Nuvens de Sangue
17 Capítulo 17 - Desespero
Notas iniciais
Meu coração palpitou desesperadamente quando toquei naquela porta de metal gelada. Fazia dias que não entravamos dentro do depósito, talvez pelo frio ou por medo do lugar ser tão sombrio. Empurrei a maçaneta da porta com força, ela rangiu e devagar abriu. Me deparei com uma escada pouco luminosa de concreto maciça e empoeirada. Fui o primeiro a colocar o pé nela, seguido de João e logo atrás Oliver. Segurei minha 9 mm na altura de meu rosto, com medo e apreensivo, não sei o motivo, mas sentia que poderíamos estar sendo vigidos. Essa era a sensação que tinha a todo momento, era como um novo sentido, um sexto sentido que atormenta qualquer mente consciente. Era relativo o que passava sobre meu corpo, o frio mistura-se ao calor da pressão exalada pelo pavor, minhas pálpebras abriam e fechavam em um ritmo frenético e minhas pernas tremiam ao movimento dos meus passos. Sufocante, tenso e avassalador. Em instantes me direciono ao final da escada apontando minha arma para o breu gelado.
Olhei para o rosto de João. Sua expressão era séria como sempre, o velho sabia o que estava fazendo. Seu olhar frio, calculista, estampa sempre um ar de soberania. Sem esse velhaco de sessenta anos não conseguiríamos ter chegado até aqui. As vezes penso no que ele sente, atrás de seus olhos cansados, atrás dessas diversas rugas espalhadas pelo seu rosto. Suas mãos grandes de pele fina empunha aquela arma com mestria, mas será que sua mente é tão organizada quanto seus movimentos? Lembro que ele um dia havia comentado que sua vida era ler um jornal de papel, sentado na varanda junto com sua esposa. Os dois tomando xícaras quentes de café e jogando papo fora. Vê-lo aqui segurando uma arma, de colete e com uma mascará pronta para ser usada em seu rosto é insano. Tirar o aconchego de um velho senhor quer passará por tanta coisa na vida é sufocante, mas creio que seu objetivo é proteger todos, em memória de sua amada.
Por outro lado, Oliver segurava sua arma desajeitado, evidente que tremia como se fosse ter um colapso, pois o objeto mortal em sua mão não tinha instabilidade. Aquele cara era suspeito, não por ser um antigo namorado de Luiza, mas seus trejeitos me colocava em alerta. Ele não parece o tipo de pessoa confiável. Desse tempo para cá que estamos presos no mercado, ele não fora muito útil. Não participou dos treinamentos que Torres e João nos deram. Ficou sempre ali, com seu topete liso cor de ouro erguido sobre sua testa lisa e branca. Seus olhos fundos e cristalizados por uma mare de enigmas, sempre sobressaiu em meus devaneios. Esse homem poderia nos passar a perna como fez Maycon? – Nicolas você está ficando paranoico – pensei.
— Tomem cuidado, faz dias que não entramos aqui, o disjuntor parou de funcionar então é perigoso andar sem cautela. – João sussurrou.
— Certo. – Respondi.
— Vamos logo com isso. – Oliver vociferou se esquivando atrás de mim.
Aquele lugar era grande, existiam quatro corredores divididos por estruturas que serviam de gigantescas prateleiras. Sobre elas dezenas de caixas de produtos e paletes com muitas coisas provenientes do mercado. Estavam intactas, pensei como seria bom alguém vir aqui, pegar e distribuir essa vasta quantidade de alimentos para sobreviventes, mas logo tudo virará cinzas e nada restará. Decidimos nos dividir entre os corredores para checar tudo antes de chegarmos na porta dos fundos, onde entramos no começo. Fui pelo meio, Oliver pela direita e João no corredor do canto.
O Silêncio reinou no lugar, depois que nos separamos. Escutava apenas o barulho da minha respiração acelerada pelo frio e pelo medo. A cada passo uma sensação diferente, apontei minha arma para todos os lados sem saber o que me esperava naquela escuridão maléfica. Em meio a calada, veio em minhas lembranças o que meu primo dissera. Eles tentariam atacar as naves, e para isso teriam que destruir os Zoens na terra, mas e a abdução? Ele não comentou nada comigo, será que não sabem nada sobre, ou não acharam nenhuma pista do que pode ser? Lembro-me que o ser fica estendido com os braços para cima e se rebatendo como se estivesse tendo uma convulsão e em seguida e sugado para cima e desaparece no céu. Logo depois a trombeta é escutada e as esferas começam a cair. Se não me engano apenas a primeira vez que as esferas caíram que não seguiu essa regra, mas depois, sempre que as luzes desciam as esferas caiam. Existe uma ligação da nuvem de sangue com as abduções? Se conseguirem descobrir isso, pode ser que haja um meio de entrar nas naves sem usar um confronto direto. Subir sobre a luz e consequentemente entrar onde os Zoens são sugados, seria arriscado, mas...
