Nuvens de Sangue
16 Capítulo 16 - Aviso
Notas iniciais

"Vozes ecoando por rádio é o mesmo que escutar anjos com suas trombetas. A esperança vem em formas de avisos"
Não tenho certeza de quantos dias passaram-se, mas sei que a cada segundo tudo piora. O frio é evidente, não sei o motivo, mas o clima mudou drasticamente. O ar está pesado e congelante, a fumaça que saem de nossas bocas denunciam o frio de nossos corpos. O céu ainda cinzento em um tom morto, e nenhum sinal de sol. Poderá ser pelo ataque extraterrestre? Efeitos colaterais de um mundo sem sua estrela celestial.
De dia um frio suportável, à noite um frio tortuoso. Não sei quando esse sofrimento terminará, mas sinto que nossas forças estão acabando. O supermercado grande proporciona um aconchego, mas a preocupação das portas cederem continua martelando nossos sentidos. Nesses dias aqui dentro o que vejo é a aproximação de todos. Inventamos um meio de nos conhecermos e todos os dias sentamos em volta de uma pequena fogueira no meio de um corredor grande do Supermercado e fazemos perguntas, contamos mais sobre nossas vidas antes de tudo.
Aquela noite sentamos juntos em volta daquelas cadeiras queimando, apenas Bruno não estava, ficará na sala da gerência do mercado tentando contato com seu rádio. Incansável ficou todo o tempo com aquela coisa em sua orelha sem desistência, sem desanimar.
Enquanto o fogo queimava nos aquecendo era notável o olhar de desconforto de Oliver que durante esses dias não trocou uma palavra comigo. Olhar para ele e imaginar aquelas mãos sobre Luiza me dava ânsia, mas tentamos não aprofundar em assuntos amorosos para tentar um convívio melhor. Todavia sentia que não podia deixar minha Luiza sozinha, ele poderia tentar algo, seu sorriso de deboche no canto de sua boca denunciava seus pensamentos impuros. Michele por outro lado ajudou muito o grupo, seus dotes culinários eram extremos, usávamos um fogão de quatro bocas na cozinha do mercado, onde pratos deliciosos ela preparava com a comida do lugar.
Treinamos, treinamos muito nesses dias. Os tiros ao alvo eram o que menos fazíamos para economizar balas. Mas o que importava não era atirar certeiramente, e sim atirar com jeito. Usamos o teto do mercado como base de treino. Com mascarás de gás, coletes e utilidades nos vimos capazes de correr e atirar, saltar com jeito, utilizar facas e facões. Aprendemos até mesmo usar rifles de calibres altos. João e Torres fora ótimos instrutores, por causa deles conseguimos o êxito em nos defender do que poderia vir a seguir.
Enquanto lembrava do que passamos, Michele abria sua expressão com aquele largo sorriso desbravador. Mulher adorável, mostrou-se ser uma ótima pessoa nesses tempos de tormenta. Era engraçada, conseguia fazer qualquer um rir com apenas algumas palavras. Tinha que agradecer eternamente por ela estar tão preocupada com minha irmã, já que uns dias para cá, Clarice veio demonstrando alguns trejeitos estranhos. Ficava sempre quieta em cantos e não sorria mais.
— Ouvimos pouco sobre cada um, apenas os gostos, mas quem se oferece para contar o que fazia antes disse começar? – Torres falara, sentado em frente ao fogo que nos mantinha aquecidos. Michele por sua vez, deu a voz.
— Bem, não tenho muito o que falar, minha vida não era tão empolgante. – Ela ajeitava-se com as mãos enfrente ao fogo, — nunca tive filhos, fui casada apenas uma vez. Depois que me separei tive problemas com minha alimentação e engordei bastante, minha família era apenas minha irmã, sobrinha e meu cachorro Saimon. Quero acreditar que eles estão vivos em algum lugar. E você Marry, trabalhei apenas dois meses com vocês dois aqui no mercado, não sei nada sobre vocês.
Minha sobrancelha deu uma leve erguida. Sabia que aquele casal era estranho, Marry demonstrou ser uma menina dócil, amável que carregava seu livro para todos os lugares, mas de uma hora para outra mudou drasticamente. Durante esses dias mantiveram afastado de todos, pareciam com medo de tudo, estavam inquietos. Mas Gabriel respondeu a mulata com uma gargalhada.
— Somos reservados demais, minha linda e eu morávamos juntos aqui perto. – Torres apontou um cigarro que fumava e vociferou.
— Conte mais o que fazia antes de trabalhar aqui. – Marry se esquivou, e seu namorado conclui.
