–Alana, vem jantar! – ouviu sua mãe chamar do andar de baixo.

–Já vou!

Olhou mais uma vez para o visor do celular, nenhum e-mail tinha chegado. Já fazia quase duas horas desde que Alana tinha mandado a mensagem e, até aquele momento, nada de Elvira responder.

Antes de descer, mandou outro com a mesma pergunta. Tinha achado a discussão entre Victória e André muito estranha e estava mais do que curiosa para saber qual era a relação entre eles. Jogou o celular na cama e desceu para a cozinha.

Comeu o mais rápido que pôde, queria voltar para o quarto rapidamente para ver se tinha uma resposta. Algo em sua mente dizia que dessa vez estava perto.

Assim que acabou, subiu para o quarto sob as reclamações dos pais, que diziam que ela estava passando pouco tempo com eles, e, ao entrar, fechou a porta. Uma luz vermelha piscava no aparelho, indicando que alguma mensagem havia chegado. Um e-mail.

“Eles são primos de primeiro grau.”

Alana achou que ficaria mais satisfeita do que aquilo com aquela informação. Parecia que ela já tinha uma ideia de que eles fossem algo do gênero. Ouviu um barulho e voltou sua atenção para a janela, vendo Margarida debruçada no parapeito como normalmente fazia.

–Você precisa correr, Alana. – disse carregada de apreensão.

–Por que tenho a impressão de que sei do que está falando? – aproximou-se da janela.

–Porque você sabe... Apenas não se lembra.

–E por que a senhora não me recorda? – perguntou, começando a ficar irritada.

–Eu já disse uma vez, Alana, e repito. Minha função aqui é só observar, não posso interferir...

–Então não fica me apressando! – elevou a voz – Se não pode ajudar, também não atrapalha! Quando você diz que eu preciso correr, só me desespero mais! – algumas lágrimas se formaram em seus olhos – Racionalmente, eu não ideia do que está falando, mas tem alguma coisa dentro de mim que entende perfeitamente o que você diz! E eu quero correr, mas não sei nem em que direção ir! – Alana deixou que as lágrimas escapassem – E eu estou cansada! Nem sei o motivo, mas estou exausta! Eu quero acabar com algo que eu nem sei o que é! Eu quero saber sobre uma menina que eu nem cheguei a conhecer! E o pior é que eu corro riscos, ameaças, me machuco, sofro tortura psicológica! Mas apesar de tudo, não consigo parar! – ela apoiou o rosto nas mãos. Mal conhecia Margarida, mas sentiu a necessidade de desabafar na frente dela, como se só aquela mulher pudesse entender o que estava acontecendo dentro da mente dela.

Uma mão cadavérica, porém delicada, acariciou seus cabelos com certa dificuldade. Alana levantou o rosto e viu que Margarida se esforçava para poder alcança-la. Permitiu que mais lágrimas caíssem, vendo os olhos da velha se encherem de água também.

–Juro que gostaria de te ajudar, Alana. Sofro muito vendo seu desespero e seus erros... Mas, infelizmente, não posso fazer nada... – Alana enxugou algumas lágrimas e respirou fundo.

Uma claridade tomou conta do céu e pingos grossos começaram a cair. O barulho de chuva tomou conta e a chuva era tão forte que ficava um pouco difícil ver Margarida. Ela olhou para o céu e depois voltou sua atenção para a Alana.

–Dois dias, Alana, é o que você tem... – Alana franziu o cenho.

–Dois dias para quê?

–Acabar com tudo isso...

–Mas isso é pouquíssimo tempo! – voltou a se desesperar.

–Eu sei. – Margarida suspirou – E é por isso que eu aconselho a você não dispensar em nenhuma hipótese nem perder uma oportunidade sequer.

–Que oportunidade?

–Você vai saber. – ela sorriu fracamente e começou a fechar a janela.

–Espera! – Margarida parou – Você sabe, não é... Sabe quem tentou te machucou hoje...

–Eu sei de tudo, Alana. – disse com pesar – Boa noite. – deu uma piscadela e fechou a janela.

Alana ainda ficou algum tempo olhando para fora e ouvindo a chuva cair, perdida em seus pensamentos. Uma lufada de ar frio acertou-lhe o rosto, fazendo sentir frio. Respirou o ar gelado e tomou uma decisão: faria qualquer coisa para descobrir quem tinha matado Adriana Golveia.

Fechou a janela e sentou na cama, com o celular em mãos, começou a escrever um e-mail.

“E qual é a relação entre Victória, André e Adriana?”

Esperou pelo menos dez minutos e nada de chegar uma resposta. Era raro Elvira demorar para responder, e no mesmo dia, era a segunda vez que aquilo acontecia. O celular vibrou, mas ao contrário do que ela pensava, tinha chegado uma mensagem. Seu coração disparou.

“Vou te pegar, vou te pegar, vou te pegar, vou te pegar... Me aguarde, Alana. Vamos ver se o Gabriel ainda vai se interessar por você quando eu acabar com esse seu rostinho lindo. Vou fazer a mesma coisa que você fez com a Carolina.”

As mãos de Alana começaram a tremer e ela começou a se concentrar em sua respiração, tentando normalizá-la. Se o que Margarida tinha dito era realmente verdade, ela teria dois dias para pegar o assassino antes de ele a pegar.

Seu celular vibrou de novo.

“Por que acha que esses dois têm alguma relação com ela?”

Alana estranhou a pergunta.

