Notas iniciais
Agradeço ao yuriloaj pela recomendação! Ai, sério, eu sempre fico muito boba com recomendações, sempre levo um susto (gostoso) quando vejo uma nova! Obrigada, Yuri!

“Não dá para acreditar que eu estou acordado tão cedo...” Ikki falou, um tanto sonâmbulo, enquanto ele e Shaka avançavam a cavalo para o topo do pequeno monte, onde havia uma única árvore sentinela, observando todo os arredores.

O sol ainda não havia nascido, e a ideia, partida de Shaka, era de os dois verem o nascer do sol sob a árvore, pois fora naquele exato lugar que Ikki se declarara a primeira vez para o primo. Claro, ele fez isso inúmeras vezes depois, em inúmeros outros lugares, para exaspero de Shaka, mas isso era outra história.

“Eu disse que viria olhar o sol nascer. Em nenhum momento disse que você precisava vir comigo.” Shaka revirou os olhos, abrindo um sorriso sutil que Ikki não detectou. Era engraçado ainda implicar com o moreno, mesmo depois de se ‘acertarem’. “Dizem que o sol nasce mais bonito depois de um temporal...”

“Ah, que primeira manhã romântica seria para nosso namoro. Você vir sozinho até aqui, enquanto eu continuo roncando na cama.” Ikki debochou enquanto o loiro, já mais à frente, descia do cavalo e prendia as rédeas na árvore.

“Finalmente admitiu que ronca à noite. Para mim foi fácil levantar, já que sequer consegui dormir com você imitando um trator do meu lado.” Shaka voltou a comentar, tranquilamente, segurando o riso ao ver o queixo do outro cair e ele descer rapidamente do cavalo.

“Que mentiroso!” Ikki se aproximou e o colocou contra o tronco da árvore. “Teve uma hora que eu acordei no meio da madrugada, e você estava dormindo abraçadinho a mim, feito um anjinho...” Sorriu e deixou os lábios bem próximos.

“Agora, quem está mentindo?” Shaka perguntou, fazendo cara de pouco caso, mas suas bochechas avermelhando o denunciaram. Impossível não ficar constrangido quando Ikki estava tão perto, sussurrando aquele tipo de besteira. “Sai, idiota, o sol já está nascendo e você está perdendo.” Empurrou-o.

“A grama está molhada, devíamos ter trazido algo em que sentar...” Ikki reclamou.

“É só ficar de pé. Não demora mais do que alguns minutos... Depois podemos cavalgar mais um pouco.” Shaka comentou, olhando o espetáculo que se desdobrava no horizonte.

“Estou pensando em outro tipo de cavalgada...” Ikki o abraçou por trás e o beijou na nuca, após afastar os cabelos dourados. Shaka revirou os olhos, mas não negou o arrepio que o beijo lhe causou.

“Por que não estou surpreso?” Shaka ironizou.

“Porque você me conhece há tempo demais para ficar surpreso com algo que eu digo?” Ikki sugeriu, mordiscando-o na junção entre pescoço e ombro.

“Também. Mas você anda convivendo demais com o Milo.” Shaka brincou, fazendo os dois rirem de leve. Ikki foi para o lado de Shaka e o abraçou, ao que o loiro passou um braço por sua cintura. O mais novo ficou admirando o primo, em vez de observar o motivo de terem cavalgado até ali.

“Sabe, o ponto de virmos até aqui era-“

“Eu te amo.” Ikki o interrompeu, e então abriu um sorriso enorme, que iluminava todo seu rosto. Shaka virou o rosto, ignorando o nascer do sol por um instante. Ikki ficava muito meigo nesses momentos. E isso era algo raro... Estendeu a mão e acariciou de leve os cabelos negros dele.

“Também te amo,” Concedeu, com um suspiro. “Feliz agora?” Perguntou, sorrindo de leve ao ver a expressão do outro tornar-se ainda mais jubilosa. Ikki estreitou-o em seus braços tal qual uma serpente e tomou sem pudores a boca que tanto gostava.

“Muito.” Sorriu ao final do beijo. “Já pensou em fazer amor ao ar livre?” Sugeriu, descendo os lábios para o pescoço cheiroso do namorado.

Namorado... Ikki poderia repetir essa palavra mil vezes, e não cansaria.

