Nyrel - Uma História de Amor
40 Enlaces
Cada segundo que chegávamos perto do aeroporto, para minha perplexidade, parecia estar retirando, aos poucos, cada porção de ar que havia em meus pulmões.
Lancei um olhar para Rony, que afagava a cabeça de Hermione em seu ombro, e senti um nó nascer em minha garganta.
A vida é feita de encontros, reencontros e desencontros. Meu pai vivia dizendo isso. Nós conhecemos pessoas. Algumas marcam sua vida para sempre, e outras, tal cal brisa passageira, desaparecem com o tempo.
Mas aqueles dois... eu sabia a verdade.
Mesmo que laços de sangue não nos unissem, o meu sentimento por eles era irrevogavelmente fraternal. Eram como dois irmãos caçulas, que haviam surgido de repente em minha trajetória, para deixarem marcas indestrutíveis dentro de mim.
E saber que estávamos prestes a nos separar... estava doendo demais.
Após estacionarmos diante da alfândega, descendo logo em seguida, vi o Sr. e Sra. Granger começarem a organizar a bagagem nas esteiras.
Enquanto isso, suspirando, Hermione e Rony se aproximaram de mim.
A iminência da separação não aparentava ser menos dolorosa para eles. Rony parecia desanimado. E Hermione me encarava, parecendo usar todas as suas forças para não chorar.
O carinho que eu já tinha por aquela garota me engolfou como um furacão, enquanto observava seu olhar perdido.
— Você nunca vai fazer ideia – ela sussurrou, baixando a cabeça — do como me ajudou... nos ajudou... nessa viagem. Nunca vou poder retribuir o que você fez por nós.
Rony segurou a mão dela, me olhando e sorrindo.
— É, cara – ele falou — você ganhou meu respeito e minha amizade agora...
Meu autocontrole acabou naquele exato momento.
Ambos riram, surpresos, quando os engolfei num abraço.
— Vocês já me retribuíram... – arfei, risonho, apertando aqueles dois — me tiraram do marasmo do escritório turístico, me deram uma viagem empolgante... – soltei-os, ofegando — me ajudaram a reconquistar Nyree – guinchei — essa última eu nunca vou poder retribuir mesmo.
Hermione balançou a cabeça, afetada.
— Seu bobo – ela estapeou meu peito, me fazendo rir.
Quis dizer alguma coisa. Queria agradecer pela oportunidade que haviam me dado. Pela companhia fantástica. Aliás, agradecer por terem, de um modo irrevogável e incrível, mudado todo o meu Destino, como se o futuro tivesse os colocado intencionalmente diante de minha sina.
Mas tudo pareceu ficar engasgado em minha garganta. Acabei ficando calado, contra minha vontade, enquanto a Sra. Granger se aproximava da filha, sorridente.
— Está tudo pronto – a mulher comentou — vamos?
— Vamos – Hermione voltou o olhar para mim, segurando minha mão e apertando-a. Não conseguiu disfarçar um leve tremor — nos vemos por aí, bombadão – ela gracejou — cuide bem da Nyree...
Sorri. Isso eu podia prometer á ela.
— Vai ser meu objetivo de vida agora, senhorita Granger – franzi o cenho, solene, antes que um largo sorriso me traísse.
Rony também se despediu de mim com o mesmo gesto, dando as costas para o estacionamento e abraçando a cintura de Hermione, começando a seguir os pais dela, em direção ao portão de embarque.
Hermione se virou uma última vez em minha direção, acenando ao longe.
Devolvi o aceno, acompanhando-os se distanciarem cada vez mais, até desaparecerem dentro do aeroporto.
E ali, parado — só me movendo outra vez quando vi o longo jumbo alçando voo no céu — demorei um longo tempo para perceber que meus dois melhores amigos já haviam, finalmente, partido de volta para casa.
E não havia ninguém para me ver sorrir e chorar, durante minha volta á Darwin.
—-----------------------O---------------------
Após minha volta, decidi por um final para certas coisas em minha vida.
Sem o conhecimento de Nyree, comuniquei-me novamente com Beatriz e Russel.
Foi com um aperto ainda maior que liguei de volta para o escritório turístico, anunciando minha decisão.
Realmente, foi impossível não se sentir aflito quando Beatriz chorou, desolada.
A coisa toda só descontraiu quando houve um som seco do outro lado da linha, indicando que Russel provavelmente a derrubara na escrivaninha, e outro ruído, parecendo o de uma pia sendo desentupida.
Quando voltou a falar, ela estava ofegante, e podia sentir seu rubor na voz trêmula.
— Vai mesmo fazer isso, Darel?
— Vou – tossi, sem sufocar uma risada – o que houve aí?
Ouvi uma marchinha de “tá namorando! Tá namorando!” vindo do escritório.
