Nuvens de Sangue
6 Capítulo 6 - Chamas
Notas iniciais

Nunca havia visto noite mais escura e sombria em toda minha vida. Talvez pela situação que estávamos e a tenção que rondava por todos os lados. O carro balançava fazendo todos tremerem, disfarçando o tremor do medo. Queria que tudo acabasse com essa fuga da estação, mas pressentia que estava apenas começando nossa luta. Uma luta tenebrosa pela sobrevivência, mas uma coisa é certa: farei o impossível para todos deste carro chegarem seguros no abrigo.
Não conseguimos alcançar o carro de Torres, será que nos deixou para trás? Será que seguiram o plano sem ligar para o que teria acontecido conosco? Tento não pensar nessa possibilidade. Percebi o pânico nos olhos de Luiza que tremiam, ela tinha o dom de passar uma segurança em seus olhos, mas agora não estava conseguindo disfarçar o medo. Ela abraçava um dos joelhos e colocava seu queixo sobre ele, olhando sempre para frente, uma escuridão que era iluminada com os faróis altos do carro. Uma iluminação relativamente ruim, pois ao lado apenas trevas nos consumia como se quisesse nos engolir.
– Será que aconteceu algo com eles? — Caroline quebrava o gelo, Léo tentava confortá-la.
– Acho que não, devem ter parado na próxima estação, que aliás está perto.
– Estou com tanto medo. — Clarice murmura abraçando Léo, — está muito escuro lá fora, e escuto barulhos, sei que estão por todos os lados.
– Logo chegaremos até o local do plano, vai dar tudo certo, este carro é blindado e nada acontecerá. — Ressaltei animando a pequena, Luiza sorriu para mim.
Estávamos chegando até a estação anterior. Ceasa, estação que nos dias normais era deserta, poucas pessoas frequentavam para nossa sorte, com certeza, estaria seguro passar por ela. Mas algo me chamava a atenção quando faltava poucos metros até o primeiro obstáculo, uma luz forte fora avistada. Na verdade eram chamas, fogo queimando em uma altura absurda. Parei o carro quando percebi o que queimava.
Um avião de grande porte, um Boeing provavelmente da Tam, destruído sobre a estação Ceasa. A estação não existia mais, eram escombros abaixo de um avião gigantesco. Olhei para todos dentro do carro, foi um choque observar tudo aquilo, meu Deus os desastres não terminarão? Quantas pessoas estavam abordo, agora possivelmente estão todas mortas. Luiza agarrou minha mão que estava sobre o câmbio da marcha, parecia nervosa.
– O que significa isso, olha o que está sobre nossos olhos, um avião caído? O mundo realmente está acabando.
– Esperem, tem um carro no canteiro bem próximo do avião, parece que é o Torres e os outros. — Caroline tinha razão, dei partida no carro e aproximei até a aquelas chamas que queimavam sem parar.
Realmente era horrível aquela cena, o avião estava dividido em duas partes, suas asas estavam retorcidas e caídas uma sobre o asfalto da pista e outra sobre os trilhos, tudo pegava fogo. Não conseguia enxergar direito pelo calor, mas sabia que teríamos que sair de parto do avião o quanto antes, ele poderia explodir em pedaços, aquilo era uma bomba! Me alegrei um pouco em ver o carro de Torres, buzinei. Uma vez, duas vezes, três vezes...
– Torres? — Abaixei um pouco o meu vidro e bati no carro blindado ao lado. Ninguém respondia, torci o lábio e bati no volante jogando a testa sobre ele, lágrimas escorreram dos meus olhos, eles não estava no carro? Sabia de antemão que algo estava acontecendo, por que eles não esperariam?
– Acalme-se, eles podem estar dentro do carro, mas com medo. — Luiza tentava concertar o inevitável.
– Eles morreram? — Clarice gritava em choro, Léo abraçava a pequena garota. Não poderia esperar, respirei fundo olhei para frente e abri a porta do nosso carro.
– Não saia lá fora, você ficou maluco? — Vociferou Léo abrindo o vidro detrás do carro.
– Feche este vidro e fique em silêncio.
– Mas...
– Me obedeça! — Não fez outra coisa, me obedeceu. De onde vinha está minha maturidade repentina, está coragem exagerada que me consumia? Não tinha noção, a única certeza era que deveria abrir a porta do carro independente do que poderia estar me esperando.
Parei em um milésimo para reparar no que estava diante de meus olhos, corpos mutilados queimando pelos escombros do avião, muitos cadáveres e pedaços de pessoas. Sangue era o que escorria pela grama que não era molhada pelo sereno da noite e sim pelo líquido viscoso celular. Não sei quantos estavam mortos, mas eram muitos, provavelmente passageiros do avião. Não pude mais ficar olhando para frente, se posicionei e comecei a andar. Os meus passos eram cautelosos, a cada passo que dava era uma sensação diferente, conseguia enxergar tudo pelo clarão que as chamas do avião salpicava, o calor era gigantesco, meu suor agora escorria sem parar. As pedras do chão faziam barulho, merda! Preciso ser ainda mais silencioso, ou aquelas coisas sairão de onde estão para me rasgar em pedaços e comer minha carne. Estava próximo de abrir a porta do carro, quando escutei gemidos. Mas não eram gemidos dos monstros e sim de uma pessoa ferida.
