Não Conte Nossos Segredos
14 Capítulo 14
Antes de ir para o colégio, Alana se olhou no espelho e quase caiu de susto, estava praticamente irreconhecível por conta dos olhos inchados e das olheiras enormes. Também, tinha dormido muito mal, o fato de Adriana ter sido morta no dia do principal festival da cidade sem que ninguém tivesse visto, não saía da cabeça de Alana. Além daquilo, ainda tinha a preocupação do que faria em relação ao André. Não queria se afastar dele, mas temia demais ele acabar se machucando ou acabar descobrindo o segredo que ela guardava. E, ainda por cima, tinha as falas de Margarida, o que ela queria dizer? Todos esses pensamentos ficaram atormentando-a a noite inteira.
E nem todo aquele cansaço a fez ficar menos atenta enquanto andava na rua. A cada dois passos olhava para trás e só pedia mentalmente para que não encontrasse Marcos. Talvez pelo jeito com o qual ele olhara para ela na noite anterior, Alana tinha quase certeza de que ele sabia que ela o tinha visto. Tremeu só de pensar o que ele poderia fazer.
Assim que chegou à escola, encontrou Mila sentada em sua carteira. Ela parecia um pouco abatida e estava imersa em seus pensamentos. Queria conversar com ela, mas não tinha o que dizer, além de achar que ela queria ficar sozinha.
Deixou seu material em cima da mesa e saiu para beber um pouco de água. Andava distraidamente pelo corredor, quando sentiu sua mão ser puxada, deparando-se com André. Alana sentiu o coração bater um pouco mais forte ao encarar aqueles olhos preocupados e levemente irritados.
O corredor estava praticamente vazio, mas ele se aproximou dela, fazendo com que Alana sentisse ainda mais seu cheiro amadeirado.
-Por que não me esperou, ontem?
-Eu... – estava prestes a dizer que era simplesmente porque não queria atrapalhar a conversa dele com Victória, mas lembrou-se da mensagem que recebera no dia anterior e recuou um pouco – Não te devo satisfação. – falou com a voz mais dura e irritada que conseguiu.
-O quê... – viu o olhar surpreso de André e deduziu que tinha dado certo, então tentou se aproveitar um pouco mais daquilo.
-Fui embora sozinha porque não preciso que você fique me vigiando, já existe uma pessoa que faz isso muito bem! – soltou a última parte com verdadeira raiva e desdém, esperando que a tal pessoa escutasse – Aliás, me surpreende saber que você notou minha falta, parecia bem ocupado com Victória.
André ficou olhando-a atônito e Alana se esforçava ao máximo para não vacilar. Tudo o que queria, naquele momento, era estar no apartamento dele, só os dois, e sentir aquela segurança que ele passava.
Estava quase voltando para a sala, quando viu Marcos se aproximar. A mesma expressão de ódio da noite anterior continuava estampada no rosto dele. Alana engoliu em seco e se sentiu paralisar, um calafrio percorreu seu corpo. André olhou para ele e depois se voltou para Alana com o cenho franzido.
-Conversamos depois. – disse rapidamente, indo na direção da sua sala logo em seguida.
Alana ficou parada, sozinha no corredor. Sabia que tinha de voltar para a sala, mas era como se seu corpo não conseguisse se movimentar.
-E ai, Alana? – Pedro e Gabriel apareceram do seu lado e ela tentou sorrir – O que está fazendo parada aqui? – seu olhar encontrou com o de Gabriel e ela logo se voltou para Pedro, que tinha um sorriso animado no rosto. Era como se ele vivesse de bom-humor.
-Ah... Nada demais. – deu de ombros, fingindo indiferença.
-Então, tá. – o sinal bateu – Vamos?
-Claro.
Os três voltaram para a sala e cada um foi para o seu lugar. Junto com a professora de matemática, Ana entrou. Tinha o cabelo preso em um rabo e sua roupa era toda azul. Ela esperou até que todos ficassem em silêncio para falar.