— Quem está ai? – Escutei um barulho de uma caixa cair no chão. Meu coração disparou, fiquei mais gelado do que estava, senti um arrepio percorrer todo meu corpo. Acelerei meus passos até o fim do corredor, tentando olhar entre as brechas das prateleiras, mas era impossível. Sem perceber encontrei no fim do corredor Oliver e João. Não nos falamos, apenas olhamos um para o outro com aquela feição de desconfiança. Parei para olhar ao meu redor, e nada, parecia que o lugar estava limpo, porém uma coisa nos fez ter uma outra visão.
— O que? Por que o cadeado do portão está arrombado? – Em nossa frente havia um portão de correr enorme de cor vermelha, era inteiriço e para ver o outro lado tinha que puxar o portão. Quando entramos no mercado, Marry havia fechado e só ela tinha a chave, por que alguém arrombaria o portão?
— Tomem cuidado, pode ter alguém escondido aqui, ou até mesmo Zoens. – João indagou mirando sua submetralhadora para o opaco lugar.
— Mas quem arrombaria o portão? — Perguntei aflito, Oliver ficou quieto, parecia muito assustado.
— Não é melhor voltarmos e esperar o grupo de Torres? – Falou o rapaz atônito. João olhou fundo nos olhos do rapaz.
— Coloque-se em seu lugar, vamos ficar atentos. – Assim que ele termina de falar, nós três arregalamos os olhos. O barulho ensurdecedor ecoou sobre o lugar, e sabíamos o que ia acontecer em seguida.
— Vamos puxar o portão, ver se o caminho está limpo para escaparmos. – João indagou. Escutamos um barulho infernal lá fora, e possivelmente as esferas haviam caído mais uma vez. Segurei com uma mão minha arma e com a outra minha máscara de gás que ficava presa na minha cintura. João puxou o portão com dificuldade colocando todo seu peso para trás, Oliver ficou de frente a abertura. Dei um passo para trás antes do ardido grito que o rapaz dera.
— Fecha essa merda! – Berrou, não deu tempo de se mexer, Oliver pulou no portão empurrando o mesmo para trancá-lo, no mesmo instante, dezenas de mãos transbordaram para dentro do galpão. Os dois faziam uma extrema força para fechar o portão, mas os mortos estavam tentando entrar de todas as formas. Observei por um milésimo o estado daqueles dedos e braços. Uns sem pele, outros com os músculos podres para fora, congelei e voltei a consciência com o berro de João que fazia força junto com Oliver para manter a porta fechada.
— Atire nos braços. – Me posicionei em frente aos Zoens. Consegui ver o rosto de alguns, estavam em decomposição. O cheiro era horrível, eles estavam mortos faziam dias e por isso aquele estado deplorável. Atirei.
— Droga, mais estão vindo! – O que iriamos fazer? Se eles soltassem o portão não conseguiríamos matar todos.
— Continue atirando. – Tinha que tomar cuidado com eles, para não acertar Oliver nem João. Porem quando miro novamente sindo uma pressão enorme em minhas costas, cai no exato momento.
Centímetros separou a mandíbula decrepita daquele monstro da minha face. Minha arma cai longe de mim, ele estava para me matar. Sua força era terrível, de todas as formas tentei com os braços empurrar aquele homem. Seus olhos sem cor, suas veias a ponto de explodir e seus dentes podres denunciou uma infecção sólida. Não consegui escutar mais nada ao meu redor, apenas os grunhidos atormentadores que eram cuspidos daquela garganta morta que me atingiam quase me fazendo perder as forças. Não conseguia mexer meu corpo direito, ele estava sobre meu peito me pressionando no chão, meus braços serviam como um escudo, por um segundo senti que ele levou seus dentes em minha barriga, mas o colete impediu dos dentes serem gravados em meu estômago, foi quando tive a chance de empurrá-lo para longe. João apontou sua arma com uma mão e atirou, cravando uma bala na cabeça do desgraçado que caiu ao meu lado, tingindo o chão escuro de concreto com seu sangue imundo.
