Alana ainda estava focada na mensagem que recebera. Perguntava-se que tipo de troca seria e o que, exatamente, seria trocado. Tentou mandar uma mensagem perguntando, entretanto, ela não foi enviada. Respirou fundo, tinha um palpite, mas achava melhor esperar pela confirmação.

-Que... – Mila falou com a voz trêmula e só então Alana se lembrou de que não estava sozinha – Que nojo! O Marcos... E a mãe dele... – passou as mãos pelo rosto e pelo cabelo, ela parecia atordoada – Então, era isso! – sussurrou para si mesma e sua fala chamou a atenção de Alana.

-Isso o quê? – perguntou, franzindo o cenho. Mila fez uma expressão assustada e tampou a boca com a mão, percebendo que tinha dito o que não podia. E Alana percebeu aquilo também.

Em uma tentativa de acalmá-la para ver se descobria algo, Alana a levou até o sofá e, assim que Mila se sentou, foi buscar um copo de água. Enquanto estava na cozinha, recebeu outra mensagem. Nervosa, pegou o celular.

“Alana, a menina que não é tão santa assim.”

Seu coração pulou e sua respiração falhou, causando uma vertigem. Tentando se manter calma, dizia para si mesma que aquilo era só um truque barato, afinal, não tinha como ninguém saber. Sem contar que não tinha sido culpa dela, certo? Aquilo não estava em seus planos. Suspirou e, fingindo que nada tinha acontecido, voltou para a sala.

Mila estava sentada com a cabeça apoiada nas mãos. Com a aproximação de Alana, ela levantou o tronco e pegou o copo com água, tomando dois longos goles. Respirou bem fundo, aparentando estar um pouco mais calma.

-Não acredito... – ela murmurou.

-Mila... – sua voz saiu mais suave do que previra e agradeceu por aquilo – Eu sei que é algo... Chocante... Mas, não tenho certeza se é motivo para ficar tão abalada. – Mila encarou Alana por alguns instantes e depois desviou seu olhar para o chão – Por que ficou assim? – a outra a olhou rapidamente e Alana percebeu que ela queria contar, mas talvez não tivesse coragem – Mila. – chamou-a – Pode falar, não vai sair daqui. Sorriu fracamente – Nem tenho para quem contar. – Mila fechou os olhos com força e soltou um longo suspiro.

-Eu sabia que... Marcos tinha algum segredo. – falou devagar, como se estivesse analisando suas próprias palavras – Eu só não sabia que era... Isso! Agora... Agora tudo faz sentido! – seu olhar estava perturbado – Alana, em algum momento, Adriana descobriu algo sobre o Marcos, deve ter sido esse segredo! Ela começou a tortura-lo... Sempre aparecia onde ele estava, fazia ameaças por mensagens... – Alana engoliu em seco. Adriana também ameaçava pelo celular? – Dizia que
espalharia o tal segredo... – levantou-se do sofá – Eu não tinha ideia do que se tratava, mas eu sabia que deveria ser algo realmente sério... – tomou mais gole de água.

-E o que mais? – Alana perguntou com a voz dura.

-Marcos começou a ficar cada vez mais irritado. Escrevia coisas horríveis sobre ela, fazia desenhos macabros, dizia que faria um monte de coisa com ela...

-Que tipo de... Coisa? – perguntou com receio.

-Ah... Que a faria se arrepender, sofrer tanto quanto ele... Tortura física e mental... E que a vingança dele aconteceria rapidamente. – sentou-se novamente – Mas, aconteceu algo estranho...

-O que?

-No mesmo dia que Adriana foi dada como desaparecida... – Mila franziu o cenho – Marcos ficou repentinamente doente e não foi à aula... E no dia da morte dela... – Mila arregalou os olhos e ficou pálida – Alana, será que ele foi capaz de mata-la? – Sua voz saiu esganiçada e trêmula – Quero dizer, de um dia para o outro ele ficou bem, tranquilo, não sentia mais raiva... – falou depressa – Será que ele foi capaz de matar Adriana?