-Bom, como vocês sabem, o Festival da Colheita é em dois dias. – ela sorriu alegremente e os alunos vibraram – Por isso, os preparativos começam hoje às três horas da tarde. Então, hoje e amanhã, vocês serão liberados mais cedo para ajudarem. – os alunos foram ao delírio – É bom ver que vocês gostam da comemoração! – Ana estava até um pouco emocionada. A professora se aproximou com uma sacolinha – Bem, vamos fazer o sorteio das duplas das barracas.
Enquanto os nomes eram ditos, Alana sentia seu estômago revirar e só torcia desesperadamente para que não caísse com Marcos. Por fim, as duplas foram: Pedro e Victória com a barraca da pescaria, Gabriel e Marcos com a do tiro ao alvo, e Alana e Mila com a dos doces. Ela suspirou aliviada.
-Então, não se esqueçam, no Pátio da cidade, às três.
Depois que Ana saiu, a professora de matemática e os demais professores entraram naquela sala para dar aula, tiveram dificuldade para controlar a turma. Os alunos estavam ansiosos pelo festival e não paravam de falar dele.
Alana concluiu que ela era a única que não estava contente. Tinha uma má impressão e aquilo a deixava angustiada, não queria de jeito nenhum que aquele dia chegasse.
Assim que as aulas acabaram, todos os alunos saíram em disparada. Ficaram na sala apenas Alana, Pedro e Gabriel. O moreno se aproximou e a ajudou a guardar o material, enquanto o ruivo apenas esperava sentado em uma carteira próxima.
-Para onde você vai agora, Alana? – Pedro perguntou.
-Para casa... Por quê?
-Ah... Eu o Gabriel vamos comer em uma lanchonete aqui perto, não quer vir com a gente? De lá, vamos direto para o Pátio.
A princípio, Alana pensou em recusar por conta da presença de Gabriel. Sentia-se estranha perto dele e não gostava nem um pouco daquilo. Por outro lado, a presença de Pedro era bem agradável, e seria ótimo ter companhia.
-Claro! – responder, por fim.
Enquanto atravessavam o portão, Alana viu, com o canto dos olhos, André dentro do carro, olhando para eles. Virou-se para frente e tentou ignorar o leve brilho de decepção que tinha visto no olhar dele.
Acompanhada pelos dois, ela se sentia calma, sem a necessidade de ficar olhando para trás, com medo de estar sendo seguida. Andaram um pouco mais e chegaram em frente à uma lanchonete toda azul.
Pedro segurou a porta para que Alana entrasse e eles se sentaram próximos a uma janela, ficando Pedro e Gabriel de frente para ela. O lugar era ajeitado, não tinha muito barulho e, não fosse o cheiro de gordura, seria extremamente agradável.
Fizeram o pedido e logo três sanduíches medianos estavam em cima da mesa. Alana ficava olhando para fora para evitar encontrar o olhar de Gabriel, enquanto que Pedro se insinuava um pouco para uma das garçonetes, uma mulher muito bonita, por sinal.
-Então, Alana, já se acostumou com a cidade? – ele perguntou e ela saiu dos seus devaneios.
-Mais ou menos. – admitiu, um pouco sem graça – Sinto falta dos meus amigos.
-Normal. – sorriu – Você tinha bastante?
-Na verdade, não... Mas éramos bem próximos. – as imagens daquele dia invadiram sua mente, mais uma vez. Alana não estava sozinha, diante do caos que se seguiu, encontrou apoio nas amigas, principalmente em Roberta – Passamos por algumas coisas juntas. – falou e se mexeu, tentando tirar aquelas lembranças da mente.
Ao fazer isso, acabou chutando a perna de Gabriel sem querer. Ele parou de mastigar e lhe lançou um olhar frio e intenso ao mesmo tempo. Sentiu algo estranho dentro do peito. Era a primeira vez que via aquele olhar, mas foi como se tivesse sentido falta dele, e aquela quase recordação fez com que um pequeno formigamento tomasse
conta do seu corpo.