“Não mesmo. Se você tem um desses fetiches de transar em público, na beira da praia, ou no meio do mato, esqueça, eu não faço esse tipo de coisa quando não estou entre quatro paredes.” Shaka alertou. Para si, vida pessoal deveria se manter no âmbito pessoal, além disso, não queria transar com dois cavalos de plateia.

Ikki fez um beiço, mas por hora não contestou, apenas apoiou a cabeça no ombro do loiro, mantendo-os abraçadinhos para assistir ao restante do nascer do dia. Ainda teria tempo para mudar a cabeça do primo quanto a isso. Ou assim esperava, porque, no que dependesse de si, passaria o resto de sua vida com aquele loiro difícil.

XxX

Dite se espreguiçou feito um gato, ronronando enquanto sentia os músculos se esticarem voltando a funcionar. Os cílios longos tremularam antes de abrir os olhos e, aos poucos, a claridade permitiu que visse o quarto ao redor.

O quê...? Perguntou-se, ainda um tanto grogue de sono. Não reconheceu o cômodo; não era o quarto de uma pensão, tampouco o quarto que dividia com Mu na casa de campo. Quando entendeu que estava num lugar completamente desconhecido, sentou-se em um único movimento na cama... e sentiu a cabeça rodar pela ressaca. Nunca mais beberia tanto numa única noite.

O coração de Afrodite galopou no peito quando a porta do banheiro fez um clique e então um homem entrou no quarto, usando apenas uma toalha na cintura. Nesse momento, Dite sentiu o próprio corpo – nu – fedendo a sexo; seu queixo caiu ligeiramente e seus olhos observaram a água escorrendo pelos cabelos negros e longos de Saga, enquanto este os secava com outra toalha.

“Não achei que iria acordar tão cedo.” Saga sorriu, malicioso, ao ver o loiro acordado. “Não depois de desmaiar no meio da noite.”

Seus dedos se embrenharam pelos cabelos de Saga enquanto este descia com beijos por seu abdômen, puxando sua calça para baixo apressadamente... A sensação abrasadora do hálito do moreno em seu ponto mais sensível, a língua percorrendo caminhos tortuosos e deixando seu pênis pulsante... A boca de Saga o envolvendo, quente e úmida...

“Oh, Deus...” Dite colocou a mão sobre a boca. Não podia acreditar que havia caído nas garras daquele homem. Fora brincar de seduzi-lo, e acabara perdendo todo o controle quando ele o beijara.

“O que foi? Não me diga que perdeu a memória da noite passada...?” Saga perguntou, parecendo um pouco preocupado com a possibilidade. Não queria que o loiro esquecesse, queria que ele lembrasse com perfeição a maneira com que gemera seu nome durante boa parte da madrugada.

Dite se colocou de joelhos na cama, segurando a cabeceira com uma mão e umedecendo os dedos com a outra para se preparar, enquanto Saga, também de joelhos logo atrás, distribuía beijos por seus ombros e nuca... A sensação fascinante de tê-lo invadindo-o, fazendo-o soltar um gemido alto e lânguido que pareceu ondular por todo o quarto... As mãos de Saga deslizando por seu abdome liso e firme até a virilha e as coxas, enquanto ele se movia dentro de si, fazendo o som do choque dos corpos se juntar aos gemidos de ambos. “Saga...” gemera, em êxtase.

“É claro que lembro.” Dite se recompôs rapidamente, ignorando a queimação no corpo pelas lembranças e pelo estímulo visual logo à sua frente. Seu tom saiu indiferente, como se aquilo não houvesse significado nada. Saga ergueu uma sobrancelha, não comprando o teatro do loiro.

Foi até a cama, jogando as toalhas na cama de modo que estava completamente nu quando colocou um joelho sobre o colchão e puxou Afrodite pelo braço, querendo beijá-lo. O loiro se encolheu e soltou um resmungo baixo, desviando o rosto, mas Saga simplesmente desceu os lábios e começou a beijá-lo no pescoço.

“É melhor ir tomar um banho também. Meu cheiro está todo em você...” Saga provocou, levando uma mão para apertar a coxa graúda do loiro por baixo do edredom.