Mila parecia desesperada e Alana queria poder acalmá-la um pouco, mas não sabia como fazer aquilo. Naquele momento, tinha mais do que certeza de que Marcos era o verdadeiro culpado, o que também a deixava transtornada.

-Acho... Que não temos provas... – gaguejou. Mila se levantou novamente e começou a andar de um lado para o outro.

-Como só fui perceber isso agora? Passei todo esse tempo achando que Marcos só tinha mudado de humor drasticamente porque se sentia aliviado com a morte dela... Nunca imaginei que ele pudesse tê-la matado!

-Mila...

-Eu vou embora. – falou de súbito.

-O quê? Espera, daqui a pouco meus pais estão chegando...

-Não, eu realmente vou, Alana. Preciso pensar. – olhou para copo em cima do sofá – Obrigada pela água.

Sem dizer mais nada, Mila abriu a porta e foi embora. Depois de tudo, a última coisa que Alana queria era ficar sozinha, mas não tinha outro jeito. Trancou a porta e, quando estava indo para o seu quarto, recebeu mais uma mensagem. Respirou fundo e a olhou.

“Sei do seu segredinho e é melhor não duvidar disso. Confesso que quero muito espalhá-lo para toda a cidade para que todos possam saber quem você realmente é, vamos ver se o seu amado André vai continuar gostando de você. Mas façamos o seguinte: você se afasta dele e eu penso se guardo o seu segredinho.”

Suas pernas vacilaram e Alana quase caiu na escada. Era óbvio que as chantagens viriam, mas ainda não estava preparada para elas. Ouviu barulho de carro e, quando viu seus pais entrarem em casa, correu para eles.

-Nossa, sentiu tanta saudade assim? – sua mãe perguntou, rindo.

-É claro! – Alana suspirou aliviada – E como está a vovó?

-Ótima! – respondeu seu pai, enquanto a mãe se dirigia para a cozinha – A cirurgia foi um sucesso. Agora ela só tem que cuidar dos pontos e não fazer esforço.

Alana sorriu e se juntou ao pai no sofá.

-O que aconteceu com a janela? – perguntou preocupado e se aproximou dela. Alana paralisou e teve que pensar rapidamente em uma desculpa. Tinha se esquecido completamente da janela.

-Vândalos... – sua voz saiu vacilante – Fizeram isso logo que eu voltei da escola.

-Minha nossa! E você está bem, filha? Por que não nos avisou?

-Ah... Eu não queria preocupar vocês... E está tudo bem, só não consegui ver quem fez isso.

-Esse mundo está perdido, mesmo. – seu pai suspirou – Onde já se viu? Agora até em cidade do interior tem essa gente! – voltou-se para Alana – E você, mocinha, da próxima vez que acontecer algo, é bom avisar a gente, caso contrário, não poderá mais ficar sozinha. – para Alana, aquilo até que seria bom, em partes. Concordou com um gesto de cabeça e seu pai olhou o estrago – Amanhã vou atrás de alguém para
trocar esse vidro.

-Tem que avisar a polícia. – sua mãe disse, aparecendo na sala com um pote de macarrão.

-De novo não, mãe...

-Por que não, Alana? Isso não pode ficar assim! – disse de maneira convicta – Agora, me faz um favor, parece que Margarida está doente, então, vai até a casa dela entrega essa comida? – Alana fez uma expressão irritada.

-Por que eu? – só de pensar naquela velha já dava calafrios.

-Porque eu e seu pai estamos cansados. Vai filha, faz isso para mim. – Alana revirou os olhos e pegou o pote.

Antes de sair de casa, olhou bem para ver se Marcos a olhava de algum ponto de dentro da casa dele. Nada. Respirou fundo e praticamente correu até a casa de Margarida. Tocou algumas vezes a campainha e logo a mulher apareceu na porta.

Ela tinha o cabelo preso em um coque, suas roupas eram largas e desbotadas, aparentando serem muito velhas, tinha meia nos pés e usava uma pantufa rosa. Assim que viu Alana, abriu um sorriso e fez um gesto para que ela entrasse, Alana negou com a cabeça.