-Desculpa. – murmurou e ele voltou a comer – E então, como é esse Festival? – perguntou para Pedro na tentativa de fazer passar aquela sensação.
-É um festival que reúne toda a cidade. Os estudantes, professores e aposentados ajudam nos preparativos. O restante das pessoas ajuda com doações para os pequenos agricultores. – pausa – É bem legal, podemos comer, beber e nos divertir... Serve para comemorarmos a boa colheita e desejar que a próxima seja tão boa quanto a que teve. – Alana sorriu.
-Entendi. Parece divertido. – “contanto que mais ninguém morra”, completou.
Assim que terminaram de comer, Pedro fez questão de pagar o almoço de Alana e os três foram para o Pátio. Era um espaço bem grande e aberto, e atrás dele tinha uma espécie de bosque.
Várias madeiras estavam espalhadas pelo chão, junto com alguns pedaços de lona. Muitos alunos já estavam lá, incluindo Mila e Marcos. Ele a olhava como um predador pronto para matar a presa e ela parecia estar incomodada com a presença dele.
Os três foram até onde eles estavam e Alana descobriu que um de seus vizinhos de barraca seria o Marcos, e quis correr desesperadamente por causa daquilo. Pedro olhou as barracas em volta.
-A minha não é por aqui. Vou achar Victória para saber onde vamos ficar. – e saiu.
Gabriel foi ao encontro de Marcos e, sem dizer nada, já começou a montar a barraca. Alana foi para perto de Mila e começou a levantar as madeiras, recebendo minimamente a ajuda dela.
-Você está bem? – perguntou e Mila demorou um pouco para responder.
-Estou...
Passaram algum tempo tentando montar a barraca, mas a madeira era um pouco pesada e nenhuma das duas estava muito animada para fazer aquilo. Mila ficava em silêncio como se quisesse ignorar tudo o que estava a sua volta, e Alana já estava começando a ficar incomodada com aquilo.
A situação só piorou quando Alana percebeu que Marcos olhava para as duas incansavelmente. Tentou desviar a atenção, mas estava difícil, o peso do olhar dele parecia imenso, como se fosse esmaga-la a qualquer momento.
-Perdeu alguma coisa lá? – Alana ouviu Gabriel perguntar à Marcos com um tom de voz duro.
Marcos ainda lançou um último olhar para ela e depois, se voltou para Gabriel, olhando-o seriamente.
-Não.
-Ótimo, então vem me ajudar.
Alana agradeceu Gabriel mentalmente e, sem ser o centro da atenção de Marcos, conseguiu focar no que tinha que fazer. Olhou para a própria barraca e viu que ainda faltava muito para terminarem, suspirou em tom de desistência. Largou a lona e as madeiras e passou por Mila.
-Vou dar uma volta. – disse mal-humorada.
Começou a andar na direção do bosque. Uma parte de sua mente dizia que ela não devia entrar ali, como se algo de ruim fosse acontecer. Imagens passavam na sua mente como se fosse um filme e uma sensação de nostalgia a acertou em cheio. Ficou cansada, de repente, como se seu corpo pesasse muito. Ponderou se devia continuar por
ali ou não.
Resolveu seguir em frente, prometendo a si mesma que não iria muito longe. Conforme andava pelas árvores, o barulho que vinha das pessoas no Pátio diminuía e o silêncio foi tomando conta.
Tinha a impressão de já ter passado por ali inúmeras vezes, sentiu o ar ficar mais gelado e notou que suas mãos tremiam. Uma dor de cabeça fortíssima começou e ela sentiu que tudo à sua volta começava a girar.
Fechou os olhos com força e pressionou as têmporas, a dor só piorava e seu estômago começou a embrulhar. Teve que encostar-se a uma árvore para que não caísse e decidiu que era melhor voltar.
Deu dois passos na direção do Pátio e, de repente, sua visão escureceu.
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