— Eramos simples namorados tentando a vida em uma cidade grande. – Estranho o modo de sua fala, mas não tinha como apertar ninguém para revelar o que fazia antes do apocalipse. Mas o meu pé agora estava atrás, pois não queria ter um segundo Maycon conosco.
— Já a minha vida era tensa, trabalho sobre trabalho. – Indagou a pessoa menos propicia para falar no momento, Oliver.
— Eu ouvi falar do escritório de seu pai, a Mendes & Mendes. – Caroline até então quieta e debruçada no colo de Léo comentou, meu irmão que acariciava os cabelos da adolescente terminou a frase.
— Um dos maiores escritórios de São Paulo, não é?
— Sim, trabalhava quase vinte e quatro horas por dia depois que me formei, por este motivo que terminamos não é Luiza? – Encarei o mauricinho com uma vontade imensa de voar em seu colarinho, mas Luiza acariciou minha mão junto a dela e respondeu as palavras de seu ex.
— Não foi por isso, e também não pretendo reviver o passado. Nossas vidas começaram novamente depois do dia que aquele trem explodiu, tudo o que vivi anteriormente foi apagado e o que importa é o agora, me perdoe Oliver. – O rapaz de cabelos dourados deu de ombros e saiu da roda de conversa. Caroline olhou para sua tia.
— Não precisava falar dessa forma Luiza, saiba que todos estamos muito frágeis com tudo isso, não magoe ninguém. – Por um lado ela tinha razão, Luiza se sentiu culpada e levantou, não precisou falar nada para mim, pois seus olhos clamavam em vez de suas palavras, apenas dei permissão balançando a cabeça e ela seguiu conversar com o rapaz.
— Michele, você falou que tinha um cachorro? – Clarice perguntou encolhida ao meu lado, abraçada aos seus joelhos.
— Sim querida.
— Eu também tinha, seu nome era Saturno.
— Que nome diferente. – Falara João afiando uma faca, e ela enfim sorriu.
— Ele tinha uma mancha em forma de um grande anel em seu olho, parecia realmente o planeta Saturno não é Nic. – Abracei minha irmãzinha sem responder. Deu uma vontade louca de chorar, queria que tudo voltasse ao normal, mas era impossível de acontecer. Nossas esperanças pareciam sumir a cada minuto. Mas em meio aquele clima desgostoso, Bruno aparecerá gritando, fumaça saia de sua boca denunciando um clima ártico e colocava as mãos sobre os joelhos em forma de cansaço.
— Todos corram até a sala, Nic não sei como, mas tem uma pessoa falando seu nome no rádio.
— O que? – Gritei, mas, ao mesmo tempo, saltei com um impulso enorme. João jogou uma caneca de água sobre a pequena fogueira e todos corremos em disparada para a sala. Não entendi o que Bruno falou, mas não perguntei nada. Meu coração palpitou em um ritmo frenético, não imaginava quem seria e por que falaria meu nome, entretanto o frio que percorria meu corpo sumira.
— Aqui, todos em volta do aparelho, está baixo então peço silêncio. Estava tentando encontrar alguma frequência de canal de rádio para tentar encontrar notícias e olha o que encontrei. – Bruno ligou o rádio.
“Nicolas, aqui é Marcos André. Nicolas aqui é Marcos André”. – Porra era meu primo, pensei, mas não falei nada ainda. Vi que Léo arregalou os olhos e Clarice abriu um enorme sorriso. O rádio chiava e ao menos tempo ficava em uma frequência boa.
“Sinto que está vivo meu primo, sei que todos estão bem. Acredito em você, acredito que encontraram um lugar seguro, mas preste bem atenção no que vou dizer, pois não tenho tempo. Roubei esse aparelho para encontrar uma rádio que prestasse, e estou repetindo essa mensagem por horas para que pudesse escutar. Você tem que sair de São Paulo, tem que ir para o sub-solo da cidade, pois ela será varrida por uma onda de explosões. Bombas serão lançadas por aviões, o fluxo de infecção está bem onde estão. Escute-me Nicolas, precisa ir para os esgotos de São Paulo, precisa proteger seus irmãos, tem uma hora para fazer isso. Nicolas sua mãe está do meu lado.”
— Mãe! – Clarice berrou em lágrimas, chorava em desespero junto com Léo que fazia o mesmo, eu não pude chorar, prestei atenção em suas ordens.
“Estou em Itapecerica da Serra, o governo cortou todo tipo de comunicação com o mundo exterior, não tem como conseguirem chegar até aqui, mas tenho uma boa notícia. Sou um soldado credenciado do projeto Colossal Zit-001, e vou salvar vocês, mas tem que chegar até um local. Entre nos esgotos de São Paulo, vá até o rio Tiete, você consegue Nicolas, eu sei disso. Proteja seus irmãos, vá logo, assim que eu terminar de falar.”
