Nyrel - Uma História de Amor
38 Posterioridades
Fui rodeado por dois vigias em horário de almoço, assim que estacionei em frente ao Hospital Royal Darwin, no centro da cidade costeira.
Eles correram em minha direção, ajudando-me a amparar o corpo inerte de Nyree.
— Minha nossa! – ele gesticulou para um paramédico na ambulância mais próxima, indicando as macas com rodas – o que houve com ela?
— Hemorragia – falei, engasgado de preocupação e angústia.
Naturalmente, não contaria a verdade á nenhum dos nonmīharos ali. Dei á recepcionista a desculpa de que fora uma hemorragia interna, já que, graças ao corte curado, não poderia alegar sangramentos. O desmaio, á um corte supostamente feito com uma faca, o qual se encontrava na mão direita. Os médicos jamais saberiam explicar algo assim.
Os enfermeiros acamaram Nyree na maca, levando-a velozmente até a emergência.
Quando ela desapareceu dentro do corredor, além das portas de borracha, meu ar pareceu se esvair completamente.
Meus joelhos cederam, derrubando-me contra as cadeiras do corredor de espera.
As cenas ainda dançavam diante de mim, fazendo meus olhos lacrimejarem e meu estômago revirar.
Mal conseguia acreditar. Tudo estava tão bem...
E, agora, a perspectiva de Nyree ferida, definhando diante de mim... era terrível demais para suportar.
Sabia que, provavelmente, corajosa e altruísta como era, Nyree devia ter tentado lutar contra a mulher. Também tinha certeza de que estava atrás dos meus amigos.
Mas por que ela? Por que motivo?
Lembrei da expressão espantada de Rony e Hermione, quando adentrei no quarto.
Até onde percebi, a Comensal da Morte que os atacara aparentava ter dito algo que os chocou. O que seria?
Passou-se um tempo, que pareceu um século, até que o medico recostou-se ás portas, me encarando.
— Sr. Williams?
Ergui-me, ansioso.
— Sou eu – ofeguei.
Ele não aparentou estranhar a falta de sobrenome na ficha de Nyree. Sabia que muitos maoris que visitavam as cidades só tinham o primeiro nome.
— Examinei a Srta. Nyree – ele suspirou. Para minha surpresa, deu um sorriso cansado – ela vai sobreviver.
Uma risada histérica cortou minha garganta.
— Sério? – arquejei, aliviado.
— Sim – ele assentiu, simpático – não há seqüelas, exceto... uma estranha cicatriz... – ele sacudiu a cabeça, distraído – vou só terminar os procedimentos, e então poderá vê-la.
Estava engasgado demais de felicidade, até mesmo para agradecer.
Mas o médico compreendeu meu ataque catatônico, pois apenas meneou a cabeça e voltou a entrar, fechando a porta atrás de si.
Sentei de volta no banco, esfregando o rosto, sentindo meu coração ficar surpreendentemente mais leve.
Nyree ia sobreviver. Ficaria bem.
Senti vontade de chorar de alegria.
Baixando a cabeça, não vi duas pessoas entrarem no corredor de espera, com passos largos, correndo em minha direção.
Levantei-me imediatamente, acolhendo Rony e Hermione, surpresos, num abraço de alívio.
Hermione ainda parecia muito abatida, mas, para todos os efeitos, estava bem melhor do que a deixara no hotel. Rony também estava com melhor aparência, agarrado á Hermione como se temesse que ela evaporasse de seus braços.
— O doutor está examinando Nyree – falei apressadamente — disse que vai ficar bem.
Vi Hermione arquejar.
— Graças a Deus – suspirou fundo, fechando os olhos.
Vi seu corpo relaxar, e Rony me olhar, suspirante. Enxergar a real preocupação em seus olhos foi o que bastou, para que meu respeito e amizade por aquelas duas pessoinhas fantásticas dobrassem de tamanho dentro de mim.
A porta do quarto ao lado se abriu, nos fazendo interromper nosso reencontro. Era o médico que havia acabado de falar comigo, minutos antes.
— Sr. Williams... gostaria de vê-la?
— Sim... – encarei Rony e Hermione, tenso — eles podem entrar também?
Ele avaliou os dois por um momento, mas não disse nada. Apenas concordou com a cabeça, abrindo espaço para que entrássemos no quarto de repouso.
Assim que adentramos no cômodo, enxergamos três macas hospitalares, dispostas uma ao lado da outra. As duas do canto encontravam-se vazias.
Na do meio, estava Nyree.
Parecia bem melhor, serenamente adormecida no colchão. Um frasco de sangue gotejava de um apoio, percorrendo todo um caminho, até o acesso delicado em seu braço.
Vê-la assim, tão vulnerável, quase me fez chorar outra vez.
— Qual foi a desculpa que você deu? – Hermione sussurrou, enquanto íamos em direção ao leito em que Nyree se encontrava.
— Até onde o sistema de registro sabe, ela se cortou com uma faca – guinchei, angustiado, esfregando as têmporas — meu Deus...
Ouvi, perplexo, Hermione soltar um soluço alto. Virei-me em sua direção, assustado.
— Darel, eu sinto muito... – choramingou — é culpa minha... eu...
Ofeguei, indignado. Eu que tinha feito a maior burrada do mundo, e aquela garota estava se responsabilizando por aquilo?
Ergui a mão para ela, impedindo-a de continuar. Balancei a cabeça firmemente, sério.
— Não, não foi culpa sua, Granger. Eu deixei Nyree nos acompanhar também... eu a deixei sozinha no hotel. Se você é culpada, tenho tanta culpa quanto você.
