Notas iniciais
Olá, pessoinhas lindas *-* Por que estou postando capítulos adoidada? Por que eu me dei conta que faltam QUATRO MESES E MEIO pra Saga da Rosa (segunda parte da Saga da Lontra, para quem não conhece). E, depois da Nyrel, ainda tenho que fazer a segunda temporada da minha fic Meu Pequeno Amor, TUDO antes de julho. PIREI O_O rsrs Tô até pensando em adiar a MPA. Vixe, a coisa tá feia :P hehe Mas enfim, aqui está o capítulo novo. Fiz aniversário ontem (EEE), mas o presente é todo de vocês ♥ Boa leitura!

NYREE

Quatro anos.

Quatro longos anos haviam se passado desde a notícia do falecimento dos pais de Darel.

Quatro anos torturantes, que passei com a sensação de solidão e vazio em meu coração, sem conseguir ver o vislumbre de algum futuro que valesse a pena viver.

Desde que Tāwhai e eu havíamos nos distanciado, uma angústia cada vez maior me atacava, como uma depressão que ia e vinha a todo o momento. Nenhum conselho familiar, nenhuma orientação educacional, e nem mesmo as constantes conversas com Akahata surtiam efeito. Eu era como uma concha vazia, fazendo as coisas do cotidiano por puro costume, sem sentir algo de verdade. E sem ter a menor ideia do por que aquilo estava acontecendo.

E eu via minha família ficar cada vez mais desesperada, a me ver definhar, sem saber o que fazer para me tirar daquele coma emocional.

Para piorar as coisas, desde a briga de anos atrás, Tāwhai havia se transformado completamente. Além de, naturalmente, me desprezar completamente, o menino que já era impulsivo ficou ainda mais inconsequente, virando um tipo de maori-problema para a tribo. Depois de vários incidentes de intimidação com crianças brigas com outros maoris, e uma recente fuga para a savana com uma garota, Tāwhai fora finalmente levado para um Conselho na Marae, que era praticamente o último recurso para casos a serem julgados — e devidamente punidos.

E já se falava de expulsar Tāwhai da aldeia.

Eu já não sentia nenhuma simpatia por Tāwhai – se muito, a mágoa e o rancor que ainda guardava desde aquele dia. Mas pensar em Tāwhai sendo jogado á própria sorte no deserto, sem a família, completamente sozinho e rejeitado pela própria tribo... eu não desejaria aquilo nem para o pior bruxo das Trevas.

Foi Hana que me deu o veredicto do Conselho, quando retornou. Não havia tido coragem para estar lá, e olhar o rapaz que eu acreditara ser meu amigo ser condenado.

— Eles decidiram... – ela pareceu hesitar em concluir – Tāwhai vai sair da tribo.

Recostei minha cabeça nos joelhos, suspirando.

— Eu já imaginava – respondi, sem emoção.

— Olha... eu sinto muito... – Hana começou.

— Não precisa sentir – cortei-a, me erguendo e sacudindo a areia da saia – não importa.

Foi com espanto que senti Hana agarrar meu pulso, virando meu corpo em sua direção.

— Basta, Nyree. Eu sei que ele te magoou. E sei que sente falta de Darel. Mas por favor... precisa parar com isso – ela me encarou, exasperada – Akahata até me aconselhou que eu não te contasse, por que sabia que você ia reagir assim! Ninguém mais suporta ver você desse jeito! Mal come, mal dorme... parece um vulto! Não pode viver o resto da vida assim!

— Eu sei! – desvencilhei o pulso dela, me afastando.

— Nyree!

Continuei correndo, só parando quando entrei em casa, encolhendo-me dentro de meu quarto.

Sabia que Hana tinha razão. Eu mesma estava cansada de não ver mais motivos para me animar. Queria voltar a ser o que era antes.

Mas algo simplesmente me puxava para baixo toda vez que tentava.

Tauwaenga me achou algumas horas depois, sentando-se ao meu lado na esteira, e curiosamente apenas me fazendo companhia, sem dizer nada.