...Saga forçou suas as costas para que se inclinasse para frente até se debruçar no encosto da cama... as mãos do moreno envolveram com força a cintura estreita e pálida, e pôde sentir o peso dos olhos dele admirando a forma como os músculos delicados de suas costas se moviam conforme se tocava no mesmo ritmo desenfreado das investidas deliciosamente brutais contra seu corpo...

“Não pense que só porque transamos-“ Dite começou a falar, após fugir do ataque matinal do moreno. “Eu vou ficar todo namorandinho com você, feito Aiolia e Mu.” Dirigiu-se até o banheiro, sem se importar de estar nu, mantendo o queixo o mais erguido possível.

Antes que Dite tivesse tempo de fechar a porta, porém, Saga espalmou uma mão contra ela e olhou com um sorriso matreiro através da fenda deixada.

“Esqueceu de pegar uma toalha.” Falou, inocentemente. Dite torceu o nariz, pegou a toalha com um movimento rápido e bateu a porta na cara de Saga. Este riu baixinho e foi terminar de se arrumar. Enquanto se arrumava, o sorriso foi diminuindo. A noite fora incrível, mais do que havia imaginado. E agora, conseguiria continuar a suspeitar do loiro?

XxX

Mu ficou olhando pelo vidro do quarto por alguns momentos, observando os campos próximos molhados pela tempestade, e o topo das árvores da floresta ao redor, que estavam calmos agora que não se sacudiam ferozmente pelo vendaval da noite anterior. Abraçou o próprio corpo, sentindo um frio que não era culpa da temperatura mais baixa, mas de suas mentiras. Havia passado toda a tarde anterior mentindo para Aiolia, ainda que houvesse falado umas verdades pelo meio para não ficar muito suspeito (realmente adorava Senhor dos Anéis, desde o livro, até os filmes).

Por que tem de ser tão complicado? Mu se perguntou. Por que eu não fui adotado por alguém normal depois da morte dos meus pais? Suspirou e depois balançou a cabeça. Não podia ficar enchendo a cabeça com esse tipo de pensamento. Lamentações não mudariam os fatos, e tampouco o que precisava fazer para salvar a pele de Dite e sua. Sou muito egoísta por usar outra pessoa para salvar a minha vida? Não conseguiu evitar o último pensamento, e um coro em sua mente pareceu exclamar ‘sim, sim, sim!’ repetidas vezes, reverberando pelo corpo e atingindo cada célula dele com a culpa.

Mu se sobressaltou quando Aiolia voltou ao quarto e, ao virar-se, colocou uma expressão inocente, e não culpada, no rosto, mas um sorriso que não tinha nada de falso moldou seus lábios quando viu o leonino recém saído do banho, os cabelos cobres molhados parecendo mais lisos do que realmente eram.

“Ah, acordou!” Ele sorriu ao vê-lo de pé. “O pessoal já deve estar tomando café da manhã, acho que acabamos dormindo demais.” Aiolia disse.

“Foi bom dormir com você.” Mu falou e só notou o duplo sentido da frase quando Aiolia abriu um sorriso torto. Corou e pigarreou, e achou que era melhor ir tomar uma ducha também antes de sair. “Eu acho melhor ir me aprontar também...” Respondeu, dirigindo-se para fora do quarto. “Aquela banheira é ótima para tomar banho, a propósito. Esqueci de comentar ontem à noite” Falou antes de deixar o quarto.

Ótima para um banho a dois, também. Aiolia pensou, mas apenas sorriu de leve, balançando a cabeça. Fazia um bom tempo que o leonino não transava com alguém, então era óbvio que a vontade era alta. Ainda mais com um garoto tão bonitinho e meigo quanto Mu. Sentia-se um pouco culpado, entretanto. Durante o banho havia refletido que talvez estivesse usando aquele romance que nascia entre os dois para esquecer a morte dos pais. Impossível não pensar nos pais quando ficava sozinho...

Depois de alguns segundos refletindo, pegou o celular e discou para o número do irmão.

“Aiolia! Finalmente você ligou!” Aiolos falou assim que atendeu à chamada. “Eu já estava para ligar, mesmo imaginando que fosse ignorar minha ligação...”

