Nuvens de Sangue
7 Capítulo 7 - Pai
Notas iniciais
"Esses olhos, eles me dão calafrios. Olhar muito tempo para eles é a mesma coisa que mergulhar em um poço sem fundo, cair de um precipício e não atingir o solo."
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Minha visão estava ruim devido ao calor sufocante do avião queimando, mas sabia que se errasse iriamos todos morrer, tinha que fazer. A arma estava quente, minha mão soava fazendo uma transpiração chata desestabilizar minha mira. Todos estavam quietos, possivelmente aguardando minha ação, os infectados estavam chegando perto. Eles corriam como humanos comuns, alguns mais lerdos outros rápidos até demais, coloquei meu corpo para fora do vidro e respirei fundo.
Apontei a arma para o tanque de combustível e sem esperar mais um segundo aperto o gatilho. A arma fez uma pressão enorme para trás, enfim havia atirado. Aqueles milésimos pareciam não passar, fechei meus olhos e acelerei o carro para trás esperando o impacto da explosão. Mas não aconteceu nada, eu errei? Olhei para Luiza enquanto o carro ia em alta velocidade para trás, ela estava me olhando com uma face de desolação e o escarcéu foi enorme dentro do carro, todos estavam desesperados. Que maldição eu sabia que não conseguiria, mas queria me convencer que seria um herói para eles, mas é claro que eu não era, sou eu! Sou apenas o Nicolas de sempre, desajeitado, reservado e patético.
– Eles estão chegando perto do avião, estão todos em frente ao avião. — Gritava Clarice e foi quando parei o carro, não sabia o que fazer.
– Desculpem, gastei a última chance de conseguirmos passar por eles, — agora como vamos passar? Me fazia está pergunta quando Léo saltou para frente e apontou para o avião.
– Olhe o tiro que você deu acertou uma barra de ferro e ela caiu por cima do tanque de combustível, ele está vazando, liga a merda do carro antes que seja tarde. — Um fútil sorriso surgiu em meu lábio, liguei o carro e continuei na marcha ré, enquanto os malditos corriam a nosso encontro sedentos de sangue e vontade de matar.
Foi no instante que ultrapassei alguns metros que o primeiro impacto fora sentido. Uma enorme cintilação surgia sobre nossos olhos, o fogo subiu até os céus atingindo tudo a frente inclusive os monstros que estavam nos perseguindo. O carro tremeu mas continuei dando ré. Uma mão sobre o volante, e outro no encosto do banco, olhando para trás e me guiando.
– Todos para o chão do carro. — Me obedeceram e ficaram abaixados.
– A explosão vai atingir o carro, — gritava Luiza – desvie, rápido.
– O que é isso? — Olhei para frente e uma porta do avião de mais de dois metros voava em nossa direção, joguei o carro para o lado e ele atingiu a grade que separava os trilhos da rodovia. Por alguns centímetros não fomos atingidos, mas o carro parou.
– Está tudo bem? — Perguntava Caroline entrelaçando sua mão na mão de Léo, que por consequência corava mais que um tomate.
– Não deixe Clarice ver isso. — Minha irmã não se levantou para ver o que todos víamos.
Os infectados queimavam, se jogavam no chão e se retorciam de dor, mas o que significava aquilo? Lembro-me bem que vários tiros não foram capazes de pararem eles, e fogo sim. Então morrem com fogo e com tiro na cabeça. Ergui uma de minhas sobrancelhas e soltei um leve sorriso por aquilo acontecer. Uma chance a mais de sobrevivência, por este motivo não estavam próximos do fogo, os microrganismos da névoa estranha que dominam corpos não gostam de calor, ou simplesmente chamas. Tem uma coisa que está me intrigando a muito tempo, desde que sai de casa hoje cedo.
– Galera podem se levantar, eles estão atordoados demais para virem em nosso carro.
– Isso é verdade, eles parecem sofrer pelo fogo, mas não eram quase imortais?
– Léo, eles não gostam de calor. — E ele deu um soco no banco.
– Você é muito esperto Nic. — Luiza me olhou com esperanças.
– Você tem razão seu irmão é muito esperto. — Corei senti que fiquei com vergonha de suas palavras, mas deixando a vergonha de lado indaguei uma possibilidade que veio em minha cabeça no instante.
– Vocês percebem, desde cedo antes dos ataques, está nublado! Em todas as previsões do tempo semanal apontaram que hoje e outros dias seriam de sol escaldante, o calor continua o mesmo, mas o céu azul não.