“Por que, aparentemente, todos nessa cidade estão envolvidos em alguma parte da vida dela.”

Mais uma vez, demora.

“André esconde um passado sombrio por trás daqueles lindos olhos castanhos.”

Alana sorriu com escárnio.

“Deixa eu ver se adivinho... Ele se envolveu com a Adriana... Aquele esquema professor-aluna.”

Enquanto esperava a resposta, Alana deitou na cama e ficou olhando para o teto.

“Nem perto disso. Os dois nunca passaram da relação normal entre um professor e uma aluna. É muito pior que isso.”

Alana ficou olhando para a mensagem e analisando. Se André nunca tinha passado da linha com Adriana, então ele não era um suspeito, o que fazia sobrar apenas uma pessoa...

“E a Victória?”

Outra demora.

“O que tem?”

“Se André não teve nenhuma relação especial com Adriana, só posso pensar que Victória...”.

Apertou sem querer a tecla de enviar.

“Que Victória é a culpada? Era isso o que ia dizer? Pois saiba que elas nunca trocaram mais do que poucas palavras.”

Alana estranhou aquelas palavras. Já tinha acontecido de Elvira não ser muito delicada, mas aquelas estavam rudes demais. Achou melhor deixar de lado os e–mails e ir dormir, uma vez que teria aula no dia seguinte.



–Onde ela está? – perguntou, aflita.

–Ela quem, Alana? – Roberta perguntou.

–A Carolina! – fez um gesto com as mãos, apressando a amiga.

–Ah! Na última vez que eu a vi, ela estava indo para o banheiro.

–Obrigada! – e saiu correndo de volta para o prédio.



Algo vibrou embaixo de se travesseira, e aquilo, mas o pesadelo que estava tendo, fez Alana despertar. Ainda confusa, procurou pelo objeto e, assim que o encontrou, viu que tinha recebido um e-mail às duas e meia da manhã.

“Se quiser saber qual é o segredinho do seu professor, vá até um beco que fica próximo à praça central.”

Alana demorou alguns segundos para raciocinar e entender o que aquela mensagem dizia. Ponderou se devia ir ou não, afinal, as últimas palavras de Elvira não tinham sido das mais amigáveis. Entretanto, lembrou-se do que Margarida tinha falado.

Sem perder mais tempo, trocou de roupa, colocando uma calça de moletom e um casaco com capuz. Vestiu o gorro e foi até a janela, analisando se era melhor sair por ali ou pela sala da sua casa mesmo.

Decidiu que a segunda opção era muito arriscada. Sua mãe tinha sono leve e com certeza acordaria e a pegaria no flagra. Olhou para baixo pela janela e tentou analisar como faria para sair por ali.

Havia uma árvore ainda pequena logo abaixo, mas Alana temeu seus galhos serem muito fracos e acabarem se quebrando com seu peso. Porém, aquele era o único jeito de sair sem pular do segundo andar.

Com cuidado, passou uma perna para fora da janela, seguida da outra e virando-se de costas para a casa de Margarida. A chuva, que ainda caía, atingiu-a, fazendo com que Alana ficasse molhada e sentisse frio.

Segurando-se firmemente ao parapeito, apoiou levemente um dos pés nos galhos da copa e forçou um pouco. Percebendo que o galho era mais resistente do que imaginara, apoiou o outro pé. Ainda com as mãos no parapeito, desceu os pés para os galhos debaixo e, com o gesto rápido, segurou nos galhos próximos aos seus braços.

Desceu pela pequena árvore e, por último, deu um pequeno salto. Assim que seus pés tocaram o chão, saiu em disparada para a praça central. Não querendo ser reconhecida, puxou o capuz para cobrir ainda mais o rosto, e por conta do frio, colocou as mãos nos bolsos do casaco.

À medida que praticamente corria pelas ruas, olhava para trás e para os lados, certificando-se de que estava sozinha. Temia que a mensagem que receberam fosse uma armadilha.

Assim que chegou, olhou rapidamente todo o entorno da praça, e a única coisa parecida com um beco que avistou, ficava ao lado do que parecia ser uma loja de sapatos.

Com passos lentos e inseguros, Alana foi se aproximando. No começo, não via ouvia nada além da água caindo no chão, mas conforme chegava mais perto, passou a ouvir algo parecido com gritinhos.

Esquecendo o frio que sentia e o barulho de sua respiração pesada, tentou prestar atenção apenas naquela voz fina e feminina. Encostou-se a uma parede que ficava na entrada do beco e se concentrou no que ouvia.

–Está machucando! – alguém choramingava.

–Para! – alguém pedia fracamente, seguido por gemidos chorosos – Para, por favor!

–Não está gostando? – uma voz masculina perguntou de maneira cínica.

–Não! – a voz da garota saiu mais alta – Para!

–E por que eu pararia? Tenho certeza de que, bem no fundo, você está amando! – e soltou uma risada gutural.

–Para! – praticamente miou — Por favor, André! Para!

Ao ouvir aquele nome, o coração de Alana parou e imediatamente também reconheceu a outra voz. Com receio do que veria a seguir, Alana se desencostou da parede e deu dois pequenos passos em direção à entrada do beco.

Seu cérebro se esforçava ao máximo para entender a cena que assistia. André, segurando firmemente os punhos de Victória, que parecia chorar e tinha os olhos fechados, com seu corpo prensando o da garota contra a parede, sem calças enquanto ela tinha a saia levantada, investindo nela sem parar.

Notas finais
E então, o que acharam?? Alguma sugestão??