“Desculpe,Olos. Eu sei que fui rude na última vez que nos falamos, me desculpe.” Falou, sentindo um peso enorme sair de suas costas em seguida. Quando se excluíra, depois da morte dos pais, também deixara Aiolos de lado. Ele morava em outro país, tinha uma família e era professor em uma faculdade da cidade. Tendo sido seu sonho ser professor, havia brigado com o falecido pai e saído do país. Quando a notícia do acidente surgiu, ele voltou o mais rápido que pôde, comparecendo ao funeral e permanecendo ali para apoiar o irmão e organizar tudo que os pais haviam deixado, pois Aiolia tinha apenas vinte anos e não saberia se virar sozinho com toda a burocracia.

Porém Aiolia se trancou no apartamento e, quando saiu, deu a festa, de modo que os dois acabaram brigando e o mais novo pediu que ele não o ligasse. Quando ficou mais calmo, Aiolia só conseguiu mandar uma mensagem a ele, dizendo que estaria na casa de campo e que, se ele quisesse, poderia ir também, pegando carona com Shun e Kanon.

“Está tudo bem, Aiolia. Logo nós poderemos nos falar melhor. Eu quero te ver antes de voltar para Escócia. Eu conversei com o Shaka, ele me disse que você está melhor, e eu fico feliz por isso.” Aiolos falou em seu tom calmo, que sempre passava uma sensação boa de segurança e paz.

“Estou tomando seu tempo... Você deveria estar lá com a sua família e tem seu emprego. Você não vai perdê-lo ou algo assim, vai?” Perguntou, preocupado, sentindo-se uma pedra no sapato do irmão.

“Você é também minha família, Olia. E não se preocupe, lá também estávamos de férias, não estou perdendo nada aqui, apenas ganhando.” Garantiu, firme. “Eu infelizmente não poderei ir aí te ver hoje, pois surgiram uns contratempos. Mas descanse, nos veremos amanhã, está bem?”

“Nos vemos então, mano. Tchau.” Despediu-se e desligou assim que Aiolos fez o mesmo.

Não sabia por que, mas de repente, toda a vontade de aproveitar o dia se esvaiu e, tal qual um robô que não pensa no que faz, foi até a porta e a chaveou, trancando-se no quarto.

XxX

“Eu não entendo. Nós nos falamos normalmente pela manhã, mas quando tentei voltar ao quarto, a porta estava chaveada.” Mu explicou para todos os amigos presentes, enquanto eles faziam um lanche matinal. O dia estava ensolarado e bonito, com uma brisa fresca da noite anterior ainda correndo pelos campos.

“Ele está assim... Instável desde a morte dos pais.” Shaka balançou a cabeça. “Eu sabia que toda a aparente alegria dele não iria durar muito.”

“Mas não dá para deixar ele lá trancado o dia inteiro. Isso não faz bem para ele.” Milo falou de boca cheia, recebendo um beliscão de Camus por isso.

“Eu já tentei bater, mas ele não me responde.” Mu falou, baixando a cabeça.

“Talvez ele só queira uns momentos sozinho. Não quer dizer que ele vai ficar outra semana trancado num quarto.” Camus sugeriu.

Se ele fizer isso, eu e Mu estamos mortos. Dite pensou, aborrecido com a atitude do leonino. E não se importava de estar soando insensível, não era Aiolia que estava jurado de morte.

“Vamos esperar até o almoço, então. Aí vemos o que devemos fazer.” Saga finalizou a discussão, e todos assentiram, terminando o lanche num silêncio taciturno.

Um pouco depois, Dite puxou Mu para um canto e lhe falou.

“Não temos tempo para os ataques de piedade dele, Mu. Cada hora é valiosa e você precisa ter ele apaixonado por você o quanto antes. Esse é o momento ideal para consolá-lo e deixá-lo dependente de você...” Murmurou, conspiratório. Mu sentiu um nó se formando na garganta e se afastou abruptamente.

“Como consegue ser tão frio?” Foi tudo que perguntou, irritado, antes de se afastar do loiro.

Saga, que havia ido atrás de Afrodite, olhou aquilo de longe, sem conseguir escutar muito bem o que falavam, mas achou a cena estranha. Dite parecia ansioso, enquanto Mu tinha um poço de culpa escorrendo pela face cheia de dúvidas. O que estão aprontando, esses dois? Perguntou-se. No fundo, queria que fosse apenas neura de sua mente desconfiada.