– Você tem razão, o que será que está acontecendo lá em cima? — Caroline perguntou e eu continuei com o discurso.
– Não acham estranho eles enviarem aquelas esferas? Se são tão terríveis aponto de criarem microrganismos para destruir a raça humana, por que não descem aqui? Acho que alguma coisa no nosso planeta afeta eles, e pelo que percebi é o calor.
– Nicolas estou impressionada com sua inteligência, eu não pensaria nisso. — Murmurou Luiza e Léo conclui apertando meu ombro.
– Eles devem ser fracos contra o clima de nosso mundo, por está razão criaram essa nuvem de sangue que domina os seres humanos.
– Se o governo estiver pensando como nós, eles concluirão que o único jeito de acabar com tudo isso é atacando os céus. — Olhei para cima e a única coisa que via era um céu negro de nuvens nubladas e mais nada, — eles devem ultrapassar essas nuvens e destruir os malditos que eu tenho certeza que estão sobre nós.
– Não podemos fazer nada na terra, se matarmos mais, mais surgirão.
– Tem razão Luiza!
– O que podemos fazer então? — Clarice sussurrou em meus ouvidos abraçando meu pescoço.
– Evitar esses monstros, não respirar a fumaça vermelha e seguir com o plano de Torres, vamos temos que seguir em frente o fogo do avião cessou e acho que o caminho está livre.
Liguei o carro novamente, ele estava amassado, entretanto funcionou perfeitamente. Voltamos para os trilhos onde o carro balançava para cima e para baixo pelo terreno horrível que foi feito para engrenagens e não para pneus. Os corpos carbonizados dos infectados ainda se mexiam, mas não conseguiam levantar. Subimos com o carro no meio dos ferros e pedras moídas pela explosão agora conseguimos passar sem dificuldade e depois de instantes estávamos fora do que restava da estação Ceasa. O Caminho estava escuro, apenas iluminado pelos faróis do carro, mas conseguia dirigir em perfeita ordem.
Chagamos na outra estação e ela estava inteira, era a estação Jaguaré. Desliguei os faróis para não chamar atenção, fazendo a escuridão tomar conta de tudo. Estava realmente escuro, não haviam estrelas e muito menos lua naquela noite de terror e sofrimento. O carro passara em baixa velocidade, marcava apenas dez quilômetros por hora, o medo de bater em alguma coisa era grande, por isso a velocidade reduzida.
O silêncio reinou achei estranho, liguei a luz interna do carro apenas para observar meus irmãos e as meninas, todos ainda com muito medo. Isso era normal pela situação ser caótica, a cada segundo viver era uma exigência, um privilegio. A estação deveria estar com pessoas, por que este silêncio? Mas um susto veio a me fazer derrapar, um homem saltou sobre o carro, ele vestia um jaleco grande e branco, era negro, tinha cabelos escuros e ralos, usava luvas plásticas nas mãos, encarei ele e reparei que seus olhos não eram de um preto demoníaco como o dos infectados e sim, castanhos vivos, ele gritou em desespero.
– Me deixe entrar, eles estão vindo, de pressa. — Não tive reação, mas Caroline rapidamente abriu o lado de sua porta, Clarice sentou no colo de Léo e o homem sem esperar um segundo entrou no carro.
– Por que abriu a porta, por que? — Vociferei
– Ele estava precisando de ajuda, ou deixaria ele para morrer?
– Tudo bem vamos ficar calmos, — Luiza dava a voz, mas o homem grudou sua mão na gola de minha camisa e exigiu.
– Sem perguntas, liga os faróis desse carro e dirija, ou será tarde, estão vindo dezenas deles. — Ele tinha ferocidade em suas palavras, não resisti liguei as luzes e parti o mais rápido que pude. Quando conseguimos sair olhei pelo retrovisor dando para perceber as dezenas de pessoas que saltavam da estação correndo sobre os trilhos atrás de nosso carro.
– São muitos! — Berrou Léo
– Sim, eu consegui fugir, mas meus amigos morreram.
– Lamento muito, como se chama? — Perguntei.
– Doutor Bruno.
– Então é médico?
– Sim, sou cirurgião, clínico geral e estudei biomedicina. — Bruno abaixou a cabeça, pareceu desolado com tudo o que estava acontecendo e começou a chorar.
– Tenha calma Doutor Bruno, todos perdemos pessoas queridas. — Luiza o consolava, não pude dizer nada.
– Não é apenas por eles que agora estão mortos. Estudei mais de doze anos de minha vida em uma Universidade, tinha uma vida dupla e pesada de trabalho, e o que me restou ter um diploma de medicina? Nada. Quem tratarei em meu consultório, monstros?
