imagina! – apressou-se em dizer e André riu.

-É sério, eu te dou uma carona, olha só o seu estado! – Alana sabia que estava péssima, mas se sentiu ainda pior com aquela afirmação – Desculpa... – André pediu, percebendo o incômodo no rosto dela.

-Relaxa, eu sei que é verdade... – disse, fingindo estar mais triste do que realmente estava, e começou a andar, deixando-o para trás.

-Ah, quê isso, Alana. – ele correu um pouco e a alcançou – Você sabe que é linda.

Ao ouvir aquelas palavras, Alana parou e olhou para André. Seu coração batia forte e percebeu que ele também estava nervoso.

-Não... – ele gaguejou – Você é muito bonita... – balançou a caneca e mudou a direção do olhar, parecendo querer encontrar as palavras certas.

-Eu... Eu acho que entendi o que você quis dizer... – tentou acabar com aquela situação constrangedora.

-Ótimo...

Os dois seguiram em silêncio até o carro de André. As palavras dele ressoavam pela mente Alana e ela percebeu que era inevitável não se sentir feliz. De fato, concluiu, ele era a única pessoa naquele lugar com quem ela não se sentia ameaçada.

O trajeto todo também foi silencioso, André focava na rua e Alana olhava as casas, agora ainda mais familiares do que já eram. Quando chegaram, hesitou um pouco em sair do carro, queria desfrutar um pouco mais daquela companhia.

-Alana? – saiu de seus pensamentos quando ouviu aquela voz grave e rouca chamando-lhe. Encostou a cabeça no banco e voltou-se para ele. Durante vários segundos, ficaram apenas um olhando para o outro, aqueles orbes castanhos prendiam sua atenção como nenhum outro olhar fazia. Notou que André alternava entre seus olhos e seus
lábios, e por mais que aquilo fosse um pouco estranho, por ele ser seu professor, estava adorando ser o centro da atenção dele e queria muito acabar com a distância entre os dois. Viu sua mão se aproximar do seu rosto e acariciou lhe as bochechas, sentiu arrepios com aquele toque – Não entra em brigas que não são suas... – de repente, despertou do transe.

-O que quer dizer com isso? – mexeu-se no assento do carro.

-Dessa briga que você teve hoje... – ele respondeu como se fosse óbvio. Pela expressão em seu rosto, Alana deduziu que ele falava a verdade, mas no seu íntimo era como se ele se referisse à outro assunto.

-Ah... – disfarçou e soltou o cinto de segurança – Bom, é melhor eu ir. Obrigada por tudo. – sorriu e abriu a porta. E assim que o fez, levou um susto.

Olhando diretamente para eles com aquele olhar de indiferença, estava Gabriel, todo de preto, com capuz na cabeça e uma sacola na mão. Sem saber o que fazer, Alana ficou apenas parada.

-Alana? – André estranhou, mas assim que ele viu para onde ela olhava, exclamou – Merda!

Alana tinha certeza de que ele tinha exclamado aquilo por um motivo completamente diferente do seu, ou pelo menos ela esperava que fosse. Enquanto André provavelmente estava preocupado por ter sido visto por outro aluno, Alana estava chocada com as roupas que Gabriel usava, exatamente igual à que a pessoa que a perseguia usava.

Gabriel passou pelo carro, desviando os olhos. Disfarçando um pouco seu estado, Alana voltou-se para André, agradecendo e despedindo-se mais uma vez.

Assim que entrou em casa, trancou tudo e se jogou no sofá. Perguntou-se quantas pessoas daquela cidade tinham o mesmo modelo de calça e casaco, e ainda por cima, da mesma cor.

Notas finais
E então, o que acharam?? Alguma sugestão??