Nyrel - Uma História de Amor
39 Saudades e Despedidas
NYREE
Comecei a ficar entediada, enfiada naquela estranha cama.
Era muita coisa para digerir.
Quando todos nós havíamos pensado que tudo estava finalmente terminando bem, uma completa loucura havia acontecido.
Ainda não conseguia tirar da mente a hora em que Hermione e Rony haviam nos contado sobre o que minha atacante dissera, depois que eu havia ficado inconsciente.
O medo tinha se apossado de mim, ao imaginar o quanto minha querida amiga havia chegado perto da morte.
E, então, Darel os salvara.
Darel... suspirei, com um nó bobo na garganta.
Nenhuma dor que a tal Comensal da Morte me infringira chegou perto do meu pavor ao saber que Darel se arriscara por eles. Não que eu achasse errado, obviamente. Afinal, eu mesma poderia – e devia – ter feito o mesmo no lugar dele.
Mas a preocupação era impossível de ser contida.
O que mais me intrigava é o que havia me dito sobre uma profecia sobre Hermione.
Como era possível?
Embora isso me preocupasse, decidi que não ficaria pensando naquilo por hora.
Uma hora depois de partirem, recebi uma ligação de Darel, que me fizera prometer que repousaria e pararia de me incomodar com qualquer coisa que fosse.
Recordei-me de ter sorrido, quando ele se despediu, parecendo tão aflito de desligar o telefone quanto eu.
Aquela não foi a única de suas ligações, que perduraram por mais dois dias.
Com elas, fui sendo atualizada de tudo que estava acontecendo no hotel. Darel me contara sobre a reação abalada dos pais de Hermione – já com suas velhas memórias, e que haviam ouvido, aflitos, a mesma história que haviam me contado.
E, no dia seguinte, Darel voltara a ligar, risonho, contando para mim da festa-surpresa que haviam feito para Hermione – que, pelo visto, diante da bagunça dos dias anteriores, nem se lembrara que completaria mais um ciclo de vida.
Ainda ria com os detalhes da festinha, que incluíram a garota adorando o lenço de pescoço que eu e Darel havíamos escolhido, dias antes, e, pelo que entendi, uma convulsão febril de ternura quando Rony lhe deu um lindo colar prateado, com uma forma conhecida pelos maoris – um oito horizontal, símbolo do infinito.
Assim que o telefone voltara a emudecer, devolvido ao criado-mudo pela enfermeira, olhei para cima, encarando o branco impecável do teto do quarto.
O amor que eu sentia por Darel, assim como o carinho que eu criara por aqueles dois estrangeiros tão fantásticos, parecia me sufocar de dentro para fora. Mas, para meu humor e espanto, era uma sensação boa, que preenchia meu corpo, como uma bolha quente e agradável.
Eu ainda não conseguia explicar como meu coração ainda conseguia bater, se amar Darel devia ser forte demais para que conseguisse suportar.
Afaguei o colar de pena que ele havia colocado em mim, pouco antes de retornar para o hotel, e sorri.
Não importava se não conseguia explicar.
O que importava era continuar amando aquele garoto incrível, até que não tivesse mais forças, pelo resto da eternidade.
—---------------------o--------------------------
A ambulância do hospital me levou de volta, a pedido de Darel, estacionando suavemente em frente á entrada do prédio.
Estava começando a me familiarizar com a gama de palavras confusas e novas que os nonmīharos usavam em sua comunidade.
Uma simpática moça ajudou os homens do resgate, descendo-me da ambulância e me levando até o sofá da recepção.
Agradeci á eles, acenando, enquanto retornavam para o carro. Vi, ao longe, a ambulância dar a partida e ir embora do estacionamento.
— Já avisei seus amigos lá em cima – ela sorriu – estão descendo para vê-la.
Assim como dissera, em poucos minutos, vi Rony, Hermione e Darel descendo as escadas, vindo em direção á sala de espera, atrás de um casal de meia-idade, provavelmente os pais de Hermione.
— Prazer – o homem se adiantou, apertando gentilmente minha mão – Wendell Granger. E esta é minha esposa, Monica.
— O prazer é meu – disse, sorrindo.
Hermione se aproximou, revirando os olhos para os pais e me fazendo rir. Cingiu delicadamente minhas costas, como se temesse me apertar demais em seu abraço.
Foi minha vez de revirar o olhar, enquanto a abraçava o mais forte que podia.
Ela guinchou, surpresa e humorada.
— Nossa... você realmente está bem melhor – Hermione me encarou. Para meu choque porém, seu sorriso murchou, e ela baixou a cabeça, tensa — Nyree... quanto à Kristina, eu...
Balancei a cabeça, erguendo a mão e interrompendo-a.
— Pare, pare – funguei, exasperada — você não teve culpa de nada.
A garota piscou, franzindo os lábios, como se quisesse protestar, ou me dar uma mordida.
Do jeito que ela me olhava, como se eu fosse o coala mais fofo do mundo, a segunda opção era mais plausível.
— Vamos? – chamou o pai de Hermione, abrindo a porta traseira do carro que Darel alugara, estacionado diante da entrada do hotel.
Vi todos se acomodarem dentro do enorme automóvel, conversando animadamente.
Foi quando, surpreendentemente, Hermione lançou um olhar assustado para fora da janela, que só parou quando recaiu sobre mim.
— Nyree! – ela ofegou, guinchante, pondo o rosto para fora da porta.
Arquejei, compreendendo, e sentindo um aperto no coração.
Hermione queria que eu fosse com eles.
A amizade que havia nascido entre nós já era forte o bastante para fazer meus olhos lacrimejarem com a eminente despedida.
Sorri, segurando sua mão. Hermione me olhou, desolada.
— Não vou caber aí dentro, senhorita – falei, o peito parecendo partir-se em mil pedaços — vou ficar aqui, hospedada com um amigo de Darel... Queria agradecer... – sacudi os ombros, tentando disfarçar a tremedeira emocionada que me acossou — por tudo. Por trazerem Darel de volta para a aldeia... de volta para mim...
Vi Darel lançar um sorriso para mim, agradavelmente pasmo.
Fui até a dianteira do carro, aproximando meu rosto de sua janela, e dando-lhe um beijo carinhoso.
Darel fingiu estremecer, saltando os olhos, e fazendo todos rirem.
— Volte logo – sussurrei, afagando sua mão.
— Sim, senhora – ele assentiu, beijando meus dedos e me fazendo suspirar.
Afastei dali, acenando para Rony, Hermione e o casal Granger. Meu coração quase se estilhaçou ao ver Hermione mergulhando o rosto no ombro de Rony, como se sufocasse o choro.
Apesar de tudo, me acenou de volta, chorosa, sorrindo alegremente para mim.
— Adeus! .
— Cuide-se, querida!
Darel me fitou sugestivamente, a apreensão turvando cada centímetro de seu rosto, enquanto dava partida do carro.
Assenti para ele, tentando tranqüilizá-lo.
O pior havia passado, afinal de contas.
Vi-os se distanciarem cada vez mais, embarcando na estrada que levava para fora da cidade.
Eu ia sentir uma falta insuportável daqueles dois...
A únicas coisa que amenizaria a saudade daquele casal maluco de ingleses seria a companhia de Darel em minha vida.
Por que, no fim das contas, eu não me despedira de dois amigos.
Despedira-me de meus novos irmãos.
E o tanto que sentia falta de minha família em Tokonga, sentiria também de Rony e Hermione.
Fale com o autor