-Obrigada, mas só vim entregar essa comida para a senhora, foi a minha mãe que fez. – Margarida pegou o pote das mãos de Alana e ficou olhando para a menina.

Alana ficou incomodada com aquilo, só queria se despedir logo e voltar para casa. Margarida deu um suspiro cansado e, com a ponta dos dedos esqueléticos e enrugados, tocou a face de Alana, o que a fez sentir medo.

-Coitada da Alana... – a velha falou com pesar – Ainda vai passar por tanta coisa... – Alana ficou nervosa.

-A senhora sabe de alguma coisa, não é? – perguntou com voz baixa e rouca, parecia saber exatamente do que Margarida estava falando, mas não conseguia se lembrar.

-De tudo. – sussurrou e cessou a carícia. Com um sorriso triste e uma expressão de choro, continuou – Mas não posso interferir...

Aquelas palavras pesaram para Alana e ela teve vontade de desistir de tudo. Não sabia especificar o que era tudo, mas com certeza não o queria. Sem dizer mais nada, preparou-se para ir embora.

-Alana... – parou e encarou Margarida – Dê um fim a tudo isso, por todos nós.

Não respondeu, apenas saiu da frente da casa dela. Ouviu quando a porta se fechou e tentou ignorar que, mais uma vez, estava sozinha em uma rua deserta e escura. Deu uma rápida olhada para a casa de Marcos e viu dois olhos ameaçadores e raivosos observando-a. Marcos tinha uma expressão de profundo ódio que chegava a desfigurar seu rosto.

Amedrontada, Alana se sentiu estagnar, era como se suas pernas pesassem tanto que não conseguia movê-las. Não percebeu a presença atrás de si e, quando sentiu uma mão em seu ombro, não pôde segurar um grito. Foi virada com certa força e se deparou com Gabriel encarando-a de forma preocupada.

Ao ver aquele rosto conhecido, relaxou de tal forma que sentiu seu corpo todo ficar mole a ponto de ter que apoiar suas mãos no peito dele para não cair. Percebendo isso, Gabriel a segurou de maneira firme pela cintura, fazendo os dois corpos se encostarem levemente.

-O que está fazendo aqui? – Alana perguntou tentando não parecer hostil. No fundo, estava muito feliz por ele estar ali.

-Frequento um bar aqui perto. – só então Alana sentiu o cheiro de cerveja, mas estava fraco e não se sobrepunha ao aroma de hortelã que Gabriel exalava – E você? Por que estava parada no meio da calçada?

Alana não respondeu, apenas ficou admirando aqueles obres verdes e indiferentes que pareciam ainda mais fascinantes quando vistos de perto. Gabriel também a encarava intensamente e aquilo fez Alana se sentir um pouco mais quente.

Para acabar com aquela situação embaraçosa, desviou seu olhar para a casa do outro lado da rua com algum esforço, e percebeu que não tinha mais ninguém a observando. Gabriel seguiu a direção de seu olhar.

-Não gosto do Marcos... – murmurou próximo ao ouvido dela, o que fez com que os pelos de sua nuca se arrepiassem. Assustada com aquela reação, afastou-se rapidamente, acabando com qualquer contato que os dois tinham. Ela gostava de André, não é mesmo? Tinha até sentido ciúmes dele na escola... Amara os beijos que tinha trocados e até desejou por mais, não foi? Então, por que se sentiu um pouco estranha perto de
Gabriel?

-Melhor eu ir para casa. – falou rapidamente – Até amanhã.

Sem esperar por uma resposta, desviou de Gabriel e foi para sua casa. Correu para o seu quarto e se jogou na cama. Tentava não pensar naqueles olhos verdes contornados de preto, quando recebeu uma mensagem.

“Seu prazo é até 14 de maio – Festival da Colheita.”

Olhou para a data e, após alguns segundo, entendeu. Suas mãos começaram a suar e Alana se apressou em mandar um e-mail para Elvira.

“Adriana foi morreu no dia do Festival?”

“E como mais ninguém viu o que aconteceu?” perguntou-se.

Notas finais
E então, o que acharam?? Alguma sugestão??