Nyrel - Uma História de Amor
21 Quando Tudo Começa A Enlouquecer... Outra Vez
Notas iniciais
DAREL
A mão que segurava a varinha de Ronald estremeceu.
Vi o gigantesco monstro marinho cavalgar para fora da água, rugindo violentamente atrás de Ronald. Agoniado, ele me focalizou enquanto corria, apertando ainda mais o corpo inerte de Hermione em seus braços.
Estando desarmado, ele não conseguiria escapar a tempo. O bunyip estava á poucos centímetros de suas pernas.
Numa reação impensada e desesperada, gesticulei aleatoriamente a varinha na direção do bunyip, focando mentalmente numa forma de ajudá-los, e rezando para que uma magia qualquer fizesse efeito. Virei o rosto, concentrado, sem tirar os olhos da areia.
Houve um estampido, um grito de surpresa e o som de algo desabando pesadamente contra o chão.
Ronald havia parado de correr, e encarava, ofegante, o corpo morto do bunyip, á alguns metros dele.
— Darel! – ele voltou a me olhar, angustiado, olhando desoladamente para a perna de Hermione.
Um arrepio me correu pelas costas quando vi o ferimento. Um corte quase reto, como se uma navalha tivesse cortado a pele por inteiro, onde, para meu terror, um pedaço de osso transparecia na carne dilacerada.
— Vou buscar o kit de socorros – falei para ele, devolvendo-lhe a varinha. Ronald assentiu, trêmulo, observando-me correndo num átimo de volta para casa.
Quando retornei, ainda com o coração saltando no peito e com a garganta seca de aflição, Ronald já havia deitado Hermione na areia, apoiando-a numa das pedras da costa. Um estranho latejar ao nosso redor me fez deduzir que ele havia enfeitiçado o lugar para impedir que os trouxas nos vissem.
Ajoelhei-me ao lado de Hermione, ainda arrepiado com a extensão da mordida que o bunyip deixara em sua perna. Ela perdera muito sangue, e havia uma trilha rubra desde a maré até onde estávamos agora.
Enquanto ouvia Ronald sufocar um soluço, não pude deixar de pensar.
Por quê? Como?
Nunca ouvira falar de bunyips em água salgada. Eram criaturas de água doce, moradoras de pântanos. Como aquele havia surgido ali?
Olhei, condoído, para o rosto contraído de aflição de Ronald. O desespero em seu olhar era tão grande que parecia estar brotando dentro de mim também.
— Weasley... – desviei minha atenção do pano que usava para secar a ferida, olhando-o – se acalme... – falei, tentando também diminuir a minha própria taquicardia.
— O que era quilo? – ele guinchou.
— Um bunyip – expliquei, tentando, em vão, melhorar a aparência doentia de um rasgão da perna de Hermione – é um monstro marinho.
Ronald ofegou, balançando a cabeça angustiadamente.
— Ele veio do nada, Darel... do nada... eu nem tive... eu não...
— Se acalme, Weasley – suspirei, lhe dando um olhar penalizado — ela vai ficar bem...
— Mas olhe a perna dela, Darel...
Não podia culpá-lo. A ferida tinha sido realmente bem preocupante. Granger havia tido muita sorte de não ter perdido a perna no ataque.
Enquanto eu continuava á amenizar o ferimento, senti o corpo de Hermione estremecer em contato com a areia. Parecia estar lentamente recuperando os sentidos.
Ergui o olhar, surpreso, quando a vi piscar, com a expressão mista de dor e confusão. Recolheu-se contra o chão, tentando levantar, enquanto Rony lhe apoiava as costas.
— Hermione... – Ronald gemeu, soluçante; estava me dando uma aflição enorme vê-lo daquele jeito — você... Hermione, eu sinto muito. Foi tudo culpa minha...
— O que aconteceu? – Hermione choramingou, num sussurro rouco.
Encarei-a, preocupado.
— Você foi atacada por um bunyip.
Granger me lançou um olhar de compreensão e surpresa, em meio á careta de dor. Inclinou-se para frente, como se quisesse ver a situação de seu ferimento.
VI Ronald segura-la com mais força, como se não quisesse deixá-la ver a lesão em sua perna.
— Hermione, é melhor...
— Me levante por favor, Rony...
Vi-o, contra a vontade, ajudando-a a se reerguer, até ficar sentada na areia.
Hermione tremeu quando vislumbrou a mordida do bunyip, como se tivesse se arrependido de ter olhado. Seus olhos foram dali para o grande cadáver caído perto da maré.
Voltei a enxugar sua perna ensangüentada, e percebi como seu corpo se retraiu, reprimindo um grito de dor.
— Fale o que aconteceu – ela rosnou entre dentes, com os olhos fechados.