Porque talvez estivesse gostando mais do que deveria daquele loiro de língua afiada.

XxX

Kanon e Shun chegaram um pouco antes do almoço. Shun estava empolgado, abraçou-se a Ikki e disse que estava cheio de novidades, e soltou um gritinho empolgado quando Ikki lhe contou que ele e Shaka estavam namorando. Kanon cumprimentou a todos com entusiasmo, apresentando a namorada que os amigos não conheciam. Era uma bela garota, mas parecia do tipo arrogante e esnobe, torcendo o nariz para quase tudo.

“Só estou com ela pelo corpo.” Ele sussurrou para Saga. “E você? Pelo que já pude notar, está de olho naquele loiro coxudo.” Riu-se, falastrão.

“Não chegue perto dele.” Saga avisou, já que o irmão era bi e nada fiel com nenhuma das namoradas que já tivera. Kanon o olhou com malícia, e seus olhos diziam a Saga que ele era uma idiota perto de se apaixonar.

“É raro te ver tão ciumento, maninho.” Brincou.

Já Mu, ainda que houvesse simpatizado muito com Shun e os dois houvessem tido a chance de conversar por algum tempo, ainda tinha todos os pensamentos voltados para Aiolia. Queria tanto estar com ele... Dizer-lhe alguma palavra de conforto, beijá-lo e afirmar que estaria ali por ele. Mas não estarei, vou fugir assim que colocar as mãos no dinheiro dele.

“E então ele me levou para o apartamento dele, dá para acreditar? Me beijou e depois jogou fora quando descobriu que eu tinha quinze anos. Como se eu ainda fosse uma criança! Mas depois disso continuamos nos vendo... Só que ele continua me chamando de criança e não tentou me beijar mais nenhuma fez.” Shun tagarelou e depois fez bico. Mu riu suavemente.

“Talvez ele esteja esperando você crescer, mas te mantendo por perto enquanto isso.” Sugeriu.

“Você acha?” Os olhos claros de Shun brilharam. “Será que ele ainda me quer...?”

Mu não tinha como responder nada com certeza, mas nem precisou responder, pois logo Shun engatou uma nova conversa; parecia ter simpatizado bastante com o ariano, sentindo-se confortável para conversar sobre tudo. Mu também gostou dele, e sentiu-se mal por repetir certas mentiras.

Já era metade da tarde quando Mu cansou-se daquilo. Ou melhor, de esperar que Aiolia saísse daquele quarto. Então fez algo impensado. Quando todos estavam ocupados com outras atividades, foi até a janela de Aiolia, erguendo o olhar para vê-la no segundo andar.

Não parece tão alto. Pensou, mordendo o lábio. Havia uma árvore próxima à janela, ainda que não suficientemente próxima, mas teria de bastar. Escalou a árvore, agradecendo por ser leve e ter alguma agilidade, e pulou contra a parede do segundo andar. Seu coração bateu forte, jurou que iria cair, mas conseguiu se segurar e equilibrar os pés sobre a curta linha de cimento que circulava a casa entre o primeiro e segundo andar. Caminhou passo a passo, com o corpo grudado à parede, até finalmente alcançar a janela do quarto do leonino.

Felizmente, o vidro não estava travado e conseguiu abri-lo, pulando para dentro do quarto, em segurança. Suspirou aliviado ao sentir o chão sob seus pés.

“Mu!” Aiolia impressionou-se, erguendo-se da cama onde estivera deitado, olhando inerte para o teto como se ele pudesse lhe confortar, ou dar-lhe todas as respostas do mundo.

“Sinceramente, Aiolia...” Mu falou, caminhando até e imediatamente envolvendo-o em um abraço apertado. “Como pôde me deixar ‘sozinho’ com os loucos dos teus amigos?” Brincou, apertando-o mais em seus braços.

Aiolia, ainda um tanto perplexo pela aparição súbita do ariano, acabou soltando uma risada curta e o abraçou pela cintura, escondendo o rosto da curva do pescoço dele.

“Me desculpe. Eu... Às vezes não consigo suportar essa dor.” Sussurrou. “Eu fico tentando entender o porquê...”

“Nunca vai encontrar nenhuma resposta para isso.” Mu murmurou e o guiou até a cama.

“Eu sei... Só é, difícil encarar a morte tão de perto.”