– Não diga isso senhor, o seu trabalho será ainda mais digno a partir de agora, você é mais que um herói, pois todos as pessoas que estão vivas precisarão dos seus cuidados. — Clarice falou sorrindo, e ele retirou suas luvas e passou uma das mãos sobre os cabelos de Clarice.
– Obrigado pelas palavras, garotinha.
Saímos das linhas dos trens, naquela altura o rio Tiete tomava forma ao nosso lado e uma larga e grande ciclovia aparecia entre o rio e os trilhos, joguei o carro na ciclovia onde os pneus deslizavam e conseguiam locomover melhor o carro. Todos olhamos pela janela o sofrimento em forma de tragédia, muitos veículos estavam dentro do rio Tiete, corpos por todos os lados boiavam sobre as águas podres do rio poluído.
Passamos pela última estação antes de Pinheiros, a estação Cidade Universitária. Escutava os grunhidos e berros dos infectados na CPTM e deduzi que poderia ter muitas pessoas lá. Comecei imaginar o que poderia nos esperar em Pinheiros, já que milhares de seres humanos passam todos os dias naquele lugar. Minha visão parecia congelar, transitamos com tranquilidade pela estação, pois estávamos na ciclovia. Dois homens que devoravam uma mulher perceberam a presença do carro, largaram o corpo espedaçado da pobre alma e correram atrás de nós, mas inutilmente já que não parei de maneira alguma.
Não sabia a hora exata, mas a muito tempo estava escuro, poderia passar das três da madrugada, tudo que eu queria era que amanhecesse. Estávamos chegando até a estação principal de São Paulo, Pinheiros. Mas não poderíamos atravessá-la ou iriamos morrer, tínhamos que seguir o plano e chegar até a delegacia, algo me diz que Torres está lá junto com os outros. Todos em silêncio apenas me seguiam com os olhos trêmulos, Bruno arrancava de seu bolso um crucifixo e juntava as mãos em sinal de religiosidade.
– É religioso? — Caroline perguntou
– Sim!
– Então reze para o seu Deus nós tirar dessa. — O que dizer para uma menina assustada? Nada. Sai da ciclovia quando percebi a proximidade de Pinheiros, tinha que chegar na rua, mas foi quando subi a elevação da pista até os trilhos que nos deparamos com o inimaginável. Milhares de pessoas nos trilhos, sobre a estação, por todos os lados!
– Desliga os faróis e a luz interna. — Fiz o que ele mandou.
– Todos em silêncio, não falem, se abaixem e não deixem eles perceberem que estamos dentro do veículo, ou será o nosso fim, tem muitos deles, não consigo ver o fim.
Abracei Luiza e nos jogamos para baixo do banco, segurava firme a mão dela a ponto de doer. Enquanto Léo segurava Clarice pelos braços abaixados junto com Caroline no chão do carro e Bruno se esquivava dos vidros tentando deitar no banco largo da Blazer. Eles estavam passando pelo carro, eram muitos deles, ignoravam o veículo, pois só atacavam quando viam a pessoa. Era terrível ver pela janela, pessoas que tinham vidas serem controladas por estes alienígenas malditos. Os olhos negros e o faro deles pareciam estar fundidos, olhavam para todos os lados rastreando vidas para destroçar.
Reparei em uma criança pequena de no máximo dez anos entre os outros, ele estava dominado por eles. Seus olhos estavam frios e sem vida... Esses olhos, eles me dão calafrios. Olhar muito tempo para eles é a mesma coisa que mergulhar em um poço sem fundo, cair de um precipício e não atingir o solo. Agora está criança vagará pela terra dominada pela vontade de matar, o mundo tem que acabar. Parei de pensar e voltei a realidade, quando a criança sumiu de minha visão.
A tensão era grande, qualquer movimento dentro do carro poderia ser letal para nós, o número de pessoas que poderiam atacar o carro e destruir os vidros era enorme. Em meio a olhos atentos de cor opaca, sangue no rosto, e veias saltando um deles me chamou a atenção. Ele vestia uma camisa polo verde e um boné esportivo, conhecia aquela vestimenta. Sua pele era um tanto que bronzeada e ele não era alto, estava de costas, entretanto me dava a impressão de conhecer aquele homem e foi quando ele virou para a minha visão que meus olhos saltaram e quase desmaiei, soltei a minha mão da mão de Luiza e abafei um grito intenso, não, ele não...
– Pai!
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