— Não interessa – ela engasgou, rosnando baixinho — ah, dane-se. Esse idiota me beijou – afastei a cabeça quando ela gritou, fazendo o fone quase chacoalhar em minha mão – JÁ OUVIU FALAR EM ASSÉDIO SEXUAL, SEU INUTIL?
Uma gargalhada alta. E, para minha surpresa, uma risadinha nervosa de Beatriz.
Comecei a rir também.
— Parabéns... uau. Não se esqueçam de me chamar para o noivado.
— Vê se morre, Darel – ela resmungou, suspirando – está bem. Falou com o Stu?
— Mandei uma carta explicando... quase tudo – falei, subjetivo. Ela saberia o sentido da frase – ele disse que entende... minha decisão.
O silêncio imperou por alguns segundos na ligação.
Quando voltou, Beatriz parecia mais resignada.
— Bem... fico feliz por você. Que bom que conseguiu reencontrar os Tokonga...— ela murmurou, pensativa – só não se esqueça de nos visitar, não é?
— Não se preocupe – falei, sorridente – vou visita-los em breve.
— Hum... está bem então— ela bufou, ao que um coro de risadas coalhou a ligação – saí daqui, perversão. Nos vemos logo, então.
— Pode deixar. Tchau.
— Tchau, Darel.
Desliguei o telefone, inspirando profundamente.
Deixar de ser guia realmente era algo lastimável. Aquilo havia sido minha vida desde que saíra da tribo.
Mas agora, que tinha Nyree ao meu lado, eu decidi que jamais iria me dispor a perdê-la outra vez. Seria um sacrifício que valeria a pena.
A ideia, maturada durante os últimos cinco dias, finalmente dominou-me por completo, fazendo-me ir até o quarto de Nyree, do outro lado do corredor, trêmulo e ansioso.
Estava disposto a garantir que o Destino, diretamente ou não, nunca mais interferisse em nosso futuro juntos.
Entrei em seu quarto, fazendo-a se assustar, e sentar sem querer no controle da televisão. A tela desligou-se de imediato.
— Ah, desculpe – ciciei – não queria te assustar.
— Tudo bem – ela riu, afagando o braço.
Pesaroso, tentei desviar minha atenção da faixa que ainda recobria sua barriga.
Sentei na ponta do colchão, segurando sua mão.
Nyree franziu a testa, confusa.
— Está tudo bem, Darel?
Sorri, beijando o nó de seus dedos.
— Tudo, Mōkī — ela ofegou baixinho quando afaguei seu rosto – está tudo ótimo. Só queria dizer... bem... que abri mão do cargo de guia.
Ela só faltou cair da cama de susto. Arregalou os olhos, pasma.
— Mas Darel... – ela balbuciou, em pânico – você não... quer dizer... foi o que você fez todo este tempo... é parte de sua vida – sua expressão esmaeceu, atônita – não estava fazendo isso... só por minha... minha causa, não é?
Gargalhei, deixando-a ainda mais escandalizada.
— Claro que não – não era mentira. Tinha pensado naquilo desde que retornara á Tokonga – tenho um motivo ou outro – falei, indo até Nyree e circundando-a em meus braços – quero voltar para a tribo. Quero voltar a viver em Tokonga.
Acariciei seu queixo, vendo-a pousar o rosto em minha palma, ainda aflita.
— E – acrescentei, convicto – quero, para sempre, ficar com você.
Vi Nyree erguer a cabeça, abrindo a boca num esgar de choque.
— Darel... – ela choramingou.
Era uma garota esperta. Sabia exatamente o que eu quisera dizer com aquilo.
— È. È isso mesmo, Nyree – ri nervosamente, sentindo minha garganta se fechar num nó de agoniante expectativa – ao menos para mim, não importa todo o tempo que passou. Desde que minha existência começou, nunca houve outra pessoa que povoasse meus melhores sonhos. Mais ninguém poderia ter sido a minha melhor amiga. Mais ninguém poderia ter dominado minha mente, minha essência e meu corpo. Não acho precipitado, por que foi um longo e torturante cochilo, do qual eu finalmente acordei.
Ela já começara a chorar antes mesmo que eu tomasse seus dedos entre os meus, puxando seu rosto para um hongi trêmulo de emoção.
— Nyree, minha Hawhe, a pequena Mōkī que roubou minha alma – solucei – quer ser, agora e para sempre, a luz da minha vida?
Nyree sorriu, embora seu pranto banhasse cruelmente seus adoráveis lábios.
Ela balançou a cabeça, o que, de inicio, pareceu uma aterrorizante negativa.
Mas quando ela me abraçou, mergulhando suas lágrimas e seu corpo em mim, percebi que não precisava de nenhuma resposta.
Fale com o autor