Hermione enrijeceu. Não pelo que eu havia dito, mas pelo som baixo e engasgado que emanou da maca. Viramo-nos na direção do leito, encarando, pasmos, Nyree se remexer nas cobertas, resmungando.
Ela piscou os olhos fracamente, até abri-los, fazendo uma careta de confusão ao me encarar.
A tranqüilidade finalmente me dominou, quando a vi murmurar, finalmente lúcida.
— Darel... – a voz dela era um pio de canário — o que... aconteceu...?
Estremeci com a indagação. Relembrar o ocorrido voltou a me dar náuseas.
— Nem pergunte.
Ela franziu o cenho, e, para meu choque, deu uma risadinha. Um sorriso de má vontade brotou em meu rosto.
O movimento, porém, a fez tremer, gesticulando o braço livre na direção da cicatriz em seu ventre.
— Não sabia... – brincou, embora seu rosto se contraísse de dor — que cortar a barriga... doía tanto...
Aproximei-me dela, beijando sua testa e afagando seu rosto. Senti-la realmente viva e consciente era uma felicidade que parecia massacrar cada célula de meu corpo. Mas não ia fraquejar de alívio logo agora, quando eles precisavam de alguém com a cabeça no lugar. Teria tempo para conversarmos a sós depois.
— Decididamente eu ando só tento raiva desses caras que querem nos matar – Rony esbravejou, bufando.
Nyree titubeou, parecendo mais calma.
— Parece que o motivo daquela lá foi pessoal – ela guinchou — quem ela queria matar de verdade?
— Eu – suspirou Hermione, entreolhando-se com Rony.
Nyree deu outro gracejo. Estava começando a me perguntar o que raios haviam colocado naquela bolsa de sangue, para fazer a garota rir tanto.
Ou... Nyree estava tão aliviada quanto eu, vendo todos nós sãos e salvos?
Pensei que, provavelmente, era a segunda opção.
— O que você fez pra ela? Matou a mãe?
Rony a fitou, o queixo travado num esgar de indecisão. Finalmente, engasgado, assentiu.
— Exatamente.
O rosto de Nyree murchou. Pareceu se arrepender da brincadeira, pois se encolheu nos lençóis, como se não soubesse onde enfiar a cara.
Hermione, em seguida, explicou a Nyree tudo o que ocorrera desde algum tempo atrás.
Contou-nos sobre a vampirização que houve em Hogwarts, um dia após a batalha que houvera lá. Muitos sobreviventes haviam caído doentes, tendo todo o sangue de seus corpos drenados magicamente pela doença. Os infectados se tornavam bestiais, com instintos que os açulavam contra outras pessoas para suprir o sangue que faltava em seus corpos.
Dentre eles, Hermione também fora contaminada.
Mas, ao contrário do que haviam pensado, ela preservou todas as suas capacidades mentais, o que minimizou o sofrimento da semana em que a doença se manifestou. Isso ajudou outros vampirizados, que aparentaram se orientar por suas ações e atitudes. Foi decisivo para o rebate de Comensais da Morte que surgiu ao fim daquela semana, onde os vampirizados se confrontaram com os agressores, dizimando-os.
Entre os bruxos das Trevas, havia uma, chamada Alecto Carrow, a mãe da mulher que havia invadido o hotel atrás deles.
E, como ela, Alecto, havia assassinado o irmão de Rony, e a própria Hermione dera cabo dela.
Já no meio de sua explicação, as coisas começaram a se juntar. Kristina, nossa agressora, havia vindo atrás deles, até a Austrália, em busca de vingança.
Mas Rony também nos contou sobre o que ocorrera no quarto, antes que eu surgisse.
Kristina havia lhes dito que nos seguira durante o tempo todo.
O ataque do bunyip em Melbourne, a infecção de Rony pela Maldição de Ondine, e, agora, seu ataque orquestrado... havia estado por trás de tudo aquilo. Havia nos encalçado pelo deserto, só mantendo-se longe durante nossa estadia em Tokonga.
E eu me perguntava como não percebera nada daquilo.
— Tem mais outra coisa... – ele murmurou, fazendo os olhos de Hermione saltarem – ela falou sobre... uma profecia. Uma profecia sobre Hermione.
— Uma profecia? – Nyree ofegou.
Rony estapeou o próprio rosto, o que nos desviou do silêncio tenso e nos fez rir.
Hermione quase foi parar no teto quando a enfermeira adentrou no quarto, com cara de poucos amigos.
— O horário de visita acabou – o que soou mais como um “caiam fora, arruaceiros.”
— Está bem – desdenhei, revirando os olhos. Antes que ela pudesse me impedir, orem, inclinei-me contra Nyree, chapando-lhe um beijo na boca.
Ela corou, risonha, o exato oposto da cara de peixe morto da enfermeira. Rony e Hermione deram risadinhas.
— Tchau, amor. Nos vemos mais tarde.
Dei as costas, ainda encarando-a. Nyree me sorriu, balançando a cabeça, os olhos vincados de quem não podia estar mais feliz, mesmo naquela situação.
A porta fechou-se atrás de nós, retirando-a de meu campo de visão. Seu sorriso ainda estava gravado em minha retina. Fazendo-me suspirar de carinho.
— Ela vai ficar bem, cara – Rony socou de leve meu ombro, dando um largo sorriso.
Retribui, assentindo.
No entanto, o incentivo de Rony não foi o suficiente para tirar minha preocupação – e nem meu olhar – da porta que se distanciava cada vez mais.
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