— Bom, assim que você afundou, Rony foi atrás de você – narrei o que havia visto, enquanto começava a suturar a carne e a pele com magia — vi vocês lá do hotel, e corri para ajudar. O bunyip apenas te mordeu, já que Rony te puxou para fora da água a tempo. Mas ele veio perseguindo vocês até a costa. Tive que improvisar algum feitiço com a sua varinha para apartá-lo. e, seja lá o que eu lancei, isso o matou. Voltei ao hotel para buscar os primeiros socorros enquanto Rony lançou alguns feitiços para que os trouxas daqui não percebessem nada... nem nós, nem o bunyip.
Arrisquei olhá-la de novo. Ela franziu o cenho, parecendo absurdamente confusa. E, em seguida, olhou para Ronald, que ainda soluçava baixinho ao seu lado.
Assim que terminei a cura, comecei a enrolar a perna já suturada numa atadura;
— Rony... – Ronald não respondeu, ao que ela exclamou, estapeando o peito dele. Vi-o encará-la, sem expressão — Rony! Pare de ficar assim. A culpa não foi sua, entendeu?
Espantou-me ver a expressão vazia dele se transformar num esgar de angústia e irritação.
— Eu quase te perdi agora. Você quase morreu. Você entende isso? E tudo por que eu não teria sido rápido o bastante...
Senti meu peito se apertar. Pobre Ronald... eu também estava aflito, mas nem podia imaginar como seria estar no lugar dele. Meu medo não tinha chegado aos pés daquele garoto.
Hermione balançou a cabeça, beijando fracamente o rosto do namorado.
— Entendo sim. E entendo também que você não teve culpa coisa nenhuma.
Vi Ronald sorrir amarelo.
— Você é a criaturinha mais teimosa que eu já conheci – ele arrulhou, pegando novamente o corpo dela nos braços e fazendo-a rir.
Ri baixinho, novamente sentindo aquela satisfação com o que aqueles dois faziam. Hermione parecia bem melhor, e já não tremia de dor.
— Eu queria ver... o bunyip – Granger falou, olhando de soslaio para o corpo gigantesco na areia.
Weasley revirou os olhos, entreolhando-se comigo, mas levou-a lentamente na direção do corpo do bunyip.
Aproximei-me com eles, aproveitando para limpar os vestígios de sangue na areia.
Quando cheguei lá, compartilhei o olhar espantado de Hermione.
Os bunyips já eram monstruosos por natureza, mas aquele ali, um exemplar quase duas vezes maior que o normal, aparentava ainda mais assustador – ou já nem tanto, com o corpo escoriado de sangue.
Hermione bufou baixinho, humorada, quando Ronald lançou um olhar zangado para o cadáver do animal;
— Bom, chega de passeio por hoje – falei, taxativo — vamos voltar para o hotel. Você precisa descansar. E eu tenho que me livrar do presunto aqui.
— Mas... – ela falou, sendo interrompida por um Ronald muito sério.
— Nem mais, nem meio mais, Hermione.
Vi-a revirar os olhos, me dando um olhar exasperado, enquanto Ronald a levava de volta para o hotel.
Enquanto conjurava uma magia mais elaborada para ocultar o corpo morto do bunyip, pensei com meus botões. Aquilo era muito estranho, mesmo para os padrões bruxos. Um bunyip na costa australiana já era absurdo... mas se ele já estava ali, podia ter atacado qualquer banhista. Por que, contra todas as chances, Hermione fora justamente a única atacada?
Eu não tinha resposta para aquilo.
E isso me dava mais medo do que qualquer outra coisa.
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Após tomar banho e se trocar, Hermione se recolhera de volta no quarto, enquanto Ronald se oferecera para ajudá-la no que fosse preciso. Depois do ataque, a pobre garota mais do que merecia um descanso completo.
Fui, alguns minutos depois, verificar se estava tudo bem. Acenei da porta, vendo Hermione sorrir da cama do quarto.
— Está melhor, Granger?
— Muito melhor – ela deu de ombros- vamos para Adelaide amanhã?
— Assim que essa perninha linda melhorar – brinquei, sorrindo e descontraindo o rosto com a expressão pasma de Ronald, Hermione riu — já está tudo pronto. Assim que você se sentir melhor, vamos partir.
Voltei a sair do quarto, rindo comigo mesmo, ainda achando graça do olhar falsamente indignado de Weasley.
Normalmente, meu trabalho como guia envolvia apenas cumprir minha atribuições, concluir qualquer que fosse meu trabalho e, então, encerrar quaisquer ligações com as pessoas que haviam me acompanhado. Já havia sentido simpatia com muitas delas, e ainda tinha contato com algumas que haviam sido realmente muito especiais.
Mas Ronald e Hermione não podiam ser comparados com qualquer uma das pessoas que eu já conhecera naquele meio. Eu me reocupava genuinamente com aqueles dois, como se ambos fossem irmãos perdidos, que eu finalmente encontrara.
Algumas coisas pareciam impossíveis de ser feitas sem que surgisse uma amizade. E viajar pela Austrália com um casal inglês que já tinha uma longa história parecia ser uma delas.
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