— Meu Deus, o que é isso? – E assim que sussurro, uma voz no rádio me fez cair de joelhos ao chão.
“Filho? Está me ouvindo? Eu sinto que está me ouvindo. Está cuidando bem da Clarice? Ela não pode passar por este frio, então tente agasalhá-la, e Léo obedeça seu irmão”
— Mãe! – Nós três caímos em choro. Michele nos segurou e também chorou sentindo nosso desespero.
“Nicolas, outra coisa, as Naves deles atingiram nossa atmosfera causando grandes quedas de temperatura, cuidado, o frio está matando. Agora saia de onde está e vá para baixo das ruas antes que seja tarde. Em três horas procurarei vocês, abraço meu primo querido”. – O rádio começou a chiar e a voz de meu primo sumir, não consegui estruturar-me ao ouvir a doce voz de minha mãe. Mas em meio aos prantos, senti a mão de Torres puxar meu braço, ele gritou em meus ouvidos para que eu voltasse a lucidez.
— Vamos Nicolas, levante seus irmãos, vamos correr, não escutou o aviso?
— Vamos Nic. – Completou Caroline em desespero. Eles tinham razão, segurei firme a pequena mão da minha irmã e saltei rumo as escadarias do mercado.
São Paulo deixaria de existir, os mortos ganharam as ruas e por isso a medida brutal. Não pensaram nos sobreviventes, ignoraram a humanidade. Pensar que milhões de prédios serão destruídos, vidas pisadas sem piedade, corpos sendo submetidos a pulverização. Sinto uma repulsa e uma dor em meu peito, agora sei a revolta que Maycon sentia em seu coração. O governo é nojento até nas situações mas previsíveis, o que faremos? Corri sem pensar.
No caminho trombei em Luiza que ficou assustada sobre as escadarias sombrias. Uma coisa era certa, não daria tempo de explicar. Todos saímos no centro do mercado, pegamos mochilas vazias que estavam jogadas ao chão e sem nos comunicarmos nos movimentamos por instinto. Enchendo as mochilas com comida e água. Luiza e Oliver estavam atônitos com a situação.
— O que está acontecendo? – Não respondi. – Nicolas, olhe para mim.
— Se quiser ajudar pegue uma mochila, pegue suas coisas e vamos sair daqui. – Não percebi, mas fui grosso com ela. Luiza não disse nada torceu o lábio e saiu batendo os pés, foi direto falar com Caroline e Léo que estavam em outro corredor.
Todos nos encontramos em frente do corredor principal, cada um com uma mochila. Vestindo os coletes e segurando nossas armas e facas. Agora um ar de potência rondava todos nós, aqueles dias que passamos isolados no mercado foram essenciais para decidir nosso destino. Agora eu sabia o que estava fazendo, a arma sobre meu punho parecia ser uma coisa só. Sentia ela sobre meus dedos gelados, sentia o material fazer contato com meu subconsciente. No momento era sobreviver, teríamos que tentar atravessar um mar de mortos em decomposição.
— Pode alguém explicar por que vamos sair assim? – Oliver gritou. João pegou sua máscara de gás e apertou em seu peito.
— Vamos ter que sair, São Paulo vai ser bombardeado pelo governo, vão pulverizar os Zoens junto com quem estiver no caminho.
— Senhor, o que faremos? – Indagou Luiza em pânico, Clarice apertou minha mão, chorava e mantinha uma feição de extrema tortura. João segurou sua arma na altura dos olhos e explicou o plano para nós. O velho calvo de cabelos ralos e brancos era o que dava as ordens.
— Vamos dividir grupos. Eu, Oliver e Nicolas vamos para o andar de baixo, por onde entramos. Torres, Léo e Bruno, vão para as portas do estacionamento. E Gabriel fica com as garotas aqui, quando escutar nossa confirmação quero que todos corram na direção que escutarem.
— E como cada grupo vai saber que está com o caminho limpo? – Perguntei.
— Não tem como saber, o grupo do estacionamento sairá se estiver limpo, irão abrir caminho e buscarão nós. Se o estoque onde estaremos estiver vazio faremos o mesmo, temos que arriscar ou tudo estará perdido.
Não tivemos como questionar o que João declarou, apenas beijei a bochecha de Clarice, beijei Luiza e acenei positivamente para Léo. E os deixei para trás correndo com João e Oliver, sem saber o que poderia acontecer conosco, pois teríamos menos de uma hora antes do extermínio.
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