E então, quando perceberam, perderam-se conversando sobre o assunto. Mu se deitou com Aiolia, e o leonino o abraçou, descansando a cabeça em seu peito. A sensação de conforto que Aiolia sentia naqueles braços era inexplicável.

“A morte é um tema que atordoa a mente humana desde sempre, não é mesmo?” Mu perguntou, retoricamente, em algum ponto da conversa. “Fundaram-se religiões para explicá-las, os antigos erigiram seus deuses, os intelectuais buscam explicações e elas são tantas, que tem para todos os gostos e culturas. No fundo, tudo o que queremos é nos sentir seguros, ter a certeza de que, aquilo que somos e aquilo que temos, não é só um segundo na eternidade da vida, do universo...”

“Vou ser sincero e dizer que não acredito em vida ou não vida após a morte. Eu penso que a vida em si é eterna, mas as maneiras como ela se manifesta, não. Vejo a vida como eterna não por uma crença, mas por observação. Até mesmo uma estrela quando morre... de sua explosão de despedida, nasce um novo universo.”

“Mas é difícil para nós vermos além de nós mesmos no meio de tudo isso. Nada além de nossa família, trabalho e pequeno círculo social. Agora, neste mesmo momento enquanto conversamos, o mundo está ruindo. Pessoas nascem e morrem, milhares sofrem, sangram uma dor que jamais conheceremos. Mas existe um muro ao nosso redor, que nos torna indiferentes, que nos torna cegos... Quando meus pais morreram, eu sofri, e não vou mentir que ainda sofro, às vezes. Mas então pensei, refleti por muitoo tempo e percebi que, se eu fosse sofrer por eles, teria que sofrer pelo mundo. E sofrer não muda as coisas. Não vai trazer ninguém de volta, e não vai melhorar a vida dos que ficaram... Sabe, tem um monte de gente lá embaixo que te quer muito bem.” Mu olhou sério e sereno para Aiolia, afagando-lhe os cabelos.

Aiolia piscou, como se acordasse de um sonho. As palavras de Mu pareciam reverberar por sua mente, deixando-a mais leve, menos dolorida. Algumas lágrimas caíram de seus olhos, mas acabou sorrindo. Tocou o rosto do ariano, admirando a tenacidade dele, o quanto era belo por dentro e por fora.

Meu Deus, como eu te amo. Pensou, mas não verbalizou. Seu coração se apertou e aqueceu, por não estar vazio.

“Quer ir visitar a cidade comigo?” Aiolia perguntou, aproximando os lábios do ariano e capturando-os antes que Mu conseguisse responder. O beijo tornou-se intenso em pouco tempo, e Mu alegrou-se por o outro ter saído do estado letárgico. Abraçou-se com força a ele e gemeu quando Aiolia subiu por cima de si e segurou suas coxas, erguendo-as para se encaixar melhor entre suas pernas.

Mu sentiu falta ar e o coração disparou velozmente. Era a primeira vez que ficava com alguém daquela forma, entre quatro paredes, toques íntimos e gemidos fracos. Aiolia deslizou uma mão por baixo de sua camisa e acariciou os músculos delgados de seu abdômen, até chegar a um dos mamilos e massageá-lo. Mu ofegou e quebrou o beijo, corando. Oh... não sabia que garotos também eram sensíveis ali.

“Aiolia...” Sussurrou fraco, sentindo os dentes do leonino roçarem pela pele de seu pescoço. “É melhor... irmos para cidade, não é? Senão... fica tarde...” Soltou outro gemido enquanto sentia a outra mão de Aiolia acariciando a parte interna de uma de suas coxas.

Empurrou-o por reflexo quando sentiu a mão do mais velho deslizar sobre a calça para seu membro já duro. Aiolia caiu sentado na cama e se envergonhou por quase ter perdido o controle. Sorriu, sem-jeito.

“Me desculpe.” Disse, vendo o rosto afogueado e a respiração desacertada do ariano. “Então vamos, estou cansado de ficar nesse quarto.” Puxou-o, beijou-o e voltou a sorrir daquela forma que derretia Mu por completo.