Consegui sorrir fracamente quando ele recostou a cabeça em meu ombro, afagando minhas costas.

— Não se preocupe – ele falou baixinho – não vou contar pra mamãe e para o papai. Pode ficar aqui.

— Obrigada, Tau – beijei sua cabeça.

— Tāwhai já foi embora – ele guinchou, hesitante.

Assenti, sem conseguir olhar para sua expressão. Não queria imaginar a cena de Tāwhai partindo, deixando para trás a família em prantos.

— Você soube da Mere?

— Não. O que houve?

Sinceramente, havia perdido a conta do que havia acontecido com todo mundo da tribo nos últimos anos. Olhei para Tauwaenga, finalmente curiosa.

— Ela está esperando um filho – ele deu de ombros, sorrindo – pediu pra perguntar se você quer ser a whaeawairuado bebê.

Ergui o olhar, surpresa. Tinha até esquecido que a filha de Puhu havia casado recentemente. Ela sempre fora muito simpática comigo, mesmo na época dos treinamentos.

— Sim – falei, um tanto mais animada – acho que vou aceitar.

Talvez aquilo finalmente desviasse minha mente daquela vida vazia. Ajudar a criar uma criança poderia, por fim, me fazer focar em algo de uma vez por todas.

— Que bom. Mere vai ficar feliz – ele se levantou, tamborilando os dedos no batente da janela – ah, e Ano quer saber se pode comer o resto da sua batata do almoço. O pequeno diabinho-da-tasmânia parece um saco sem fundo quando se trata de comida.

— Ele está em fase de crescimento – fiz uma fraca tentativa de brincar – Ano pode comer, não tem problema.

Tauwaenga assentiu, dando um tapinha em meu ombro, fazendo um hongi em mim — que quase saiu errado, pela posição em que eu estava — e saindo do quarto com uma risadinha.

Olhei para o teto da cabana, fechando os olhos e abraçando meu próprio corpo.

Um gritinho veio da porta do meu quarto, me fazendo reabrir os olhos, e ver Ano agarrado á perna de Tauwaenga, que tentava se sacudir para solta-lo de seu tornozelo.

A cena foi tão engraçada que não pude deixar de rir.

Tauwaenga me lançou um olhar exasperado, antes de deixar o corredor aos trancos, ainda levando Ano em sua perna.

Quando as vozes dos dois desapareceram cabana afora, eu decidi enfim sair da esteira, me virando em direção á janela.

Após ver a interação entre meus irmãos, eu descobri, naquele momento, a verdade incontestável por trás de minha angústia.

Foi tão fácil ver... era como se eu soubesse daquilo o tempo todo.

Era Darel.

A falta que eu sentia dele havia extrapolado os limites de uma mera amizade perdida. E agora eu sabia o motivo.

Ele não havia sido apenas meu irmão. Meu hoa, meu melhor amigo.

Quando os adultos haviam nos apelidado de Māhanga, á tantos anos, haviam praticamente resumido muito mais do que nossa convivência.

Ele era meu Hawhe. Era a metade do meu todo. E por isso eu me sentia incompleta.

Mas o que mais doía era não saber se, um dia, eu voltaria a me completar.

Havíamos nos distanciado por tanto tempo. Havia doído por tantos anos. E eu nem sabia se, no futuro, eu poderia vê-lo outra vez.

Mas, pela primeira vez em oito anos, eu senti algo que não tinha em muito tempo. Algo que meus pais sempre haviam ensinado o quanto podia ser poderosa.

Esperança.

Notas finais
APÊNDICE * Marae é a cabana onde se resolvem conflitos e celebram-se ocasiões na cultura maori; é praticamente a cabana-mãe da aldeia, o centro de encontro da comunidade. * Hongi é o cumprimento oficial maori, assim como uma expressão de afeto, que consiste em recostar afetuosamente o nariz e a testa nos de outra pessoa. "Whaeawairua" = madrinha "Hawhe" = metade, meio Então? O que acharam? Beijinhos e até o próximo capítulo :D