Dei a volta por trás do carro e quando avistei sua parte esquerda quase cai para trás. Jhon estava caído, sua barriga estava aberta, suas tripas expostas. Sangue o tingia por todo o corpo, mas parecia estar vivo, cuspia sangue e tremia olhando com os olhos esbugalhados para mim. Estremeci, meu corpo parecia não me obedecer, o que aconteceu com ele, onde estão os outros? Parei de pensar, corri para ajudá-lo, era horrível o que aconteceu.
– Sou eu Jhon, Nicolas...
– Nic...
– Não fale! — Eu não sabia o que fazer, não consegui reagir como queria, ele estava perdendo muito sangue, estava para morrer. Me ajoelhei ao chão em estado de loucura, nunca havia visto alguém que eu conhecia morrendo. Jhon esticou a mão ao encontro do meu peito e agarrou em minha camisa e com o outro braço retirou de seu bolso a foto de sua família.
– Diga a elas que eu as amo, entregue para Joana e Isabel... — Peguei a foto olhando para ele que parou de respirar no exato momento que falara, ele estava morto. Apertei a foto em minha mão e coloquei-a no meu bolso. — Sim, tentarei entregar para sua esposa Jhon, não se preocupe. — Pensei alto. Como um homem de família possivelmente indo trabalhar acabou em um gramado destruído, dilacerado e mutilado? Sua filha não poderá velo mais, não conseguirá ver ela crescer, acabou...
Levantei e deixei seu corpo ali, era doloroso deixar o corpo de alguém conhecido para trás, mas era preciso. Não poderia levá-lo junto, observei a minha volta e estava deserto, talvez o fogo tenha afastado os monstros desgraçados. Levantei e fui até o carro, abri a porta e realmente não tinha ninguém, apenas algumas marcas de sangue que prova que ouve luta. Mas foi tudo tão rápido, não demorei para achar minhas chaves naquela hora e dar a partida no carro, foi questão de minutos. Eles não podem estar todos mortos, não podem.
– Nic, está tudo bem? — Escuto a voz de Luiza, estava tão pensativo que havia me esquecido que eles estão com medo dentro do nosso carro. Voltei correndo, deixando Jhon e o outro carro que tanto deu trabalho de conquistar.
– Onde eles estão o que aconteceu? — Luiza parecia eufórica, tinha que contar a verdade.
– Não tinha ninguém no carro, apenas Jhon.
– E onde ele está, por que não veio com você?
– Ele está morto. — Todos ficaram atônitos com o que eu revelei, mas não tinha tempo de ficar parado. O plano vai ser seguido, o problema é: como passar pelo avião que destruiu tudo a frente.
Entrei no carro olhando por todos os lados, visualizei bem o local. Havia destroços por todos os lados tapando as linhas do trem. De um lado era a rua que estava cheia de carros parados, pessoas mortas e uma grade de ferro que impossibilitaria uma fuga. Do outro lado muitos escombros... Talvez foi isso, Torres saiu do carro para tentar achar uma brecha e fugir, mas foram pegos pelos infectados, apenas isso explica tamanha desordem.
– Nicolas, está escutando isso? As chamas estão ficando mais fortes, temos que sair daqui.
– Eu sei Léo, mas tenho que pensar. — Clarice olhou pela janela e apontou para fora amedrontada.
– Irmão, tem muitos deles.
– Que porra, eles estão chegando. — Berrou Caroline, Luiza se contorcia do meu lado, meus olhos chamuscavam de medo, mas meu subconsciente queria fazer alguma coisa.
Lembrei de um fato importante, uma precação que eu mesmo tramei para mim, poderia ter usado quando fui atacado pelo homem descontrolado, mas a situação não ajudou muito. Coloquei a mão em meu bolso e havia uma bala que peguei quando ainda estava preso no vagão. Ela seria a chance que tínhamos de passar. Olhei pelo retrovisor frangindo a testa para Léo que provavelmente sacava o que eu planejava. Sempre que fazia aquela expressão estava pensando em alguma coisa, e ele era o que mais sabia disso.
– Léo me dê a arma. — Ele sorriu e me entregou.
– O que está planejando?
– Se segurem como puderem, vai ser um estouro. — Esperei os infectados se aproximarem, abri um pouco o vidro do carro, deixei engatado na marcha ré. Coloquei a bala no revólver e apontei para um tanque escrito “Combustível”. Se acertasse aquele tanque tudo iria para os ares, inclusive os malditos monstros, mas ainda havia um problema, eu era péssimo em atirar.
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