XxX

“Eles foram à cidade sem nós.” Milo fungou, infeliz por ter perdido a chance de inventar alguma traquinagem com os amigos. Apenas Kanon e a namorada haviam ficado, além deles, e deviam estar lá em cima, trepando feito coelhos. Não que Milo tivesse alguma moral para julgá-los.

“Odeia tanta a ideia de ter ficado aqui comigo?” Camus perguntou. Já era noite e os dois estavam assistindo a um filme, abraçadinhos e comendo pipoca.

“É claro que não, meu ruivinho.” Milo mordiscou a bochecha do outro. “É só que eles saíram e nem nos avisaram.”

“Nós estávamos dando um passeio pela trilha... Eles não sabiam se íamos demorar ou não. Vai que você inventasse de transar lá no meio do mato...” Camus deu um selinho no namorado, com os olhos ainda de esguelha no filme.

“E você iria aceitar?” Milo se empolgou. “Podíamos fazer isso amanhã!”

O outro riu.

“Ai, ai, por que eu fui colocar ideias nessa sua cachola?” Perguntou, aninhando-se mais a ele. “Veremos, se você for um namorado comportado, vou pensar no teu caso...”

“Rá! O Ikki vai se morder de inveja!” Milo falou, empolgado, colocando uma grande quantidade de pipocas na boca, em triunfo.

“Vocês andaram apostando?” Camus ergueu as sobrancelhas e olhou para o loiro em repreensão. De boca cheia, mastigando mais pipocas do que poderia engolir, Milo tentou abrir um sorriso inocente que nunca convencia ninguém.

“Er... não?” Conseguiu falar de boca cheia. Camus riu e revirou os olhos. Tinha como não amar aquele namorado bobão que o fazia tão feliz e sempre arrancava de si inúmeras risadas gostosas? Jamais existiria alguém como seu loiro.

“Como eu vou viver sem você, hein?” Perguntou, ‘roubando’ o nariz dele e então dando-lhe mais um selinho.

“Você não vive.” Milo estufou o peito, ainda de boca cheia.

XxX

“É sua primeira vez num jantar a dois?” Aiolia perguntou, inclinando-se para Mu e o beijando na bochecha, enquanto bebiam vinho e esperavam o jantar chegar. Estavam num pequeno, mas agradável restaurante da cidade. Aiolia poderia levá-lo aos mais caros e requintados lugares do país, mas aquele estabelecimento tinha seu charme e beleza. “Adoro esse seu jeito encabuladinho quando estamos apenas nós dois.”

“Não fale assim...” Mu pediu, justamente porque acabava ainda mais envergonhado. “As pessoas ficam sem-jeito quando fazem algo pela primeira vez, está bem?” Explicou o óbvio, ao menos o óbvio para si. Aiolia mordiscou sua orelha e Mu sentiu todo seu corpo se arrepiar violentamente. “Alguém vai nos ver...”

“Deixe que vejam e olhem. Nunca me importei com isso, e você também não deve se importar. Às pessoas têm de aprender a cuidar das próprias vidas.” Se afastou quando a comida chegou. Estavam sentados em um espaço mais particular do recinto, então era pouco provável que alguém além dos garçons os incomodasse.

“Eu admiro esse seu jeito que não teme o mundo.” Mu falou, sorrindo de leve. “Está bem, não vou me importar com os outros.”

“Perfeito!” Aiolia elogiou. “Eu queria agradecer...” Mu o olhou. “Por hoje à tarde. Eu não sei, mas me sinto melhor. Ainda dói, é claro, mas... Eu estou estranhamente feliz aqui com você.”

Oh, Deus... Mu mordeu o lábio. Conseguirei mesmo enganá-lo? Como posso ser tão baixo?

Engolindo as lágrimas que vieram para manchar-lhe o rosto, Mu sorriu e se inclinou para beijar os lábios do leonino.



Notas finais
Gente, own, adoro escrever as cenas fofas dessa história. Esses casais amados que CDZ têm são tudo de bom. ♥
Obrigada a todo mundo que está comentando e acompanhando. Cristal_black, Cler Night, Mitchan Amamiya, Kemylly,
menina dos olhos, Flying Cupcakes, Taia, Bruna Uzumaki, Orphelin, Kao, Bia Yuuji, Jenny Camui, Ambrose Nym, Azarella, yuriloaj, Ellocin e Álefe! Adoro-os! ♥
E até a próxima! ;*