— Pegue a arma, corra Nic. – Gritou o velhaco, que fazia força junto com Oliver para manter a porta fechada. Minha arma havia caído longe de mim, escorreguei sobre o sangue do piso dando um mergulho de peixe para a arma, mas quando me virei haviam mais deles correndo em minha direção. Atirei mirando em suas cabeças, com precisão foram caindo um por um.
— Não sei se vou conseguir matar todos. – Murmurei olhando para João. Se ele, ou Oliver soltarem a porta estaremos mortos, como o cadeado está estourado não tem como fechar. Eu teria que matar todos que estão tentando entrar, mas o barulho dos disparos contra os mortos do portão despertou os que estavam aqui anteriormente, e não é um número pequeno. Não sei se conseguirei.
— Cuidado atrás de você Nicolas! – João tentou me avisar. Mais uma vez estava no chão, lutando contra um deles. Era uma mulher, seu couro cabeludo estava amostra, não tinha lábios e seus dentes ficavam destacados em muita saliva e sangue. Seus olhos negros fundiam-se com suas veias, a maldita era forte. Virei a cabeça enquanto meus braços serviam de refúgio contra as dentadas da infectada, visualizei mais um vindo, se não fizesse nada morreria, estaria tudo acabado.
— Oliver segure firme a porta por um tempo, tenho que fazer alguma coisa. — Escutei o ex-general falar para o rapaz inseguro.
— Não, não vou conseguir aguentar.
— Não tenho escolha, segure. — Consegui ver bem o rosto de Oliver, ele suava, pois sua testa brilhava na opacidade do lugar, parecia fazer muita força, pois rangia os dentes absurdamente. Escutei tiros e no ato a mulher caiu imóvel sobre meu peito, o segundo que corria desabou em um impacto gigante no chão duro. Me levantei, João tentou me ajudar, antes que eu conseguisse pegar minha arma, ele jogou-me entre uma prateleira, cai no chão e o velho começou a atirar como se não houvesse fim. Sua metralhadora era absurdamente potente, faziam os velhos braços do idoso irem para frente e para trás.
Não demorou para ver a cena mais aterrorizante que poderia ver na minha vida. Oliver soltara o portão, poderá ser de medo, ou por não aguentar mais. Mas ele largou e para piorar correu. Não consegui me levantar de tanto rancor que senti ao ver aquelas pernas passarem por mim, ao menos me levantou, ao menos me ajudou a pegar minha arma. O desgraçado nos deixou.
— JOÃO! – Gritei como se minhas cordas vocais fossem estourar. Mas não adiantou, o velhaco estava na frente do portão e todos os mortos que tentavam entrar pularam sobre seu corpo.
— Corra meu jovem... — Ele falou antes de cair. – Aaaaaaaaah – soltou um suspiro de dor.
Não consegui me mover por um instante. Vi eles devorarem João, que soltara sua metralhadora junto ao seu corpo no chão. Os dentes deles entrando e saindo do corpo do homem que salvou minhas vidas inúmeras vezes me fez cair em lágrimas, me joguei para trás arrastando meu corpo. Sentindo o chão gelado e as pedrinhas rasgarem minhas mãos. O sangue de João jorrou ao chão formando traços de morte, uma morte causada por um covarde. Tentei me levantar, mas antes observei a feição de dor de João, que deu uma piscadela para mim, como se ele tivesse cumprido seu papel. Seu rosto, por fim, fora devorado à dentadas famintas e descontroladas, antes de conseguir correr vi que eles arrancaram suas tripas e deliciaram-se com suas entranhas, parecia satisfazê-los de um modo surpreendente, era o melhor dos aperitivos. Um Banquete.
— Obrigado seu velho mandão. – Me levantei e corri, corri como se não houvesse ninguém ao meu redor. Alguns deles correram ao meu encontro, mas consegui subir as escadas antes deles chegarem. Abri a porta e adentrei o supermercado.
Tranquei a porta e cai no chão, abracei meus joelhos e encolhido chorei. Chorei como uma criança que perderá alguém importante. João foi a base de tudo, por causa dele estávamos aqui, preparados para enfrentar esses monstros. Mas agora ele estava morto. Morto...
— Nicolas, você está bem? Pensei que... — Gritou Luiza correndo em minha direção. Levantei, bufei um suspiro de ódio e ao menos olhei para o rosto dela, queria achar aquele desgraçado.
— Onde ele está? – Michele vinha com as crianças ao meu encontro, desviei deles e achei Oliver agachado sobre uma prateleira, tremia como um covarde que era. – Você matou ele...
— Não, eu não matei, não aguentava mais segurar.
— Mentira! – Puxei seu colarinho e o joguei no chão. Sentei sobre seu peito e não vi mais nada, apenas soquei. Soquei sua cara maldita por muitas vezes, ele tentou revidar, mas eu estava descontrolado. Seu sangue espirrou em meu rosto, mas tinha prazer em ver ele cuspindo seu sangue de frango. Minha mão ardeu, mas não parei de socar.
— Pare Nicolas. – Escutei a voz de Clarice, mas queria descontar o que ele fez. Só consegui parar quando uma chave foi concretizada em meu pescoço.
— O que está fazendo rapaz? – Era Torres.
— Ele matou João!
— Eu não matei, foram os mortos. — Torres apertou os olhos, olhei ao redor e todos estavam lá em pânico. Oliver ao chão, sua boca estourada, cuspia sangue e mantinha aquele olhar frio.
— Não posso acreditar que o velho morreu, mas não temos tempo... — Um tremor fora sentido, todos caímos ao chão, as prateleiras se desprenderam de seus lugares caindo sobre nós.
— Os ataques contras as naves começaram. — Gritou Bruno.
— Achamos um lugar seguro, do outro lado, tem uma abertura na parede causada por uma esfera, todos coloquem as mascarás temos pouco tempo para chegar até lá antes que as bombas caiam sobre São Paulo. — Vociferou o Policial.
— Onde está o Gabriel? — Perguntou Marry, e Léo respondeu no ato.
— Está lá fora nos esperando, vamos.
— Mas ele não vai, vai ficar para trás, não queremos um ordinário desses conosco. – Berrei apontando para Oliver que continuou no chão.
— Não, eu já disse que não consegui segurar. – Luiza levantou o maldito e falou olhando para mim.
— Eu sinto muito mesmo por João, foi uma perda irreparável, mas se não corremos para fora, seremos todos mortos, ele não queria que morrêssemos assim não é? Oliver não é culpado Nicolas, ele não faria isso. – Ela o ajudou levantar. Cuspindo seu sangue no chão ele deu um sineco sorriso de canto, não pude fazer nada, apenas dei de ombros e todos corremos para onde o Gabriel nos esperava.
Os tremores ficaram cada vez mais fortes. Parecia que uma batalha acontecia nos céus e coisas caiam sem parar no solo, fazendo os impactos formarem terremotos. Me doía demais deixar o corpo de João para trás, mas era necessário para salvar a vida de todos, como ele pode morrer assim? Fora inútil sua morte, apenas perdemos, não seria mais fácil termos ido por este lado desdo começo? Por que...? Era uma fuga eletrizante, não paramos por nada, deslizando sobre o piso liso do mercado viramos até o corredor do estacionamento, onde uma enorme abertura no muro fazia uma fuga perfeita. Todos colocamos as mascará de gás, pois do lado de fora fumaça vermelha era avistada.
A mascará dificultava a respiração, mas sabia que era como os nossos pulmões. Gabriel esperou com sua arma apontada para a rua. Olhei para o céu assim que sai do estacionamento, consegui ver explosões atrás das nuvens cinzas, sim estava havendo uma guerra atrás daqueles muros de algodões cinzentos. Apertei a mão de Clarice e balancei a cabeça para Léo, Gabriel abriu a boca de bueiro, levantou sua mascará junto com a de sua namorada e deu um demorado beijo em Marry que foi a primeira a mergulhar no escuro do esgoto.
E foi assim que Caroline, Clarice, Luiza, Michele, Bruno, Léo e o maldito do Oliver seguiram Marry entrando no bueiro. Torres segurou minha mão e entrou, olhei para o céu novamente antes de ir, Gabriel falou com uma voz baixa.
— Droga, Marry derrubou seu livro, vou buscar. – Não prestei muita atenção no tatuado, desci as escadas úmidas e geladas do esgoto, olhando para baixo apenas via os olhos apreensivos de todos.
— Onde está Gabriel? – Perguntou Marry quando cheguei no fundo.
— Ele foi buscar algo, mas pareceu perto, por que ainda não desceu? – Falei, e no mesmo instante Gabriel cai buraco abaixo. A queda fora de mais de três metros, ele caiu por cima de nós e estava sangrando, não me pareceu que era pela queda. Seu ombro estava mordido.
— Não amor... – Marry chorou.
— Droga, vamos fechar o bueiro antes que eles caiam também. – Torres indagou, enquanto os grunhidos dos mortos foram chegando mais perto.
Fale com o autor